Além de se procurar testar as hipóteses supra referidas, este estudo pretende ainda evidenciar, de forma descritiva, os níveis de stresse, ansiedade e depressão dos utentes de um ACES do Norte.
2.2- População e Amostra
Os dados para a presente investigação foram recolhidos junto dos utentes de duas unidades funcionais pertencentes ao ACES Douro I – Marão e Douro Norte. O método de amostragem utilizado foi de conveniência e não probabilístico. Participaram no estudo um total de 129 utentes, sendo 44 do sexo masculino e 85 do sexo feminino, tendo como média de idades 41,3 anos (DP ±14.4), com idades compreendidas entre os 17 e os 71 anos. Quanto ao género, 65,9% eram do sexo feminino e 34,1% do sexo masculino. No que se refere ao estado civil, 51,2% dos participantes eram casados, 28,7% eram solteiros, 7,8% viviam em união de facto, 6,2% eram viúvos e 6,2% divorciados. No que se refere às habilitações literárias, 31,8% dos participantes tinha o ensino secundário completo, 24,8% tinha licenciatura, 12,4% concluiu o ensino básico, 9,3% tinha o ensino preparatório, 7% concluiu o 1º ciclo, 6,2% fez mestrado, 3,9% tinha o 7º ano, 2,3% tinha o 10º ano, 1,6% fez o 11º ano e 0,8% dos participantes tinha o 5º ano.
2.3- Procedimentos
Numa primeira fase da investigação solicitou-se a autorização aos autores da adaptação portuguesa da Escala DASS-21 para a utilização da mesma no estudo (Anexo D). Posteriormente, enviou-se a proposta de investigação para a Comissão de Ética da ARS Norte, a fim de autorizar a aplicação dos instrumentos de investigação aos utentes das duas unidades funcionais que quisessem participar do estudo. Após a aprovação pela Comissão de Ética da ARS Norte, os questionários foram aplicados individualmente aos participantes no gabinete médico ou de enfermagem de cada uma das unidades funcionais, tendo-lhes sido disponibilizado o protocolo de avaliação, constituído por uma folha de rosto com o pedido de consentimento informado (Anexo E). Todos os questionários continham uma nota explicativa, salientando a colaboração voluntária e a confidencialidade dos dados, bem como os objetivos do estudo.
2.4- Instrumentos
Apresentam-se, em seguida, os instrumentos que foram utilizados no presente estudo e as qualidades psicométricas do DASS-21.
2.4.1- Questionário de Caracterização Social
Para este estudo foi elaborado um questionário de caracterização social, permitindo recolher informação acerca do sexo, idade, estado civil e habilitações literárias (Anexo F).
2.4.2- Depression, Anxiety and Stress Scales (DASS-21)
Para avaliar a depressão, ansiedade e stresse recorreu-se ao Depression, Anxiety and
Stresse Scales (DASS-21) (Lovibond & Lovibond, 1995a) adaptado à população portuguesa
por Vasconcelos-Raposo, Fernandes e Teixeira, 2013 (Anexo G). O DASS-21 é constituído por 21 itens distribuídos pelos sintomas de depressão, ansiedade e stresse avaliados por uma escala tipo Likert que varia entre 0 (Não se aplicou a mim) e 3 (Aplicou-se muito a mim, ou a maior parte do tempo). De acordo com Ribeiro, Honrado e Leal (2004) o resultado é determinado pela soma do total de cada subescala e a escala pode variar entre 0 e 21, sendo que pontuações mais elevadas correspondem a estados afetivos mais negativos.
