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Quando ela veio para cá... a mãe dela disse: Eu vou pagar uma conta e já volto... e esse já volto nunca voltou (risos)

Sandra teve os primeiros contatos com Beatriz quando foi inquilina em um cômodo alugado por parentes de sua mãe biológica, e por isso morava no mesmo quintal que a família da criança.

Sandra relata que a casa de Beatriz era um ponto onde usuários de drogas se reuniam. Beatriz tinha por volta de dois anos de idade e Benedito sempre falava para Sandra que naquela casa havia uma menina “muito bonitinha”.

Um dia, Sandra disse ter visto Beatriz, já com três anos, chorando porque queria um salgadinho de uma prima mais velha. Sandra e Benedito compraram o salgadinho e chamaram Beatriz para comer, e a partir daí se criou um vínculo com a criança:

E a partir desse dia ela começou a ficar lá em casa (...) aí depois desse dia ela já ia sozinha...Eu falava para ela: “não tem comida lá, você vem para cá...(risos)

Percebendo a acolhida que o casal dava a Beatriz, sua mãe biológica, Elizabete, foi permitindo que a filha passasse cada vez mais tempo na casa de Sandra, em finais de semana, enquanto moravam no mesmo quintal.

Percebendo o zelo de Sandra e Benedito com a criança, Mauro, o padrasto, aconselhou Elizabete a deixar que o casal batizasse Beatriz, o que ela consentiu, mas não realizou formalmente.

Sandra relata que, desde muito nova, Beatriz se mostrava muita esperta e falante, “bem desenvolvida”. Durante a pesquisa, nos dias em que Beatriz estava presente, foi observada essa característica de ser comunicativa e com grande domínio dos assuntos tratados pela mãe de coração. Beatriz sempre chamou Sandra de tia.

Depois, Sandra acabou se mudando de casa, alugando outra moradia no mesmo bairro, e Elizabete então passou a levar Beatriz para ficar alguns finais de semana ou mais dias na casa da tia/madrinha da criança, até que um dia deixou Beatriz para voltar logo e só voltou dias depois para visitá-la. Sandra então passou a assumir a responsabilidade pela criança.

Sandra conta que Beatriz não tinha certidão de nascimento, e, com ela, nenhum documento. A tia/madrinha tinha dificuldades quando Beatriz ficava doente, e contou com a cumplicidade dos trabalhadores da UBS do bairro, que atendiam Beatriz se passando pela própria Sandra no cadastro. Mas a mãe de criação tinha muito medo:

Todo mundo falava assim para mim: “ Sandra... se essa menina ficar doente...se ela entrar no hospital... você não tira nunca mais”. Eu falava ... “meu Deus do céu como é que vai ser”

A formalização da guarda se deu sem ciência da mãe biológica. Com o auxílio de Mauro, companheiro de Elizabete, Sandra conseguiu entrar na casa da família biológica e achar a certidão de “nascido vivo” de Beatriz. Daí em diante, incentivada pela assistente social do posto de saúde e pela escola na qual fez cadastro, tentou regularizar a documentação da criança. Procurou o Conselho Tutelar e o Fórum da região, foi aconselhada a batizar Beatriz e, em posse da certidão de batismo e do documento de nascido vivo, conseguiu uma guarda provisória da

menina. Sandra disse que sempre aconselhava Elizabete a procurar o Conselho Tutelar para expedir a certidão de nascimento de Beatriz, mas que Bete não aceitava, pois tinha medo de se apresentar e perder a guarda da filha biológica.

A mãe dela, trata ela como se fosse um troféu, quando encontra com ela na rua fica falando para todo mundo...Essa é minha filha...que bonitinha...” (Sandra, falando sobre

Bete).

O batizado da criança foi marcado e realizado também sem participação da mãe biológica, embora Elizabete reconheça Sandra como comadre, madrinha de Beatriz:

Eu fui no Conselho Tutelar e falei “ eu to providenciando tudo para batizar ela mas como eu vou batizar sem nenhum documento?”. Aí minha irmã conhece o padre e falou: “Vai lá em cima... fala com o padre que você tem a certidão de nascido vivo do hospital e que você tem o papel do Conselho Tutelar que é a tutela dela49”, que é o único documento que você

tem dela...” Aí eu fui, conversei com o padre e ele falou: “Aceito todo esse papel. ”

Em posse das fotos do batizado e da documentação de nascido vivo, Sandra foi ao Fórum pedir a guarda da criança:

Quando chegou no Fórum... ele falou (o escrivão): Cadê a mãe? Aí eu disse... ah a mãe só vem se você mandar buscar (...) Ele falou: Eu não vou mandar buscar nada! Aí já começou a bater o documento... aí saiu que a mãe é negligente...

Sandra conseguiu expedir a certidão de nascimento de Beatriz com nome e sobrenome da mãe biológica, porém Sandra escolheu para criança um segundo nome que lhe agradava.

