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Base de données des rejets atmosphériques 2012

Dans le document 2- Rapport final : Annexe_1_à_9 (Page 93-117)

Creio não estar equivocado ao afirmar que é na suposta semelhança entre Escobar e Ezequiel que se dirigem todas as forças e atenções de Dom Casmurro. Bento será insistente no assunto, pois, como ele próprio diz, “Há conceitos que se devem incutir na alma do leitor à força de repetição”.315 Mas não é apenas Bento que vê a semelhança entre os dois personagens; a própria Capitu reconhece que a semelhança existe. Na verdade, é a personagem quem nota pela primeira vez e chama a atenção de Bento ao assunto, no capítulo “Anterior ao anterior”, quando pergunta ao marido: “Você já reparou que Ezequiel tem nos olhos uma expressão esquisita? (...) Só vi duas pessoas assim, um amigo de papai e o defunto Escobar”.316 Aliás, é importante notar que a semelhança não seria apenas com Escobar, mas também com “um amigo de papai”, afastando a hipótese da exclusividade. De qualquer modo, se Capitu nota a semelhança quando o filho era ainda pequeno, ela volta a confirmar depois, mas com o nome de “casualidade”, e já sob as suspeitas de Bento: “Sei a razão disto [dos ciúmes]; é a casualidade da semelhança... A vontade de Deus explicará tudo... Mas não falemos nisto; não nos fica bem dizer mais nada”.317 Como se sabe, a vontade de Deus não explicou nada, e Capitu acaba morrendo na Suíça.

E tem mais. A semelhança não é apenas entre Ezequiel e Escobar, mas também entre “os dois pequenos”. Pelo menos esta é a visão de Sancha, construída no capítulo “Amigos próximos”. Bento discorda, e explica que isso “é porque Ezequiel imita os gestos dos outros”. Já Escobar faz um adendo e defende: “as crianças que se frequentam muito acabam parecendo-se umas com as outras”.318 Sendo ou não semelhantes, a sugestão está feita, e nesses casos a sugestão importa mais que a semelhança em si, afinal também a suposta semelhança entre Ezequiel e Escobar, que é vista por Bento com naturalidade, não é outra coisa senão uma hipótese. E todas as sugestões, como se não bastasse, são refeitas através da semelhança dos nomes, mas isso em outro nível narrativo:                                                                                                                          

311 NANCY, Jean-Luc. La mirada del retrato, p. 58.

312 MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. “Dom Casmurro”. In: Obra Completa. V. I: Romance, p. 946. 313 Idem, p. 964. 314 Idem, p. 979. 315 Idem, p. 963. 316 Idem, p. 1059. 317 Idem, p. 1065. 318 Idem, p. 1049.

o primeiro nome de Escobar é justamente Ezequiel, que foi batizado assim como forma de homenagear o amigo, sendo que a filha de Sancha com o marido é chamado de “Capituzinha”, para que não se confunda com a primeira. “Quando íamos a Andaraí e víamos a filha de Escobar e Sancha, familiarmente Capituzinha, por diferençá-la de minha mulher, visto que lhe deram o mesmo nome à piá (...)”, escreve Bento, na única referência que faz ao nome da criança.

A questão principal, no entanto, é ainda anterior ao momento em que o narrador passa a construir de maneira detida, pela repetição, através de uma série de descrições, insinuações e ênfases sugestivas, a hipótese de que Ezequiel é mesmo “filho do homem”, construção que encontra o ápice no capítulo intitulado, vejamos só, “A fotografia”. A questão, no entanto, como disse, é anterior e consiste na maneira como o terreno foi se preparando para tal. Por isso o capítulo “A fotografia”, um dos mais curtos do livro, quando Bento e Capitu olham “para a fotografia de Escobar, depois um para o outro”, e então “a confusão dela fez-se confissão pura”, enfim, este capítulo não deve ser lido senão ao lado de outro, bem anterior, que chama, por sua vez, “O retrato”.319 Eis a associação que leva a entender a teoria do retrato machadiana e nos leva, portanto, a relativizar a naturalidade da semelhança em Dom Casmurro. Por um lado, e esta fica sendo a crença de Bento, a semelhança deve ser vista através dos olhos da naturalidade, afinal o narrador acredita, conforme o último capítulo atesta, na teoria de que a vida é como a natureza: “(...) se te lembras da Capitu menina, hás de reconhecer que uma estava dentro da outra, como a fruta dentro da casca”.320 Por outro lado, conforme a fala de Gurgel, pai de Sancha, e não de Bento: “Na vida há dessas semelhanças assim esquisitas”.

