A pauta do jornal udenista, durante a campanha para o pleito de 1947, demonstrava mudanças em relação à eleição anterior. Marcada para o dia 19 de janeiro, a nova eleição decidiria o governador do estado, a composição da Assembleia Legislativa, duas vagas para o Senado e uma vaga para a Câmara Federal.111 As lembranças de 1945 e a arrebatadora vitória pessedista ainda estavam presentes. Ao final do pleito anterior, a UDN mudou a tônica de seu discurso e destacou a “dívida de honra” que Dutra e seus seguidores “contraíram com a classe operária do país”. As promessas deveriam ser cumpridas e os udenistas se comportariam como “fiscais” de seu “pagamento integral”. Em outros termos, o partido compreendeu que, no novo arranjo político, o trabalhador, na condição de eleitor, precisava ser cortejado. O segundo processo eleitoral da democratização marcaria essa diferença.
110 “O General Dutra e seus seguidores nos estados contraíram com a classe operária do país uma dívida de
honra. Nós da oposição seremos fiscais do pagamento integral da promessa. Queremos ver se a marmita do trabalhador será de hora avante mais contemplada e se o dinheiro dos institutos, ao invés de ser dado para especulação, irá construir casas higiênicas e confortáveis para o operário”. Politicando. Diário da Tarde. Florianópolis, 17 dez. 1945.
111 Deveria haver apenas uma vaga ao Senado. Todavia, com a ascensão de Nereu Ramos à vice-presidência
da República, mais uma cadeira estava em disputa. Para deputado federal, a vaga foi ofertada em virtude do falecimento do deputado Altamiro Lobo Guimarães, eleito em 1945. Ver: LAUS, Sônia Pereira. A UDN em
Santa Catarina (1945-1964). Florianópolis, 1985. 336 f. Dissertação (Mestrado em História). Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Santa Catarina. p. 134, 140.
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Os preparativos para a eleição de janeiro de 1947 começaram tarde. O PSD definiu seu candidato apenas no dia 17 de novembro de 1946. Aderbal Ramos da Silva, empresário, sobrinho de Nereu Ramos e dono do jornal O Estado, foi o escolhido. O periódico pessedista, em primeira página, destacava a “vitoriosa realidade da nova geração catarinense”. Aderbal seria o “continuador de um programa administrativo que, antes de tudo, acolherá a necessidade dos pequenos e dos humildes”.112 Com apelo aos trabalhadores e à população mais necessitada, o PSD iniciava a campanha pelo governo do estado de 1947, lançando um candidato com negócios na capital e vinculado ao nome maior do partido, Nereu Ramos.
A UDN deliberou oficialmente seu candidato ao governo apenas na convenção dos dias 23, 24 e 25 de novembro. No dia seguinte, o jornal de Adolfo Konder noticiava que seu cunhado, Irineu Bornhausen, empresário da cidade de Itajaí, seria o nome do partido para o executivo estadual. Visto como “industrial progressista” e “empreendedor das mais avançadas ideias”, era também, segundo o periódico, “conhecedor das necessidades do povo, porque nele nasceu e com ele se criou”.113 No entanto, a UDN não pensava em
disputar a eleição sozinha. A Comissão Executiva Estadual, “contrariando o ponto de vista de alguns bravos, excelentes e dignos correligionários”, resolveu buscar entendimento com as “demais organizações democráticas que militam no estado”.114 Tanto UDN quanto PSD queriam o apoio de legendas que tivessem apelo popular. Afinal, após os resultados de 1945, o trabalhador emergia como “fiel da balança” nos embates eleitorais. O próprio anúncio do candidato udenista como conhecedor do povo, por ter “nele nascido e com ele se criado”, era o primeiro passo da tentativa de aproximação entre político e eleitor.
Irineu Bornhausen, entretanto, não poderia ser considerado um “homem do povo”. Proveniente de uma família tradicional de Itajaí, Irineu era dono do banco Inco e fora prefeito de sua cidade natal nos períodos de 1927 a 1930 e de 1935 a 1939, este último sendo nomeado pelo então interventor Nereu Ramos.115 Contudo, naquele momento, os
112 Convenção do Partido Social Democrático. O Estado. Florianópolis, 18 nov. 1946. 113 Industrial Irineu Bornhausen. Diário da Tarde. Florianópolis, 26 nov. 1946.
