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Dans le document User’s ManualPart 1 and 2 (Page 94-99)

Embora existam diferenças significativas entre a implementação de programas de controle biológico de plantas daninhas que utilizam artrópodes ou fitopatógenos e entre os que envolvem as estratégias clássica ou de bioherbicida, há diversos pontos em comum entre eles. Os pontos ou etapas a serem considerados na implementação de um programa de controle biológico clássico, segundo Schroeder (1983) e Forno (1997) são:

1. Seleção da espécie de planta daninha (planta-alvo). A primeira vista, esta

pode parecer uma questão de fácil resolução, pois um programa de controle biológico de planta daninha costuma ser desencadeado pelo reconhecimento da existência de um problema de natureza econômica ou ambiental provocado pelas infestações de determinada planta. No entanto, essa é uma questão delicada. A começar pela real identidade da planta-alvo. Para muitas das principais plantas daninhas existem problemas e controvérsias sobre a sua classificação (McNeil, 1982). Na escolha deve-se, na medida do possível, evitar alvos que tenham potencial de gerar conflitos de interesse. Muitas plantas invasoras são úteis e desejáveis fora do ambiente onde causam prejuízos ou problemas, por exemplo, por terem valor ornamental, produzirem frutos comestíveis ou serem úteis para a apicultura. Esse é um tema bastante discutido na literatura e, em pelo menos um país (Austrália), existe legislação específica criada para a resolução de tais conflitos. Há ainda outras considerações de ordem ecológica, prática e política que devem ser consideradas quando da seleção de plantas-alvo para o controle biológico. Charudattan (2005) discute amplamente a questão da escolha de plantas-alvo. No Brasil, existe pouco reconhecimento sobre os graves problemas que o país enfrenta com invasões biológicas por plantas exóticas, embora não sejam poucos. Diversos exemplos são discutidos por Ellison & Barreto (2004) e Barreto (2008).

2. Revisão da literatura sobre a planta-alvo e seus inimigos naturais.

Inclui-se usualmente uma busca em herbários contendo amostras representativas da flora do país onde a planta-alvo é nativa. A busca é por dados referentes às localidades de ocorrência das plantas. O valor estratégico desta informação, na orientação do esforço de coleta, é confirmado pelo número significativo de vezes em que se consegue reencontrar uma planta- alvo (e seus inimigos naturais) a partir da informação obtida das etiquetas de herbários.

3. Levantamento dos inimigos naturais presentes nas regiões onde o problema está ocorrendo. No passado, este era um aspecto negligenciado em

programas de controle biológico clássico. No entanto, estes levantamentos são importantes, sobretudo para que se evite o desperdício de esforço e recursos (sem mencionar o embaraço) envolvido numa possível introdução de agentes que já estavam previamente estabelecidos na área onde se pretendia implementar o projeto. A pré-suposição de que uma planta exótica sob investigação para o controle biológico tenha se tornado um problema porque nenhum dos inimigos naturais que contribuem para o seu controle no centro de origem está presente na nova área, é muitas vezes equivocada. Encontrou-se, por exemplo, sobre Cyperus rotundus, planta originária da África e Ásia e comumente reconhecida como “a pior planta invasora do mundo”, sete espécies de fungos fitopatogênicos no Brasil. Nenhuma destas havia sido anteriormente relatada sobre este hospedeiro no país. Uma dessas espécies (Ascochyta cyperiphthora) foi reconhecida e descrita como espécie nova para a ciência (Barreto & Evans, 1995b; Pomella & Barreto, 1995; Pomella & Barreto, 1997). Outro exemplo é o de Hedychium coronarium, uma planta originária do Himalaia que invade ecossistemas florestais e várzeas úmidas no sul e sudeste do Brasil. Sobre a qual foram encontradas sete espécies de fungos, algumas das quais poderiam ser consideradas, erroneamente, para introdução em programas de controle biológico clássico, caso encontradas durante levantamentos no centro de origem (Soares & Barreto, 2008). Isto revela que, na introdução de uma planta exótica, é possível que parte de seus inimigos naturais possa também acompanhá-la. Revela também que os registros disponíveis sobre a ocorrência de fitopatógenos em plantas daninhas são, em geral, incompletos. Isso é natural, pois a prioridade dos fitopatologistas é dada a investigação patógenos de plantas cultivadas em detrimento das demais. Portanto, os levantamentos prévios dos inimigos naturais existentes na região onde ocorre o problema com a planta daninha são recomendáveis. No caso de Hedychium coronarium, levantamentos por inimigos naturais foram recentemente iniciados na Índia visando a futura realização de programas de controle biológico clássico desta e de outras espécies daninhas do gênero Hedychium e o levantamento previamente feito no Brasil exclui a introdução de alguns fungos que poderiam ser erroneamente tratados como tendo potencial para o biocontrole.

