I. S YNTHESE BIBLIOGRAPHIQUE 1.MICROFLUIDIQUE ET MINIATURISATION
I.1.4. AUTRES PHENOMENES PREPONDERANTS OU NEGLIGEABLES
Quando D. Afonso, marquês de Valença, morreu de febres em Tomar a 29 de Agosto de 1460, antes do pai, e sem deixar sucessão legítima, D. Fernando, então marquês de Vila Viçosa, tornou-se, inesperadamente, herdeiro do ducado de Bragança, ao qual ascenderia no final do ano de 1461, após a morte do pai. Dizemos inesperadamente pois não se nos afigura como evidente que D. Fernando esperasse ser duque de Bragança; os dois irmãos tinham idades muito próximas e nada indicava que o marquês de Vila Viçosa viesse a herdar o ducado depois do irmão. Contudo, parece-nos óbvio que, não tendo o marquês de Valença herdeiros legítimos e tendo cerca de 60 anos quando morreu, já se adivinhasse que seria D. Fernando (II), o filho primogénito do marquês de Vila Viçosa, a suceder ao tio no ducado de Bragança.
O marquês de Valença nunca casara. D. António Caetano de Sousa fez alusão na
História Genealógica da Casa Real Portuguesa a um possível acordo matrimonial com a sua sobrinha D. Filipa, filha de D. Isabel e do infante D. João (teria sido por isso que, depois da morte de D. Afonso, D. Filipa recusara casar-se). Este seria, no entanto, um casamento um pouco tardio para o marquês, já com cerca de 60 anos, e em que os noivos apresentariam grande diferença de idades. A dificuldade de encontrar uma noiva com o estatuto social adequado deve ter sido a principal causa para o facto de D. Afonso se ter mantido solteiro ao longo da sua vida. Por outro lado, a sucessão do ducado de Bragança estava garantida através da numerosa prole do seu irmão, D. Fernando.
O marquês de Valença teve, no entanto, um filho ilegítimo, também ele chamado Afonso, com D. Beatriz de Sousa, filha de D. Martim Afonso de Sousa, fronteiro-mor, e de D. Violante Lopes Távora. D. António Caetano de Sousa diz, citando a perdida
História da Casa de Bragança redigida por Frei Jerónimo Roman, que, encontrando-se o marquês doente, não faltara quem o advertisse e o aconselhasse a casar com D. Beatriz de Sousa, legitimando assim a relação e o filho. O marquês supostamente respondeu dizendo “não sou homem de esfera que me case desta maneira”418.
O filho do marquês de Valença, D. Afonso de Portugal (que depois foi bispo de Évora), tentou suceder ao pai no ducado brigantino alegando que os pais se haviam consorciado em segredo419. O facto de, um ano depois da morte do marquês, a ascensão ao ducado por parte de D. Fernando se ter feito sem ruído de maior leva-nos a crer que,
418 HGCRP, tomo X, p. 316. 419 Ibidem, p. 317.
após a morte de D. Afonso, o velho duque de Bragança teria neutralizado as pretensões do seu neto ilegítimo, D. Afonso de Portugal. Contudo, a casa de Bragança sempre reconheceu a progenitura do bispo de Évora e o seu filho, D. Francisco de Portugal, casou com uma das netas do 2º duque de Bragança, D. Joana de Vilhena, filha de D. Álvaro.
O velho duque de Bragança morreu um ano e meio depois do seu filho primogénito, em Dezembro de 1461, na vila de Chaves, com cerca de 90 anos420. A sucessão de D. Fernando ao ducado brigantino fora preparada ao longo do ano anterior: logo a 22 de Setembro de 1460, D. Afonso V fizera ao marquês de Vila Viçosa uma confirmação geral dos privilégios dados ao irmão nas terras que este então herdava421. Um dia depois o rei fazia mercê a D. Fernando dos castelos da vila de Guimarães, Melgaço, Castro-Laboreiro e Piconha pertencentes ao duque de Bragança e que ele herdaria após a morte do pai422.
Ao ascender ao ducado de Bragança no final do ano de 1461, D. Fernando, o 2º duque de Bragança (e também 3º Conde de Arraiolos, 1º Marquês de Vila Viçosa 9º Conde de Barcelos, 3º Conde de Neiva, 2º Conde de Penafiel e 5º Conde de Ourém), concentrou nas suas mãos a quase totalidade do património que pertencera originalmente ao condestável D. Nuno Álvares Pereira, tornando-se no segundo senhor mais importante do reino, a seguir a D. Fernando, 2º duque de Viseu, 1º duque Beja e irmão do rei. As três casas de Barcelos/Bragança, Ourém/Valença e Arraiolos/Vila Viçosa, que haviam partilhado o poder ao longo de 40 anos, concentravam-se agora nas mãos de um só homem.
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A primeira grande demonstração de poderio e força do novo duque de Bragança foi realizada em prol do seu primogénito, D. Fernando (II). No ano de 1462 o herdeiro do ducado brigantino solicitou a D. Afonso V autorização para passar ao Norte de África a fim de combater os mouros numa campanha organizada e custeada pela casa de
420 O primeiro duque de Bragança terá nascido em Veiros entre os anos de 1371 e 1378. 421 ANTT, Chancelaria de D. Afonso V, liv. 38, fl. 42.
Bragança423. Esta expedição tinha como objectivo claro a procura de glória, honra e proveitos por parte do primogénito brigantino. Assim, D, Fernando (II) passou a Alcácer-Ceguer em Abril, numa expedição com duzentos homens a cavalo e mil homens de pé, onde participaram muitos fidalgos e nobres da corte. Em conjunto com D. Duarte de Meneses, capitão de Alcácer-Ceguer, e com D. Afonso de Vasconcelos, futuro 1º conde de Penela, entrou inúmeras vezes em território mouro, tendo chegado quase às portas de Tânger. Numa das incursões de D. Fernando (II) por território inimigo foram queimados quatro lugares importantes, fizeram-se inúmeras prezas de gado, trouxeram-se cativos e cerca de 600 mouros foram degolados. Tudo isto em apenas dois meses, pois D. Fernando (II) e os seus homens regressaram a Portugal em Junho seguinte. Pelos seus feitos, e pela honra que acrescentara ao reino, D. Afonso V deu-lhe, em 1463, a consagração esperada: o título de conde de Guimarães.
423 Rui de PINA refere que foi D. Fernando (II) quem custeou a sua passagem ao Norte de África.
Contudo, dado o número de gente e o objectivo da expedição parece-nos pouco provável que esta não tivesse sido financiada pelo seu pai, o duque de Bragança. Cf. CDAV., liv. III, cap. CXLV.