Para avaliar a depressão, a ansiedade e o stresse há um igual número de itens para cada domínio. No domínio depressão é avaliada a disforia (item 13), o desânimo (item 10), a desvalorização da vida (item 21), a autodepreciação (item 17), a anedonia (item 3), a falta de interesse (item 16) e inércia (item 5). O domínio da ansiedade operacionaliza-se em excitação do sistema autónomo (itens 2, 4, 19), os efeitos músculo esqueléticos (item 7), a ansiedade situacional (item 9) e experiências subjetivas de ansiedade (itens 15, 20). Em relação ao stresse, instrumentaliza a dificuldade em relaxar (itens 1, 12), a excitação nervosa (item 8), facilmente agitado (item 18), a irritabilidade (itens 6, 11) e impaciência (item 14). A presente escala, na adaptação portuguesa, apresenta uma elevada consistência interna, pois apresenta um Alfa de
Cronbach de α=.92 para a escala total; para a depressão α=.84; para a ansiedade α=.80 e para o
stresse α=.83 (Vasconcelos-Raposo, Fernandes & Teixeira, 2013).
Quanto à consistência interna no presente estudo, a DASS-21 revelou um alfa de Cronbach de α=.93 para a depressão; α =.92 para a ansiedade; α=.93 para o stresse.
3-Resultados
Para a análise estatística dos dados, foram realizados diferentes testes estatísticos, adequados para a testagem de cada uma das hipóteses do presente estudo. A normalidade de distribuição em cada variável foi previamente testada, com recurso ao teste de Sweness e
Kurtosis, por forma a aferir a possibilidade de utilização de testes paramétricos. Verificada a
distribuição normal das variáveis, procedeu-se à testagem das hipóteses com a utilização de testes paramétricos.
3.1- Resultados diferenciais em função da idade
Diferenças de médias na depressão, ansiedade e stresse em função da idade
A partir da aplicação da escala DASS-21 e tendo como referência o valor intermédio do conjunto dos 21 itens, foi possível recolher os seguintes resultados para a depressão: 23,3% dos utentes apresenta valores de depressão médios acima do valor intermédio e 76,7% não apresenta. O valor da média é de 6,67 e DP=5,71; Para a ansiedade: 22,5% dos utentes apresenta valores de ansiedade médios acima do valor intermédio e 77,5% dos utentes não apresenta. O valor da média é de 6,38 e DP=5,59; Para o stresse: 37,2% dos utentes apresenta valores de stresse médios acima do valor intermédio e 62,8% dos utentes não apresenta.
Para responder à primeira hipótese deste estudo, utilizou-se a correlação de Pearson para testar a correlação entre as variáveis depressão, ansiedade e stresse e a idade, tendo em conta que a distribuição normal dos dados permitiu a utilização de testes paramétricos. Na tabela 1 são apresentados os valores correlacionais entre as variáveis.
Tabela 1- Correlação de Pearson (r) entre as variáveis depressão, ansiedade e stresse e a idade.
Idade Depressão Ansiedade Stresse
Idade
Depressão r=.24*
Ansiedade r=.24* r=.89*
Stresse r=.85 r=.79
Legenda: * correlação ao nível de significância p≤.01
Como se verifica na tabela 1, foram encontradas ainda correlações significativas entre a idade e as variáveis ansiedade e depressão, mas não entre a idade e o stresse, confirmando-se parcialmente a Hipótese 1. As correlações significativas são positivas, o que significa que, à medida que aumenta a idade, aumenta a probabilidade de aparecimento de sintomatologia depressiva e ansiosa.
3.2- Resultados diferenciais de género
Diferença de médias entre os géneros na depressão, ansiedade e stresse
Com o intuito de dar resposta à segunda hipótese do estudo, realizou-se o teste t de
Student para amostras independentes e para a verificação da homogeneidade da variância nos
diferentes grupos, aplicou-se o teste de Levene. De acordo com Horel (1999) o teste t de Student é um método estatístico que permite a comparação de médias em dois grupos diferentes e ainda verificar se a diferença nessas médias é estatisticamente significativa. O teste de Levene permitiu verificar que não existia homogeneidade na variância entre homens e mulheres, tendo sido utilizado o teste t para amostras não homogéneas. De acordo com o que se sintetiza na tabela 2, o resultado do teste t para as diferenças entre os grupos: para a depressão foi de t (g.l=102,8) =.736; p≥.05; para a ansiedade foi de t (g.l=102,3) =1,156; p≥.05; para o stresse foi de t (g.l=99) = .492; p≥.05. Após a aplicação do teste t, constata-se que não existem diferenças
significativas no que diz respeito ao género nas três dimensões avaliadas, o que significa que não se confirma a hipótese 2.
