A análise dos efeitos sociais produzidos pelas marcas socialmente construídas de raça, cor e etnia23 se constitui em importante campo de estudo sobre as personagens
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A classificação das personagens femininas de acordo com a raça, a cor e a etnia agrupou certo número de adjetivos sob uma mesma rubrica, uma vez que, por exemplo, nem sempre uma mulher negra era necessariamente chamada somente de negra. Nesse sentido, a classificação de “morena” coube às personagens adjetivadas como morenas, cor de cobre, bronzeadas e tez mate. O grupo “negra” abriga as negras, crioulas, pretas e escuras. As personagens consideradas mulatas foram definidas em termos de mulata clara, mulata branca, mulata escura, cabrocha e pardavasca. O conjunto “mestiça” reúne as personagens femininas descritas apenas como mestiças. Deve-se ainda registrar a categoria “índia”, composta por índias de origem amazonense ou paraguaia.
femininas de Jorge Amado. Para que se possa ter uma visão abrangente das diferentes raças, cores e etnias retratadas pelo romancista baiano, faz-se mister apresentar essa diversidade sem reduções categoriais significativas, aproximando-nos, ao máximo, das descrições presentes nos verbetes do dicionário de Tavares (1985).
Tabela 4: Raça, Cor e Etnia
Raça, Cor e Etnia Freqüência Percentual
Branca 708 79,7% Mestiça 5 0,56% Morena 20 2,25% Mulata 53 5,97% Mulata Branca 1 0,11% Mulata Clara 4 0,45% Mulata Escura 3 0,34% Negra 40 4,5% Cabocla 4 0,45% Índia 2 0,23% Francesa 9 1,01% Árabe 8 0,9% Italiana 6 0,68% Argentina 6 0,68% Espanhola 4 0,45% Portuguesa 4 0,45% Inglesa 2 0,23% Norte Americana 2 0,23% Finlandesa 2 0,23% Africana 1 0,11% Holandesa 1 0,11% Polonesa 1 0,11% Peruana 1 0,11% Hindu 1 0,11% Total 888 100%
Para a análise das representações sobre a prostituição feminina, bem como para a caracterização da população feminina, a dispersão de informações, propositalmente contida nessa tabela, dificulta o processo de produção de inferências. Assim, apesar de parecer extremamente importante a observação da diversidade de raças, cores e etnias
As brancas figuram como as não “marcadas”, visto que, em diversos verbetes do dicionário de Tavares (1985), encontram-se descrições que somente podem dizer respeito a mulheres consideradas brancas, sem, contudo, haver essa explicitação. Assim, se procedeu da seguinte forma na composição do conjunto “brancas”: as brancas são todas aquelas não identificadas como estrangeiras e não marcadas como negras, morenas, mulatas ou índias.
na obra do romancista baiano, o presente trabalho agrupará todo esse universo em três categorias, como pode ser visto na tabela abaixo.
Tabela 5: Raça, Cor e Etnia - grupos
Raça, Cor e Etnia Freqüência Percentual Válido
Brancas 708 79,7%
Marcadas por Raça/Cor24 132 14,9%
Estrangeiras25 48 5,4%
Total 888 100,0%
Uma observação sistemática é capaz de extrair hipóteses sugestivas a cerca da diferença presente nas descrições das personagens a partir de um enfoque de raça/cor. Seria interessante indicar que apenas um verbete, dos 888 consultados no dicionário de Tavares (1985), trouxe uma personagem feminina explicitamente descrita pelo termo “cor branca”.
“Teresa – mundana de cor branca mas negreira por inclinação, grande apreciadora de nomes geográficos e versada em outros misteres, com casa no centro da cidade da Bahia. O negro Arigof, jogador, desocupado e atlético, era um dos validos em sua corte” (TAVARES, 1985, p.325).
A mundana Teresa aparece como a única personagem feminina branca caracterizada por sua raça/cor. As outras 707 personagens brancas consultadas apresentam, em alguns casos, apenas sinais de sua cor, sem serem declaradamente descritas em termos de “cor branca” ou qualquer outro adjetivo que aponte para uma classificação que leve em conta aspectos mais diretamente relacionados à raça/cor.