114 Palavras da exposição do Dr. Adolpho Konder. Diário da Tarde. Florianópolis, 27 nov. 1946.
115 “Irineu Bornhausen nasceu na cidade de Itajaí no dia 25 de março de 1896, filho de João e Guilhermina
Bornhausen, família tradicional do município. Ingressou no sistema bancário nos anos 20, se tornando um dos fundadores e maiores acionistas do Banco Inco (Banco da Indústria e Comércio de Santa Catarina), que hoje integra o Bradesco.” Caderno Especial: Governadores de Santa Catarina. Diário Catarinense. Florianópolis, 25 nov. 1993.
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partidos começavam a procurar elementos que conferissem uma identidade popular aos seus candidatos. A primeira e notória estratégia foi a de buscar nos candidatos suas “origens humildes”. Em tal contexto, para a disputa política de 1947, os trabalhistas mostravam-se peças-chave na aproximação com a classe operária organizada.
A convenção petebista aconteceu no dia 15 de novembro. Em pauta, a posição do partido no pleito estadual. O debate foi intenso e a decisão dividida. Dos 50 votos, 24 optaram pela candidatura própria, 02 pela aliança com Irineu Bornhausen e outros 24 pela aliança com o PSD. Coube ao presidente Aristides Largura116 o voto de Minerva. O trabalhista, então, decidiu em favor da coligação com o PSD.117 No arranjo político das siglas, ficou acordado que o PTB ganharia no futuro governo a quantidade de secretarias correspondente ao número de deputados eleitos.118
Após a decisão dos principais partidos do estado e a formalização da aliança entre pessedistas e trabalhistas, os candidatos iniciaram suas campanhas. A falta de propostas, tônica do primeiro pleito, ficava camuflada nos anúncios de diálogos entre candidatos e representantes das classes trabalhadoras. Aderbal Ramos da Silva recebeu o apoio de parte dos operários da cidade de Itajaí, reduto político de seu adversário. Liderados por membros do PTB, os sindicatos do Comércio Armazenador e dos Estivadores de Itajaí hipotecaram solidariedade ao candidato pessedista e convidaram-no para “assistir a grande concentração trabalhista, que será feita em sua honra naquela cidade”.119 Três semanas depois, a “Caravana da Vitória” percorreu as cidades de Araquari, São Francisco do Sul e Itajaí, finalizando o seu trajeto na capital do estado. A comitiva passara antes por Chapecó, no oeste, e cruzara boa parte do estado até chegar às cidades do litoral norte. Aristides Largura, presidente do PTB e decisivo na deliberação da aliança com o PSD, integrava o grupo que
116 Antes de ser líder trabalhista, Aristides Largura era, nos anos 1930, um importante nome do integralismo
em Santa Catarina. Em 1934, o jornal Anauê, órgão oficial da Ação Integralista Brasileira em Santa Catarina, publicou uma palestra do futuro presidente do PTB no estado em que ele afirmava que era preciso incutir nas populações de origem europeia o sentimento de brasilidade: “... não é fatalmente brasileiro de sentimento aquele que só conhece a língua de seus pais, de seus avós, que só vive dentro dos costumes dos seus antepassados (...) e que portanto não conhece o país do qual é filho (...) finalmente não vive espiritualmente dentro dele, só seu corpo mora aqui, seu espírito não tem morada...”. LARGURA, Aristides. Anauê. 11, 18 e 25 ago. 1934. Apud: FALCÃO, Luiz Felipe. A Guerra Interna (integralismo, nazismo e nacionalização). In: BRANCHER, Ana. História de Santa Catarina: estudos contemporâneos. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 1999. p. 187.
117
Aliança entre o PSD e o PTB. A Gazeta. Florianópolis, 18 nov. 1946.
118 Acordo entre PSD e PTB. O Estado. Florianópolis, 18 nov. 1946.
119 Operários de Itajaí solidários com a candidatura do dr. Aderbal Ramos da Silva. A Gazeta. Florianópolis,
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acompanhava o candidato ao governo. Em todas as cidades, havia reuniões com líderes políticos locais e comícios, efusivamente descritos pelo jornal pessedista da capital.
