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Desde a estréia da montagem de Um sábado em 30 pelo TAP, em 1963, a contextualização histórica da Revolução de 1930 tem sido vista pelos críticos como um “discreto e irrelevante pano de fundo” (MICHALSKI 1976:2) que nada acrescenta ao desencadear da ação dramática. De acordo com Eduardo Guennes (1963b:3), durante o

conflito, Timbaúba foi uma importante cidade por onde circulavam soldados que trafegavam entre Pernambuco e Paraíba, vivendo toda a efervescência da época. Para o crítico, tais acontecimentos não se refletiam na atmosfera de Um sábado, comprometendo a profundidade da trama e a verdade interior de seus personagens. Para Joel Pontes, “não é a revolução o que tem verdadeira importância” (1963b:3), mas o cotidiano de uma família patriarcal. Décio de Almeida Prado sustenta opinião semelhante. Afirma que a Revolução e a Aliança Liberal apenas “perpassam fugidiamente [...] como um pano de fundo que jamais vem e jamais deve vir até o primeiro plano, a não ser para deflagrar o desfecho. O que realmente interessa ao autor não são os fatos políticos, a circunstância social, mas a vidinha medíocre e freqüentemente grotesca de todos os dias”. ([1963] 2002:273). Todavia, debruçando-se sobre o texto, constatamos que sua função não se limita a um mero pano de fundo. Ela apresenta-se de maneira pontual, quase fantasmal (tamanha a sutileza de sua inserção na estrutura dramática da obra) no encadear dos fatos, perpassando toda a peça do início ao seu desfecho.

Logo no início da trama, começamos a tomar conhecimentos da situação política do país, através da conversas dos empregados que se reúnem religiosamente na ante-sala de jantar a comentar sobre o dia-a-dia de seus patrões, vizinhos e conhecidos. Apiedam-se do sofrimento de D. Mocinha pela ausência do filho e criticam o descaso do restante da família que se comporta como se não possuísse um parente na “guerra”:

JOANA - (Com ar solene) A coruja ontem passou por cima do telhado rasgando... eu acho que a velha vai embarcar!... E tu Julião, não vais avisar a D. Mocinha?

JULIÃO - Não! Foi o que mais Seu Quincas recomendou!... Cuido que é porque D. Mocinha vem levando muito aperreio com Seu Vasco na guerra...

CHICO - Ele não dá notícias, ninguém sabe por onde anda! Se está vivo, se está morto!...

JOANA - Coitada de D. Mocinha! Outro dia quando passou o trem das tropas e que tocou a corneta... ela se ajoelhou no oratório com um rosário na mão e botou para rezar e chorar que nem quando dá trovão.

CHICO - Também, é a única que se aperreia... O resto, nem parece!... (MARINHO 1968:20).

A Revolução também se dá a ver pelas manifestações de desespero de D. Mocinha, temendo pela sorte do filho. Atormenta-se pela ausência de notícias, se está vivo ou morto, se se encontra refém dos perrepistas ou se um dia voltará para casa, ao seio materno e familiar. A mãe reza e faz promessa a São Severino dos Ramos, santo guerreiro, para que proteja seu filho:

D. MOCINHA - (Erguendo os olhos para o céu) Meu poderoso São Severino, vós que fostes guerreiro, protegei meu filho na guerra!... Pelas vossas chagas, prometo-vos: se meu filho tornar das fileiras com vida, mandarei vos entronizar em minha sala de visitas. (Baixa a cabeça e chora). (MARINHO, 1968:35)

E ainda discute com o pai, Major Paulino, sobre os males das guerras e o valor do bem-estar da família. Prefere a vida simples, sem heroísmos ou tradições, um filho pacato, resignado ao cotidiano da família e da cidade do interior a vê-lo morto. A Revolução instala o conflito no lar, opondo pai e filha:

D. MOCINHA - Mas pai, Vasco não dá notícias! Estou aflita... Por onde andará aquele menino?

M. PAULINO - Uma coisa eu lhe asseguro. - Desertar, ele não desertou, isto nunca! Pode estar preso ou morto, jamais escondido!

QUITÉRIA - Mas os rapazes que saíram, já se sabe de todos... até dos mortos... ... M. PAULINO - Essa revolução não chega ao fim do mês! Questão de dias... a nossa causa está ganha! Não vê lá pelo Rio Grande do Sul, como andam as coisas? O menino anda por aqueles mundos... Ele é matreiro... deve andar fazendo das suas por lá!... Não digo nada se ele chegar aqui de gaúcha de lado. D. MOCINHA - Não! Não creio! Pra mim é como pai disse: - Ele está preso ou morto! E pai... a culpa é sua! O senhor foi quem influenciou para que ele seguisse como voluntário!... Não tinha nem idade!