Um exemplo emblemático se desenvolve na caracterização de Natália, personagem do romance Teresa Batista Cansada de Guerra, que, apesar de toda sua alvura, não é tipificada como “branca”.
“Natália – falecida esposa do comerciante Almério das Neves que a conhecera mundana jovem, “recentemente no ofício” e tímida, “apelidada
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O grupo de personagens designado por “marcadas por raça/cor” compreende os seguintes subgrupos: mestiças, morenas, mulatas, mulatas (branca, clara e escura), negra, cabocla e índia.
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Uma grande quantidade de personagens estrangeiras foi retratada por Jorge Amado em seus romances. Sob a denominação “estrangeiras” agrupam-se as seguintes nacionalidades: africana, árabe, argentina, espanhola, francesa, polonesa, italiana, finlandesa, sueca; peruana, portuguesa, norte americana, inglesa, holandesa e hindu. As personagens descendentes de somente uma nacionalidade foram percebidas como pertencentes ao grupo estrangeiras. Caso uma personagem qualquer apresente mais de uma descendência estrangeira, essa mulher pertencerá ao conjunto “branca”.
Nata de Leite pela alvura da pele”, morando no castelo de Taviana, situado na Barroquinha, na cidade da Bahia. [...]” (TAVARES, 1985, p.248-249).
A ausência de referências à raça/cor, ao se retratarem as personagens femininas com características que remetem para a “cor branca”, contrasta com a recorrência da marca social de raça/cor para todas as personagens negras, mulatas ou morenas. Parece possível sustentar que o fato de ser branca não merece destaque na caracterização oferecida pelos verbetes do dicionário de Tavares (1985), enquanto que ser negra, mulata, morena ou mestiça representa algo carente de marcação social.
O exemplo que se segue é paradigmático, pois capaz de evidenciar o contraste permanente entre a descrição das personagens brancas e o processo de racialização que opera na caracterização de todas as 132 não brancas (negras, mulatas, morenas, mestiças, caboclas ou índias). A comparação entre as características agrupadas em torno da personagem Natália, cujo apelido “Nata de Leite” diz tão somente sobre sua cor, e os substantivos e adjetivos utilizados na “pintura” de Rosa de Oxalá evidencia que a racialização recai sobre as não brancas.
“Rosa de Oxalá – bela negra, graciosa e alegre, de “pele negro-azul em seda e pétala”, “os braços e os ombros nus sob a bata de rendas, os colares, as contas, as pulseiras, o riso agreste”, bela até no modo de caminhar deixando com as chinelas “um rastro bom de música, a bunda em navegação de maré alta e um pedaço de seio iluminando o Sol”” (TAVARES, 1985, p.301).
As 48 personagens estrangeiras não foram, em momento algum, descritas por termos relacionados a processos de racialização. Por mais brancas que pudessem ser, os verbetes que encerram suas caracterizações consideram tão somente suas etnias, sem se preocuparem com a questão da raça/cor. Com a finalidade de exemplificar essa constatação, transcreve-se abaixo o verbete envolvido na caracterização da Senhora Grant.
“Grant, senhora – inglesa “alta e loiríssima, de modos livres e um tanto masculinos”, esposa de Grant, o Mister, diretor da estrada de ferro de Ilhéus, lugar que ela não tolerava. Vivia na Bahia, dando “grandes jantares em sua casa da Barra Avenida”, para onde acabou levando, e o educava como seu, o filho que o marido distante ganhara da índia que lhe cuidava da casa” (TAVARES, 1985, p.136).
Nos verbetes do dicionário de Tavares (1985) destinados à descrição das personagens brancas, ao que todas as evidências empíricas indicam, dadas as características em destaque nas descrições dessas personagens, o termo “branca” somente aparece uma única vez, no caso da prostituta Teresa, acima destacado. Note-se,
ainda, que esse solitário desvio da norma possui, em sua estrutura, uma idéia contrastante e, talvez, somente por isso, Teresa tenha sido adjetivada de “branca”. Não fossem suas inclinações negreiras, o padrão descritivo seguido pelos verbetes não deixaria espaço para que Teresa fosse descrita como “branca”.