Tabela 2- Teste t para as diferenças de médias entre os géneros na depressão, ansiedade e stresse
t g.l p
Ansiedade 1,156 102,3 .25
Depressão .736 102,8 .46
Stresse .492 99 .62
Na tabela 3 encontram-se descritos os valores estatísticos (média e desvio padrão) referentes à análise das diferenças de género na depressão, ansiedade e stresse.
Tabela 3- Valores estatísticos referentes à análise das diferenças de género na depressão, ansiedade e stresse Masculino (n=44) Feminino (n=85) Depressão Média=6,16 DP=4,99 Média=6,94 DP=6,06 Ansiedade Média =5,60 DP=4,90 Média=6,80 DP=5,90 Stresse Média =8,55 DP=5,10 Média =9,10 DP=5,90
3.3 - Resultados correlacionais entre as variáveis depressão, ansiedade e stresse
Com o intuito de dar resposta à hipótese 3 do presente estudo, utilizou-se a correlação de Pearson para testar a correlação entre as variáveis depressão, ansiedade e stresse.
De acordo com os resultados apresentados anteriormente na tabela 1, foram encontradas correlações significativas e positivas entre as variáveis depressão, ansiedade e stresse, confirmando-se a hipótese 3.
4-Discussão dos Resultados
Com o intuito de descrever a presença de depressão, ansiedade e stresse dos utentes das unidades funcionais foram analisados os resultados obtidos no estudo e comparados com os dados de investigações anteriores. Assim, os valores obtidos para a prevalência de sintomatologia depressiva, ansiosa e de stresse dos utentes (cerca de 23%) situam-se acima do valor mínimo esperado para a população mundial (15%), mas de acordo com a estimativa para a população portuguesa (22,9%) (Almeida e col., 2010; DGS, 2013; ERS, 2015).
Com base nos resultados obtidos, a prevalência de sintomatologia depressiva e ansiosa aumenta com a idade, contudo a sintomatologia de stresse é independente da idade, o que poderá indiciar que a mesma passou a integrar o padrão comportamental dos indivíduos hoje em dia. Seria, contudo, de esperar que houvesse uma maior incidência de sintomatologia (depressiva, ansiosa e de stresse) na faixa etária designada “idade da sandwich”, pela necessidade de prestação de cuidados às gerações mais novas e às mais velhas. Os dados obtidos poderão, porém, estar relacionados com as especificidades da amostra, pois refere-se a uma população envelhecida residente na região do interior norte do país. Segundo várias investigações, a prevalência de perturbações de saúde mental aumenta com a idade, especialmente a depressão (DGS, 2002).
Considerando que o segundo objetivo do presente estudo é verificar se o género se relaciona com a ansiedade, depressão e stresse, os resultados obtidos permitem afirmar que as mulheres não apresentam valores mais elevados de depressão, ansiedade e stresse do que os homens, o que contraria os dados resultantes de estudos nacionais e internacionais (ARS, 2014; WHO & WONCA, 2008). Uma das razões que poderá estar na origem destes resultados é o facto de alguns questionários terem sido preenchidos na presença da investigadora, no contexto de sala de espera das unidades de saúde. Porventura, os utentes poderão ter sentido ameaçado o direito ao anonimato dos dados, o que pode ter contribuído para a obtenção destes resultados.
Existe uma variedade de razões que poderão justificar a maior prevalência de perturbações depressivas e da ansiedade entre as mulheres, contudo não há dúvida que os fatores genéticos e biológicos desempenham um papel significativo. Estão bem documentadas as mudanças abruptas de humor relacionadas com alterações hormonais, como parte do ciclo menstrual e o pós-parto. De facto, a ocorrência de depressão no puerpério pode marcar o início de uma perturbação depressiva recorrente. Contudo, fatores psicológicos e sociais também têm um peso importante na vulnerabilidade das mulheres para o desenvolvimento de perturbações depressivas e da ansiedade. O papel tradicional por elas desempenhado na sociedade expõe as mulheres a um stresse maior, tornando-as também menos capazes de mudar o seu ambiente gerador de stresse (DGS, 2002).
