Maria tem 47 anos e foi agredida pelo marido durante mais de 10 anos. Descobriu a AMCV através da irmã, assistente social, e contactou a associação todas as vezes que teve intenção de se separar. Só à terceira foi de vez, em 2007.
A primeira vez que Maria é agredida, levou um estalo. Achou que era um acto isolado. Depois do nascimento da primeira filha, após 7 anos de casamento, desapareceram todos os gestos de carinho e o marido revela-se permanentemente autoritário e agressivo. Diminuía-a em público, exigia-lhe recato, censurava-a por tudo, restringia os seus contactos sociais.
A segunda gravidez é particularmente difícil, Maria sofre uma das mais graves agressões da sua história. O marido atira-lhe um arquivador à barriga. Viveu horas de pânico, sem poder ir ao hospital porque ele não permitiu. Quando conseguiu escapar da sua vigilância, no final do dia, recorreu ao hospital. Embora não tenha dito nada aos médicos, vem a perceber que o hospital tinha assinalado no seu processo a suspeita de uma situação de violência doméstica.
A relação com o marido começara quando tinha 24 anos. Ele era apaixonado e dedicado, oferecia-lhe flores, juntava-se às suas saídas com as amigas. Insistiu que casassem no ano seguinte. Mudam-se para a terra do marido depois do casamento. Ao final de pouco tempo de vida em comum, o marido torna difíceis os contactos com os seus pais, cultivando uma relação de hostilidade com eles. Maria sempre esteve sozinha, sem família nem amigos.
Pouco tempo depois de se mudar para aquela terra, vai trabalhar com o marido num dos seus negócios. Ao longo dos anos, o marido teve 3 empresas, que faliram e fecharam, dando lugar a outros negócios, em esquemas de legalidade duvidosa que Maria nunca percebeu. É Maria que assume todo o trabalho na fábrica e o marido torna- se cada vez mais ausente. É ela que vai trabalhar e ele fica a dormir.
O marido tem uma relação com outra pessoa e propôs-lhe que passassem a ter uma relação a três, coisa que ela considerava ofensiva. Maria nunca aceita a situação de infidelidade e, quando aborda o assunto, é agredida fisicamente. Ele afirma ter o direito de manter outra relação.
Entre a primeira e a segunda filha, Maria é agredida fisicamente com pouca regularidade, mas depois do nascimento da segunda, passa a ser quase diário. Chega a partir-lhe um dedo. Começa a bater de forma a não deixar marcas no corpo. Ganha o hábito de comentar que acha interessante a alteração dos olhos dela, quando lhe aperta o pescoço.
Apesar da crescente agressividade, o marido nunca deixa de a procurar sexualmente. Cada vez era mais doloroso para Maria, mas evitava recusar-se por medo. Numa ocasião, em que tentou esquivar-se de ter relações sexuais, admite que foi forçada. A sua rotina é totalmente subjugada aos desejos do marido. Levanta-se de manhã, para levar as filhas à escola, mas tinha a obrigação de voltar para a cama para perto do marido. Quando ele autorizava, saía da cama e ia preparar o almoço. Qualquer coisa era motivo para o marido se exaltar e rapidamente as coisas resultavam em agressão.
Vivia em permanente tensão, atenta à expressão facial dele para tentar perceber quando seria agredida. O marido nunca se inibiu de a agredir em frente às filhas, que choravam e se escondiam.
Perante as dificuldades financeiras, os pais de Maria foram sempre um grande apoio, para que pudesse assegurar todo o tipo de despesas. O marido tentava apropriar-se do dinheiro que os pais lhe davam, quando a visitavam.
Nas várias ocasiões, em que tentou pedir ajuda à polícia, chamando-a a casa na sequência de agressões, eles ignoraram as marcas e o seu testemunho, acreditaram na versão do marido de que ela se auto-agredia. O marido era uma pessoa influente na terra e, apesar de todas as situações ilegais em que estava envolvido, tinha muitos contactos e ninguém lhe faria frente.
A situação começa a tornar-se insustentável por causa das filhas. Quando o marido dá os primeiros sinais de exasperação com a filha mais nova, uma criança muito faladora e rebelde, Maria assusta-se. Aterrorizava-a a ideia de que o marido magoasse as suas filhas e ela não tivesse capacidade para as defender. Atormentada com estes medos, deprimida e farta de ser maltratada, Maria decidiu sair de casa. Começou então a organizar-se nesse sentido, em segredo. Juntou dinheiro, copiou documentos das empresas onde o seu nome estava envolvido, foi guardando alguma roupa para levar. Chegado o dia, reuniu tudo, pegou nas filhas e chamou um táxi.
Maria voltou para casa dos pais. Durante alguns meses, ainda falou com o marido por telefone por causa das filhas. Ele pedia desculpa, fazia-lhe declarações de amor. Consegue manter uma relação pacífica com ele ao ponto de combinar com familiares para irem lá a casa buscar alguns bens que lhe pertenciam. Depois disso, Maria trocou de telemóvel. O ex-marido ligava à filha mais velha apenas para tentar obter informações sobre a mãe. Desde então, nunca mais a procurou. Não vê as filhas há 4 anos e é a Segurança Social que paga a pensão de alimentos da sua responsabilidade. Hoje Maria ultrapassou o medo que sentia dele, passa os dias sem se lembrar do que viveu, embora de vez em quando ainda tenha pesadelos e nunca mais tenha deixado de ficar atenta a sinais de violência. Maria vive em casa própria com as filhas, o que só é possível devido ao apoio financeiro dos pais. Fez uma formação na empresa na qual se empregou e trabalha como administrativa.
Tem, actualmente, uma nova relação amorosa e está muito satisfeita, valoriza muito a boa relação que existe entre as suas filhas e o namorado. Já não sente nenhum receio do marido. Considera-se uma mulher que venceu as dificuldades e que é hoje que se encontra tranquila e feliz.