«Enquanto houver uma pedra de calçada a colocar no concelho, nada se gastará no turismo ou cultura» (anónimo autarca citado por Garcia, 2001:183)
De 1974 até ao sufrágio da primeira Câmara Municipal em 1980, o concelho foi representado por duas comissões administrativas. Até 2001, seis elencos tiveram assento nos Paços do Concelho, presididos sempre pela mesma figura referencial: José António Pereira Júnior. Estas duas ininterruptas décadas são caraterizadas pelo desenvolvimento ao nível das infraestruturas de saneamento, abastecimento de água, captações, eletrificação, abertura e reparação da rede viária, sinalizações, novas pontes, toponímias nas freguesias e lugares habitados, novos cemitérios, recolha de lixo e aterro sanitário intermunicipal, apoios financeiros para a reparação do património arquitetónico religioso e sua subsistência. Uma resposta às necessidades básicas das pessoas (dados de Garcia, 2001)
Na educação, o parque escolar dimensionou-se com a construção de jardins-de-infância em todas as freguesias, as escolas do ensino primário já se encontravam construídas
Fábrica da Criatividade de Óbidos: estudo exploratório e perceções sociais
conforme o plano centenário do Estado Novo em meados do século. Foi edificada a Escola Josefa de Óbidos em 1987 apenas para os segundo e terceiro ciclos fixando então os alunos em Óbidos quando até aí a sua continuidade escolar apenas se podia realizar na vizinha cidade das Caldas da Rainha.
Na cultura, em música, intensificou-se apoio às três bandas filarmónicas existentes, igualmente aos três ranchos folclóricos, um dos quais muito se sensibilizou para a investigação etnográfica (Olho Marinho) e a outros vindouros, aos dois grupos corais nascidos em 1982 e 1990, eventos de encontros das referidas bandas, folclore e coros como motivo e estratégias e evolução para os mesmos, workshops, grandes concertos com bandas militares, orquestras sinfónicas e música coral sinfónica, concertos em parceria com a Secretaria de Estado da Cultura, outros similares promovidos pelo próprio pelouro da Cultura, piano, canto, guitarra clássica, grupos de câmara (cordas e metais), a instituição dos Festivais de Música antiga em parceria com a Fundação Calouste Gulbenkian, que mais não eram que uma descentralização para Óbidos dos grandes nomes europeus da música medieval, renascentista, barroca e clássica (Hopkinson Smith, Jordi Savall com os seus Concerto das nações e Hisperion XX, René Clemencic, Segréis de Lisboa, Tom Koopman, Orquestra Gulbenkian, entre outros vultos marcantes). Repara-se o órgão ibérico do século XVIII da igreja de Santa Maria, restabelecendo-lhe muito da sua originalidade quanto à oitava curta, conferindo-lhe plena aptidão para uso do culto e de recitais. Editam-se discos de vinil e CD gravados nas igrejas de Óbidos.
Ao nível das infraestruturas físicas para a cultura, desafecta-se ao culto a Igreja de S. Tiago do Castelo, adapta-se a auditório respondendo a grave carência de logística, requalifica-se o velho edifício da Sociedade Musical e Recreativa Obidense construindo-se uma nova valência denominada Casa da Música, apoiam-se gratuitamente as coberturas para todos as construções que sediariam as coletividades de índole social, cultural e recreativa, tornando-se infraestruturas para descentralizar realizações em itinerância pelas freguesias e lugares do concelho e servindo, ao mesmo tempo, de espaço comunitário e convívio.
Fábrica da Criatividade de Óbidos: estudo exploratório e perceções sociais
Nas artes plásticas, a Galeria Ogiva, propriedade do escultor alcobacence José Aurélio, era algo de inédito e pioneiro na cultura local. A casa onde morara o pintor Eduardo Malta, foi adquirida e reparada para galeria de exposições, preservando alguns dos seus trabalhos. Ali se organizaram eventos quinzenais de pintura, artesanato, cerâmica, escultura com artistas nacionais e estrageiros, individuais e coletivas, de documentação histórica local (livros e pergaminhos). Com artistas locais institui-se a Oficina do Barro, originando uma “escola” local. São instituídas as Bienais Internacionais de Óbidos
Nas letras, procede-se ao tratamento, seriação e catalogação de documentos de arquivos históricos existentes, mesmo os de proveniência paroquial. Editam-se 17 livros e 4 opúsculos sobre temáticas locais.