Ao chegar a Itajaí, onde haveria a homenagem trabalhista ao candidato, a caravana rumou para a Vila Operária. Aderbal Ramos da Silva foi conduzido, então, ao Clube Foliões da Vila, local do evento. Diferentemente do pleito anterior – no qual a maioria dos oradores escolhidos eram candidatos ou pessoas de destaque dentro do partido, com apenas um ou dois oradores como “representantes do operariado” –, a composição do palanque continha grande número de trabalhadores entre seus oradores. O operário Dionísio Veiga, “encarregado de dirigir os trabalhos em nome da comissão operária de recepção”, ofereceu a palavra ao tecelão Pedro Matheus, ao estivador Júlio Dantas, ao trapicheiro Tiago José da Silva e a Lavínia Santos Bonatelli, “falando em nome das diligentes operárias de Itajaí”. Entre os discursos da “consagração trabalhista”, destaca-se a fala do representante dos estivadores, ao afirmar que a força de um futuro governo de Aderbal Ramos da Silva residiria no apoio da “massa popular”.120
A partir da aliança com o PTB, o candidato pessedista aproximou-se das organizações trabalhistas no estado. Com o apoio dos principais líderes do partido, Aderbal buscava adesões populares que poderiam ser decisivas para o resultado do pleito. A UDN, no entanto, não foi mera espectadora das articulações entre PSD-PTB. Os oposicionistas também cortejaram as classes trabalhadoras e tentaram desestabilizar a união entre os dois partidos.
A campanha udenista para o governo do estado iniciou no reduto político de seu candidato, a cidade de Itajaí.121 Em seguida, a “Caravana Democrática”, composta por Irineu Bornhausen e demais líderes do partido, rumou para as cidades de Mafra e Canoinhas, no norte de Santa Catarina. Na primeira, o candidato foi recebido pelo representante dos ferroviários, Leandro Machado, e participou de um jantar “com a presença de elementos udenistas e trabalhistas”. A UDN procurava fragilizar, assim, a aliança pessedista atraindo o apoio de líderes trabalhistas. Para isso, era preciso uma plataforma que contemplasse, ao menos discursivamente, os anseios do operariado.
120
De consagração em consagração, chega a Florianópolis a Caravana da Vitória. O Estado. Florianópolis, 17 dez. 1946.
121 Grandiosa recepção ao candidato do povo, Irineu Bornhausen, na cidade de Itajaí. Diário da Tarde.
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Adolfo Konder, presidente da UDN de Santa Catarina, em discurso proferido na reunião do diretório estadual, deixava claro que a postura do partido para aquelas eleição era de aproximação com as classes trabalhadoras: “Abandonando a direção conservadora da direita, a política orienta-se, hoje em dia, no sentido da esquerda, empenhada em atender, em considerar as reivindicações das classes menos favorecidas pela fortuna – que formam a massa dos empregados, dos trabalhadores, dos assalariados – sem pretender atingir porém a ‘curva extrema do caminho extremo’.”122 Nas claras palavras do presidente estadual do partido, era preciso que a UDN se aproximasse das camadas populares, rejeitando, entretanto, o fantasma comunista. Adolfo Konder – aquele, desalojado do poder com a Revolução de 1930 – estreitava, assim, seus laços com os trabalhadores.
O apoio dos sindicatos do Comércio Armazenador e dos Estivadores de Itajaí a Aderbal Ramos da Silva, era, por conseguinte, um duro golpe no candidato udenista em seu reduto político. Em resposta, poucos dias após a veiculação do apoio no jornal O Estado, o
Diário da Tarde publicou um manifesto, assinado por 68 estivadores itajaienses. O documento proclamava que a classe teria “hipotecado solidariedade ao grande itajaiense Irineu Bornhausen” e que o convite feito “ao distinto candidato da situação e publicado no
O Estado, desta capital, não exprime a vontade unânime dos estivadores”.123 A UDN, de tal modo, tentava reduzir o impacto do apoio dos dois sindicatos trabalhistas de Itajaí ao candidato pessedista, apostando na cisão de votos entre os operários da cidade. Fazia parte de sua estratégia política demonstrar que nem todos os operários daquelas categorias protocolavam apoio ao candidato situacionista. Ao mesmo tempo, tratava de adular lideranças petebistas através de uma plataforma favorável aos anseios das classes trabalhadoras.
Concomitantemente a construção de um discurso à esquerda, a UDN catarinense adotava um viés oposicionista. Durante a Assembleia Nacional Constituinte de 1946, a seção catarinense, controlada pelo grupo adolfista – ligado a Adolfo Konder –, por decisão unânime, orientou seus deputados a votar contra a indicação de Nereu Ramos para vice- presidente da República. Esclareciam que, mesmo que a direção nacional declarasse livre o sufrágio, os parlamentares catarinenses deveriam votar seguindo a orientação do Diretório
122 Palavras do discurso proferido pelo Sr. Adolpho Konder. Diário da Tarde. Florianópolis, 06 dez. 1946. 123 Aos operários de Itajaí. Diário da Tarde. Florianópolis, 14 dez. 1946.