M. PAULINO - Era um dever! O Partido precisava de nossa ajuda! Não será na quinta geração, que os Teixeira Cavalcanti fracassem!

D. MOCINHA - O senhor pode se orgulhar daquela galeria lá fora! Mas, quanto não custou a cada um daqueles heróis? Sangue e vida! Só o senhor sobreviveu... mas em que situação! - Quero meu filho simples, vivendo sem heroísmos, sem tradições... Vivo pai! Vivo! (Chora). (MARINHO 1968:36-37)

Como se vê, a Revolução de 1930 também se encontra no idealismo anacrônico de Major Paulino, no seu fervor pela Aliança Liberal. Esse personagem é o único que demonstra um vivo interesse pelos fatos da Revolução. Procura saber sua repercussão tanto no âmbito local (pergunta às comadres se os homens continuam se escondendo no mato para não serem obrigados a lutar) quanto no âmbito nacional (busca saber as últimas notícias saídas na impressa sobre a Revolução). Mas, ao mesmo tempo em que o velho Major mostra-se atento à atualidade, sua memória permanece aberta à reminiscência, trazendo ao leitor-espectador o primeiro acontecimento que serviu para desencadear o conflito que dividiu o país: o assassinato de João Pessoa. Major Paulino contextualiza a trama de Um sábado em 30 na história política e social do Brasil. Restitui esta comédia marinha sua historicidade:

M. PAULINO – [...] E a tragédia do dia 26?... Ficará impune? (Trêmulo e nervoso) - Não posso me esquecer... que amanhã!!! [...] Eu estava na rua Nova quando ouço correrias e tumulto. Desgraçadamente sem os meus olhos, apenas percebia que aquilo era princípio de revolução! [...] Depois, mil bocas diziam: - João Pessoa foi assassinado! João Dantas matou João Pessoa! Mataram João Pessoa no Café Glória! (MARINHO 1968:49).

Fervor revolucionário que o fez incitar o neto a partir para a guerra e a discutir com os agregados da família a importância de se lutar por “causas justas”, contra uma oligarquia paulista opressora. Mesmo que ele também descenda de uma outra oligarquia tão excludente e tirânica quanto a primeira, mesmo que seus ideais revolucionários redundem em puro proselitismo. A Revolução sobrenada a comédia através dos relatos sobre os matutos “frouxos”, que desde a Guerra do Paraguai, escondem-se nos matos, lutando por suas próprias vidas; único bem ao qual o subalterno tem direito, mesmo que, diante da miséria e da insanidade do ser humano, este também lhe seja negado. Em conversa com Major Paulino, as mulheres do mato defendem “a covardia de seus homens”. Refutam a virilidade do ex-combatente em defesa da vida de seus maridos, filhos e noivos:

M. PAULINO - Os homens ainda estão se escondendo lá pelo "mato"?

1ª MULHER - É a mesma coisa! Cuidam que ainda estão pegando homem para brigar... pra feira, só vem velho e mulher...

M. PAULINO - Ah! Homens frouxos! Medo de lutar! Ah! meu tempo! Homem não se escondia! Pelo contrário - Fui voluntário na guerra do Paraguai! Lutei até o fim! O meu neto puxou a mim!

1ª MULHER - E o que foi que "ganhou"? Olho cego, não foi?

M. PAULINO - Se todos pensassem desse modo, vocês hoje não estariam aqui assim! (MARINHO 1968:41)

A chegada do soldado perrepista Gustavo, traz a Revolução de volta à cena. Perdido dos companheiros de batalha, quase todos mortos por envenenamento, inclusive seu próprio irmão, o soldado vagou dias e noites sem comer nem beber até chegar às imediações da casa de Seu Quincas e de D. Mocinha. Procurava o amparo de alguma casa também filiada ao seu partido. No entanto, o rapaz fora descoberto e baleado, sendo socorrido pelos empregados Julião e Chico que o recolheram para dentro da residência. A Revolução que, até aquele momento apenas rondava a peça, dando-se a ver pelas conversas dos empregados, comadres e patrões, invade a casa senhorial, penetrando definitivamente na vida de todos os personagens. Em seguida, esgarça-se em comédia novamente. Na cena em que Gustavo, ainda ensangüentado, narra suas desventuras para os presentes, de imediato, o rapaz ganha a simpatia da família, sobretudo, das moças que o enchem de carinhos e mimos:

SOLDADO – [...] Há mais de um mês que saímos eu e meu irmão de casa, ele morreu há alguns dias envenenado com água de cacimba, e nada pude fazer... Antes, nós soubemos que o engenho fora massacrado e incendiado e que a nossa família fugira para a Capital, todos vivos... mas só isto: - Vivos! O resto é miséria, devastação, e fracasso!...