No turismo são estabelecidos novos horizontes com as ideias das visitas guiadas, edição de cartazes turísticos, um do chafariz do Senhor da pedra e dois do cenógrafo Abílio Matos Silva, projeta-se o processo de retirar as antenas de TV, promove-se a Lagoa com as regatas de Oxford e Cambridge e demais acontecimentos náuticos na pista internacional de remo criando-se para tal uma associação náutica: Neptuno. Realizam-se provas automobilísticas de cross9. Adequa-se a cerca do castelo com dois auditórios de ar livre procedendo-se a um enquadramento “histórico” tanto paisagístico como de funcionalidade e polivalência. No campo desportivo, é construído um pavilhão polivalente e um estádio.
Em termos demográficos regista-se um tímido crescimento nesta vintena de anos. Dos 10.538 habitantes em 1981 são recenseados 10.809 em 2001, com um paradoxal aumento de 271 (Garcia, 2001:143). Apesar da realidade transformadora e de sinais de desenvolvimento em 20 anos o concelho não conseguiu convencer três centenas de pessoas a fixarem residência. O número inferior a 10000 eleitores, manteve o assento de apenas 5 vereadores, ou seja, a Câmara Municipal mais pequena dos concelhos do oeste-norte. Compreendamos que «em 1981, a população que não sabe ler nem escrever no concelho é de 27,7% e em 2001 o valor de analfabetismo do concelho fixa-se em 14%. Nestas duas décadas consegue-se reduzir para metade. Porém a média dos
9
A maioria destes dados, além de Garcia (2001), são registos de memória do nosso desempenho no exercício de vereador da Cultura no mandato de 1986-1989.
Fábrica da Criatividade de Óbidos: estudo exploratório e perceções sociais
concelhos do Oeste situa-se nos 11% pelo que tal taxa deixa Óbidos com o estigma do concelho com maior índice de analfabetismo. Em 2001, 47% da população possue apenas o 1º ciclo quando a média nacional se situa nos 27%, revelando a pouca importância que mesma atribue ao ensino» (Fidalgo, 2009:55-56).
A realidade descrita até aos ¾ do século XX, embora estendendo-se de forma menos agressiva até final do mesmo é a sombra da mentalidade ruralizante, fruto do predomínio do setor primário. Compreende-se assim, de forma vincada, as particularidades mais salientes que condicionaram o interior do concelho, constituindo- se herança com efeitos repercutidos a partir de 2002. É portanto entendível o conceito autárquico expresso pela aqueloutra frase da colocação da pedra na calçada em desfavor do turismo e da cultura. Sem qualquer tipo de apologia à figura e obra do presidente cessante, é justo afirmar que felizmente não foi um «político calceteiro» que encerrou o século XX. Secundaram-no dezanove figuras de vereação nos seis mandatos, eleitas por sufrágio, oriundas de profissões diversas, nomeadamente, um advogado, um médico, um diplomado em música, três funcionários públicos, dois motoristas, dois bancários, quatro agricultores, um desenhador da construção civil, quatro comerciais e três comerciantes. Qualquer destes expressou, presumivelmente, a sua boa-fé, transportou as suas experiências, conhecimentos obtidos no enculturamento, as suas vivências sociais, académicas (os que as detinham) e profissionais. É a amostragem qualitativa que as formações políticas candidatas recrutam, por conveniência ou crença de garantia de sucesso eleitoral e a disponibilidade (para alguns oportunidade) dos titulares dos executivos em contribuírem e servirem a causa do municipalismo. Era a expressão do concelho, consentânea com a mentalidade herdada e ainda então em vigor: «em 2001, Óbidos apresentava o valor de analfabetismo mais elevado de todos os concelhos que compõem a NUT III Oeste» (Fidalgo, 2009:56). Eis ainda os resquícios do século XIX a perdurarem no último quartel do século XX. Muito se fez apressada, intensa e dedicadamente mas impossível anular o subdesenvolvimento que o Beneficiado Francisco Rafael da Silveira Malhão se queixava lá pelo século XIX, “peste” que nunca foi curada. Por isto, no alvor deste século vamos encontrar…
Fábrica da Criatividade de Óbidos: estudo exploratório e perceções sociais