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BULK SPEC1FIC GRAVITY OF COMPACTED BITUMINOUS

Dans le document mélanges bitumineux (Page 117-122)

Uma das características da formação em psicologia é a necessidade (quase imposta) de se escolher uma entre as abordagens psicológicas. Os critérios para essa escolha, muitas vezes, são confusos para o estudante, assim como as diferenças entre cada uma delas podem se mostrar obscuras. O que nos leva a adotar uma “linha” dentro das correntes da psicologia, e seguir com ela como perspectiva que nos ajuda a exercer nosso trabalho?

Qual o sentido de escolher a fenomenologia como abordagem para uma prática psicológica? Foi interessante notar que, apesar dessa pergunta não ter sido formalmente expressa em nenhuma das entrevistas, muitos entrevistados fizeram questão de relatar como foi seu processo pessoal de identificação com a fenomenologia. Pensando nisso posteriormente, encontramos coerência neste fato, pois a fenomenologia como perspectiva exige posicionamento de cada um, e acontece apenas como escolha dentro de um contexto mais amplo de vida e numa singularidade de história pessoal.

Muitos falaram que a fenomenologia já estava neles antes, que encontrar essa linha de pensamento foi um alívio e um bálsamo, que só deu nome para o que eles já viviam, que combina com o modo particular de ver a vida.

Eu vou voltar um pouquinho pra trás, por que é assim, na minha formação a fenomenologia e o existencialismo, eu já tinha isso comigo. Eu não sabia o nome, não sabia, te juro, não sabia! (E.7)

Parece interessante notar a vontade de deixar claro, por parte desses entrevistados, que a fenomenologia diz de um modo de ser que já estava antes com eles. Devemos ter cautela, porém, devido à complexidade que envolve a escolha dos caminhos e perspectivas profissionais que tomamos ao longo da vida, para não transformar isso numa regra. Há várias maneiras de ser tocado pela fenomenologia e de torná-la um caminho profissional. A

60 O recuo dos trechos de entrevistas será menor do que o recuo dos trechos de citações formais, para

fenomenologia pode dizer de um engajamento prévio, atual ou futuro. Como perspectiva de cultivar um modo, ela nunca chega a se consolidar como algo fixo e determinado, por isso precisa ser cultivada naquilo que ela deixa em aberto para que o movimento aconteça.

Novaes de Sá nos alerta sobre a peculiaridade da escolha profissional quando tange a psicologia, particularmente a clínica. Nestes casos, essa escolha diz principalmente assumir uma perspectiva, um ponto de vista a partir do qual se possa olhar o mundo.

Para o psicólogo que trabalha no vasto campo de possibilidades das intervenções clínicas, assumir uma identidade teórica não significa necessariamente se engajar em uma militância epistemológica, mas fazer uma escolha, preferencialmente refletida, de uma perspectiva a partir da qual possa se inserir na dinâmica deste diálogo histórico, ético e transdisciplinar que se tornou a psicologia contemporânea. Na clínica psicológica, ao contrário de outras áreas do saber científico, é exatamente o rigor na atenção à essência própria de seu objeto que exige a flexibilidade metodológica (SÁ, 2009, p. 69).

Na clínica, além da escolha de uma perspectiva, também há a necessidade de saber dar voz ao que vem ao nosso encontro, pois não se pode enquadrar aquilo que se mostra em qualquer intepretação com referencial externo. A flexibilidade metodológica apontada acima por Novaes de Sá concerne ao respeito ao que se mostra, em vez de tentar adequar o que acontece na clínica a um quadro teórico pré-existente. Essa é a visão da fenomenologia hermenêutica.

Abaixo, percebemos um relato da descoberta da fenomenologia em contraposição às outras abordagens. Uma das entrevistadas relembra como foi entrar em contato com as correntes psicológicas na época da faculdade:

... da orientação naquela época, do curso ser uma coisa mais psicanalítica, que eu via sim o seu valor e tal, mas... Algo me dizia sem que eu soubesse, o quão que era engessado, que aquilo não era eu, né? E pra mim era muito importante fazer, qualquer coisa que fosse fazer na vida, vender alguma coisa que eu fosse comprar. Então alguma coisa que tivesse aquele engessamento, não seria, porque... eu acho que eu... talvez eu sem saber... via já um mundo com uma visão fenomenológica, sem saber que tinha um nome pra isso e tal. Quando eu começo a estudar um pouco mais na faculdade, aproximação em cursos sobre a fenomenologia, falando sobre Heidegger, falando sobre Husserl e tal, eu começo a ver que uma coisa existia na outra, e quando eu volto, que eu me dou conta da Daseinsanalyse e me dou conta da ABD depois de uns anos, né? Então eu comecei a me aproximar da ABD em 2003. E daí comecei a dar nome aos bois do que eu já fazia sem saber que eu fazia, e eu via que eu tinha muita dificuldade, por exemplo, de como trabalhar sem uma base teórica, sem um... um... objetivo, sem um enquadramento do paciente, né? E... então, é... isso foi me levando pra estudar Daseinsanalyse, que na minha opinião é o que melhor aglutina psicologia, ou o pensar da psicologia, junto com a fenomenologia. Não é a única maneira, mas é a maneira na

qual eu me sinto mais confortável. (E.5)

As falas remetem a um percurso pessoal e singular que levaram à fenomenologia como escolha e caminho. Cabe ressaltar que, em nenhum momento essas falas podem ser lidas como subjetivas, apesar de pessoais e singulares. Elas nos contam sobre um determinado modo de relação com o mundo. Se a fenomenologia já acompanhava os entrevistados antes mesmo que pudessem saber seu nome, ela não estava ‘dentro’ deles, como característica subjetiva, mas sim, estava ‘entre’ eles e o mundo que os rodeia, estava no ‘modo’, na ‘maneira’, no ‘como’ cada um deles via e vivia seu mundo. Tal modo, como citamos acima, não pode ser fixo e pré-determinado, pois a fenomenologia aponta para o caráter performático - e não estanque - dos fenômenos se darem.

