Les résultats des entretiens qualitatifs auprès des bénéficiaires et non-bénéficiaires
Encadré 5 le cas d’une PME très intensive en R&D, avec le statut de JEI et agréée
5 Les non-bénéficiaires du CIR
A história da colonização do município de Concórdia se confunde com a história de colonização do oeste catarinense, pois não são processos distintos. Vale lembrar também que à época da fundação (1934) o município de Concórdia ocupava uma área superior a três vezes a área atual. Sendo assim, no decorrer deste capítulo faremos referência ora ao oeste catarinense, ora a região de Concórdia, assim como ao município, quando as informações e dados apenas a este se referirem.
Ao abordarmos a questão da colonização e desenvolvimento da agricultura familiar no município de Concórdia, faz-se, inicialmente, referência a alguns aspectos do sistema de produção e do modo de viver construídos e mantidos nas regiões de origem dos “colonos”32 que aqui aportaram. Em seguida, analisa-se o processo de colonização da região e, também, a trajetória para a definição da atual situação sócio-econômica dos agricultores familiares do município, com ênfase na influência da agroindústria nesse processo. Considera-se que a indicação da origem e da trajetória da agricultura familiar no município constitui-se em âncora para a análise que será procedida no próximo capítulo.
Não é nossa pretensão empreender a uma caracterização detalhada do modo de vida colonial ou de aprofundar a discussão em relação às possíveis diferenciações entre distintos modos de viver e de organizar os processos produtivos. Pretendemos apenas, mesmo que de
32 Como resultado de um processo de imigração e colonização do sul do Brasil é que surge o “colono” , um pequeno
produtor rural, que constituiu um modo de viver característico. De modo simples, no oeste catarinense o termo “colono” designa o sujeito que vive e trabalha (na agricultura) em uma “colônia”. O termo “colônia” tem duplo significado: pode se referir ao meio rural, interior, ou então, referir-se a área de terra padrão na região (24,2 há ou 10 alqueires paulistas).
forma sumária e nos limites desta seção, indicar a forma social da qual a agricultura familiar do oeste de Santa Catarina é originária, referenciando alguns aspectos que nos permitam compreender a trajetória dos agricultores familiares do oeste de Santa Catarina, a partir de um modo de vida colonial.
A partir da imigração e colonização no sul do Brasil surge uma sociedade rural com características diversas em relação à sociedade rural brasileira tradicional, ou seja, dos proprietários de grandes áreas mantidas por mão-de-obra não familiar. Seyferth (1990), por exemplo, entende que numa orientação teórica mais geral a sociedade colonial pode ser caracterizada como camponesa, na medida em que construiu e manteve um modo de viver próprio e uma forma de produção específica, cuja base fundiária é a pequena propriedade, trabalhada pela família num sistema de policultura, sistema este que Schneider (1999) chamou de “sistema produtivo colonial”.
Se por um lado, como observa Schenkel (1997), o sistema de produção e o modo de viver implantado pelos “colonos” no sul do Brasil apresentam diversas características apontadas teoricamente como típicas do campesinato clássico, tais como a importância estrutural do grupo doméstico; a coincidência da unidade familiar com o local de trabalho, de produção, de consumo e de reprodução; a predominância dos interesses coletivos sobre os individuais, representada pela inquestionabilidade da autoridade paterna; e, ainda pela busca da auto-suficiência, por outro lado, o “colono”, ao contrário do camponês clássico, mesmo que através de uma economia de excedentes, sempre produziu para o mercado.
Dois argumentos podem ser colocados no sentido de reforçar a presença de relações mercantis nas áreas de colonização no sul do Brasil, desde a sua formação, a despeito da concepção inicial de que a “colônia” (propriedade) deveria ser, na medida do possível, auto- suficiente, dependendo o mínimo possível de produtos externos. O primeiro refere-se à exigência para que os “colonos” produzissem alimentos para o mercado interno que se encontrava em expansão e, também, porque o “colono” era obrigado a produzir excedentes para saldar seus compromissos, uma vez que, na segunda metade do século XIX, as terras passaram a serem vendidas. Em segundo lugar porque o “colono” era forçado a produzir excedentes para comprar mais terras em razão do reduzido tamanho dos lotes demarcados frente às necessidades das famílias que normalmente eram numerosas.
Embora produzindo para o mercado, a relação que o “colono” mantém com este pode ser caracterizada como uma “integração parcial em mercados imperfeitos”, tal como apontado por Abramovay (1992, p.115 grifos no original). A relação parcial ocorre em função da flexibilidade, ou então, da alternatividade para Garcia Jr. (1983), que o “colono” tem para com o destino de sua produção. A condição de proprietário dos meios de produção e, via de regra da própria produção, confere ao “colono” uma relativa autonomia em relação à comercialização da produção. Dependendo da estrutura e condições internas de cada propriedade, o “colono” pode optar por colocar o produto no mercado ou consumi-lo internamente (transformando o milho em carne, por exemplo) se esta for uma condição mais favorável para ele, sem comprometer a manutenção da família, seu principal objetivo.
