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LA BARQUE ET LE TRAIN DE BOIS

Dans le document D'UN RUISSEAU (Page 172-183)

A ultrassonografia portátil é uma área de conhecimento médico com pouco mais de uma década de aplicações e de pesquisas. Trabalhos relevantes nesta área fundamentaram a sua aplicação e são comentados neste tópico.

Dada sua incidência e prevalência, uma das áreas abordadas na pesquisa foi a cardiologia. Um estudo conduzido com 94 pacientes na Universidade de Chicago destaca que, em cardiologia, nem sempre a anamnese e exame físico de acordo com a propedêutica são capazes de detectar alterações cardiovasculares sutis. O estudo avaliou o uso de aparelho portátil de ultrassom, por médicos com treinamento limitado na área de ecocardiografia.

Do total, 28 pacientes (30%) tinham franca indicação para ultrassom cardíaco que foi realizado por cardiologistas; os 66 pacientes restantes realizaram ecocardio com um médico generalista. Destes 66 pacientes, 26 deles apresentaram achados que não eram suspeitos após a propedêutica (39%), confirmando os valores preditivos positivos (VPP) da literatura (45%). Concluiu-se que a ultrassonografia portátil não se deve sobrepor à ecocardiografia. No entanto, os aparelhos portáteis, utilizados por clínicos gerais, foram capazes de detectar importantes alterações cardíacas como disfunção ventricular esquerda e alterações valvulares, patologias essas que, precocemente detectadas, podem permitir uma melhor condição de saúde ao paciente (FEDSON et al., 2003). Estudo bicêntrico realizado na Espanha e Portugal destacou que a utilidade de um aparelho portátil como o Vscan™ na ecocardiografia permitiu um aumento no número de diagnóstico de patologias cardíacas consideradas “silenciosas” (ICC, disfunção valvular). O estudo foi realizado com 189 pacientes, dos

quais 141 (74,6%) apresentaram alterações detectáveis pela técnica de US portátil (CARDIM et al., 2010).

A área de patologias musculoesqueléticas foi abordada por estudos de Ohrndorf et al. (2010) e de Bruyn et al. (2010). O primeiro foi realizado com 15 pacientes portadores de artrite reumatóide (AR) objetivando avaliar a curva de aprendizagem de três grupos de ultrassonografistas do sistema musculoesquelético (júnior, experiente, iniciante). Respectivamente, os índices Kappa foram 0,82; 0,9 e 0,74. Empregou-se aparelho Esaote Technos MPX®, avaliando a validade interna do exame ultrassonográfico. O segundo estudo comparou os resultados inter e intraobservador, além de compará-los com a ressonância magnética (“padrão-ouro”). Avaliou as ultrassonografias do ombro de nove pacientes portadores de artrite reumatóide. Os valores de Kappa foram de 0,5 para tendinite do supraespinhoso; 0,82 para tendinite de subescapular e 0,84 para ruptura de tendão do supraespinhoso. Ainda na área de ultrassonografia do sistema músculo esquelético, Patil e Dasgupta (2012) realizaram revisão da literatura avaliando o potencial da ultrassonografia auxiliar o diagnóstico de patologias do sistema musculoesquelético. Os autores defenderam que o ultrassom deve ser a primeira abordagem para investigação de patologias reumatológicas e destacam situações em que esta técnica permite achados mais específicos até do que a ressonância magnética.

A literatura contemporânea que aborda o emprego da ultrassonografia em medicina interna parece convergir na ênfase do treinamento do futuro profissional médico, desde o aprendizado de anatomia (PATTEN, 2015) e de propedêutica médica (SANCHEZ et al., 2014), pesquisando se a ecografia pode ser incorporada ao currículo do ensino médico e se os estudantes são capazes de realizar ultrassonografias abdominais básicas, sem um longo período de aprendizado. Como resultado global, 12 estudantes realizaram 60 exames, obtendo um índice Kappa de 0.9 no diagnóstico de calculose das vias biliares, esplenomegalia, aneurisma de aorta abdominal, derrame pericárdico, derrame pleural e retenção miccional aguda (SANCHEZ et al., 2014). Todas estas condições, facilmente visualizáveis ao exame de ultrassom, podem evoluir rapidamente a uma condição de maior gravidade. Os autores concluem que um ensino sob tutela foi capaz de permitir aos alunos localizarem os principais planos anatômicos; além disso, percentual elevado dos

estudantes foi capaz de detectar alterações ou enfermidades abdominais mais complexas.

