De 1889 a 1930 o Brasil viveu a República Velha, ocasião em que foi executada a Política do Café com Leite, uma política de revezamento do poder nacional, que compreendia dois estados: São Paulo devido ao seu forte setor agrário e sua enorme produção de café e Minas Gerais, maior pólo eleitoral do país da época e produtor de leite. Nesta ocasião dois partidos fizeram uma aliança para se revezarem na Presidência da República: PRP (Partido Republicano Paulista) e PRM (Partido Republicano Mineiro).
O fato do voto não ser secreto, tornava o voto de cabresto e a fraude eleitoral práticas comuns.
AS PRÓXIMAS ELEIÇÕES... “DE CABRESTO” 62
Os coronéis levando seus empregados no cabresto para votarem.
Naquela época existia grande influência dos coronéis, pessoas que detinham o Poder Executivo Municipal, econômico e principalmente o Poder Militar da região. Os coronéis praticavam a fraude eleitoral e obrigavam as pessoas a votarem em determinado candidato.
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Charge de J. Carlos, ironizando o então sistema político vigente, publicada na revista “Careta” de 1924. Revista Humorística Brasileira de circulou de 1908 a 1960.
A maioria dos Presidentes da Republica Velha representou os interesses das oligarquias paulista e mineira. A república continuava com as práticas centralizadoras do Império através da política dos Presidentes de Estado (governadores), que controlavam de um lado, o poder local através dos coronéis, e de outro, davam sustentação aos presidentes.
Seguindo essa obra de engenharia política, o poder federal não interferiu na política dos municípios, garantindo a autonomia política e a tranquilidade nacional.
Outros deram à minha política a denominação de “Política dos Governadores”. Teriam acertado se dissessem “Política dos Estados”. Esta denominação exprimiria melhor o meu pensamento! Neste regime, disse eu na minha última mensagem, a verdadeira força política, que no apertado unitarismo do Império residia no poder central, deslocou-se para os estados. A Política dos Estados, isto é, a política que fortifica os vínculos de harmonia entre os Estados e a União é, pois, na sua essência, a política nacional. E lá, na soma destas unidades autônomas, que se encontra a verdadeira soberania da opinião. O que pensam os Estados pensa a União! (SALLES, 1983) 63.
Essa política foi criada por Campos Sales devido à necessidade de ele próprio conduzir sua sucessão presidencial que se daria em 1902, para a qual ele indicou o paulista Rodrigues Alves como candidato à Presidência:
Se nos achássemos em condições normais de vida, com partidos políticos bem assinalados entre si, obedecendo cada um à autoridade de seus chefes legítimos... Conservar-me-ia em posição neutra para oferecer aos contendores todas as garantias eleitorais, mas bem diversa é a situação da república... E é preciso evitar, com decidido empenho, as agitações sem base no interesse nacional que não serviriam se não para levar à arena política as ambições perturbadoras que tem sido e serão sempre os eternos embaraçados a proficuidade da ação administrativa... (e explica a necessidade de um vice mineiro para Rodrigues Alves). Tenho motivos para acreditar que Minas só aceitará a combinação que também entrar um mineiro e para evitar embaraços julgo conveniente indicar Silvano Brandão para vice-presidente! (SALLES, 1998) 64.
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Manoel Ferraz de Campos Salles, explicando e exemplificando a sua nova criação: a “Política dos Estados”.
A política do Café com Leite transformou a estrutura do federalismo65 no Brasil. Enquanto a definição de federalismo diz que os estados de uma federação têm de ser iguais entre si, quando há o controle da máquina estatal por dois estados, cria-se um desequilíbrio que vai contra o próprio conceito de federalismo.
São Paulo e Minas Gerais ainda hoje exercem enorme poder na política brasileira, principalmente pelo número de eleitores que possuem e sua influencia a nível federal. Dos presidentes eleitos após o fim da ditadura, Tancredo Neves era mineiro (mas faleceu antes de tomar posse); Fernando Henrique Cardoso e Lula são políticos paulistas, apesar de nascidos em outros estados; e Itamar Franco, eleito como vice- presidente de Fernando Collor de Mello, também é mineiro, assim como Dilma Rousseff, atual Presidente da Republica.
Em 2006, durante as campanhas eleitorais, o governador Aécio Neves aliou-se ao candidato a governador de São Paulo José Serra para apoiar a candidatura do Paulista Geraldo Alckmin à Presidência da República. “É a política do Café com Leite do século XXI”, declarou Serra, procurando deixar claro que a referência à política dominante na República Velha era apenas uma brincadeira.
Hoje nós estamos selando aqui um pacto de parceria. De parceria durante a caminhada eleitoral, mas sobre tudo, de parceria no futuro, se nós tivermos a ventura de vencer as eleições. E essa parceria será muito mais efetiva se pudermos ter, e acredito que teremos, o companheiro Geraldo Alckmin na Presidência da República. Sou bem educado, se vocês quiserem agradar o Aécio, votem no Geraldo (AÉCIO NEVES, 2006) 66.
Desta maneira, os três principais tucanos que concorreram ao pleito de 2006, selaram uma aliança, chamada por eles de “parceria para políticas conjuntas” entre Minas Gerais e São Paulo, em torno de cinco pontos de interesse comum entre esses dois estados.
65 União dos “Estados Federados” para constituir a “Federação”, o “Estado Federal”. O Federalismo no
Brasil seguia o modelo “Estadunidense”.
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Discurso de Aécio Neves no dia 31 de julho de 2006, em uma reunião do PSDB realizada no comitê de campanha do candidato José Serra, na região central de São Paulo. Texto transcrito por Carmen Munari, no dia 01 de agosto de 2006, extraído do site Terra.
Serra e Aécio, representando os dois estados que supostamente “dominariam” as eleições presidenciais67.