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Bilan des interactions prosodie/texte

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F AYARD -G ROULT

4.4. Bilan des interactions prosodie/texte

Os animais mais jovens apresentam maior predisposição para a ingestão de corpos estranhos quando comparados com os mais velhos (Fossum, 2013). Sendo que os corpos estranhos gástricos são mais comuns em cães do que em gatos (Sullivan & Yooi, 1998). Defende-se que a razão para esta dominância é proveniente da natureza indiscriminada da alimentação dos cães (Monnet, 2013). Pontualmente o

45 proprietário testemunha a ingestão do corpo estranho, no entanto, na grande maioria dos casos, a ingestão de corpos estranhos pelos animais não é observada nem apercebida pelo mesmo, pelo que o diagnóstico é feito com base nos sinais clínicos presentes e exame físico (Mazzaferro & Ford, 2012). Os casos clínicos estão parcialmente de acordo com o primeiro critério, na medida em que se tratam de canídeos de idade adulta com tendência para a ingestão de corpos estranhos. No caso clínico I, a ingestão do corpo estranho aconteceu devido à presença de restos de comida presa ao anzol. Ao contrário do que é descrito na bibliografia, a ingestão do corpo estranho, neste caso, foi testemunhada pelo proprietário do animal durante um passeio na rua.

Os corpos estranhos gástricos mais comummente reportados em cães incluem plásticos, ossos, objetos metálicos, madeira e material orgânico (Monnet, 2013). Os corpos estranhos removidos nos casos clínicos apresentados incluem um anzol e uma carica, tal como descreve a bibliografia.

Os corpos estranhos gástricos normalmente causam vómito como resultado de obstrução da entrada gástrica, distensão gástrica ou pela irritação causada pela sua presença (Nelson & Couto, 1994). O vómito deve ser caracterizado de acordo com a sua duração, frequência, evolução e relação com a ingestão de comida, devendo sempre ser investigado se o vómito surge em associação com outros sinais clínicos (Birchard & Sherding, 2006). Em alguns casos pode estar presente a regurgitação secundária à irritação esofágica devido ao vómito. A distensão abdominal pode ser evidente nos casos em que há obstrução do fluxo gástrico e a dor abdominal pode estar presente em animais com obstrução, perfuração ou ulceração (Monnet, 2013). Nos casos clínicos relatados os animais não apresentavam qualquer indício de vómito, provavelmente relacionado com o tempo reduzido decorrido entre a ingestão do corpo estranho e a sua remoção.

No momento da apresentação do animal é realizada uma avaliação primária. No caso de o animal apresentar uma condição instável, o tratamento deve ser iniciado imediatamente. A estabilização de emergência é iniciada e depois de o animal estar estável é realizada uma segunda avaliação (Campbell, 2012). O vómito frequente resulta em alterações metabólicas como por exemplo a desidratação e alterações eletrolíticas que incluem a hipocalemia, hiponatremia, hipocloremia, e desequilíbrios ácido-base tais como a alcalose e acidose metabólica. É fundamental proceder à recolha de uma amostra sanguínea para avaliação de outros parâmetros clínicos do animal. Os parâmetros a avaliar devem incluir hemograma e bioquímicas séricas. Esta avaliação é necessária para excluir desordens causadoras de vómito que não sejam de origem gastrointestinal, antes de considerar desordens gastrointestinais primárias

46 (Birchard & Sherding, 2006). Para o animal do caso clínico I, no momento de entrada no hospital foi realizada uma avaliação primária mesmo que de forma rápida. Este animal, ao contrário do animal do caso clínico II, apresentava-se aparentemente estável e sem vómito, pelo que não se procedeu à colheita de sangue para realização de hemograma e bioquímicas séricas, que seria o recomendado de acordo com as

leges artis.

Na possibilidade de existência de um corpo estranho gastrointestinal justifica-se a realização de um exame radiográfico abdominal, mesmo que o exame físico não apresente alterações. A ultrassonografia pode também ser uma opção na avaliação de desordens do trato gastrointestinal, tais como a intussuscepção ou obstrução do fluxo gástrico (Birchard & Sherding, 2006). O diagnóstico do caso clínico I foi estabelecido pela observação direta do corpo estranho na cavidade oral do animal e pela informação obtida pela anamnese, complementado com a radiografia abdominal lateral. O exame radiográfico revelou a existência de um corpo estranho radiopaco bem visível no estômago em ambos os casos clínicos fazendo com que não houvesse necessidade de realizar outros exames complementares de diagnóstico.

A presença de corpos estranhos gástricos é classificada como uma urgência cirúrgica, no entanto, esta patologia necessita de uma abordagem inicial previamente à anestesia e à intervenção cirúrgica, de forma a estabilizar o animal. A estabilização do animal deve acontecer anteriormente aos exames complementares de diagnóstico, principalmente nos casos mais graves. Sempre que possível, deve-se corrigir a causa subjacente de vómito e deve iniciar-se a fluidoterapia já que a presença de vómito geralmente se opõe à ingestão de alimento. A escolha do fluido de eleição deve ser baseada nas concentrações séricas de eletrólitos e na gasometria, já que as alterações eletrolíticas e ácido-base que ocorrem secundariamente ao vómito podem variar consideravelmente. Caso não seja possível aceder a essa informação pode ser utilizada uma solução eletrolítica balanceada como por exemplo o LR ou solução salina de NaCl 0,9%. A suplementação com potássio geralmente é necessária porque a hipocalemia constitui uma complicação do vómito. Quando a acidose metabólica estiver presente, deve-se considerar administrar uma solução alcalinizante (LR). A administração de bicarbonato de sódio apenas é necessária para o tratamento de acidose metabólica grave (ph <7,1-7,2) (Birchard & Sherding, 2006). Dado que ambos os animais não apresentavam vómito e estavam estáveis, não foi necessária a estabilização dos mesmos. Apesar de não estarem desidratados foi iniciada a fluidoterapia IV no momento da preparação dos animais para a endoscopia/cirurgia, com fluidos compatíveis com os protocolos instituídos no UPVet.

47 Os corpos estranhos de pequenas dimensões, improváveis de causar traumatismo, podem progredir ao longo do trato gastrointestinal, no entanto a grande maioria deve ser removida. Alguns corpos estranhos podem ser removidos por endoscopia. Nestes casos a remoção do corpo estranho realiza-se imediatamente após o estabelecimento do diagnóstico, antes do corpo estranho abandonar o estômago. Quando a remoção do corpo estranho por endoscopia for duvidosa ou não tiver êxito, a gastrotomia é o tratamento de eleição (Lillian R. Aronson et al., 2000). A endoscopia representou o tratamento de eleição para a remoção dos corpos estranhos em ambos os casos. No entanto não obteve êxito no caso II e, não foi realizada pela ausência de um veterinário especializado no caso I.

Corpos estranhos gástricos apresentam bom prognóstico. Os casos clínicos relatados não apresentaram complicações pós-cirúrgicas. Assim, conclui-se que a rapidez dos proprietários em acompanhar o animal de companhia à consulta, a realização de um rápido diagnóstico e imediata abordagem terapêutica são extremamente importantes para a evolução e desfecho do caso clínico.

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