VI.2. M ESURES REDUCTION
3. Bilan post-travaux
As enunciações e os discursos, resultados do ato de fala materializados em textos, permitem entender a interação entre os elementos textuais e o contexto. Os discursos, fruto da interação verbal, constituem os PPPs, que apresentam sentidos
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Essa é uma das reflexões de Augusto Ponzio, que trabalha com esse parâmetro, de que a identidade é uma armadilha da qual precisamos escapar, que nós precisamos nos movimentar em direção às relações com o outro, que humanizam.
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da escola por meio dos ditos e não ditos. Tanto os Projetos, enquanto discurso, quanto a escola estão no contexto do território camponês; logo, os atos de fala relacionados à educação nesses documentos refletem e refratam o espaço social, produtivo e de disputa – o território camponês.
Fernandes (2012) destaca os territórios como organizações unitárias que se estabelecem pelas relações sociais ali existentes, desse modo, há um confronto permanente entre os diferentes territórios e as inúmeras possibilidades de compreendê-los: “O território camponês é o espaço de vida do camponês. É o lugar ou os lugares onde uma enorme diversidade de culturas camponesas constrói sua existência.” (FERNANDES, 2012, p.746).
Ao compreender o território como “espaço de vida” e como lugar de “diversidades camponesas”, na constituição da existência, a esfera da educação é do mesmo modo um lugar de diversidade de culturas. Uma das culturas do campo é referente ao uso do território e isso está relacionado com a produção e os processos de luta pelo direito ao pedaço de chão – Reforma Agrária (FERNANDES, 2006). Ao estudar esses dois pontos, compreenderemos as disputas do território camponês que refletem e refratam na esfera da educação. Para tanto, organizamos o Quadro 05, com alguns enunciados dos PPPs relacionando território camponês com as palavras “produção” e “Reforma Agrária”.
Quadro 05: Relações entre produção e Reforma Agrária com a esfera educacional.
PPP A PPP B
Reforma agrária; Medidas de superfície e medidas agrárias; Pequena produção: horta, criação de animais, hortifrutigrangeiros e grande produtor (monocultura pecuária). (p.93).
No caso das práticas educacionais que acontecem no meio rural, esta relação não pode hoje desconsiderar a questão da luta pela reforma agrária e os desafios que coloca para a implementação de novas relações de produção no campo e na cidade. (p.08).
Produção de alimentos (fornecimento de energia), culturas de plantas (olericultura, monoculturas e agricultura sustentável), considerações sobre aspectos sócio- econômicoculturais-tecnológicos; (p.40). [...] os modos e meios de produção nas relações de trabalho e na produção de bens de consumo (quem ganha, quem perde, quem produz, quem vende, quem compra);
Nem todo o conhecimento tecnológico acumulado pelo homem, principalmente durante o século XX, fez melhorar a qualidade de vida daqueles que dependem do trabalho na terra para sobreviver. Pelo contrário, o avanço tecnológico colocado exclusivamente a serviço da classe dominante, além de excluir os trabalhadores da agricultura ou fazer com que eles a abandonassem, cada vez mais também
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Uso de substâncias na produção e conservação de alimentos (fertilizantes e aditivos alimentares); (p. 105).
A produção agrícola nos EUA; (p.154).
coloca uma série de dificuldades para desenvolver a pequena produção e organizar a vida no meio rural. Os que retornam para o campo encontram uma série de desafios que a produção individual não consegue superar. A organização da produção em cooperativas é a alternativa para que as deficiências individuais sejam resolvidas e o conhecimento de cada um seja colocado a serviço da coletividade. (p.09).
Fontes: Projetos Políticos Pedagógicos A e B (adaptado).
De modo geral, nos enunciados presentes no PPP A, as palavras “produção”, “Reforma” e “agrária” estão associadas aos conteúdos, nas disciplinas de Ciências e Geografia, em diferentes anos (sexto, oitavo e nono ano). Essas questões, portanto, aparecem como conteúdo a serem discutidos dentro de duas disciplinas, o que pode não permitir compreensão da totalidade e da relação entre eles e a conjuntura que constitui o cotidiano dos estudantes no contexto do próprio território camponês. Também compreendo que não há relação entre esses conteúdos no próprio documento, eles aparecem pontualmente, como tópicos – não há interlocução com o contexto. Para Ponzio (2017), “a intertextualidade é um aspecto da dialogicidade do texto, que considera a inter-relação dialógica do texto com outros textos.” (p.176).
Cotejando os dois primeiros enunciados do quadro, no PPP A, lemos que: Produção de alimentos (fornecimento de energia), culturas de plantas (olericultura, monoculturas e agricultura sustentável), considerações sobre aspectos sócio- econômico-culturais-tecnológicos (p.09); como ponto de conteúdo a ser trabalhado; Já no PPP B lemos que: Nem todo o conhecimento tecnológico acumulado pelo homem, principalmente durante o século XX, fez melhorar a qualidade de vida daqueles que dependem do trabalho na terra para sobreviver. Pelo contrário, o avanço tecnológico colocado exclusivamente a serviço da classe dominante, além de excluir os trabalhadores da agricultura ou fazer com que eles a abandonassem, cada vez mais também coloca uma série de dificuldades para desenvolver a pequena produção e organizar a vida no meio rural. Os que retornam para o campo encontram uma série de desafios que a produção individual não consegue superar. A organização da produção em cooperativas é a alternativa para que as deficiências individuais sejam resolvidas e o conhecimento de cada um seja colocado a serviço
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da coletividade. (p.09). Esse enunciado faz parte de um dos princípios filosóficos do documento - Educação para o trabalho e para a cooperação, o que expressa que a questão da reforma agrária já está contextualizada e embasada em discussões de outros conteúdos.