De fato, em seu discurso Bento é cuidadoso a ponto de não dar tanta importância à estranha e suposta semelhança entre Capitu e a mãe de Sancha, embora reconheça que a semelhança existe. Por que a semelhança seria “esquisita”? Simplesmente porque, diferente de todas as outras, e diferente da convicção de mundo proposta por Bento, ela não é familiar ou natural. Ainda antes de concordar com Gurgel, em todo caso, o narrador se justifica, sugerindo falta de legitimidade na opinião do interlocutor: “Um dos costumes da minha vida foi sempre concordar com a opinião provável do meu interlocutor, desde que a matéria não me agrava, aborrece ou impõe. Antes de examinar se efetivamente Capitu era parecida com o retrato, fui respondendo que sim”.321 Ora, se Bento concorda com Gurgel, mas sem muita convicção, antes de examinar o quadro, ele timidamente confirma certa semelhança depois: “Também achava que as feições eram semelhantes, a testa principalmente e os olhos”. Ficamos sabendo, além disso, que outras pessoas além dos dois concordavam com a hipótese: “Então ele disse que era o retrato da mulher dele, e que as pessoas que a conheceram diziam a mesma coisa”. Sintomaticamente, o pai ainda acredita que a semelhança não era apenas física: “Finalmente, até a amizade que ela tem a Sanchinha; a mãe não era mais amiga dela... Na vida há dessas semelhanças assim esquisitas”.322

Digamos então que há pelo menos duas ideias de semelhança em questão no romance, que se cruzam no discurso de Bento, e que também se perdem, mas que devem ser localizadas e desatadas durante o processo de leitura, embora desatadas apenas para notar a maneira como o nó é feito, enfim. Por um lado, Capitu se parece com a mãe, mas não a sua, e sim à de Sancha. Por outro, Bento é “a cara do pai”, conforme título do capítulo, tema do seu retorno de São Paulo: “Mano Cosme, é a cara do pai, não é?”, pergunta a mãe, que ouve como resposta: “Sim, tem alguma coisa, os olhos, a disposição do rosto. É o pai, um pouco mais moderno – concluiu por chalaça”. Depois a mãe ainda insiste, como se fosse o próprio defunto ali diante dela: “Mas veja bem, mano Cosme, veja se não é a figura do meu defunto. Olha, Bentinho, olha bem para mim. Sempre achei que te parecias com ele, agora é muito mais. O bigode é que desfaz um pouco...”.323 Em outras palavras, a semelhança é natural por um lado, mas também, por outro, é “esquisita”, ou seja, uma coincidência sem explicação, exterioridade, estranheza. Daí que a suposta semelhança entre Escobar e Ezequiel, no fim, seja a encarnação viva e indecidível do conflito: é quando todas as ideias de semelhança se cruzam em uma imagem só, o que nos sugere, pela construção detida durante toda a narrativa, uma teoria do retrato.

Em quase todos os casos, as semelhanças se dão entre um personagem e a imagem de outro: primeiro Capitu e o retrato da mãe de Sancha; depois Bento e o retrato do próprio pai; e finalmente, o mais importante, Ezequiel e o retrato de Escobar, cujo grau de parentesco é desconhecido. Esta espécie de série de semelhanças, mais do que testemunhar a reprodução das imagens na ficção machadiana, sugere que devemos pensar também sobre a natureza dos seus efeitos. “Como toda imagem exterior tem consequências psicógenas para quem as                                                                                                                          

319 O crítico alemão Thomas Sträter, que vem se dedicando através de pequenos ensaios a alguns estudos pioneiros sobre a fotografia em Machado de Assis, sobretudo em Dom Casmurro, foi o primeiro a notar que o número do capítulo “A fotografia” faz alusão, em sua numeração romana, CXXXIX, ao ano do anúncio da técnica do daguerreótipo, 1839, que é também o mesmo ano do nascimento do escritor, relação que indica, no mínimo, a consciência que Machado tinha do problema (STRÄTER, Thomas. “Olhares fotográficos cruzando-se n’O espelho: Machado de Assis e Guimarães Rosa”. In: Machado e Rosa: Leituras Críticas, p. 228).

