É interessante como em estudos de Ivan Pavlov, mais especificamente nos de orienting
response, realizados em animais, percebe-se que estímulos visuais ou auditivos acionam
instintos predatórios que aumentam nossa atenção. Põem o cérebro em alerta e sedam o corpo. Segundo Robert Kubey and Mihaly Csikszentmihalyi:
(…) the orienting response is our instinctive visual or auditory reaction to any sudden or novel stimulus. It is part of our evolutionary heritage, a built-in sensitivity to movement and potential predatory threats. Typical orienting reactions include dilation of the blood vessels to the brain, slowing of the heart, and constriction of blood vessels to major muscle groups. Alpha waves are blocked for a few seconds before returning to their baseline level, which is determined by the general level of mental arousal. The brain focuses its attention on gathering more information while the rest of the body quiets. (KUBEY, Robert and
CSIKSZENTMIHALYI, Mihaly: Television Addiction is no Mere Metaphor. In http://professores.cisc.org.br/)
Não é à toa que o texto de Kubey e Csikszentmihalyi fala da adicção provocada pela TV. Ao constatar esses fenômenos, percebemos que a produção de imagens que se utiliza da temática
ambiental trabalha com mesmos efeitos, já que truques de edição podem disparar respostas involuntárias de detecção de movimento, como nos animais. Os cortes, as fusões e as trilhas televisivas, aliadas ao ambiente retratado, recriam o lugar primeiro do homem: a selva, a savana, a natureza. O homem arregala os olhos e volta às origens. Volta às origens pelos olhos.80
Percebemos que, ao buscarmos imagens sobre natureza na televisão, tentamos (re)viver o ambiente que nos fez homens.
E dominar o meio natural hoje é mais fácil e seguro que na época de nossos antepassados aventureiros. Sem cheiro, sem calor, sem picadas de mosquitos, enfim, sem imprevistos, é mais prazeroso simular a interação com o meio ambiente pelos olhos e dos ouvidos. As imagens desses lugares são intermediadas por máquinas, lentes e microfones que, ao mesmo tempo em que as potencializam, artificializam-nas, trazem-nos lugares inóspitos e nos saciam, afastando-nos da realidade que buscamos ao consumir imagens. Os requisitos básicos para se perceber o ambiente, todos os cinco sentidos são deixados de lado para sermos capturados pelos olhos, numa simulação do maravilhamento que a natureza podia causar presencialmente nos homens. O interessante é que tal raciocínio visual recai sobre a própria experiência, como quando pagamos por pacotes turísticos que se utilizam mais das técnicas de deslumbramento visual da mídia do que a velha interação do homem com o meio. Turistas reféns de passeios
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In 1986 Byron Reeves of Stanford University, Esther Thorson of the University of Missouri and their colleagues began to study whether the simple formal features of television--cuts, edits, zooms, pans, sudden noises--activate the orienting response, thereby keeping attention on the screen. By watching how brain waves were affected by formal features, the researchers concluded that these stylistic tricks can indeed trigger involuntary responses and "derive their attentional value through the evolutionary significance of detecting movement.... It is the form, not the content, of television that is unique. (KUBEY, Robert and
em ônibus a toque de caixa que o digam, seus sentidos são suprimidos e continuam a sê-lo em detrimento do direcionamento dos seus olhos.81
Como então não se apegar ao simulacro de aventura que o GR produz ao convidar-nos para um passeio de balão? De que forma não nos entregarmos a imagens que não terão peso semelhante à nossa vida, mas o simples prazer de consumi-las? Seremos passageiros visuais, não presenciais, de incursão à Serra da Bodoquena, com uma viagem para longe do pesado mundo real garantida pela televisão, uma empresa que não arrisca seu capital em pautas que não retornarão sem belas imagens e histórias. A lógica do mercado do entretenimento jornalístico não aprecia mortes, acidentes ou incertezas da vida, mas sorrisos ao final do programa.