Um estudo australiano de revisão de literatura sobre trabalhos realizados nos Estados Unidos (10 estudos), Dinamarca (dois estudos) e na França, Malásia e Turquia (um estudo em cada país), abordou ultrassonografia portátil durante os cursos de formação médica. Dez indicadores de qualidade foram avaliados em cada um dos programas de treinamento publicados, conforme o Instituto Americano de Ultrassom em Medicina. A revisão apontou que é viável o treinamento em ultrassonografia já no início do treinamento médico; no entanto, destaca que o impacto clínico de tais estudos ainda não pode ser claramente avaliado, algo que, aliás, está enfatizado em cada um dos estudos revisados. Apontaram os autores que, se a competência é função da experiência, quanto mais cedo o aprendizado em ultrassonografia for implantado nos currículos médicos, melhor entendimento o clínico terá do potencial e limitações da técnica de exame (DICKSON et al., 2017). Nesse mesmo ano, Dietrich (2017a) analisa a ultrassonografia portátil e defende seu uso logo nos estágios iniciais do ensino médico. Pondera que, em não muito tempo, o exame de ultrassom será visto como um complemento obrigatório do exame físico da mesma forma que há um século o otoscópio, oftalmoscópio e o martelo de Buck foram incorporados à maleta do médico. Aponta Dietrich o fato de que o emprego de ultrassom no ensino médico é, ainda, um trabalho em progresso, devido à não padronização e particularidades culturais das diversas escolas médicas. Completa o estudo com uma importante questão: em qual momento do curso iniciar o treinamento, já que, para aproveitar as vantagens da técnica ultrassonográfica, é necessário profundo conhecimento de anatomia, de fisiologia e de patologia. Pondera que deveria ser oferecido o programa para uma carreira acadêmica de ensino em ultrassonografia, incluindo PhD, pois a área está em franca expansão. Sendo um dos maiores especialistas contemporâneos na técnica ultrassonográfica, o autor assina um importante artigo que reflete o posicionamento da Federação Mundial de Ultrassom em Medicina e Biologia (WFUMB - World Federation for Ultrasound in Medicine & Biology) sobre a importância do emprego da ultrassonografia PoC-US (DIETRICH et al., 2017b).

No âmbito da saúde pública, parece não haver dúvida sobre os benefícios do emprego da ultrassonografia portátil. Estudo de revisão argentino

aborda a técnica de ultrassonografia, alertando que, em muitos casos, é o primeiro e único necessário exame de imagem a ser solicitado (POGGIO et al., 2016). Ao perguntarem “Por que, quando e como?” os autores chamam a atenção à diretiva do Instituto Americano de Ultrassom em Medicina - Ultrasound first. Concluem, sendo radiologistas, sobre a necessidade de os médicos lembrarem-se do potencial diagnóstico e da segurança que a ultrassonografia apresenta, evitando assim, radiações desnecessárias aos pacientes e ônus desnecessários ao sistema público de saúde.

Observação cotidiana da prática clínica mostra que, mesmo com uma anamnese e exame físico detalhados, há condições onde uma maior certeza diagnóstica é requerida (BICKLEY; SZILAGYI, 2017). Tais situações ocorrem quando o paciente pode apresentar-se pouco colaborativo ao exame, padecer de comorbidades que restrinjam sua resposta à propedêutica ou em situações onde os achados não são patognomônicos dos agravos que se está investigando. Após os exames bioquímicos, os exames de imagem são a segunda ferramenta para complementar o raciocínio clínico, fornecendo evidências mais concisas para os diagnósticos diferenciais propostos pelo médico. Na categoria dos exames de imagem, a ultrassonografia se apresenta como uma ferramenta de fácil aprendizagem e baixo custo relativo. O fato de ser realizada diretamente por médicos (BRASIL, 2013b) permite que os achados possam ser informados ao paciente em tempo real. Apesar de tais vantagens, esse recurso diagnóstico não está acessível na saúde pública nacional na mesma proporção que na saúde privada (BRASIL, 2012a), conforme já quantificado no item 1.1. A ultrassonografia convencional tem uma vasta base de informações científicas e protocolos para sua aplicação. A base de dados relativos à ultrassonografia portátil ainda é bastante modesta e, no Brasil, à época em que foi proposta esta pesquisa, havia apenas um outro projeto protocolado na Plataforma Brasil.

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