320

MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. “Dom Casmurro”. In: Obra Completa. V. I: Romance, p. 1072. 321 Idem, p. 1017.

322 Idem, Ibidem. 323

recebe, também toda imagem que emitimos produz efeitos”, defende Emanuele Coccia em sua brilhante reflexão sobre “a vida das imagens”, que é A vida sensível. No romance de Machado, como argumenta Coccia também em sua teoria, as imagens agem sobre os sujeitos, possuem eficácia e uma espécie de vida própria, na medida em que influenciam outros personagens, além do próprio narrador. Dessa maneira, Coccia define o efeito de toda imagem como a coincidência com a sua “própria reprodução, com o seu reproduzir-se em outra matéria: seu efeito não tem outra forma, senão sua forma mesma”, e na sequência formula de modo ainda mais preciso: “Os efeitos produzidos por uma imagem são, precisamente, a ‘sua imagem e semelhança’”.324 Em poucas palavras, se a influência das imagens é propensa ao erro e à dissimulação, isso acontece porque elas são alienadas em relação ao sujeito, pois o efeito de uma imagem, enfim, é sempre outra imagem.

De maneira que é possível sugerir (o que mais uma vez, a respeito do romance, recoloca a noção de retrato no centro da discussão) que Bento narra, antes de qualquer coisa, influenciado pelo efeito das reproduções, sendo que o próprio Machado deve ter dado uma breve pista disso logo nas primeiras páginas do romance, quando o narrador lembra de “reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga rua de Matacavalos”, e é só por isso que Bento está propenso ao erro: ele reflete, lembra e julga sempre a partir das imagens. Bento vive, de fato, no reino das imagens, “vive só, com um criado”, cercado por retratos, “os medalhões de César, Augusto, Neto e Massinissa”, e evocando, no instante da escrita, a ilusão das “inquietas sombras”. Sendo assim, Dom Casmurro é o romance das imagens porque é também a ficção em que elas melhor se reproduzem, como negativos em um estúdio fotográfico, aliando arte e técnica, e evocando também, a seu modo, o mundo das mercadorias. Por outro caminho, lembrando de Foucault, chegamos mais uma vez à ideia de exterioridade, quer dizer, a um regime de existência diferente daquele da interioridade, já que a imagem, diz Coccia, é alienada duas vezes: primeiro em relação aos corpos, e depois em relação à alma, sendo assim o “fora absoluto”.325

Além da influência, existe ainda outro traço que caracteriza, de acordo com a teoria de Coccia, a vida própria do sensível: esta característica é a imitação. Em resumo, se imitamos o outro ou a si mesmo não é apenas porque não temos uma forma e precisamos dela, mas sobretudo porque “a alma do imitado é capaz de existir fora dele e de informar outros sujeitos que não ele mesmo”. Desse modo, diz o crítico, o que se costuma chamar de “faculdade mimética” diz respeito a uma potência bastante específica, que “permite identificar-nos com uma imagem e reconhecer nossa natureza mesmo quando ela está fora de nós (...)”. Se existe mimetismo, é porque as formas da imagem existem fora dela, ou seja, são móveis. De modo que a imagem é não apenas o que se transmite, e que possui efeitos e influência, mas também aquilo que se pode apropriar:

O mimetismo é consequência do fato de que toda forma, mesmo quando ela parece ter uma relação essencial com o sujeito que a hospeda, é capaz de multiplicar-se e de reproduzir-se fora do próprio sujeito, de transmitir-se a outros, salva veritate sui et subiecti, sem que o sujeito a perca ou se transforme e sem nenhuma necessidade de transformação da forma mesma. A imitação é essa vida secreta e veicular das formas. (...) A imagem não é, assim, apenas o absolutamente transmissível, mas também o infinitamente apropriável: aquilo que permite a apropriação de algo sem ser transformado por ela e sem transformar o objeto de que é imagem e semelhança.326