O trecho seguinte nos remonta para a liberdade ameaçadora de ‘não ter onde se agarrar’, e que essa constatação pode ser muito “natural” num percurso de quem se sabe sozinho, e, portanto, vulnerável. Assim, poderíamos pensar que a escolha pela fenomenologia pode indicar a evidência da nossa vulnerabilidade fundamental.

Eu acho que é uma coisa que a gente sempre pensa... É... Quão ameaçadora pode ser essa liberdade, da gente não ter esta base teórica, na qual a gente se agarra... A gente não tem onde se agarrar, né? E talvez isso combine muito com o jeito que a gente vê a vida, que a gente não tem onde se agarrar mesmo a não ser na gente mesmo. Acho que tem uma coisa que eu sempre penso, assim, a gente nasce sozinho e morre sozinho e vai ter que se aguentar até o último suspiro, não tem jeito, né? Eu não posso ser outro, né? Eu tenho que ser eu mesma e eu só posso ser eu mesma, então, que eu seja o mais natural possível, para comigo mesma. (E.5)

De que solidão trata a entrevistada, se o Dasein61 é fundamentalmente ser-com-os-

outros? Podemos compreender essa solidão não como isolamento, mas sim como estarmos entregues à nossa própria responsabilidade de ser.

Esse modo, que se faz presente em cada um de nós antes do encontro com a fenomenologia, não diz de um lugar garantido e seguro; muito pelo contrário, diz de uma constatação tácita da vizinhança do abismo. Novaes de Sá (2006) afirma que tentamos fugir dessa solidão fundamental a todo custo, uma vez que sua constatação nos deixaria de frente para o vazio e mais vulneráveis à angústia. Mas essa fuga traz consequências densas, como explicita o autor (142):

Junto à solidão encontraríamos toda a nossa fragilidade, indigência, finitude, nosso ser-para-a-morte. Mas muitas vezes, se não quase sempre, pagamos um preço demasiadamente alto por esse desvio. Pior, parece que a dívida sempre aumenta e temos que continuar pagando cada vez mais. Pagamos com algo que nos é essencial, nossa capacidade de ver, de corresponder à realidade em suas múltiplas e misteriosas possibilidades de sentido. Pois, para eludir a solidão temos que nos esquivar de tudo aquilo que somos num sentido mais próprio. A solidão existencial não é um estado mórbido ou patológico, nem um problema circunstancial a ser resolvido pela conquista de relacionamentos seguros. Apenas no silêncio da hora mais solitária, quando se cala o alarido impessoal dos desejos e representações correntes de “todo mundo”, é que podemos nos pôr à escuta das demandas e dos questionamentos de sentido que nos são mais próprios e singulares (SÁ, 2006, p.21).

Novaes de Sá, ao nos encaminhar para o seio da solidão existencial, nos apresenta termos-chave para a compreensão do pensamento heideggeriano, tais como angústia e ser- para-a-morte (41,34,136).

Saber de sua finitude e vulnerabilidade são constatações que facilitam o contato com a fenomenologia, e mais uma vez, nos colocam longe da afirmação de um lugar sólido. Cabe refletir, porém, sobre a diferença entre essa vulnerabilidade existencial a que acabamos de nos referir, e uma possível insegurança profissional. A primeira é fundamental a todo e qualquer Dasein, como já salientamos anteriormente (41,34), e por isso deve estar em primeiro plano nas nossas reflexões profissionais. Já a segunda pode dizer de possível falta de preparo profissional, falta de estudo e de formação por parte do terapeuta. Obviamente essa segunda deve ser evitada a todo custo. Veremos mais à frente como o ‘não saber’ que cultiva a fenomenologia não tem nada a ver com despreparo, muito pelo contrário. É interessante diferenciar, desde já, três situações 1) A ‘insegurança’: por mais que possa acontecer, não diz de um método, mas sim de um acontecimento periférico que deve ser trabalhado. 2) A ‘dúvida’: talvez seja necessária para as etapas de um processo, para que não nos recostemos em certezas pré-concebidas. 3) ‘Não resposta’: essa sim parece um aspecto fundamental do método fenomenológico, como veremos ao longo do capítulo.

Eu acho que esse é um dos pontos que às vezes pega, você não estar em lugar nenhum, mas não estar em lugar nenhum também faz parte acho que do fundamento da fenomenologia. E eu acho que... e aí assim, fazendo da minha história com a fenomenologia acho que tem uma ligação muito próxima, muito... se avizinha muito com esse aspecto. De talvez a minha relação com a fenomenologia podia ter começado antes também por um certo deslocamento de lugar, assim. Antes da psicologia, antes de um... de já dar um lugar, pra esse não lugar. Partir da fenomenologia...Se é que é

possível isso. É... então tem esse aspecto, mas ao mesmo tempo esse aspecto acho que é interessante. É difícil... aquela coisa, né? (risos) é difícil... mas é... acho que faz parte do próprio trajeto da fenomenologia... (E.3)

Dar um lugar para o não-lugar a partir da relação com a fenomenologia. Os próprios

fundamentos desse pensamento nos mostram um deslocamento dos lugares-comuns, um desencaixe e um estranhamento que muitas vezes incomodam, mas que também marcam um posicionamento antinatural e potencialmente crítico. Ser crítico em potencial não garante que a crítica chegue a se concretizar, todavia. Estamos falando em possibilidades que se abrem, e nunca em certezas e garantias.

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