O caráter “imperfeito” do mercado com o qual o “colono” mantém relações pode ser explicado pela freqüente ausência de concorrência nas operações de venda dos produtos, bem como na compra de insumos para a produção ou gêneros alimentícios não produzidos na “colônia’. Como explica Abramovay (1992 p.118), “a integração dos camponeses ao mercado realiza-se em condições tais que, permanentemente, existe a influência individual de agentes econômicos sobre a formação dos preços”. A intermediação entre os “colonos” e o mercado “perfeito”, tomado como aquele em que há plena concorrência, é realizada pelos donos de casas comerciais presentes no interior da colônia os quais arbitram a respeito, tanto dos preços dos produtos vendidos pelos “colonos”, quanto dos insumos por estes comprados.
Sendo assim, como observa Schneider (1999 p.23), “os donos de casas comerciais tornaram-se ricos e poderosos, chegando a exercer um papel de destaque no desenvolvimento da economia colonial”. A dificuldade de acesso às informações e ao mercado “perfeito” estabelece uma situação de dependência entre o “colono” e o comerciante, cuja atuação influencia o modo de produzir e de viver no interior das colônias. Ademais, as relações que se estabelecem entre o “colono” e o comerciante, freqüentemente, não são apenas de ordem econômica, mas também de ordem não econômica como de parentesco, de reciprocidade e de solidariedade.
A ocupação do espaço no interior das “colônias velhas”, reproduzida, posteriormente, no oeste catarinense por ocasião da colonização daquela região, caracteriza-se pela construção das residências nas próprias propriedades, junto às “picadas”33, dispostas paralelamente a estas em
33 Caminhos abertos na floresta demarcados nas divisas entre os lotes (colônias), muitos dos quais transformados,
cada um de seus lados, ficando relativamente próximas uma das outras na mesma “picada”, porém, distante em relação à “picada” seguinte, uma vez que a distância entre “picadas” era igual ao comprimento de dois lotes, ou seja, 6,4 km. Difere, desta forma, das aglomerações residenciais separadas das áreas de cultivo, típicas dos países de origem desses colonos, como apontado por (ROCHE, 1969).
O modelo dominante de família encontrado nas “colônias velhas” do Rio Grande do Sul, conforme Seyferth (1990), não é o de uma família nuclear, mas de uma família extensa, ou seja, situação em que viviam na mesma moradia geralmente três gerações: os pais, um dos filhos e sua prole e, eventualmente, os celibatários, num sistema patriarcal, onde a autoridade do pai é inquestionável, especialmente ao que se refere à herança e a economia doméstica.
Assentados em áreas cobertas por florestas, portanto, em condições completamente diferentes das regiões de origem, os “colonos” passaram a utilizar práticas agrícolas que eram adotadas pelos nativos como a coivara, ou seja, utilizando o fogo para a limpeza das áreas de cultivo. Para a realização do plantio é utilizada basicamente a enxada. Posteriormente, pequenas máquinas e equipamentos são introduzidos nas atividades agrícolas. Se, por um lado, a introdução de máquinas e equipamentos vem facilitar um pouco a execução de algumas tarefas e a possibilidade de explorar áreas maiores, por outro, acelera o processo de perda da fertilidade natural do solo pela erosão, bem como pela diminuição do tempo de repouso das áreas no sistema de rotação de terras.
O crescimento populacional obriga os colonos a utilizarem intensamente o solo. O uso intenso aliado à forma de exploração do solo adotada leva à perda da fertilidade natural tornando difícil a reprodução social no interior das “colônias”, pois não dispunham de meios adequados capazes de recuperá-lo.
Diante das dificuldades que se apresentavam para a reprodução das unidades familiares de produção nas “colônias velhas”, migrar representava uma opção aceitável e desejável em muitos casos. Radin (1994) aponta uma série de motivações para a migração, dentre as quais destacamos a busca da propriedade da terra e de “terras novas” e “mais férteis”, o que para muitos representava a saída da condição de arrendatários ou dependente de terceiros e a busca por maior liberdade longe da vigilância dos familiares. No entanto, de acordo com o autor, o principal causador foi o modelo de colonização adotado nas “colônias velhas” do Rio Grande do Sul.
De qualquer forma, o modo de viver e o sistema de cultivo colonial construídos e mantidos nas “colônias velhas” do Rio Grande do Sul, reproduz-se através do que Roche (1969) chamou de “enxamagem dos pioneiros”34, para as “zonas pioneiras” inicialmente no noroeste e norte do Rio Grande do Sul e posteriormente no oeste de Santa Catarina e sudoeste do Paraná.