No PPP A, os tópicos permitem compreender o que as disciplinas podem trabalhar, mas são dados de modo pontual, acabado; já quando compreendemos o PPP B, a palavra produção é relacionada por um conjunto de outros signos, como por exemplo, “tecnologia”, “organização produtiva”, “agricultura”. Quando a intertextualidade se materializa no texto, os sentidos do discurso também se ampliam e permitem um alargamento dos sentidos que estão sendo expostos.
Em relação à produção ainda, relacionando com a chamada educação rural e EdoC, as lógicas existentes estão relacionados respectivamente com o agronegócio versus a agricultura familiar, com a produção da monocultura versus o da policultura, com o uso demasiado de agrotóxicos e fertilizantes versus o uso de adubos orgânicos e controle biológico (CALDART, 2015). Partindo desses pressupostos:
[...] a Educação do Campo está contida nos princípios do paradigma da questão agrária, enquanto a Educação Rural está contida nos princípios do paradigma do capitalismo agrário. A Educação do Campo vem sendo construída pelos movimentos camponeses a partir do princípio da autonomia dos territórios materiais e imateriais. A Educação Rural vem sendo construída por diferentes instituições a partir dos princípios do paradigma do capitalismo agrário, em que os camponeses não são protagonistas do processo, mas subalternos aos interesses do capital (FERNANDES, 2006).
Na perspectiva que Fernandes (2006) expõe há uma dualidade na educação que reflete e refrata nas questões agrárias, apontando que a chamada educação rural se veicula com o capitalismo agrário (agronegócio) e a EdoC se relaciona com a autonomia dos territórios e, por consequência, com as diversas formas de produzir os alimentos (agricultura camponesa). No que diz respeito à produção, as compreensões em torno termo “Reforma Agrária”, dialogando com o território camponês e com a esfera educacional, são expressas de formas distintas, assumindo funções também distintas na materialidade dos PPPs; ora como conteúdo a ser trabalhado em disciplinas específicas, ora como parte da contextualização das discussões e dos conteúdos de aprendizagem, assumindo, inclusive, um tom valorativo.
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Do mesmo modo que dispõe sobre o assunto da produção em tópicos, o PPP A aponta a Reforma Agrária como destaque pontual, deixando suscetível o fato de que haverá discussões sobre essa questão. Já o PPP B nos parece mais enfático, apresenta um elo entre produção, Reforma Agrária e educação: No caso das práticas educacionais que acontecem no meio rural, esta relação não pode hoje desconsiderar a questão da luta pela reforma agrária e os desafios que coloca para a implementação de novas relações de produção no campo e na cidade. (p. 08 ). Por conta desse discurso, é fato que a luta pela terra ou a sua propriedade (pequenas ou grandes propriedades) e as novas relações de produção, na cidade ou campo, refletem e refratam nas práticas educativas, expressas no PPP B.
Cotejando essas compreensões com os discursos dos documentos fundantes da EdoC, também compreendemos que o diálogo entre território, formas de produção e educação é indissociável. Nessa concepção de educação para e nos territórios camponês: [...] O direito à educação somente será garantido se articulado ao direito à terra, à permanência no campo, ao trabalho, às diferentes formas de produção e reprodução social da vida, à cultura, aos valores, às identidades e às diversidades [...] (II CONFERÊNCIA, 2004, p.10). A materialidade dos documentos fundantes expressa essa relação que também está materializada no PPP B.
Não é possível, portanto, pensar educação sem pensar no território e as disputas discursivas e ideológicas presentes nesse contexto. Destaco ainda que, considerando o que está dito e não dito nos PPPs, o PPP A não apresenta no seu texto palavras como “território”, “agricultura” e “camponês”. Quando essas palavras não aparecem, constitui-se um não dito acerca dessas questões. O documento se exime, assim, da promoção do debate para compreender o espaço em que a escola está inserida, bem como a relação entre os sujeitos que fazem parte da instituição e dessa comunidade, conectando o que acontece ali com aspectos do meio regional, nacional e internacional. Os sentidos de disputa e de conflito também não constituem as discussões do documento.
Por conta das relações entre território camponês e a esfera educacional estudamos como esse diálogo se materializa nos PPPs, compreendemos que quando há somente pontualidade dos assuntos, abordados como tópico em disciplina são reforçados os dizeres da chamada educação rural, que se preocupa somente com os processos de expansão (da transposição do urbano para o rural); já quando as palavras se relacionam entre si e com o contexto, expressa o sentido de
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compreender o cotidiano e os jogos de interesse na sociedade. Os argumentos das compreensões do território refletem e refratam na materialidade da EdoC, um signo em constante disputa, como será demonstrado a seguir.