Sem risco algum, embarcamos no off do repórter que narra a saga do desbravador. O rio não é virgem, a mata não é inexplorada, a sucuri mal consegue nadar, quanto mais atacar a equipe televisiva. Mas aceitamos toda a bravata do incerto e obscuro mundo natural. Afinal, vemos esse trecho do GR para apenas nos entreternos, sem obrigatoriedade de estarmos sendo informados objetivamente. Aceitamos o programa como apenas um objeto prazeroso. O jornalismo se mistura com o entretenimento e nesse ponto o telespectador se entrega ao deleite de consumir visualmente uma natureza que sabe que existe, mas que não interage, vincula-se e se comunica há muito tempo sem a ajuda da TV.
O mais alarmante é que a parte de nossos corpos que deveria ser estimulada pelos programas como o GR, o cérebro, também fica serenamente quieto diante de tamanho maravilhamento pelos olhos. Por outro lado, somos capturados a ver TV pelos estímulos de nossos cinco sentidos. O simulacro de natureza é uma vinculação malfeita entre nós e a natureza que
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Na imagem, há séculos, a superfície pequena e abrangível triunfa sobre o grande espaço ilimitado. Isto está acoplado a uma ilusão: que o espaço exibido sobre a superfície inaugura, enquanto miniatura do espaço real, inaugura para quem o exibe, uma posição de domínio sobre as coisas. A ilusão consiste em que o domínio fracassa porque todos os espaços acabam se tornando virtuais. (KAMPER, Dietmar: Estrutura Temporal das Imagens. In Revista Ghrebh – Revista de Semiótica, Cultura e Mídia. E www.cisc.org.br/biblioteca. 2002:3)
desejamos. O abandono de nossos sentidos pela demanda televisiva é um preço alto a pagar enquanto audiência, já que gastamos tempo precioso no qual poderíamos buscar verdadeiras experiências naturais, em detrimento de uma substituição cultural do meio natural. Harry Pross chama de hedonismo o processo dos canais comerciais de TV para com o público.82 De fato, a TV cobra atenção do telespectador, que poderia estar diante de outra situação comunicativa, mais real, presencial e equilibrada. Em vez disso, a emissão televisiva, antes de qualquer análise de conteúdo, pede apenas o consumo de sua produção audiovisual, ao mesmo tempo que seda os outros sentidos do corpo. O conteúdo discursivo entra para tapar esse buraco comunicativo, através de modelos atrativos de informação que estimulam a audiência. Não sabemos se tais informações farão com que o público seja atingido pelo noticiário e mude sua maneira de pensar, ou se haverá comunicação efetiva com o receptor. O simples sentar diante da TV já garantiu público aos anunciantes, necessários para a verba de produção da próxima semana.
