«Não é o treino que torna as coisas perfeitas, mas antes o perfeito treino que permite obter a perfeição.» (Frade, 1985: 21)
Expusemos, nos capítulos anteriores, algumas das dimensões que se interrelacionam na construção da intensidade e da dinâmica de jogo. Pretendemos agora elucidar alguns dos aspectos da operacionalização do treino, que se manifestam indispensáveis para essa construção.
Em primeiro lugar, o potencial modelador dos exercícios tem de ser tomado em linha de conta quando se pretende aquilatar a maneira como se constrói a intensidade.
Na escolha dos exercícios o primeiro aspecto que devemos considerar deverá ser o da organização de jogo, o da táctica, entendida como cultura. Como refere Van Gall (1998), a educação táctica dos futebolistas é o elemento
mais importante para uma equipa ter sucesso. Também para Mourinho (2003b) o trabalho táctico faz a diferença. Para este autor (Mourinho, 2003c; 2005b) o treino só é bom quando se consegue operacionalizar o que é a ideia-chave, isto é, o treinador tem de encontrar exercícios que induzam a sua equipa a fazer aquilo que faz no jogo, treinando os princípios e subprincípios de jogo, de forma a adaptar os jogadores a ideias comuns a todos, a estabelecer a mesma linguagem comportamental.
Nesse sentido, devemos «fraccionar» o jogo que pretendemos construir nos princípios e subprincípios que o constituem («Reduzir – a complexidade – sem empobrecer»), de modo a exacerbá-los durante os treinos para proporcionar adaptação (em todas as dimensões). Temos, porém, de ter presente a «natureza inquebrantável» do jogo (Frade, 2003a). Ou seja, a natureza dos conteúdos dos exercícios tem de ter presente aquilo que faz com que ela não deixe de ser jogo (Frade, 2004). Deste modo, os exercícios deverão incluir sempre as dimensões/variáveis do jogo, a táctica (e estratégica), a técnica, a física e a psicológica.
Além disso, é fundamental ter em atenção que as «partes» que pretendemos trabalhar terão de estar interrelacionadas. Terá de existir uma articulação de sentido com o «todo», que representa o «jogar» que queremos alcançar (Frade, 2004). Ou seja, o modo como defendemos, tem de estar relacionado com o modo como queremos passar para a acção ofensiva e este com o modo como queremos finalizar e assim sucessivamente.
Na criação dos exercícios devemos também considerar a adequação dos níveis de complexidade dos mesmos relativamente aos jogadores. Guilherme Oliveira (2005, cit. por Lopes, 2005) indica que propõe exercícios específicos em função dos comportamentos que pretende e que, simultaneamente, o grau de complexidade esteja sempre adaptado, de modo a que os jogadores sintam prazer por cumprir os objectivos.
Para o exercício poder, de facto, ser aquisitivo, modelador, terá de ser respeitado o já referido princípio metodológico das propensões. Como nos dizem Oliveira et al. (2006: 142), “o efeito pouco retardado dos desempenhos, isto é, a aquisição do jogar, exerce-se em função dos desempenhos solicitados
pelo princípio das propensões, em resultado da escolha de determinados exercícios em detrimento de outros”.
Além do princípio das propensões, a “Periodização Táctica” preocupa-se em dar corpo à existência de outros dois princípios metodológicos, o princípio da alternância horizontal em Especificidade e o princípio da progressão (Frade, 2003b), que têm implicações directas na escolha dos exercícios.
O primeiro está relacionado com uma padronização da alternância desempenho-recuperação, de modo a conseguir proporcionar adaptações nos jogadores/equipa, admitindo que “não é possível, em termos biológicos, manter ininterruptamente o organismo a esforçar-se no mesmo registo, solicitando todos os dias as mesmas coisas do jogar” (Oliveira et al., 2006: 108). Assim, em relação à dimensão «física» do jogo, existe a preocupação de alternar o padrão de contracção muscular dominante em cada dia de treino, alternando entre treinos mais descontínuos e treinos menos descontínuos (Oliveira et al., 2006)
Concomitantemente, procura-se a associação deste princípio metodológico, com o princípio da progressão. Ou seja, associar esta alternância com a escolha de treinar os grandes princípios ou os subprincípios e subprincípios dos subprincípios, estabelecendo nuances de especificidade (Frade, 2003b). Desta forma diferencia-se o esforçar ao longo da semana e hierarquizam-se e alternam os princípios de jogo a trabalhar (Oliveira et al., 2006).
É importante perceber que através desta estruturação se procura também que os jogadores cheguem aos jogos capazes de imprimir intensidades altas (em todas as dimensões) às suas actuações. Ou seja, capazes de actuar com altos níveis de concentração, empenho e capacidade física, que permitam um elevado desempenho, de acordo com o Modelo de Jogo Criado.