Para as personagens negras, mulatas, morenas, mestiças, caboclas ou índias, em todos os verbetes do dicionário de Tavares (1985), a raça/cor foi ressaltada. Não houve um único caso em que a raça/cor tivesse de ter sido inferida a partir de caracteres físicos. Parece assaz importante, do ponto de vista analítico, o fato de nenhuma branca, por mais esplendorosa em beleza que fosse, ter sido descrita em termos de “bela branca”, como a “bela negra” Rosa de Oxalá.
Em “Sexo Tropical”, Piscitelli (1996) destaca a dinâmica dos processos de racialização em relação ao outro percebido como exótico. A autora, ao citar Lecler (1973), mostra como a questão da alteridade se configura de forma complexa, indo muito além da simples negação e/ou exploração do outro. Apagar e/ou representar negras, mulatas e mestiças apenas como atores sociais sem importância diz respeito tão somente a uma das possíveis formas de objetificação do outro.
O que parece mais relevante, nas descrições oferecidas pelos verbetes do dicionário de Tavares (1985), sobre as personagens femininas marcadas pela raça/cor, é a incorporação do outro como exótico através da construção de uma “raça” a ser “degustada”, como ressalta Piscitelli (1996). Há expressões reveladoras da dinâmica de racialização rumo à degustação do outro exótico.
“Ana Mercedes – jovem morena dourada, de “olhar noturno, sorriso de semi-abertos lábios” meio grossos e cujo andar “era a própria dança”, uma “navegação de ancas e seios”, milagre da miscigenação na cidade da Bahia. Estudante de jornalismo e mestra na sedução, conseguiu subornar o dr. Brito, diretor do DIÁRIO DA MANHÃ [...]”(TAVARES, 1985, p.16).
A miscigenação vista como um milagre, ao se revelar em Ana Mercedes, não produz seus efeitos senão na constituição física dessa personagem, representada como exuberante. Suas características físicas e comportamentais fazem da estudante uma mestra na arte da sedução. Olhares, sorrisos, ancas e seios se materializam, sob a juventude da pele morena, num corpo milagroso. De resto, os desejos sexuais masculinos convergem sobre essa personagem “puro corpo” (CORRÊA, 1996).
Outro verbete do dicionário de Tavares (1985) demonstra, com as próprias palavras de Jorge Amado, dado que Tavares as traz entre aspas, a representação sobre miscigenação de raças como produtora de outros exóticos a serem desejados e
consumidos. Os processos sociais de racialização implicados na constituição de corpos erotizados parecem bastante evidentes nas personagens marcadas pela raça/cor.
“Carol – amásia do ricalhaço Modesto Pires, de Santana do Agreste. Originária de Sergipe, “obra-prima de Deus e da fusão de raças”, ela vivia, “opípara e proibida”, reclusa sob sete chaves em casa bem no centro da cidade – até o dia em que o seminarista Ricardo transpôs a fortaleza, encorajando outros admiradores” (TAVARES, 1985, p.45).
O contra-exemplo da dinâmica de racialização, que se verifica na produção de corpos marcados pelo erótico, pode ser identificado na descrição da única personagem feminina mulata que, sem ser percebida como “mulata clara”, é chamada de “mulata branca”. Parece intrigante que essa mulata “branca” não seja exemplar dos milagres físicos e comportamentais da miscigenação. No entanto, mais notável ainda é o fato de essa personagem aparecer descrita como uma mulher intelectualizada.
“Edelweis Vieira – baiana robusta e resoluta, “mulata branca de rosto redondo e manso falar”. Conquistou por si só, “autodidata e artesã”, um lugar ao sol entre os etnólogos, antropólogos, sociólogos e outros luminares especializados no estrangeiro que pontificavam nos meios doutos da universitária cidade da Bahia. Era secretária do Centro de Estudos Folclóricos, escrupulosa pesquisadora, e das poucas pessoas a conhecer a obra de Pedro Arcanjo. [...]”(TAVARES, 1985, p.95).