A esta altura todos rodeiam o soldado e há uma onda de simpatia em torno dele. Todos querem confortá-lo, sobretudo as moças que passam toalha úmida no seu rosto e penteia-o. Vem camisa limpa, comida, almofadas, etc. D. Mocinha vai se intrigando com o exagero das moças.

M. PAULINO - É meu filho, vocês tomaram uma trilha errada! MERCÊS - Ele é um suco! (Para Jesus e Quitéria)

M. DE JESUS - Parece Ramon Novarro!

MERCÊS - Se ele quisesse tirar um linhô comigo... (Riem as três). (MARINHO 1968:82).

O encantamento das moças pelo rapaz quebra a progressão dramática da cena. Dissipa a historicidade da peça. Veta a simpatia do leitor-espectador por Gustavo, através da comicidade que subjaz da ação de Mercês, Maria de Jesus e Quitéria que, obstinadas pela idéia fixa de arranjar namorado e marido, não se apiedam de seu sofrimento, só enxergando um “bom partido” e não um soldado perrepista à beira da morte, traumatizado pela perda do irmão e perdido de sua família. São ridículas por sua rigidez de caráter, o que segundo Bergson, justifica-se pela desatenção do personagem à vida, ao entorno social que deveria influenciar seus atos. Padecem da mania que torna os personagens cômicos seres ridículos, reduzindo-os ao tipo. Eis sua comicidade de caráter.

Porém, na mesma noite, apesar do distanciamento cômico, ainda ecoaram vestígios da Revolução junto ao vestido vermelho de Zefa Pastora, transformado em trapos. A moça volta “estropiada” de uma “pisa” que os perrepistas deram no cordão encarnado, cor- símbolo do Partido Liberal:

De repente, a porta do oitão é empurrada e Zefa entra chorando aos berros. Zefa com o olho roxo, toda cheia de ferimentos, vestido de pastora, de lamê vermelho e curto, todo dilacerado, bochechas exageradamente pintadas, e instintivamente, com um cravo vermelho ainda segurado à mão.

TODOS - Que foi isto?/ Virgem!!!/ O que foi?/ Que é?/ Fala, menina! Ôxem! Danou-se!/ Eita pau!/ Fala, menina!/ O que lhe aconteceu/ Fala! Diz! Diz! ZEFA - (Parando o soluço e dando três suspiros breves) Foram os perrepistas!!! Acabaram o pastoril!... e deram uma pisa no cordão encarnado!!! (MARINHO 1968:85).

Finalmente, a Revolução invade pela segunda e última vez a casa de Seu Quincas e de D. Mocinha, trazendo consigo o filho Vasco, sã e salvo. Restaura-se a harmonia na

família, ao mesmo tempo em que é anunciado o fim da guerra e a vitória da Aliança Liberal, encerrando a comédia.

A sutileza da inserção do contexto histórico justifica-se pelo próprio caráter do gênero cômico, que prescinde da noção de tempo. Quanto mais nos imbuímos do passado do personagem, mais nos aprofundamos em sua personalidade, desvelando-a e, ao mesmo tempo, vetando seu caráter cômico. Chegamos, portanto, ao drama e à tragédia: “Un personnage devient comique à mesure qu’il est vidé de la biografie qui fait de lui cette personne unique; de l’être réalisé dans une histoire qui se réalisera une seule fois se détache un type; la sympathie qui nous attache à la personne historique disparaissant avec elle, le comique peut naître”. 46 (GOUHIER 1952:139). No caso de Um sábado, a presença da Revolução de outubro compromete os limites da comédia, fazendo-o, por vezes, invadir o drama.

Dessa maneira, Marinho empreende sua anamnese ficcional. Entre momentos de comicidade, como numa pausa dramática, dissemina a Revolução de 1930 nos assuntos de família, nas conversas dos empregados, na opinião de cada personagem, sendo contra ou a favor, alienado ou politizado. A galeria de personagens marinhos serve como um painel que disseca a Revolução sob a ótica do cotidiano, da intimidade familiar. Se Um sábado em 30 é a “crônica da vida patriarcal”, a Revolução de outubro e suas conseqüências sobre a sociedade brasileira existem na peça na medida em que se inserem no cotidiano de uma família patriarcal do interior do Nordeste, interferindo, sobretudo, no fórum de suas relações interpessoais.