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Avec perte de message et coupure de communication

3.7 Analyse d’algorithmes décrits avec ce modèle

3.7.5 Forêt orientée inversée

3.7.5.3 Avec perte de message et coupure de communication

Anatol Rosenfeld publicou O teatro épico em 1965, numa fase em que, no Brasil, se buscava entender e pôr em prática esse conceito, muito ligado às peças e teses de Brecht, mas relacionado também, de modo mais amplo, às comédias e aos shows musicais. Naquele ano estrearam Liberdade, liberdade, de Millôr Fernandes e Flávio Rangel, no Rio de Janeiro, e Arena conta Zumbi, de Boal e Guarnieri, em São Paulo, para ficarmos em dois exemplos. A primeira peça consiste em texto-colagem semelhante ao de Opinião; a segunda, em drama histórico dotado de humor e música, sem compromisso estritamente realista. Ambas trabalham com técnicas épicas.

Dedicado à divulgação cultural de alto nível, Rosenfeld procura ordenar idéias teatrais em circulação naquele momento. Assim, na seção inicial de seu livro, retorna à matriz clássica da teoria dos gêneros para esclarecer didaticamente:

Pertencerá à Lírica todo poema de extensão menor, na medida em que nele não se cristalizarem personagens nítidos e em que, ao contrário, uma voz central – quase sempre um “Eu” – nele exprimir seu próprio estado de alma. Fará parte da Épica toda obra – poema ou não – de extensão maior, em que um narrador apresentar personagens envolvidos em situações e eventos. Pertencerá à Dramática toda obra dialogada em que atuarem os próprios personagens sem serem, em geral, apresentados por um narrador (Rosenfeld, 1997: 17).

Esses dados compõem o que o ensaísta chama de “significado substantivo dos gêneros”. Já o seu “significado adjetivo” corresponderá a “traços estilísticos de que uma obra pode ser imbuída em grau maior ou menor, qualquer que seja o seu gênero”. Admite-se que “toda obra literária de certo gênero conterá, além dos traços estilísticos mais adequados ao gênero em questão, também traços estilísticos mais típicos dos outros gêneros”; ou seja, não existem modalidades ou espécimes puros, a não ser em teoria. O trânsito dos aspectos de estilo entre textos de filiação diversa marca especialmente a literatura no século XX e envolve a dramaturgia, tornada épica por força dos conteúdos que se dispõe a expressar.

O ensaísta rastreia estruturas ou elementos épicos no teatro que se fez desde os gregos, pondo em relevo lições que serviram a Brecht, mencionadas por este dramaturgo em seus escritos teóricos. Embora mantenha em seu horizonte a crise do drama conforme abordada por Peter Szondi na Teoria do drama moderno, Rosenfeld comenta procedimentos artísticos a que Szondi apenas alude em seu livro, dando-os tacitamente por conhecidos. Assim, as cenas grega, medieval, renascentista, barroca, shakespeareana e romântica, além do teatro asiático, são sumarizadas em O teatro

épico, no que constitui breve genealogia dos processos narrativos no palco.

O autor lembra ser “muito curioso que Aristóteles tenha baseado a sua Arte

poética – ponto de partida de toda Dramática rigorosa – no exame de uma dramaturgia

que de modo algum é modelo de pureza absoluta, no sentido da forma severa, fechada” (1997: 40). A presença do coro, que comenta a ação, e os relatos confiados a mensageiros, entre outros recursos épicos, somam-se nas tragédias gregas ao evento plenamente atual e ao enredo monitorado pelo diálogo, exigências fundamentais do drama absoluto. “Ainda assim, o teatro grego é com muitos dos seus exemplos – como

Antígone ou Édipo Rex – um dos tipos mais elevados de uma dramaturgia que pelo

ensaísta, ressaltando “que este rigor não representa, necessariamente, um valor estético” (1997: 40-1).

Estrutura propriamente épica encontra-se na Idade Média com o palco sucessivo, isto é, formado por carros dispostos em seqüência, nos quais se viam cenários a representarem lugares distintos. “Mas a grande invenção do teatro medieval foi a cena simultânea, usada a partir do século XII” por cerca de 500 anos, informa o ensaísta. O essencial a notar nesses espetáculos que exibiam dezenas de passagens bíblicas, justapondo-as, é que o presente pleno do drama trocava-se por uma espécie de passado pleno, considerado que os episódios eram previamente conhecidos de seu público; o que de modo algum anulava a impressão, de fins pedagógicos, que tais espetáculos pretendiam exercer (1997: 47).

No Renascimento, o ideal de máxima ilusão cênica resulta na criação do palco italiano, frontal, em que os corpos e objetos distinguem-se de modo preciso, de acordo com os efeitos de perspectiva então descobertos. Esses efeitos delineiam de modo mais nítido as personagens, agora retratos de indivíduos e não de divindades. Recursos e formas épicas, porém, continuariam em voga: “Na época que vai dos fins da Idade Média ao Barroco multiplicam-se as formas dramáticas e teatrais caracterizadas por forte influxo épico em conseqüência do uso amplo de prólogos, epílogos e alocuções (...), com fito didático, de interpretação e comentário, à semelhança de técnicas usadas no nosso século por Claudel, Wilder e Brecht”, diz Rosenfeld (1997: 55).

