O estudo relativo à questão das gerações levou em consideração apenas as referências diretas capazes de indicar em que faixa etária as personagens femininas amadianas se encontram. Não foi feito qualquer tipo de inferência com o intuito de definir, para as personagens analisadas, seus pertencimentos geracionais. O trabalho em questão subdividiu o estudo da idade/geração em três momentos: jovens, adultas e idosas. Considerando a metodologia adotada26, obteve-se a seguinte freqüência de mulheres jovens, adultas e idosas na população estudada.
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O grupo denominado “idosas” abriga mulheres que, nos verbetes do dicionário de Tavares (1985), são adjetivadas de velha, velhinha, velhíssima, velhota, sessentona, sexagenárias; nonagenária, centenária, cinquentona, idosa, anciã, deã, certa idade, sem idade, envelhecida e senhora. Contudo, para que uma personagem descrita como senhora seja considerada idosa, outros indicadores de idade devem ser fazer presentes, situando-as a partir dos cinqüenta anos de idade.
De acordo com o romancista Jorge Amado, os cinqüenta anos demarcam o início da velhice. Isso fica claro na descrição da personagem Zefa, do romance Cacau. “Zefa – “velha de cinqüenta anos”, rameira na Rua da Lama, em Pirangi. Esteve de amores com o preto Honório, jagunço da fazenda de cacau Fraternidade, a quem dirigiu o bilhete transcrito no texto” (TAVARES, 1985, p.357).
O conjunto das personagens “adultas” se define em relação aos seguintes termos utilizados nas caracterizações dos verbetes: quarenta e tantos, quarentona, trintona, madura, madurona, meia-idade e,
Tabela 6: Idade/Geração
Gerações Freqüência Percentual Válido
Jovem 112 12,6%
Adulta 41 4,6%
Idosa 57 6,4%
Sem Referência 678 76,4%
Total 888 100,0%
A elevada ausência de marcação social em relação aos aspectos geracionais torna difícil a tarefa analítica, visto que impõe sérios obstáculos à caracterização da população tomada para estudo. Parece realmente significativo ter mais de ¾ (76,4%) de uma amostra sem definição no que diz respeito a determinada categoria analítica.
No estudo das ocupações, o percentual de personagens femininas sem ocupação definida ficou em 19,1%; a classe social somente se apresentou indefinida para 12% das 888 mulheres estudadas (vale ressaltar, contudo, que a presença de diversos indicadores indiretos de classe permitiu a redução do número de personagens sem classe definida). As referências à raça, à cor ou à etnia não apresentaram percentual algum de indefinição – todavia, isso se deve ao fato de que a cor branca foi entendida como não marcada e, portanto, característica de todas as personagens até o momento em que fossem descritas como de outra raça, cor ou etnia. Por fim, a análise do estado conjugal revelou que 53,6% das personagens femininas não foram caracterizadas atentando para esse aspecto.
Esses números parecem indicar, através de uma simples comparação estatística, a natureza marginal atribuída à geração no delineamento das representações sobre as personagens femininas de Jorge Amado. Assim, de acordo, estritamente, com os valores percentuais, pouco pode ser afirmado sobre a geração além da sua fraca importância descritiva.
Entretanto, a observação atenta de alguns dos adjetivos utilizados na delimitação das idades e gerações aponta para um caminho analítico, em certa medida, interessante.
ainda, senhora – sem referência a qualquer sinal de idade superior aos cinqüenta anos. No que diz respeito às idades, as “adultas” devem ser maiores de vinte anos e menores de cinqüenta.
Sob a rubrica “jovens”, encontram-se todas as personagens descritas como meninota, adolescente, moça, jovem, garota; menina-moça, mocetona, mocinha, moçoila, nova e as que se situam abaixo dos vinte anos de idade. Para o presente trabalho, os pontos limítrofes que separam a infância da adolescência variam de acordo com um arranjo complexo entre idade e experiência sexual das personagens. Uma personagem de dez anos, por exemplo, que já se percebe como vítima de algum tipo de assédio sexual pertence ao conjunto das jovens. Na prática, a leitura sistemática dos verbetes do dicionário de Tavares (1985) tornou essa difícil distinção teórica entre infância e adolescência um tanto quanto mais fácil, dada a ausência, no recorte estudado da obra amadiana, de casos indubitáveis de pedofilia.
A juventude das personagens femininas parece ser considerada como algo desejável que se perde, a contra gosto, ao longo do tempo. Enquanto as personagens se encontram abaixo dos vinte anos de idade, nenhum processo de adjetivação, nos verbetes do dicionário de Tavares (1985), se refere a qualquer debilidade em função da idade/geração.
A inexperiência e a imaturidade não fazem parte do mundo das personagens jovens – ao menos não foram encontrados verbetes descritivos (TAVARES, 1985) que apontassem nessa direção. Os adjetivos empregados parecem não ressaltar os contrapontos do que se considera a “flor da idade”: meninota, adolescente, moça, jovem, garota; menina-moça, mocetona, mocinha, moçoila, nova.
As personagens femininas adultas são representadas, a partir dos trinta anos, como mulheres que perderam a juventude e encontram-se marcadas pelo indesejado avançar da idade. Ser vista como “madurona”, “trintona” ou “quarentona” parece definir a maturidade muito mais pelo viés da perda da juventude, rumo à suposta decadência da velhice, do que por um estado positivo ou, no mínimo, neutro, assumido pelas mulheres.
Segundo Jorge Amado, a velhice tem início, para suas personagens femininas, aos cinqüenta anos de idade. O romancista baiano não hesita em chamar de “cinqüentona” as que se situam nessa faixa etária. O verbete destinado à caracterização da personagem Carmosina, do romance Tieta do Agreste, traz um exemplo paradigmático sobre as mulheres “cinqüentonas” do autor baiano.
“Carmosina Sluizer da Consolação – filha do falecido Juvenal da Consolação e de dona Milu [...]. “Cinqüentona, sarará, corpulenta, cara larga, voz rouca”, solteirona extrovertida, dada a leituras e sem preconceitos [...]. Seu primo, o moço Amintas, funcionário desocupado e inteligente, rimava: “Carmosina, quase albina, mais que ladina, voz masculina, língua ferina, doce assassina.” Era amiga íntima de Tieta desde a juventude [...]”(TAVARES, 1985, p.61-62).
As limitações do presente trabalho inviabilizam o estudo comparativo entre os efeitos do tempo (idade/geração), em intersecção com o gênero, na descrição das personagens femininas e masculinas. Seria interessante poder observar, de acordo com a perspectiva geracional, a forma com que o gênero opera ao alinhar diferenças e semelhanças nas caracterizações das (os) personagens amadianas (os) – uma vez que a vivência da velhice possui significados diferentes para homens e mulheres (BRITO DA MOTTA, 2000).