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2 Limitations et améliorations possibles d’un ré- ré-seau classique de tramways

3. NOUVELLES ARCHITECTURES D’ALIMENTATION

3.3 Autotransformateur à courant continu

étranger à notre sentiment de l’enfance » (57).

A lentidão de que foi alvo ao longo dos séculos, a emergência da representação da infância livre, em igualdade e direitos, teve como principais sintomas de irrupção as práticas decorrentes do século IX, altura em que a figura da criança sofre uma acentuada problematização. A partir deste momento, a sua liberdade passa a ser alvo de reflexão, mesmo que aliada a uma prática que, aos olhos dos modernos, se apresenta como inconcebível e desconcertante: a do abandono e da oblação.

2.3. A Concepção de Infância na Idade Média

A representação da infância, como temos vindo a analisar, foi sendo apreendida muito lentamente e a sua tomada de consciência alvo de múltiplas interpretações.

É inegável o contributo de Philippe Ariès no que concerne ao estudo da descrição de algumas representações da criança a partir do século XIV, quer por meio de abordagens metafísicas registadas na iconografia medieval, quer pelo estudo de diários antigos, da pedagogia ou dos jogos infantis. Porém, na sua tese, defende que a emergência do sentimento da infância só ocorreu com o advento da modernidade, aspecto este não consensual entre vários autores (58).

A Idade Média caracterizou-se por conceber a criança de forma quase indiferente, sentimento que encontra ainda mais relevância em relação à adolescência.

Por infância entendia-se apenas o período de maior fragilidade física da criança, em que a manutenção da sua sobrevivência dificilmente era assegurada sem o adulto. Como argumenta Jean le Gal «los más pequeños no contaban para casi nada. El niño se percibía como una fracción de adulto, un ser todavía inacabado. Mientras era pequeño, permanecía con sus padres, pero integrado en una familia amplia, y participaba muy pronto en todas las actividades sociales de una comunidad solidaria» (59). De facto, a partir do momento em que mostrasse alguma autonomia, a criança rapidamente se imiscuía nas vivências dos adultos, participando nas suas tarefas, nos seus jogos, nas

(57) Renaut, Alain. La Libération des Enfants, op.cit. p. 102

(58) Refira-se, a este propósito, a posição de Alain Renaut, segundo o qual existem indícios desse sentimento já na Antiguidade Clássica. Cf. Renaut, Alain. La Libération des Enfants, op. cit. p. 123

suas confraternizações, como cerimónias e reuniões familiares e sociais, que atendiam sobretudo «aux règles d’un jeu collectif qui mobilisait le group social tout entier» (60).

Na sequência deste quadro, não será de estranhar que a escola, entendida como lugar de aprendizagem, fosse descurada e relegada para um plano inferior, sendo apenas frequentada por clérigos e latinófones. Efectivamente, era graças a uma aprendizagem assente na consciência colectiva que a educação da criança era baseada, pelo que a sua socialização era assegurada não pela família, de quem se desvincula precocemente, mas pelo grupo social, indefinido e composto por uma heterogeneidade de elementos, sendo a participação da criança nas vivências adultas quem assegurava e permitia a transmissão de conhecimentos de uma geração para outra. Assim, se por um lado nas classes mais desfavorecidas, a família, no sentido que actualmente a concebemos, não existia, por outro, nas famílias mais abastadas, essa noção era concebida numa lógica mais social e moral do que propriamente afectiva, enaltecendo-se aqui a valorização e manutenção de bens e fortunas.

Face a isto, na linha de Ariès, a criança era visualizada como se de um adulto em miniatura se tratasse, desprovida de características próprias que a diferenciassem do contexto social. De facto, até ao século XIII essa indiferença era visualizada igualmente no vestuário: mal deixava de usar o cueiro, ou seja o pano que servia de fralda, a criança vestia-se como um adulto, de acordo com a sua condição – um vestido ou túnica tanto para homens, mulheres e crianças, até aos pés para as figuras mais abastadas e até aos joelhos para as classes menos favorecidas. A partir do século XIV o homem passa a usar traje curto, embora na mulher e na criança o hábito de usar vestido se tenha mantido até ao século XVIII. Como escreve o autor convocado,

A Idade Média vestia indiferentemente todas as classes de idade, preocupando-se apenas em manter visíveis através da roupa os degraus da hierarquia social. Nada, no traje medieval, separava a criança do adulto (61).

Também no que se refere ao jogo, era comum a participação da criança nos mesmos jogos e brincadeiras dos adultos, como a malha, o jogo das cartas, jogos de azar, de dados, entre outros. Comum era também o hábito de participar em reuniões religiosas e sociais, onde se envolvia pela música, pela dança e até pelas representações

(60) Becchi, Egle. “Le Moyen Age”. In Becchi, Egle e Julia, Dominique. Histoire de l’Enfance en Occident: de l’antiquité au XVIIIe

siècle, op.cit. p. 59

dramáticas, que reuniam toda a colectividade, misturando-se idades, quer dos actores, quer dos espectadores, independentemente do teor e conteúdo das peças. Contudo, no século XII, os jogos de cavalaria não permitem a participação de crianças e plebeus o que, no entender de Ariès, pela primeira vez lhes era negada a participação num jogo colectivo.

