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O Azylo de Santa Theresa era uma instituição pública de educação, criada em 1854, cuja missão era amparar, proteger e educar meninas órfãs, desvalidas e as que eram abandonadas pelos pais na Santa Casa de Misericórdia de São Luís (RODRIGUES, 2010).

A criação desse tipo de instituição seguia o modelo europeu e fazia parte da política do Império Brasileiro voltada para a assistência de crianças pobres e órfãs, adultos pobres, doentes e loucos. Nesse conjunto, os asilos, as Santas Casas de Misericórdia e as escolas de ofício serviam para a construção de um país que se pretendia moderno (SANTOS, 2008, apud RODRIGUES, 2010, p.98).

Sobre essa instituição há um artigo publicado no jornal Publicador Maranhense de 1866 que afirma a existência do Azylo com o intuito de desempenhar as mesmas funções da Casa dos Educandos Artífices, porém voltado para o sexo feminino, abrigando cerca de 60 a 70 meninas desamparadas, de 7 a 16 anos de idade. Tinha, por conseguinte, que lhes oferecer educação.

O jornal mencionado nos permite tomar conhecimento de uma disputa envolvendo a manutenção ou a exclusão das aulas de música e de piano oferecidas às jovens carentes. Em Assembleia Provincial realizada para dar continuidade a uma sessão ocorrida a 7 de maio de 1866, foi definido o destino musical das meninas órfãs.

A discussão envolveu o Sr. Cônego Tavares, defensor do ensino não somente de música vocal, mas do piano também, e o deputado Sr. Franco de Sá, defendendo projeto que visava excluir o ensino de piano e de desenho da educação das moradoras do Azylo de Santa Theresa. O deputado sugeria a continuidade do ensino apenas da música vocal. Seguem trechos do diálogo:

O Sr. Cônego Tavares: - a música vocal sabemos que nenhum fructo poderia dar às meninas que se dedicassem a este ramo de belas artes; outro tanto, porém, não podemos dizer com relação ao piano.

O Sr. Franco de Sá: - quando trabalhassem servir-lhes-ia para se distrahirem.

O Sr. Cônego Tavares: - sem dúvida que não era esse o espírito do fundador d’aquelle estabelecimento, quando considerou a música no ensino

dessas desvalidas (PUBLICADOR MARANHENSE, São Luís, 16 de Junho de 1866) 33.

Claramente expressa aqui pelo Sr. Tavares é a ideia, na época em questão, da música vocal como não permitindo uma utilidade mais prática, talvez mesmo sugerindo uma referência desfavorável ao mercado de trabalho, quando comparada ao piano. Ideia corroborada pelo Sr. Franco de Sá ao sugerir que a música vocal seria usada como distração enquanto as meninas trabalhassem. Em outro trecho do jornal:

O Sr. Cônego Tavares: - no Azylo de Santa Theresa devemos dar não somente uma educação servil...

O Sr. Franco de Sá: - uma educação industrial.

O Sr. Cônego Tavares: - bem, se cumpre-nos dar esta educação aos educandos artífices, por que não as dar às educandas do Azylo de Santa Theresa? Eu compreendo na educação industrial tudo quanto possa tornar essas meninas úteis à sociedade pelas artes, indústrias e pelos seus serviços de donas de casa: neste sentido eu abraço a ideia; mas fazer a educação industrial como está na emenda, não concordo, principalmente com a desigualdade manifesta entre os dois estabelecimentos irmãos (PUBLICADOR MARANHENSE, São Luís, 16 de junho de 1866).

Esclareço que, no referido artigo, consta que os educandos artífices teriam direito a uma educação tal que os encaminharia para as artes e indústrias, de modo que a sociedade viesse a colher não só grandes resultados para seu desenvolvimento moral, como para seu desenvolvimento material, amparando esses moços da orfandade. Ao que o Sr. Tavares pergunta no mesmo debate: “as educandas do Azylo de Santa Theresa deverão ser educadas só para serem servas? Por que não aplica-las, como os educandos artífices a diferentes misteres?”

A perspectiva de uma possível atuação profissional, através da aprendizagem do piano, pelas educandas do Azylo de Santa Theresa era almejada pelo Sr. Tavares e alicerçada, assim, na própria experiência dos educandos da Casa dos Artífices, como veremos no seu comentário seguinte:

Sabemos que a música é um dos ramos d’instrução necessário, não só para os ricos, como para os pobres, sendo até bem honroso meio de vida.

33

Disponível no acervo digital da Biblioteca Nacional. http://memoria.bn.br/hdb/periodico.aspx Acesso:08/06/13.

Mesmo nesta província, grande parte dos nossos moços, que tem feito sua educação no estabelecimento dos educandos artífices dedica-se à arte musical, e por ahi ganhão o pão para sua subsistência e de suas famílias. Ora, que inconveniente haverá em que sahia do Asylo de Santa Theresa uma professora habilitada para ensinar piano, ou música, e assim ganhar um bem futuro? (PUBLICADOR MARANHENSE, São Luís, 16 de Junho de 1866).

O Sr. Cônego Tavares cita o exemplo de 3 alunas egressas da instituição, por atingirem a idade limite, e que se uniram fundando um colégio, que, segundo ele, era, sem contestação, um dos bons colégios do Maranhão. Uma das 3 moças tocava o piano, não era pianista, mas poderia ter se tornado uma boa pianista se tivesse continuado os estudos, pois não lhe faltavam talento e disposição. Entretanto, ao completar 21 anos, teve que deixar o asilo e parar de estudar, mas e se ela tivesse iniciado os estudos aos 14 anos? Aos 21 anos já seria boa pianista, concluindo o argumento.

Pelo debate levado aos jornais, percebe-se que as meninas órfãs tinham na pessoa do Sr. Cônego Tavares uma alma sensível, pronta a lutar por seus direitos a uma educação que lhes oferecesse mais que o trabalho servil em casas de pessoas com boas condições financeiras, e pronta a combater a opressão ao sexo feminino, tentando oferecer-lhes os mesmos direitos dos meninos educandos.

Infelizmente, as abrigadas do Azylo de Santa Theresa conseguiram, concomitantemente, na pessoa do deputado Franco de Sá, um inimigo gratuito que lutou para proibir as aulas de piano e de desenho, muito embora os gastos com elas fossem insignificantes para a Província, como declarou outro participante da Assembleia, Sr. Sotero Júnior, citado a seguir:

O desenho é ensinado pelo professor do Lyceo, o Sr. Tribusy, que da lições no Azylo, na casa dos educandos artífices e no Lyceo, vencendo o mesmo ordenado que percebia quando dava aulas somente no Lyceo.

A música é ensinada pelo Sr. Ziegler, mediante a insignificante gratificação de 200$000 reis annuaes, que há um anno tem ele deixado de receber. Como então querem os nobres deputados acabar com essas duas aulas, e argumentam que ellas são contra o regulamento, e que com a sua extinção far-se-há grande economia? É realmente inconcebível e irrisório! (PUBLICADOR MARANHENSE, São Luís, 16 de Junho de 1866).

Bizarra a atitude do deputado Franco de Sá empenhando-se com tanto afinco contra inofensivas aulas de desenho e piano para crianças e adolescentes

órfãs. Aulas que não acarretavam praticamente nada ao poder público, e desanimador foi o resultado determinado pela Assembleia: o Art. 1º do projeto, que tratava da proibição das aulas de desenho e piano foi aprovado, sendo rejeitada a emenda do Sr. Cônego Tavares em defesa das jovens desvalidas.

2.2 Segunda metade do século XIX: ensino musical e o piano na sociedade

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