Aí ficou “Beatriz Victória”, Beatriz da mãe dela e Victória que eu escolhi.

Sandra disse que não contou para a mãe biológica sobre a guarda de Beatriz:

Eu não contei para ela (da guarda) porque ela é uma pessoa explosiva (...) Eu acho assim que ela não vai ver que eu fiz um jeito da filha dela (Beatriz) não ir para um abrigo

Bete sempre que podia visitava Beatriz, porém, quando estava suja ou machucada, Sandra recomendava que ela evitasse ver a menina:

Quando ela apanha ela não vem aqui para a menina não ver. (...)Eu já falei para ela que o Juiz quer ela limpa para chegar perto da Beatriz... e não usando droga. E nem assim judiada nem nada... porque a menina fica chorando aí quando vê ela assim.

49 Sandra não tinha tutela, apenas um documento de guarda provisória por trinta dias, expedido

Sandra também chegou a visitar a casa de Bete algumas vezes. A mãe de coração sugere que a casa da mãe biológica era de alvenaria e com melhor infraestrutura do que o barraco da família de Sandra.

Segundo Sandra, Bete parecia preocupada com o bem-estar de Beatriz, e demonstrava esperança de melhorar, criando condições para ter a filha de volta. Beatriz também nutre grande afeto pela mãe biológica, sempre perguntando para Sandra sobre notícias de Bete.

Bete teria ido uma vez à casa de Sandra avisar que estava indo para o Rio de Janeiro, e que, se tudo desse certo, levaria a filha. Sandra suspeitava que Bete estava com dívida por conta de drogas e não poderia ficar mais na região, tendo a vida ameaçada. Ao final da pesquisa, fazia um ano que a mãe biológica não dava notícias, e a família de criação não sabia onde ela estava.

Sandra diz que a aceitação de Beatriz na nova família por Benedito é marcada por grandes tensões. O companheiro demonstra gostar da menina, diz que é como filha, mas fica enciumado da atenção que Sandra dispensa a ela.

Ele briga porque ele fala que eu defendo muito a Beatriz. Eu falo: “Benedito...se eu não defender a Beatriz vou defender quem? Olha a situação que a menina viveu a vida inteira”

Benedito reclama mais obediência de Beatriz e fala mal de sua família biológica, referindo-se a Bete como drogada e outros termos ofensivos. Também ameaça levar a menina para o abrigo, o que Sandra diz que nunca deixará acontecer. A mãe de criação demonstra temer perder a filha para qualquer pessoa, mesmo para a mãe biológica, que não sabe que a mãe de coração tem a guarda.

Beatriz demonstra comportamento semelhante aos adultos em suas falas e ações. Sandra conta que, durante uma bronca da mãe de coração, Beatriz responde:

“Você pensa que é fácil viver de favor na casa dos outros?!”

Sandra alterna a avaliação que faz da família extensa quanto à “adoção” de Beatriz. Ora diz que todo mundo gosta e mima, ora diz que as irmãs fazem diferença entre ela e os sobrinhos “legítimos”.

A mãe de criação guarda todos os papéis, documentos médicos e escolares para, se for necessário, comprovar os cuidados com Beatriz. Disse que foi orientada a isso no Conselho Tutelar. Manter a guarda é uma preocupação constante da mãe de coração. Durante o

aniversário de Beatriz50 na hora de cortar o bolo, enquanto a família é fotografada, Sandra fala em tom alto:

Essa foto aqui é importante... vou levar no Fórum para o juiz ver.

Com esses comentários, a filha de criação sempre está exposta à lembrança da indefinição dos laços que a une à nova família e da luta da mãe de criação para manter sua guarda.

Eu tenho fotos do batizado, eu tenho fotos aqui da escola que a professora Diana deu, eu guardo tudo, tudo é prova. Cadernos dela. Eu vou no fórum e vou levar os cadernos dela no Fórum

Beatriz ainda chama Sandra de tia, mas fala que tem duas mães:

Eu tenho a mãe Bete...que é minha mãe de sangue e tenho a minha tia (Sandra) que é minha mãe de coração” (Fala de Beatriz)

Em uma das visitas, enquanto Beatriz desenhava sua família, Sandra não permitiu que a filha de coração representasse primeiro a mãe biológica, a irmã biológica e o padrasto. Demonstrando ciúmes, Sandra chamou a atenção para que ela e o companheiro fossem os primeiros representados no desenho da criança.

Beatriz também tem um diário comprado pela mãe de coração e, como ainda não sabe escrever, dita para Sandra escrever que ela está com saudade de sua mãe Bete, que deveria estar no Rio de Janeiro.

50 Por convite de Sandra, compareci à festa de aniversário de sete anos de Beatriz, que foi realizada na casa da irmã da mãe de criação, no Jardim Vila Verde.

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