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Acreditamos que as indagações a seguir e durante todo o trabalho podem nos remeter ao esclarecimento do que é o jornalismo ambiental consumido pela maioria da população

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As imagens são consideradas janelas para o mundo, mas também podem ter a função contrária, a de anti- janelas, como um véu que separa a realidade de nossos olhos, através do fascínio que produzem em nós. Ou seja, podemos consumir imagens não apenas porque nos encaminham para o real, mas porque realizam processos comunicativos que giram em torno de si mesmas, que podem nos afastar do real. Sobre um dos primeiros estímulos para a produção de imagens, a morte, Norval Baitello Junior reflete nos processos que tornaram as imagens janelas para si mesmas:

Para fugir desse destino (a recordação da morte), as imagens passaram a se superficializar de tal forma que recordem tão somente outras imagens. Igualmente o procedimento da animação acelerada almeja a mesma fuga, por um lado pela animação, imagem do movimento, por outro pela aceleração, impeditivo da introspecção. Assim, ao consumir imagens, já não as consumimos por sua ´função janela` (Kamper), mas pela sua ´função biombo` (Flusser). Ao invés de remeter ao mundo e às coisas, elas passam a bloquear seu acesso, remetendo apenas ao repertório ou repositório das próprias imagens. (BAITELLO Jr., Norval: A era da Iconofagia: ensaios de comunicação e cultura. Hacker: 2005, 54)

brasileira. E, se isto não for alcançado, ao menos levantaremos questões pertinentes sobre o tema, muito abordado pela mídia, mas pouco analisado como em um trabalho acadêmico. Por isto, o fim deste capítulo traz muitas questões, as quais esperamos ter respostas ao longo da dissertação.

Esperamos descobrir quais os processos comunicacionais que fizeram de um programa de televisão popular e bem aceito pela audiência brasileira como GR nos direcionar mais a uma preservação da natureza através dos olhos do que a natureza que propõe retratar. Entender se suas origens ufanistas e desenvolvimentistas, provindas da época de Amaral Neto, são influências no discurso que hoje fala da natureza como dádiva de Deus. Afinal, a adoção de pautas atuais, que apóiam a intervenção humana e científica no meio natural, parece ser estimulada por uma herança intervencionista, característica editorial do GR.

Por outro lado, a independência editorial e a renovação estética promovida pelos cineastas que dirigiram o GR nos anos 60 e 70 tem influências sobre os programas de hoje. Como já foi visto, o que foi uma “revolução” na pauta do GR se tornou sua maior amarra, ao ponto de o programa não conseguir se desapegar dos formatos que o popularizaram.

O roteiro ambiguamente real e fantasioso com suas imagens fascinantes são formatos comunicativos que nos apresentam um tipo de Brasil e de natureza. Serão textos e imagens que fecham em si mesmos, recriando uma natureza televisiva e espetacularizada, desligada do real? Quais as imagens de natureza que produz Globo Repórter e para onde aquelas nos remetem?

Acreditamos que o consumo das imagens de natureza do GR não nos aproximará do meio ambiente. Não cumprirá a função janela das imagens, mas sim nos desapegará ainda mais do plano natural. Afinal, se temos o passado, o presente e o futuro do meio ambiente pelas das representações da TV, temos tudo o que precisamos. Ao menos culturalmente, já temos todas as representações do natural que precisamos para sobreviver.

Se há um descolamento da natureza por meio das imagens exacerbadas desta, se abrimos mão do contato físico e material com o plano natural, será suficiente preservarmos as imagens da natureza? A possibilidade de recriar a Terra, animais e vegetais através de símbolos e imagens televisivas superará o temor pela sua finitude física e vital? E até que ponto isso é positivo para o meio ambiente, para o telespectador que busca uma reconexão com a natureza, para um programa que se publicita como janela para o mundo?

É necessário ligar o plano material da natureza com suas imagens para dar sentido aos símbolos que vemos na TV. O repórter Francisco José se sai muito bem ao relacionar a re- produção do animal pré-histórico à preservação dos animais hoje, quando diz que

Dez mil anos se passaram e do nosso mastodonte, só restaram os ossos. Mas os peixes ainda estão vivos e dependem da pesquisa e do cuidado de todos nós.