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Estadual.124 As antigas rivalidades regionais pautavam, nesta conjuntura, o posicionamento dos udenistas catarinenses na Assembleia Constituinte e davam o norte das articulações políticas visando o pleito de 1947.
Em setembro de 1946, com o fim dos trabalhos na Constituinte, a UDN de Santa Catarina manifestou-se contrária ao acordo interpartidário – articulado nacionalmente entre PSD, UDN e PR, com o objetivo de garantir a estabilidade do governo Dutra. O deputado Max Tavares do Amaral levou ao Diretório Nacional a posição unânime da Comissão Executiva Estadual. No plano nacional, a discussão sobre o apoio ao governo Dutra causou grande discussão no seio udenista. Para algumas lideranças nacionais, como Octávio Mangabeira e José Américo, a “coalisão nacional” objetivava neutralizar as engrenagens da máquina getulista e impedir a aliança entre PSD e PTB. Para Virgílio de Melo e Franco, Dutra simbolizava a manutenção do poder oriundo do Estado Novo. Era preciso, portanto, marcar uma posição contrária como forma de garantir uma matriz ideológica para o partido. A postura da UDN na democracia passaria, então, por uma oposição viva e vigilante, sem aceitar cargos no governo.125 Todavia, a vertente oposicionista foi vencida no Diretório
Nacional por uma diferença de dez votos (26 a 16) e o partido decidiu pela cooperação com o governo Dutra.126
A participação de Nereu Ramos, inimigo político regional, na condição de presidente do PSD, vice-presidente da República e figura importante na articulação da aliança reforçou, de certa forma, a aversão dos udenistas catarinenses ao acordo interpartidário. As esquerdas, por sua vez, interpretaram a aliança de “pacificação nacional” e de “consolidação da democracia” como mais um passo das correntes reacionárias e entreguistas do país. Durante o acordo, segundo Benevides, praticamente inexistiu oposição parlamentar. Entretanto, as articulações para a sucessão presidencial, em 1950, evidenciariam as fragilidades daquela aliança.127
A UDN nacional procurava impedir futuras articulações entre pessedistas e trabalhistas, ambos sob a sombra de Vargas. A seção catarinense optava, entretanto, pelo
124 LAUS, Sônia Pereira. A UDN em Santa Catarina (1945-1964). Florianópolis, 1985. 336 f. Dissertação
(Mestrado em História). Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Santa Catarina. p. 121.
125
BENEVIDES, Maria Victória. Op. cit. p. 73.
126 O Diretório Nacional da UDN, por maioria de dez votos, define-se pela cooperação com o governo da
República. Diário da Tarde. Florianópolis, 04 dez. 1946.
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embate contra seus rivais históricos e pela disputa do eleitorado trabalhista. O vespertino udenista noticiava divergências na coligação situacionista. Segundo o jornal, o PTB seria fundamental para a vitória pessedista no estado. A aliança, neste sentido, fora firmada mais pelo interesse de ambos em se manter no poder do que por projetos que contemplassem as aspirações populares. No entanto, alertava o periódico, as disputas locais para eleição de deputado estadual estariam estremecendo o “clima de pacificação” entre as duas agremiações, que “tão necessário se faz para garantir a vitória ao partido situacionista”.128
A disputa pelo apoio das classes trabalhadoras fica mais clara no final de 1946, quando o periódico udenista trouxe uma reportagem sobre um boletim – produzido em Joinville e acompanhado de 227 assinaturas – que convocava o eleitorado trabalhista a votar em Irineu Bornhausen. O redator da matéria afirmava que, “contrariamente ao que afirmou a imprensa oficiosa”, o PTB estaria cindido. Uma parte, “levada pelo acordo realizado pelo Sr. Aristides Largura com o PSD”, apoiava a candidatura de Aderbal Ramos da Silva. Entretanto, outra parte, “adversa a este acordo, que feriu os interesses do PTB e, principalmente, a ética partidária”, estaria, “de forma espontânea e progressivamente avassaladora”, ao lado “do legítimo candidato do povo: o Sr. Irineu Bornhausen”. O documento repudiava a aliança feita por “alguns chefes do PTB”. Afirmava que, seguindo as orientações de Getúlio Vargas, os operários votaram em Dutra e o resultado foi “a agravação de nossos males, o aumento de nossas necessidades”. Uma vez que não era possível apresentar candidato próprio, “devemos votar em Irineu Bornhausen, que de origem humilde e pobre, como nós, há de sempre lembrar-se dos que trabalham”. E completava: “Irineu venceu na vida trabalhando, e os trabalhadores hão de fazer com que ele vença nas eleições, para a felicidade dos trabalhadores de Santa Catarina e do Brasil”.129
Portanto, a poucas semanas do pleito, a UDN investia em desestabilizar a aliança PSD-PTB e apostava nas dissensões entre os trabalhistas. Evidentemente, a produção de um
128 Em Laguna, litoral sul de Santa Catarina, uma discussão entre líderes do PSD e do PTB durante comício
gerou animosidades na coligação situacionista. O motivo era a disputa pelo eleitorado trabalhista. Segundo o periódico, Pompílio Bento, chefe pessedista da região, fazia campanha para Armando Calil. O político teria “deitado boletins e advertido os trabalhadores locais pelas manchetes do Sul do Estado de ser o PSD o legítimo partido dos trabalhadores”. Já o PTB local lançara o nome de Durval Campos para a Assembleia Legislativa. De acordo com a reportagem do Diário da Tarde, as disputas regionalizadas pelo voto dos trabalhadores na eleição parlamentar estariam minando a articulação estadual. Fonte: Fatos e Comentários.