A transição da vivência do mundo através do corpo para a pré-experimentação das coisas pela razão pode ser considerada um tipo de sedação do homem. É necessário apresentar a reflexão esclarecida de Baitello (2005). Segundo o autor, os instrumentos que tornaram isso possível foram as imagens. Ao refletirmos como os meios televisivos aumentam nosso consumo por imagens do mundo natural e por vezes substituem este em nossas vidas, percebemos como diversos fatores da comunicação eletrônica contemporânea contribuem para o nosso afastamento da natureza, mesmo se vemos centenas de imagens dela pela TV:
Aliadas às imagens produzidas pelas mídias terciária e suas máquinas de imagens (Cf. Kamper 1999b), aliadas à anulação do espaço introduzida pela mídias elétrica e seu tempo
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La presencia mediática es un poder porque se cobra el trabajo perceptivo de los lectores, oyentes y telespectadores. Pero eso no significa que las esperanzas y deseos frustrados se transformen automáticamente em motivaciones políticas. (...) ¿ Qué estadística lleva a qué consecuencias? (PROSS, Harry, e ROMANO,
veloz que não dá tempo para a decifração, aliadas à perda do presente e da presença gerada pela exagerada aceleração, aliadas à conseqüente perda da corporeidade ( e possivelmente, em alguma medida, também da propriocepção), trazida pela perda das referências espaciais, a cadeira e suas variações poderão constituir o golpe de misericórdia dado na agilidade e na mobilidade do homem e seu pensamento. Um pensamento sentado significa um agir acomodado, conformado e amansado, incapaz sequer de decifrar o mundo ao seu redor e menos capaz ainda de atuar de modo transformador. (BAITELLO Jr., Norval: A era da Iconofagia: ensaios de comunicação e cultura. Hacker. 2005: 36)
Mantemo-nos, portanto, assistindo a programas que clamam nossa atenção e que possuem a intenção de mudar o estado das coisas, ao mesmo tempo em que contribuem para que fiquemos estáticos e sigamos ligados aos fatos do mundo apenas pelos olhos e ouvidos. Evidentemente contraditório, o nosso posicionamento engajado-sedado tem base na construção do discurso televisivo, principalmente em programas que misturam formatos jornalísticos aos ficcionais, como o Globo Repórter.
Há um processo de aquisição de audiência através da produção de tensão no texto cultural e televisivo.83 Jornalismo com pitadas de enredo novelesco nos transformam em espectadores
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O entretenimento através do jornalismo exploratório e paradisíaco do GR carrega uma tensão permeada no texto do repórter, na montagem do roteiro e na edição das imagens. Assim como em uma partida de futebol, um fato real teletransmitido pela TV, posicionamo-nos como torcedores da natureza, facilitando a complexa ligação que haveria entre o público e o meio natural. Conseguiremos salvar o meio ambiente? é a pergunta no ar depois de ver um telejornalismo novelesco com poucos dados e muitos símbolos emocionais de apego. Harry Pross comenta a novelização da vida ligada aos meios de comunicação quando estes consideram suas pautas com vista nos índices de audiência e nos anunciantes. A necessária fidelização do público se faz através da despolitização do conteúdo informacional e de uma moral de competição esportiva nas pautas do noticiário, bem como em toda a vida:
Es muy significativo que em todas las partes del mundo donde establecen formas de economía intensiva com seus enormes tensiones competitivas, éstas se trasladan también a las horas de ocio (sencillamente porque el ser humano ya no puede vivir sin tensiones. Espiritualmente, por así decirlo, este estado de cosas ha conducido a la poderosa industria de la tensión, cuyo precursos pacífico fue la novela policíaca, y que se sigue extendiendo como cine, radio y televisión, mientras que en el aspecto físico ha tomado aquí su salida la industria del deporte moderno. Nacido así de la economía, este ´espíritu deportivo` que penetra todas las esferas de la vida, (...) ha ocupado todas las posiciones de los medios. Amarra la mayoría qeu puerde su bienestar a la gota ideológica del capitalismo intensivo. (...) Este pone en movimiento el marketing, presentando ofertas de identificación junto
de roteiros com recursos ficcionais, como bandidos, mocinhos, maldades e esperança de um final feliz. Formatos como esse, notados em GR quando o programa apresenta onças como “as últimas” e rios como “os nunca d´antes navegados”, desinformam ao direcionar nossa atenção mais para finais felizes das personagens ambientais do que para o contexto em que as espécies e o meio natural estão inseridos. Não nos mantemos ligados em programas de imagens ambientais porque nos informam apenas, mas principalmente porque nos conquistaram emocionalmente. Tendo como pano de fundo a finitude dos recursos naturais e de nossa qualidade de vida na Terra, ressalta-se um enredo ficcional que simplifica e polariza a discussão ambiental, ao qual um a cada dois lares podem se apegar com facilidade84. A esteriotipia da natureza produzida na TV tem a função de criar pólos de tensão bem-definidos e que mantém o consumo de imagens ambientais.