Becchi defende que a tese de Ariès é perspectivada mediante duas hipóteses: a primeira, a mais contestada, é a que se refere ao facto da sociedade tradicional não representar a infância; a segunda é a que vê na época moderna o despoletar da conjugação de dois movimentos – o lento processo de escolarização, operado sobretudo a partir do século XVI, e a profunda metamorfose registada na concepção de família, com o nascimento de uma vida privada, como identidade e intimidade, cuja importância se revelará crucial para a educação da criança.

No que concerne ao primeiro ponto, que, aliás, é o que nos interessa nesta fase da nossa análise, Becchi defende que a Idade Média se caracteriza por uma acentuada ambiguidade relativamente à concepção de infância. Sobretudo nas classes mais privilegiadas, essa ambivalência sobressai atendendo à constatação da natureza da criança ao aparecer, por um lado, e desde a cultura pós-clássica, conectada à figura do Menino Jesus e, por outro, pelas suas infirmitas. Neste sentido, a criança era vulgarmente apreendida como uma espécie de pretexto para poderem ser evidenciadas as qualidades, fossem boas ou fossem más, do adulto. Esta ambiguidade que, de acordo com Becchi «voit en même temps le bien et le mal chez l’enfant (…) a pourtant permis une observation plus précise et plus pertinente de la nature enfantine » (62). Para este autor, mais do que a criança vista pela arte, sob a tinta dos quadros e o pó das tapeçarias, existe aquela criança que riu, que dormiu, que procurou o seio da mãe e, por isso, «il n’est plus seulement un adulte en miniature, mais traverse des ages successifs, avec modifications de sa stature, de sa physionomie» (63).

Mesmo no que se refere ao jogo, a criança da Idade Média brincava com a bola, com o pião, com as figuras de animais feitas em terracota e, inclusive, com marionetas, das quais existem vestígios denunciadores que, a partir do século XII, “pulavam” e “dançavam” sobre as mesas, para espanto de pequenos e grandes. Até aos doze anos as

(62) Becchi, Egle. “Le Moyen Age”. In Becchi, Egle e Julia, Dominique. Histoire de l’Enfance en Occident : de l’antiquité au XVIIIe

siècle, op.cit.p. 105

crianças imitavam também com brincadeiras, a ocupação adulta, como a caça ou a laboração das sementeiras, construindo, para isso, brinquedos de madeira ou de argila, quer para jogos colectivos, quer para jogos individuais.

Enquanto dimensão específica da infância, o jogo não era, contudo, valorizado para fins pedagógicos, essencialmente em virtude de se atender a uma pedagogia mais centrada no mestre do que no aluno, com base num objectivo direccionado não para a natureza individual e social da criança, mas numa perspectiva de futuro e de esperança. Este tipo de formação visava, por um lado, a cultura do corpo e, por outro, da moral. A pedagogia do corpo, inculcada sobretudo nos primeiros anos de vida, é gradualmente substituída por uma pedagogia moral, sob a pretensão de tornar a criança num adulto que soubesse respeitar e louvar os seus pais, obediente e crente em Deus.

Para Becchi, não confirmando por completo a tese de Ariès, a educação da criança medieval durante os primeiros sete anos de vida, ocorria em casa sob a protecção da mãe, cujo estatuto herdado de Maria, mãe de Jesus, se viu reforçado. Dentro desta perspectiva, o autor aprofunda esta posição quando escreveque,

Jusqu’à sept ans pour les garçons et un peu plus longtemps pour les filles, les enfants restent dans les mains de la mère, qui doit amorcer l’alphabétisation et surtout superviser l’éducation religieuse non seulement des filles mais des garçons (64).

Depois desta idade, em alguns casos, os rapazes eram confiados a um preceptor ou entregues a uma família da mesma classe social, que se encarregará de lhes ensinar boas maneiras e artes de cavalaria. Quanto às raparigas, geralmente iam para a casa da família do rapaz com quem estavam destinadas a casar.

A partir do século XIV, e para além das crianças que viviam com a família ou no convento e mosteiros, deambulavam, de facto, pelas ruas, muitas vezes antes dos sete anos, aquelas que abandonaram precocemente a pueritia. Desta feita, desde tenra idade se entregavam ao trabalho, com vista à aprendizagem de um ofício, como o de artesão, sendo-lhes garantida comida, roupa e, simultaneamente, aprendizagem. As raparigas por seu turno, procuravam alguém que lhes ensinasse labores relacionados com a cozinha, com a casa em geral, ansiando alcançar os requisitos necessários aos de uma boa esposa. Mesmo no que se refere às crianças confiadas a mosteiros e conventos, para Becchi, e apesar de crescerem sob uma convicta formação religiosa, baseada numa ascética

autodisciplina, promoviam, em certa medida, a especificidade da infância: as crianças aprendiam a conviver mutuamente, podiam passear, jogar, ir a eventos festivos ou religiosos. Assim, «ces pratiques compensatrices des carences affectives servaient aussi à rappeler, simultanément, l’obligation de former les enfants aux règles de la communauté» (65).

Mediante todo um conjunto de factos que formam a construção da história da infância, lenta e progressivamente ao longo dos séculos, é inegável afirmarmos o quão difícil se tornou conseguir reconstituir aquele que pode ter sido o desenvolvimento psíquico da criança em determinado período da história. O contributo de Ariès, irrefutavelmente crucial para essa construção, não deixa de ser alvo de algumas críticas, essencialmente por partir de questões contemporâneas e, mediante elas, remontar ao passado, sem atender a que os sentimentos de outrora são diferentes daqueles que hoje temos.