Diário da Tarde. Florianópolis, 12 dez. 1946.
129 Inúmeros “trabalhistas” apoiam a candidatura Irineu Bornhausen. Diário da Tarde. Florianópolis, 27 dez.
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documento asseverando apoio a Irineu não soa nem um pouco espontânea. Parece mais uma estratégia política de fragilizar a aliança situacionista do que a expressão de um movimento “progressivamente avassalador” que estaria levando os trabalhadores a apoiar a candidatura udenista. A construção discursiva de um homem de raiz “humilde e pobre” que “venceu na vida trabalhando” tinha como objetivo criar uma identificação positiva de Irineu Bornhausen junto às classes trabalhadoras.
Na percepção dos oposicionistas, o partido de Vargas poderia ser o fiel da balança, cujo apoio faria a diferença no equilíbrio entre as duas maiores siglas do estado. Sendo assim, a UDN arriscava suas fichas numa possível dissonância entre base e cúpula petebista para arrebanhar os votos do operariado catarinense. O manifesto, assinado por mais de duas centenas de trabalhadores, tem caráter de um documento racionalmente produzido pelos udenistas com o fito de atender a seus interesses político-eleitorais. Entretanto, esta não foi a única nem a principal estratégia de captação de votos. Para a eleição de 19 de janeiro de 1947, UDN e PSD apostaram na força da retórica moralista. Este, apoiado no anticomunismo e no discurso religioso. Aquela, nas denúncias de corrupção e do uso abusivo da máquina pública.
A pouco mais de um mês para o pleito, o vespertino udenista dedicava-se a noticiar irregularidades pessedistas. Ao mesmo tempo em que o candidato oposicionista procurava se aproximar das classes trabalhadoras, o periódico estampava matérias de irregularidades na campanha de seu adversário. A maioria envolvia uso indevido do aparato estatal, seja estadual, seja municipal. Em dezembro de 1946, pululavam notas nas primeiras páginas do
Diário da Tarde sobre veículos da prefeitura de Florianópolis – cujo prefeito era o Cel. Lopes Vieira, indicado pelo interventor do estado – transportando eleitores ou carregando cartazes de campanha.130 De Camboriú, município a cerca de 60 quilômetros da capital, vinha denúncia de que os agentes do poder público estadual e municipal estavam na linha de frente da caravana pessedista. O prefeito, “ao invés de assegurar a liberdade do voto, adota a prática contundente da democracia do cacete e do chanfalho”. Segundo a notícia, o
130 “O caminhão 8-42 da Diretoria de Obras Públicas, no domingo, esteve na Praia dos Ingleses conduzindo
eleitores para o comício político ali realizado pelos srs. Cel. Lopes Vieira, prefeito municipal, Mimoso Ruiz, assistente da Secretaria de Segurança, e Hipólito Pereira, Juiz da Justiça do Trabalho e outros.” O caminhão 8-42. Diário da Tarde. Florianópolis, 11 dez. 1946. No mesmo dia, o jornal noticiava também que a camionete 8-31 da Usina de Beneficiamento de Leite fora usada para carregar cartazes de campanha. A camionete 8-31. Diário da Tarde. Florianópolis, 11 dez. 1946.
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líder do executivo, acompanhado pelo coletor estadual, o delegado de polícia e o tesoureiro da municipalidade, estaria percorrendo o interior do município em caravana. A coação do eleitorado humilde daquela região dar-se-ia uma vez que “o coletor estadual poderá ameaçar os lavradores e comerciantes com um aumentozinho de impostos cobrados pelo