4. Obtenção do financiamento para o projeto. Esta pode ser uma das

etapas mais desafiadoras para os envolvidos no desenvolvimento de programas de controle biológico de plantas daninhas. Por vezes, o pesquisador não se vê diretamente envolvido com essa preocupação, pois é procurado por parceiros potenciais que têm recursos disponíveis para a

pesquisa. No entanto, comumente, o encargo da busca por recursos também cabe aos pesquisadores envolvidos no programa. O controle biológico clássico é tipicamente conduzido e financiado pelo setor público, pois, quando bem sucedido, gera benefícios para a sociedade ou parte dela, como os agricultures, além de benefícios para o ambiente. Não há a geração de um produto comercializável e nem lucro mensurável de forma objetiva. Mesmo em países como a África do Sul, Austrália, EUA e Nova Zelândia onde há uma longa tradição nesta disciplina e existe um amplo conhecimento sobre o valor do controle biológico pelo público e pelas autoridades, a obtenção de financiamento para novos programas é difícil. Tais programas são demorados e dispendiosos e não há garantias prévias de sucesso. Isso explica, embora não justifique, a reticência dos políticos e administradores em alocar recursos para financiar estes trabalhos. Para países como o Brasil, onde não existe um conhecimento amplo sobre o valor desta estratégia ou uma tradição nesta área, o desafio para os pesquisadores envolvidos é ainda maior, pois exige- se deles um esforço para o convencimento tanto do público quanto das autoridades sobre a segurança e potenciais benefícios do controle biológico de plantas daninhas.

5. Levantamentos de agentes de controle biológico no centro de origem da planta-alvo. É necessário enfatizar a necessidade e o valor de se estabelecer vínculos

de cooperação com pesquisadores e instituições nos países onde se pretende coletar, bem como a necessidade de se cumprir as normas vigentes quanto à permissão para coleta e exportação dos organismos. O desrespeito a estes procedimentos pode prejudicar ou mesmo inviabilizar o programa e expor os pesquisadores a riscos, além de comprometer a imagem da disciplina no país onde a coleta está sendo efetuada.

6. Identificação dos organismos coletados. Muitas vezes os

organismos associados a uma planta daninha são completamente desconhecidos. Um organismo que não teve a sua identidade esclarecida não é aceitável para a utilização como agente de controle biológico. A identificação ou descrição desses taxa depende do apoio de taxonomistas ou do envolvimento direto dos cientistas nesta tarefa. A experiência mostra que muitos dos cientistas envolvidos nesses programas tem interesse, treinamento e afinidade pelo campo da taxonomia ou acabam desenvolvendo-o por necessidade. A identificação dos organismos coletados representa tanto um desafio como uma fonte de novidades taxonômicas que podem ser aproveitadas pelos pesquisadores. Como alternativa, na falta de especialista em taxonomia na equipe, busca-se o apoio de especialistas externos ao grupo. A experiência nessa área, na Universidade Federal de Viçosa, tem sido muito proveitosa e tem resultado em publicações que contribuem para a expansão do conhecimento da micobiota brasileira com a descrição de dezenas de novos taxa fúngicos (Barreto & Evans, 1994, 1995ab, 1996, 1998; Barreto et al,. 1995; Pereira & Barreto, 2000; Pereira & Barreto, 2005; Pereira & Barreto, 2006; Pereira et al., 2007; Seixas et al., 2007).

7. Esclarecimento de aspectos relevantes da biologia dos organismos. Esta

etapa inclui a elucidação dos ciclos de vida dos organismos candidatos a agentes de biocontrole.

