3.2 Etat de l’art des attaques par observation ´
3.2.5 Attaques par profilages
É importante observar que Fernando de Azevedo tem uma relação muito próxima com a imprensa e a sua autoridade como autor e reformador garante o seu lugar como editor da imprensa pedagógica brasileira. Assim, enquanto jornalista, ele tem os seus ensaios reunidos e publicados em formato de livro, adquire uma projeção com a reforma do Distrito Federal e, na sequência, inicia a edição da Coleção Biblioteca Pedagógica Brasileira e das suas cinco séries, dentre elas, a por nós investigada – Atualidades Pedagógicas, além de tornar-se o porta-voz do Manifesto dos Pioneiros em 1932. Essa correlação entre os papéis assumidos por Fernando de Azevedo: orientador da política educacional nacional, o reformador radical da estrutura escolar e o fomentador para a transformação da mentalidade por meio do seu papel como editor são eixos do seu projeto modernizador.
Nesse sentido, observa-se a correlação entre o projeto político da coleção com o projeto educativo proposto por Azevedo e o seu grupo. De acordo com Toledo (2001, p.167),
No momento da ofensiva dos signatários do Manifesto, a Coleção tem o papel de entrar pela escola e produzir junto a ela a cultura necessária para a expulsão das velhas práticas, fazendo dentro da escola aquilo que era realizado no âmbito das reformas: armar o professorado com novas concepções da Pedagogia, da Psicologia e da Psicologia Educacional – concepções científicas – com prática de sala de aula – as excursões, os seminários, as didáticas ativas – com o preparo necessário para o uso dos novos instrumentos – o rádio, o cinema, as bibliotecas sob a nova organização. Essa cultura escolar configurava-se como investimento tão fundamental quanto a sua luta pela exclusão do ensino religioso ou a estrutura dos institutos de educação, sem a substância das velhas práticas, as mudanças na legislação transformar-se-iam em reformas estéreis.
É em conformidade com a visibilidade política e especialista da área educacional que o nome de Fernando de Azevedo é vinculado como editor da Coleção Biblioteca Pedagógica Brasileira, da Editora Melhoramentos, em 1931. Essa coleção era composta por cinco séries, com públicos-alvo diferenciados, a saber: Literatura Infantil, Livros Didáticos, Atualidades Pedagógicas, Iniciação Científica e Brasiliana. De acordo com Toledo (2001, p.64):
[...] A escolha do nome de Azevedo devia-se justamente à projeção que este vinha obtendo desde o Inquérito de 1926, aumentada com a Reforma de 1928, no Distrito Federal, além de suas relações pessoais com Lobato. Participante ativo do movimento educacional, possibilitaria a projeção da editora na nova frente de literatura educacional, colocando-a em condições de concorrer comercialmente com outros projetos lançados desde os fins da década de 1920, como a Biblioteca da Educação da Melhoramentos.
O projeto político da Biblioteca Pedagógica Brasileira e das séries, dentre elas a Atualidades Pedagógicas, mantinha relação com o grupo de pioneiros da escola nova do qual Fernando de Azevedo era um dos expoentes. Assim, a coleção e a sua série representavam uma força no processo de renovação, tanto pedagógica, oferecendo elementos para a formação do professorado, quanto cívica, como estímulo ao desenvolvimento cultural da nação e do público. A liberdade de organização da série por Fernando de Azevedo, segundo Toledo (2006, p.342), consistia no fato de que
A seleção das obras destinadas à formação do magistério compunham uma rede de temas interligados, que pretendia cobrir amplamente as questões que diziam respeito à escola e à educação. Os critérios fundamentais apresentados para a seleção das obras são: suas “bases científicas”; os “problemas gerais e particulares da educação”; e, a partir desses critérios, a seleção dos autores – obras de brasileiros ou de qualquer outra língua, traduzidos para o português, especialmente escrita para o público visado. O editor visa, assim, garantir uma cultura científica para o professorado que o tornasse consciente dos problemas que a ação educativa envolve, assim como tecnicamente capaz de realizar o ato de educar.
Dentro desta perspectiva, nossa pesquisa repousou num conjunto de obras que percorrem o período de 1931 a 1939, com o recorte na temática da biologia e da psicologia nos temas dos títulos publicados pela Série Atualidades Pedagógicas.
O movimento de intercalar os autores brasileiros com os autores estrangeiros devia-se a tentativa de mostrar que o Brasil também tinha intelectuais e autoridades com base na cultura científica em circulação no período, além de capacitados de utilizar esse conhecimento para a realidade nacional; servindo os autores estrangeiros como complementação das discussões realizadas. Esse movimento é visualizado por Toledo (2006, p. 343) como “O problema da educação era entendido como um problema nacional. As bases científicas da educação deveriam ser lidas e pensadas sob a perspectiva das condições específicas da nação”.
Segundo Vidal (2000), a literatura estrangeira representava um suporte para a ação pedagógica no Brasil e, tanto as traduções quanto as citações, indicam um processo “Tanto de seleção das obras traduzidas quanto a dos trechos citados davam indícios para a percepção dos modos particulares como o ‘escolanovismo’ brasileiro apropriou-se da discussão internacional sobre a educação” (VIDAL, 2000, p.513). Ademais, para Vidal (2000) a tradução e o uso da literatura internacional tinham como preocupação “Adaptar as teorias estrangeiras à realidade
nacional e produzir investigações sobre as características da escola, da criança e do adolescente brasileiro (...)” (VIDAL, 2000, p.513).
Nos nove primeiros anos da série (1931-1939) há uma ênfase no conteúdo de base científica, especialmente, no campo da psicologia e da biologia, ciências consideradas como propulsoras da cientificidade da pedagogia. Para Toledo (2001, p.96), “Os maiores investimentos do editor são nos textos que definem, esclarecem e demonstram ao leitor a importância da educação em relação aos seus fins políticos; e nos textos que prescrevem a ação do professor, esclarecidas e informadas por aquilo que considera suas bases científicas – sobretudo a psicologia”.
Desse modo, podemos observar como as interpretações sobre a história do Brasil e a sua cultura motivaram os intelectuais a pensar em um projeto nacional orientado para a ordem
e o progresso. As teses republicanas, ainda para serem concretizadas em sua plenitude, e os obstáculos da política brasileira impulsionaram, por sua vez, a geração de 1920-1930 a colocar o “novo” como símbolo da “modernidade” para superar a “tradição”. Nestes termos, destaca-se a figura de Fernando de Azevedo em seu papel de intelectual, de político e de editor, por meio do qual empregou a sua interpretação sociológica da cultura brasileira, do papel da escola e da sociedade para a modernidade em suas ações reformistas e editoriais; tais ações consideradas por ele radicais e em direção ao progresso, bem como serviram de base para a sua seleção dos títulos/autores em sua serie Atualidades Pedagógicas.
Passaremos a abordar na próxima seção os aspectos ligados ao movimento da ciência e da tendência no movimento da Escola Nova, bem como à análise de cada um dos títulos nas categorias de análise por nós levantada.