Nos últimos anos, a par com a análise de conteúdo a análise do discurso tornou-se numa designação central a um vasto conjunto de abordagens nas ciências sociais (Esteves, 1998). A análise discursiva não é um fenómeno isolado, é envolvente e dinâmico e deve ser vista como parte de um movimento interdisciplinar registado na investigação da sociologia, antropologia e de outras ciências sociais que procuram interpretar os fenómenos comunicacionais e linguísticos. Assim, como descrito por José Azevedo, a análise de discurso será melhor compreendida como «guarda-chuva» que «cobre uma larga amplitude de abordagens com diferentes origens teóricas e consequentemente diferentes enfoques metodológicos» (In Esteves e Azevedo, 1998) em que duas tradições se destacam. A primeira corrente assenta na tradição filosófica mais «continental», cujas preocupações se centram nas qualidades performativas do discurso, ilustrando a relação entre retórica e discurso, teorizando que as
práticas discursivas são práticas sociais, produto de desiguais relações de poder (Martins In Esteves e Azevedo, 1998). A segunda corrente, partindo de uma tradição anglo-saxónica e do campo da psicologia social, procura «evidenciar a forma como a análise de discurso estrutura um novo paradigma, com importantes diferenças ao nível epistemológico e metodológico da clássica análise de conteúdo» (Azevedo In Esteves e Azevedo, 1998:107). O que há de comum às diferentes abordagens da análise de discurso é a ideia que a linguagem e/ou discurso não são um meio transparente e neutral, a linguagem é intencional e interpretativa. A ideia chave é que toda a linguagem «constrói, regula e controla o conhecimento, as relações sociais e as instituições» (Azevedo In Esteves e Azevedo, 1998:108). Ao serem considerados aspetos chave que temos que ter em conta durante a realização da prática de análise do discurso, existem três eixos de consenso na investigação discursiva: variabilidade, construção
e função.
Tradicionalmente, as metodologias das ciências sociais procuram na regularidade uma forma consistente de observações e afirmações, para confirmar ou abjurar uma teoria, enquanto na análise de discurso a procura da regularidade é baseada na inconsistência e na variação de registos, ou seja, na variabilidade. Os analistas não tratam a linguagem como um indicador de outras situações, nem tentam recuperar os acontecimentos, o contexto e os processos cognitivos nos discursos, mas concentram-se nos seus usos e nos efeitos da sua utilização.
O objetivo deste processo é de «nos conduzir a ―construções discursivas‖ composta por diversos fragmentos de significados que são produzidos conjuntamente num texto particular» (Azevedo In Esteves e Azevedo, 1998: 108). Assim, a análise da variabilidade tem como intuito decantar a diversidade de significados existentes e evidenciar como a linguagem é utilizada numa multiplicidade de funções, cujo uso tem uma variedade de consequências. A segunda característica da investigação discursiva é a dimensão construtiva da linguagem, na forma como a atividade simbólica utiliza recursos culturais para tornar compreensível a terceiros (Parker, 1995). As abordagens discursivas representam modos interpretativos e qualitativos de análise, que se focam na forma como a linguagem é utilizada enquanto mecanismo vinculante na construção de sentido, delimitado pela nossa interação e construção de textos sociais. Assim, a linguagem não se resume a um estado mental individualizado e individualizante, ou um processo cognitivos, mas é um local ativo para a negociação contínua de vários significados, transladando o foco das estruturas psíquicas para as estruturas sociais. A linguagem não existe na cabeça, mas existe no mundo (Rueda & Antaki, 1998, 133).
A terceira e última característica consensual é a função. Em vez de tentar chegar ao significado por detrás das palavras, a análise discursiva foca-se na sua utilização e nos efeitos da linguagem. Mesmo quando se classifica, de forma descritiva, o beneficiário do RSI como um «preguiçoso», os comentários sociais têm sempre outros efeitos, sejam eles para o reforço, ironia ou de apoio a esse mesmo estigma. Assim, é colocada, contra a prática argumentativa, uma prática sociológica onde a magia (força) da palavra é, realmente, social em que a autoridade é exterior à própria linguagem (Bourdieu, 2003). As referências teóricas são os «atos da fala» (Austin, 1962; Searle, 1969) e a pragmática, cuja disciplina «analisa os usos dos enunciados, tendo em conta o contexto» (Esteves, 1998: 110).
Há neste contexto um debate entre interno-externo, ou seja, entre por um lado, aqueles que têm uma perspetiva mais individualista (seja pela focalização dos discursos dos indivíduos ou por considerarem as estruturas linguísticas como determinantes para a atribuição do sentido) e, por outro, aqueles que defendem que tudo está na linguagem e que as nossas competências cognitivas podem ser desfeitas por um discurso que nos é exterior. Para Moisés Martins (1998), trata-se da oposição entre uma «argumentação ―na língua‖» que pressupõe que o caráter argumentativo de um enunciado depende da sua forma linguística e, por outro lado, uma argumentação cuja legitimidade é atribuída pelos critérios extralinguísticos, em que a competência linguística não entra na estruturação de significado.
Dentro da análise de discurso afigura uma corrente associada cuja principal noção é o «repertório interpretativo», identificado pela utilização de metáforas recorrentes entre outras figuras de discurso. Os investigadores que adotam este estilo de análise, centram-se num plano «interno» já que se concentram sobre os indivíduos, marginalizando as dimensões políticas nos discursos. Posicionado noutro pólo, encontramos Parker (1992) entre outros. Na esteira do pensamento de Parker (1992), os discursos são transindividuais, não existindo dentro de indivíduos particulares, mas a sua existência é atribuída à comunidade em si, aproximando-se da visão de Foucault, em que os discursos são práticas que sistematicamente formam os objeto sobre quais incidem.