8. Avaliação do potencial para uso como agente de controle biológico.

Várias tentativas foram feitas por entomologistas e fitopatologistas para o estabelecimento de sistemas de ranqueamento de atributos que pudessem indicar quais, dentre os diversos agentes descobertos nos levantamentos, mereceriam receber a prioridade no âmbito de um programa. Infelizmente, desde que o primeiro sistema foi proposto para insetos por Harris (1973), com subsequentes aperfeiçoamentos, o consenso, após 20 anos de pesquisa, é de que “estes foram uma contínua fonte de frustrações e desperdício de recursos... ao ponto de muitos pesquisadores considerarem que estes não são úteis, preferindo confiar na liberação dos agentes como o único teste válido para avaliação de seu potencial” (Cullen, 1992). A avaliação do potencial e a escolha da ordem de preferência dos agentes disponíveis é usualmente feita com base na combinação das observações dos níveis de severidade da doença, produzida pelo patógeno, em condições naturais; da demonstração, em condições controladas, da patogenicidade para o biótipo ou biótipos da planta envolvida no processo de invasão e do grupo taxonômico ao qual pertence o patógeno. Se o organismo pertence a um grupo com um bom retrospecto como agente eficaz e seguro quanto à especificidade em relação ao hospedeiro (tradicionalmente havendo preferência para os fungos da ordem Uredinales que causam as ferrugens), então ele assume uma posição prioritária na lista de possíveis agentes a serem utilizados.

9. Estudo da ecologia da planta daninha e seus inimigos naturais no centro de origem e na região onde estão ocorrendo as infestações.

10. Avaliação da especificidade. O controle biológico de plantas

daninhas é baseado em princípios desenvolvidos e refinados por entomologistas ao longo dos últimos 100 anos. Entre estes, a especificidade é considerada como uma das “pedras fundamentais” da disciplina. Sua avaliação equivale a uma análise de risco que visa evitar a introdução de agentes polífagos que poderiam a atacar plantas cultivadas ou nativas não- alvo do programa. O histórico da disciplina é ao mesmo tempo impecável em termos de segurança e impressionante em termos de retornos econômicos (McFadyen, 1998). Em avaliação feita por Barton (2004), de todos os fungos fitopatogênicos introduzidos em programas de controle biológico clássico de plantas daninhas, não houve qualquer relato de “efeito colateral”, ou seja, ataque pelo fungo introduzido como agente de controle biológico a alguma outra espécie que não a alvo. A ampla adoção, desde os anos 70, do protocolo proposto por Whapshere (1974), com o nome de “teste centrífugo-filogenético”, contribuiu certamente para a produção desse histórico favorável para os fitopatógenos. Esse teste envolve a exposição inicial de um pequeno grupo de plantas com grande afinidade evolutiva com a espécie-alvo. Posteriormente, numa sequência organizada, envolve espécies pertencentes a grupos taxonômicos menos afins aos da planta-alvo (variedades da mesma espécie da planta- alvo, espécies do mesmo gênero, espécies da mesma tribo, espécies de gêneros da mesma família, espécies pertencentes a famílias da mesma ordem da planta-alvo) e incluindo, finalmente, plantas-salvaguarda (espécies cultivadas relevantes para o país onde se pretende introduzir o agente, espécies de plantas relatadas como hospedeiras do agente de biocontrole ou de organismos com proximidade filogenética ao agente). A lista final de espécies

de plantas, a serem incluídas no teste, depende fortemente da família botânica à qual pertence a planta e das exigências das autoridades (comumente daquelas envolvidas em quarentena vegetal ou da área ambiental) do país onde se pretende introduzir o agente. Assim, quando a planta-alvo é de uma família botânica extensa e de grande importância agrícola (Asteraceae, Fabaceae ou Poaceae, por exemplo), a lista de plantas a ser testada será necessariamente grande. Em outras circunstâncias, quando se pretende controlar uma planta pertencente a uma família para a qual não há espécies economicamente relevantes, nem pertencentes à flora nativa, como por exemplo, melastomatáceas no Havaí ou comelináceas na Nova Zelândia, a lista de plantas a ser incluída no teste pode ser reduzida. Os testes são conduzidos com a inoculação das plantas-teste com propágulos de um isolado selecionado e para o qual a virulência tenha sido demonstrada. A avaliação pode ser feita pelo simples registro de reprodução ou não da doença. Há, no entanto, refinamentos como o descrito por Evans (2000) em que se utilizam técnicas histológicas que permitem rastrear, categorizar e descrever o progresso da interação fungo- planta após a deposição do inóculo. De forma geral, os agentes que se mostram inespecíficos são rejeitados, enquanto que outros que se mostrem específicos são considerados para fins de introdução. Barton (2004) conclui de sua ampla investigação sobre o assunto que “os resultados dos testes de especificidade têm frequentemente se mostrado conservadores, havendo vários exemplos de patógenos que atacaram plantas que não eram o alvo durante os testes, mas que nunca infectaram estas espécies no campo após a sua liberação” e ainda que “a análise de risco baseada em testes de especificidade rigorosos, combinada com uma boa compreensão da taxonomia, biologia e ecologia de um agente ... pode garantir que a introdução de um patógeno seja um método seguro e ambientalmente benigno para o controle de plantas invasoras”.