Deste modo, associando as descrições de Guilherme Oliveira (2003a) e Oliveira et al. (2006), os exercícios de um morfociclo padrão com, por exemplo, cinco treinos, além de terem de ser sempre específicos, poderiam ser caracterizado do seguinte modo: 1º treino – Recuperação activa em Especificidade – recuperação activa; exercícios de baixa tensão muscular,
duração intermédia e baixa velocidade de execução, com reduzido desgaste emocional – princípios de menor complexidade; 2º treino – Dia dos propósitos em regime de elevada tensão específica – exercícios de elevada tensão muscular, curta duração, velocidade de execução moderada (grande densidade de contracções excêntricas) e espaço de realização reduzido, com desgaste emocional moderado; alternância com bastantes períodos de recuperação – princípios de menor complexidade, mas já superior ao primeiro treino; 3º treino – Dia dos propósitos em regime de dinâmica específica – exercícios com tensão muscular moderada, duração alta, velocidade de execução baixa a moderada e espaço alargado, com elevado desgaste emocional – grandes princípios; 4º treino – Dia dos propósitos em regime de elevada velocidade de contracção – exercícios de tensão muscular baixa a moderada (poucas contracções excêntricas), curta duração, velocidade de execução alta e espaço de realização reduzido, com desgaste emocional reduzido – princípios de menor complexidade e detalhes estratégicos; 5º treino – Recuperação activa num contexto de introdução à competição – exercícios de tensão muscular baixa a moderada, curta duração, velocidade de execução baixa a moderada e espaço de realização reduzido, com desgaste emocional moderado; alternância com bastantes períodos de recuperação – princípios de baixa complexidade.
Ressalvamos que com menor número de treinos a tipologia que desapareceria seria, em primeiro lugar, a do treino anterior à competição – 5º treino – e, em seguida, a do 3º treino, face à sua semelhança com o sucedido na estruturação da competição.
Realçamos ainda a necessidade de alternar o nível de investimento emocional dos jogadores de acordo com o que pretendemos treinar. De facto, nos treinos que procuramos que sejam os mais aquisitivos, um elevado investimento emocional surge como condição sine qua non da sua operacionalização, de modo a criar emoções intensas que provoquem uma sentimentalidade.
Estamos, assim, de acordo com Freitas (2004: 49) quando este refere que “os exercícios desenvolvidos com Intensidade máxima relativa (em concentração), de acordo com o Modelo de Jogo Adoptado e respectivos princípios que lhe dão corpo (exercícios específicos), bem como a respectiva
intervenção emocional do treinador, parecem ser o meio mais adequado de operacionalizar o Modelo de Jogo idealizado pelo treinador”.
Salientamos, todavia, que a intensidade do treino deverá ser maior nos treinos mais aquisitivos. Nessas ocasiões, as dimensões que a constituem deverão ser exponenciadas, de modo a criar uma adaptação efectiva nos jogadores. Ou seja, em termos relativos a intensidade deverá ser sempre máxima, porquanto relativa ao mérito alcançado na acção a executar, porém, em termos absolutos, ela será maior nos treinos mais aquisitivos.
Outro aspecto que, através dos exercícios, parece modelar a intensidade desejada é a preocupação, na construção dos mesmos, com o nível de dificuldade esperado. Por diversas ocasiões, já todos fomos espectadores de situações em que equipas previsivelmente mais fortes acabavam por demonstrar uma intensidade e dinâmicas de jogo baixas, face a equipas teoricamente mais fracas.
Nesse sentido, Mourinho revela utilizar no treino determinadas estratégias de modo a criar emoções nos jogadores que os condicionem de algum modo para o jogo seguinte. Entre várias estratégias possíveis, o treinador (Mourinho, 2004c: 8) dá um exemplo: “Uma das coisas que eu faço para contrariar essa tendência [menos concentrados, mais relaxados, nos jogos mais fáceis] é criar situações de treino com um grau de dificuldade bastante elevado para que originem insucesso, falta de eficácia. Com isso, posso «pressioná-los» e deixá-los menos confiantes para um jogo em que eu quero que eles estejam menos confiantes. Por exemplo, posso pegar num exercício que eles estão habituados a fazer em 20x20 metros e, nessa semana, fazê-lo em 14x14 metros. No fundo, é reduzir a eficácia deles no treino”.
Deste modo a construção dos exercícios terá de ter sempre presente a intensidade, – entendida como um conceito pluridimensional – tanto no próprio exercício como na criação das dinâmicas específicas do Modelo de Jogo Criado, como resultado da sua operacionalização.