Dessa forma, o repórter dá sentido à reconstituição do animal. Faz com que a simples curiosidade do telespectador se transforme em um canal de comunicação para que mensagens de conscientização sejam mais bem assimiladas. Este seria o indício de um bom caminho para o jornalismo ambiental: usar o apego que temos à vida, à beleza e à curiosidade e transformá- los em chance de troca informacional de qualidade entre produtos televisivos e o telespectador.

Partimos, então, de uma indagação muito simples: se é verdade que os programas jornalísticos de temáticas ambientais transformam o hábito inerte de ver TV em um tempo útil, em que exista o deleite de consumir imagens e conteúdos pertinentes às nossas vidas. Escolhemos o Globo Repórter para descobrir se o programa é o lugar em que todos nós, telespectadores e antes de tudo, cidadãos, nos unimos culturalmente em torno de questões que nos mostrem como estamos vinculados; relacionados enquanto brasileiros, seres humanos e seres vivos;

que temos um meio ambiente em comum e que deve ser preservado.

Dedicaremo-nos em descobrir se o GR produz textos e imagens sobre a natureza de forma competente e consciente. Se o programa cria o prazer em ver e em entender as coisas do mundo, ao mesmo tempo que religa a sociedade em torno de um tema efetivamente pertinente: a preservação da natureza, tanto nos ecossistemas como nas mentes dos telespectadores.27

A produção e transmissão de símbolos culturais carregam essa função: a de acumular todos os tempos e espaços dentro de si.28 Isso possibilita ao homem navegar entre sua história, atuar no presente e almejar o futuro, podendo vislumbrar o que deseja para si e para a Terra. Recriar o passado no presente é rever os acertos, erros e dúvidas que acompanharam nosso desenvolvimento enquanto seres sociais e que até hoje nos constituem. Resta-nos aproveitar tal habilidade e utilizá-la a nosso favor e ao das novas gerações, que terão como presente o que vislumbrarmos agora do meio ambiente que vivemos.29 Buscamos nesse trabalho, portanto, como deve se realizar de forma ética e eficiente a produção de um jornalismo ambiental audiovisual. E o GR, com seus acertos e erros, fórmulas técnicas e culturais, será

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Sistemas comunicativos têm sempre a função ordenadora dentro das sociedades: os símbolos regulamentam

relações, convencionam significados e valores e portanto estabelecem ordem, tecem relações (ordinare, no latim significa, entre outras coisas, colocar os fios de um tecido em seqüência) (...) Assim, a cultura, enquanto sistema comunicativo tem como principal função a de ordenar as informações de uma sociedade.E ordenar implica criar ritmos para essas informações, ritmizar em concordância com as ritmicidades observadas na própria vida.

(BAITELLO Jr., Norval: O animal que parou os relógios: ensaios sobre comunicação, cultura e mídia - 1999: 95, 96)

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Esta é a cultura; um conjunto de artifícios simbólicos, melhor ainda, um sistema simbólico que abriga o

homem e sua complexa natureza, após seu nascimento, a um tempo moldado e moldador de uma rede interativa de grupos sociais em escala diversa, desde a familiar até a escala planetária. Este sistema simbólico – como todos os sistemas de símbolos – está sujeito às transformações solicitadas pelas necessidades de seu criador e usuário. A uma de suas amarras, esteios, princípios ordenadores damos o nome de tempo. (BAITELLO Jr.,

Norval: O animal que parou os relógios: ensaios sobre comunicação, cultura e mídia - 1999: 94) 29

É na segunda realidade do homem (Bystrina), ou seja, na realidade criada pelo seu imaginário e pela sua

capacidade de criar símbolos, que os vetores temporais emergentes atuam. São eles, conforme vimos acima: a) criar, transmitir e manter o presente no passado e no futuro; b) criar, transmitir e manter o futuro no presente e no passado. A primeira transgressão ocorre quando se projetam textos, fatos e símbolos presentes tanto no futuro quanto no passado. O que se vive e percebe agora altera semioticamente a história passada e as expectativas futuras. A segunda transgressão consiste na projeção das aspirações e anseios futuros sobre o presente e sobre o passado. (BAITELLO Jr., Norval: O animal que parou os relógios: ensaios sobre comunicação, cultura e mídia - 1999: 99)

palco para descobrirmos como imagens da natureza podem iniciar uma preservação natural dentro de nossas mentes. Ou como tais imagens, ao falarem de si mesmas, perdem sua função janela para o mundo e tornam-se um biombo, que nos impede de alcançar a natureza a que tanto almejamos.