11. Obtenção de aprovação para importação do agente de biocontrole e sua introdução. Ao fim dos estudos, apresenta-se à autoridade responsável um

relatório completo. Depois de sua apreciação e decisão final, a autorização para importação e liberação do agente pode ser concedida ou negada.

12. Importação dos agentes.

13. Multiplicação em quarentena. Em diversos países existem laboratórios

credenciados e devidamente equipados para onde são encaminhados os agentes obtidos no centro de origem da planta-alvo. No Brasil, um dos responsáveis é o Laboratório de Quarentena “Costa Lima”, da Embrapa Meio Ambiente. Depois que a autoridade responsável se manifesta favoravelmente pela introdução e o agente é importado, comumente este é acompanhado e multiplicado em condições controladas em quarentena para um estudo final e exclusão de materiais eventualmente anormais. Isolados de fitopatógenos com baixa virulência, contaminados, atacados por hiperparasitos ou que apresentem outros problemas são descartados nesta etapa. Os isolados em boas condições são multiplicados para que se obtenha material que será levado ao campo.

14. Liberação. A estratégia para a liberação varia bastante, de acordo com a

natureza do patógeno (se parasita necrotrófico ou biotrófico, por exemplo) e com a abrangência e facilidade de acesso às áreas infestadas.

15. Avaliação de impactos pós-liberação. A disciplina é bastante carente

de exemplos de estudos detalhados do efeito obtido após a liberação dos agentes, principalmente devido à relutância dos agentes financiadores de custear as despesas envolvidas. Dependendo das circunstâncias, pode passar um período longo até que o estabelecimento de um agente seja confirmado e mais tempo ainda até que um impacto significativo seja verificado – tipicamente de dez a doze anos, de acordo com Lawton (1984). De todo modo, a omissão desta etapa faz com que os resultados obtidos de muitas introduções de artrópodes ou fungos sejam limitados a opiniões avulsas sobre o sucesso ou fracasso e, portanto, com pouco valor. “Pode-se argumentar que houve sucesso no controle biológico apenas quando uma avaliação apropriada tiver demonstrado que os agentes provocaram o decréscimo da densidade populacional da planta daninha... ou inibiram a distribuição da planta...” (Hoffmann, 1990). Conforme discutido por Farrell & Lonsdale (1997), há uma série de razões pelas quais deve-se medir o impacto resultante da liberação de um agente de biocontrole: para determinar, de forma conclusiva, se a introdução resultou em sucesso ou fracasso e assim prestar contas às agências financiadoras e gerar evidências em favor de novas iniciativas na área; para decidir sobre futuras direções a se tomar no programa de controle biológico; para o desenvolvimento de estratégias de controle integradas; e, para contribuir para o avanço na teoria e na prática do controle biológico mediante reconhecimento de fracassos e sucessos e do entendimento de suas causas. Diversos procedimentos para avaliação são ainda discutidos por estes autores. Um dos mencionados é a preparação de fotografias nas áreas infestadas tomadas antes da liberação do agente e em intervalos regulares (especialmente na mesma época do ano) depois da sua introdução. Este procedimento, embora válido e bastante ilustrativo, deve ser combinado com avaliações detalhadas de área de ocorrência da planta, densidade populacional e biomassa, fertilidade, evolução de banco de sementes e outros aspectos quantificáveis relativos à população da planta nas áreas infestadas.

Etapas no Desenvolvimento de Bioherbicidas para

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