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Um conceito fundamental nesta investigação, tanto quanto os discutidos anteriormente, é o de gêneros discursivos de acordo com a perspectiva de Bakhtin ([1952-1953] 2011). Para esse autor, gêneros discursivos são “[...] tipos relativamente estáveis de enunciados” (BAKHTIN, [1952-1953] 2011, p. 262), que podem ser orais ou escritos e, tendo conteúdo temático, estilo e estrutura composicional, estão presentes nas mais variadas esferas da atividade humana, no interior da qual emergem, se estabilizam e evoluem, pois são parte intrínseca dessa atividade. É por meio dos gêneros

discursivos que os sujeitos sociais interagem nas mais diferentes esferas da atividade humana.

Os gêneros são históricos e, ao mesmo tempo, dinâmicos. Embora mantenham traços de regularidade ao longo do tempo (os quais possibilitam o reconhecimento do enunciado), passam por mudanças, também ao longo do tempo, conforme as contingências com as quais se deparam e das quais recebem determinadas influências, o que acaba por imprimir alterações na sua configuração genérica.

Pensemos, a título de ilustração, em um artigo publicado em um jornal impresso. Nesse caso, o articulista tem certo reconhecimento social e/ou profissional (são pesquisadores/professores de importantes instituições de ensino superior, empresários, administradores), sendo esse prestígio o que lhe confere credibilidade para analisar uma questão polêmica e defender um ponto de vista (RODRIGUES, 2005). Embora seja possível afirmar que o articulista escreve para um público geral, pode-se ainda considerar, de modo mais específico, que esse público diz respeito ao

“[...] leitor das classes sociais A e B, ou C, quando a empresa jornalística tem a região como critério de divisão dos seus jornais. Nos jornais destinados exclusivamente aos leitores das classes populares, não se encontra a presença do artigo” (RODRIGUES, 2005, p. 171).

Isso quer dizer que, mesmo o artigo não sendo escrito para uma pessoa específica, há grupos de pessoas ou classes sociais que podem direcionar o tratamento dado pelo articulista a um assunto particular, a começar pelas razões que levam uma questão social e não outra a ser desencadeadora de diferentes pontos de vista, dentre os quais um precisa ser defendido.

Partindo dessa concepção de gênero, a pesquisa aqui empreendida volta-se para uma análise do ensino da escrita argumentativa em determinados eventos de letramento. Sendo assim, nossa investigação se vale também dos elementos sugeridos por Hamilton (2000) para a análise desses eventos: participantes, atividades, artefatos, ambientes. O conceito de gênero com que estamos operando dá suporte ao entendimento a respeito da configuração dos textos escritos pelos alunos. Tais textos encaixam-se no conjunto de artefatos dos eventos aqui tratados.

4 METODOLOGIA

A pesquisa que estamos desenvolvendo segue orientações da abordagem qualitativa, é de vertente interpretativista e está inserida no campo da Linguística Aplicada. Pensamos ser importante apresentar apontamentos a respeito de algumas ideias que funcionaram como base, segundo André (1995), para o que hoje se denomina pesquisa qualitativa. Relacionado a isso e partindo das observações de Moita Lopes (2006, 2009) e de Rajagopalan (2003, 2008), pensamos também ser necessário fazer considerações sobre modos de produção do conhecimento na Linguística Aplicada que estão alicerçados nesse tipo de abordagem.

A abordagem de pesquisa de tipo qualitativo tem suas raízes na problematização a que alguns estudiosos submeteram o modo de se produzir conhecimento nas ciências sociais e humanas. Esses estudiosos, tais como o historiador Dilthey e o sociólogo Weber, atentaram para o modo singular de se encaminhar pesquisas voltadas para o ser humano e para o social. Essas duas dimensões passaram, então, a ser examinadas e problematizadas, levando-se em consideração seu caráter complexo, multifacetado e dinâmico.

Essa mudança no modo de fazer pesquisa dentro das ciências humanas e sociais sinaliza a busca por uma maneira diferente de enxergar e encaminhar a produção do conhecimento científico. Esse tipo de conhecimento, até então, pressupunha o tratamento rigoroso de algo que já está (dado) no mundo e que, sendo visível aos olhos do pesquisador, pode ser por ele extraído do espaço-tempo que ocupa no mundo e analisado de acordo com critérios e categorias pré-elaborados pelo pesquisador. Este, no caso, tem todo o controle sobre o processo de manipulação ao qual submete o objeto estudado.

A proposta de mudança, operada por Dilthey e Weber, também deu início a um debate acerca da autoridade da voz do cientista veiculada por meio da publicação de seus escritos. Desse modo, abriu-se espaço para a discussão sobre a relação entre o cientista e os sujeitos com os quais interage, a fim de que a construção do conhecimento seja viabilizada. O ser humano, na condição de objeto de estudo, passa a ter um papel

o de passividade. Em vez de ser dito pela voz do pesquisador, o homem é investigado a partir de seus próprios modos de se dizer para o mundo.

Tal mudança desestabilizou a posição social hegemônica ocupada pela voz do cientista em relação a seu objeto de estudo. Por essa razão, o ideal positivista segundo o qual é possível pesquisar determinado objeto extraindo-o do lugar social que ocupa, sem levar em conta as influências que esse lugar social estabelece sobre sua constituição, começa a ser questionado.

É preciso reconhecer que essa mudança tornou ainda mais complexa a tarefa do cientista social de produzir conhecimento, visto que ele, querendo ou não, interpreta a análise que faz de seus dados. O que pode ter sido desencadeado foi uma conscientização a respeito das influências mútuas entre pesquisador e seu objeto de estudo.

Com isso, a realidade cientificamente estudada e dita/textualizada pelo pesquisador não reina mais soberana. Outras realidades, que se originam de outras perspectivas, são enxergadas e investigadas. Em vez de se reconhecer a existência de uma única realidade e, além disso, por meio do ângulo de visão do cientista, é possível ter acesso a (e, ao mesmo tempo, tornar acessíveis) diversas concepções do que vem a ser real, a depender de que sujeito ou grupo de sujeitos está sendo pesquisado e dos papéis sociais que eles exercem.

Consequentemente, atentou-se também para o modo como o social exerce influência sobre as formas de vida do sujeito, que se constitui na sua relação com os seus pares. De fato, a visão que uma pessoa tem de si mesma e as escolhas que faz para se posicionar no mundo estão em função das relações firmadas, quebradas e mantidas com as outras pessoas. É também nessa relação com o outro e nas maneiras pelas quais a gerencia que o sujeito elabora interpretações a respeito do espaço em que vive. Toda essa mudança nas orientações e pressupostos para a produção do conhecimento serviu para alicerçar o que se denominou abordagem qualitativa de pesquisa.

Esse tipo de abordagem tem orientado a produção de conhecimento no campo da Linguística Aplicada, mais especificamente em algumas vertentes dos estudos de letramento. Tal é a razão pela qual, a seguir, fazemos um breve traçado histórico do desenvolvimento desse campo, com o intuito de evidenciar algumas de suas características no que tange ao fazer pesquisa. Estas, como será possível perceber, estão

alinhadas aos pressupostos da abordagem qualitativa de pesquisa e marcam estudos mais contemporâneos.

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