As moralidades, os autos de Gil Vicente e o teatro jesuíta são tratados a seguir. Mais relevante do ponto de vista moderno é a recepção dada a Shakespeare por iluministas como Lessing ou pré-românticos como Herder e Goethe, na Alemanha, ou Victor Hugo, décadas mais tarde, na França. A fusão do trágico e do cômico e a ampla liberdade quanto às unidades de lugar e tempo são estímulos que os renovadores, entre eles Büchner, encontram nas peças shakespeareanas.

A partir da segunda metade do século XIX, quando atuam dramaturgos como Ibsen e Strindberg, os comentários de Rosenfeld seguem roteiro similar ao de Szondi, embora sempre acrescentem algo de seu ao que ficou dito na Teoria do drama moderno. O ensaísta brasileiro aborda ainda o palco asiático – o drama Nô e o teatro Kabuki, gêneros tradicionais japoneses. Referindo-se ao Kabuki, anota:

Sem dúvida, são os próprios atores que pronunciam o diálogo, mas o coro-narrador ainda exerce variadas funções. Manifesta-se como voz da consciência e comentador, mais ou menos como o coro grego; toma a si o solilóquio dos personagens, informa o público

sobre questões do entrecho e ambiente e serve de acompanhamento rítmico-musical que liberta os atores intermitentemente para a dança (...). Constitui, enfim, uma espécie de moldura narrativa dentro da qual se desenvolve a ação dramática propriamente dita, à semelhança dos cantores de O círculo de giz caucasiano (Brecht) (1997: 111-2).

Anatol Rosenfeld assume premissa idêntica à de Peter Szondi no que toca à emergência do épico em fins do século XIX e na primeira metade do século XX. Mas reordena dados críticos e históricos de maneira a dar a ver, em primeiro lugar, a longa vigência das formas e processos narrativos em séculos de história teatral e, depois, de modo a fazer com que essas linhas estéticas alcancem Brecht, que as reviu, politizando- as. Rosenfeld enfatiza ainda a importância do católico Paul Claudel, antípoda ideológico de Brecht a quem destina algumas páginas.

O trabalho que se propôs Anatol Rosenfeld em O teatro épico, no que toca a Bertolt Brecht, liga-se antes à tarefa de esclarecer e divulgar propósitos e práticas estético-políticas do que à pretensão de fornecer, dessas peças e teses, interpretação inteiramente nova. Seja como for, podem-se destacar ainda alguns instantes especialmente lúcidos no percurso.

Um deles aparece na seção dedicada a Claudel, quando Rosenfeld compara o dramaturgo francês a Brecht. O ensaísta recordara que “o radicalismo e a dureza com que Claudel concebe (p. ex. em O livro de Cristóvão Colombo) a matança de dezenas de milhares de índios ou a escravização de tantos africanos (...) provocaram do próprio lado católico inúmeras acusações de heresia, soberba e amoralidade”.

A seguir, notará que esse modo de ver as coisas, “proveniente de um teocentrismo radical”, segundo o qual os indivíduos podem se sacrificar ou ser sacrificados em razão de valores supostamente superiores, no caso de origem religiosa, “resulta em conseqüências comparáveis àquelas a que, pelo menos em certa fase, B. Brecht se viu levado pelo sociocentrismo”. Na peça didática A decisão, de 1930, Brecht parece legitimar o assassinato de um dos militantes comunistas que perfazem o grupo de personagens em nome da eficácia de suas tarefas políticas, perturbada pelo que se viu atingido na decisão do título. Essa tese, diz Rosenfeld, “foi combatida com a mesma violência pelos comunistas como a de Claudel por inúmeros cristãos”. Ele acrescenta:

Não importa neste ponto verificar que Brecht se “converteu” a uma atitude de profunda afabilidade e bondade humanas e que o zelo claudeliano é resultado do amor de Deus. O importante é verificar que concepções que com tamanha ênfase teo ou sociocêntrica

tendem a colocar o centro fora do indivíduo, integrando-o como elemento no todo maior, quase necessariamente conduzem a uma idéia épica do teatro (1997: 137).

A passagem do dramático ao épico ou a mistura de elementos provenientes de ambos os estilos não constitui mera questão de técnica literária. Os processos pelos quais formas dramáticas e épicas se reúnem, compondo terceiras estruturas, incluem e transcendem o aparecimento das novas temáticas, envolvendo, além delas, “uma deslocação decisiva na hierarquia dos valores”. Ao contrário do que se deu no teatro clássico de Racine e Goethe, “ao protagonista não cabe mais a posição majestosa no centro do universo”.

Assim, “a concepção teocêntrica ou sociocêntrica transborda do rigor da forma clássica, na medida em que ultrapassa a limitação da esfera psicológica e moral, enquanto apenas psicológica e apenas situada no campo da moralidade individual” (1997: 174). No teatro épico, de acordo com Rosenfeld, a ênfase já não recai sobre figuras capazes de decidir quanto ao próprio destino ou de compreendê-lo plenamente, mas nos fatores – metafísicos, sociais ou, no interior das personagens, irracionais – que circunscrevem a sua liberdade.