No que concerne à relação entre as variáveis depressão, ansiedade e stresse, verifica-se que todas se relacionam positivamente, o que vai ao encontro dos resultados de estudos anteriores. Tem sido alvo de interesse de vários investigadores a análise das dimensões afetivas da depressão e da ansiedade, pois embora sejam descritas como distintas apresentam características que se sobrepõem, podendo ser considerados pontos do mesmo contínuo (Apóstolo, Mendes & Azeredo, 2006; Clark et. al., 1995).
5- Conclusão
Dados do presente estudo confirmam a prevalência acentuada de perturbações de saúde mental nos cuidados de saúde primários e que esta tende a aumentar com a idade. Uma das razões que justifica este facto poderá ser a insuficiente resposta por parte dos serviços de saúde primários, pois caso houvesse capacidade de resposta, as situações de perturbação de saúde mental seriam diagnosticadas em utentes da faixa etária jovem e verificar-se-ia uma menor severidade em alguns casos, bem como uma diminuição acentuada de custos com a saúde.
Segundo resultados de diversas investigações ao longo dos anos, a prevalência geral de perturbações mentais e comportamentais não parece ser diferente entre homens e mulheres. Existem, contudo, fatores de vulnerabilidade que contribuem para o desenvolvimento de perturbações diferenciadas entre indivíduos do sexo feminino e do sexo masculino. Não obstante, urge capacitar os serviços de saúde primários com os recursos necessários para o diagnóstico e intervenção para a saúde mental.
Recentemente, foi publicado o Relatório do Grupo de Trabalho do Ministério da Saúde (ACSS, 2015) com o objetivo de avaliar a situação da prestação de cuidados de saúde mental e das necessidades na área da saúde mental, atendendo à forma como os recursos se encontram distribuídos entre as várias regiões do país. Os resultados do relatório apontam, na generalidade, para melhorias ligeiras a nível da prestação de cuidados de saúde mental, em comparação com o ano de 2014, em várias regiões do país. Não obstante, foram encontradas algumas discrepâncias entre a real prestação de cuidados de saúde mental em comparação com o que seria desejável em algumas regiões e no interior dos próprios serviços de saúde, na mesma região (ACSS, 2015).
Com base nestes e em outros dados fornecidos por diversos estudos, e apesar da necessidade evidente duma cobertura de cuidados de saúde mental que permita combater as altas taxas de prevalência existentes, a realidade mostra um enorme défice na prestação de cuidados a estes cidadãos (Ministério da Saúde e Alto Comissariado da Saúde, 2010). Deste modo, é legítimo questionar-se, por um lado, a eficiência do sistema, visto que uma intervenção holística permitiria diminuir os recursos consumidos em terapêuticas diretamente relacionadas com a saúde física dos indivíduos, quer a sua equidade, dado que os portadores de doença mental não parecem ter um acesso aos cuidados de saúde de que necessitam idêntico ao dos restantes cidadãos, conforme revelaram Alonso e col. (2007) num estudo comparativo entre diabéticos e pessoas com doença mental.
O presente estudo apresenta como limitação a dimensão da amostra, que não é representativa da população do ACES e esta ser composta, maioritariamente, por indivíduos do género feminino. Outro constrangimento a assinalar deste estudo relaciona-se com o contexto de recolha de dados, que, em algumas vezes, contou com a presença da investigadora e decorreu na sala de espera dos utentes. Assim, serão necessários mais estudos similares que representem um contributo para o reforço dos serviços na área dos cuidados primários de saúde mental.
De acordo com as recomendações da OMS e segundo a linha das orientações para a área da Saúde Mental do Plano de Saúde 2007-2016, será útil desenvolver uma estratégia de intervenção precoce, local e comunitária para a promoção da Saúde Mental e prevenção da doença, com implicações positivas em termos económicos e de ganhos em saúde da população.
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