Como se sabe, Ezequiel é uma espécie de mímico, o que é interessante porque tal figura, se seguirmos também o conceito de Hal Foster em seu belo ensaio “Mímico Dadá”, mais do que um “homem sem fundamentos”, é um “homem sem homem”.327 Ezequiel é o único personagem de Dom Casmurro que, digamos, não possui origem definida, ou possui mais de uma, e por isso ele deve apenas imitar outras imagens, se adaptar (mimeticamente) ao próprio meio, assumindo as condições de seu tempo. Além do mais, o “defeito de Ezequiel”, pois é desse modo que os pais se referem à sua mania, como erro a ser censurado, parece confirmar o fascínio de Machado por um mundo em que “as imagens estão liberadas de qualquer significado profundo”, ou seja, situadas na própria superfície, sem vínculo com a pessoa.328 Desse modo, Ezequiel seria outra forma de encarnar, através da pura imitação, gesto sem vida, o próprio rompimento com a representação, criando outra vez efeito de espelhamento, representando o que já é representado, na verdade reproduzindo, ou seja, no romance, Ezequiel faz a função do próprio caráter “fértil” das imagens. “Imitar como?”, pergunta Capitu a Bento, que responde: “Imitar os gestos, os modos, as atitudes; imita prima Justina, imita José Dias; já lhe achei até um jeito dos pés de Escobar e dos olhos...”.329 Trata-se de uma imagem que só deve representar outras imagens, cindindo assim qualquer                                                                                                                          

324 COCCIA, Emanuele. A vida sensível, p. 72. 325 Idem, p. 23.

326 Idem, p. 57-59.

327 FOSTER, Hal. Mímico Dadá. In: Boletim de Pesquisa do NELIC. Florianópolis, Santa Catarina. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/nelic/article/viewFile/1984-784X.2012v12n17p96/24219>. Acesso em: 12 fev. 2014. 328 Idem. O Retorno do Real. In: Revista Azambuja. Disponível em: <https://www.academia.edu/4155049/O_retorno_do_real_Hal_Foster>. Acesso em: 11 abr. 2014.

329

relação com um mundo fora da ficção, fazendo aparecer, como sugere Foucault, o simulacro da pura exterioridade. De resto, o personagem torna-se arqueólogo, alguém que se interessa pelo passado, mas também pelos vestígios.

Na cena do regresso de Ezequiel para o Brasil, já no fim do livro, depois de uma série de contrastes e desencontros, todas as imagens se conformam. Eis o argumento definitivo para Bento, que provaria a suposta culpa de Capitu: certa adequação entre as imagens. Assim, quando Ezequiel vê Bento, na verdade vê o seu retrato, e logo reconhece o pai: “Conheceu-me pelos retratos e correu para mim”, diz o narrador. Depois, o primeiro enunciado que dirige a Bento será justamente este: “Papai não faz diferença dos últimos retratos”. Bento, por sua vez, não pode ver Ezequiel, mas apenas Escobar: “Não me mexi; era nem mais nem menos o meu antigo e jovem companheiro do seminário de S. José, um pouco mais baixo, menos cheio de corpo, e, salvo as cores, que eram vivas, o mesmo rosto do meu amigo”, escreve Bento, e ainda insiste, repetindo quase a mesma informação com mais ênfase, última cartada em sua tentativa de naturalização de todas as semelhanças: “Trajava à moderna, naturalmente, e as maneiras eram diferentes, mas o aspecto geral reproduzia a pessoa morta. Era o próprio, o exato, o verdadeiro Escobar. Era o meu comborço; era o filho de seu pai”.330 Em outras palavras, em uma inversão irônica e radical, a cópia passa a ser o próprio original, mal-entendido que acaba tornando indistinta, na verdade, a própria separação, difundindo "a potência da falsidade contra os direitos da verdade”.331

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