en matière de piscines de plein air
12. Etablissements combinés
12.3 Association d’une piscine à un centre de bien-être proposant des installations
Para Winnicott, o conceito de ilusão é um elemento-chave, tanto na teoria quanto na prática. Para ele, é a partir da ilusão que se dá o processo de criação. A ilusão comporta o poder de edificar o cosmos. Assim como Deus cria o mundo do nada, o homem, motivado pelo desejo, produz, a partir da efemeridade da ilusão, aquilo que ele quer, transformando o sonho em realidade. Assim como as fadas inventam aquilo que desejam com o toque de suas varinhas mágicas, “tocar a ilusão” é acessar a potencialidade da criação.
Entendeu que é da ilusão que o bebê cria sua realidade e se constrói como indivíduo no mundo, portanto, dentro de sua teorização, ilusão e realidade não se chocam, pelo contrário, se completam. Primeiro, “cria o seio da mãe”, depois cunha outros objetos, e é a partir dessa ilusão que ele vai aprender que é no mundo real
onde encontra aquilo de que necessita. Aquilo que ele não cria não existe para ele. Esse processo de criar é uma forma de internalizar o objeto, de possuí-lo, é a partir desse mecanismo que o objeto passa a ter uma existência real para o infante. Mas essa ação não cessa quando ficamos adultos, continua acontecendo durante toda a vida.
Segundo seu olhar, no processo de desenvolvimento do ser humano, acontece uma área de experimentação, que ele também chama de área intermediária, para a qual contribuem tanto a realidade interna como a realidade externa, área essa que existe entre a inabilidade e a crescente habilidade do bebê de reconhecer e aceitar a realidade.Diz ele,
Estou [...] estudando a substância da ilusão, aquilo que é permitido ao bebê e que, na vida adulta, é inerente à arte e à religião, mas que se torna a marca distintiva de loucura quando um adulto exige demais da credulidade dos outros, forçando-os a compartilharem de uma ilusão que não é a própria deles. Podemos compartilhar do respeito pela experiência ilusória, e, se quisermos, reunir e formar um grupo com base na similaridade de nossas experiências ilusórias. Essa é uma raiz natural do agrupamento entre os seres humanos (WINNICOTT, 1975, p. 15).
Vê-se nessa afirmativa a importância da ilusão não só para a concepção da realidade do sujeito como também no sentido de aglutinar as pessoas, sendo ela o fator que favorece o agrupamento dos seres humanos, e que está presente na arte e na religião.
No momento inicial da vida, uma das tarefas da ‘mãe suficientemente boa’ é justamente propiciar ao bebê a oportunidade para a ilusão. A primeira ilusão seria que o seio da mãe faz parte do bebê e que estaria, portanto, sob o controle mágico dele, de forma que toda vez que ele chorar o seio aparece, como sua invenção. A criatividade é essa qualidade que tem a ver com ilusão, algo fundamental para existir no mundo. É importante frisar que esse criar ao qual se refere Winnicott não tem a mesma conotação de quando se diz que uma pessoa ‘é criativa’, dentro de uma linguagem coloquial e popular. Para ele, “a criatividade é [...] a manutenção através da vida de algo que pertence à experiência infantil: a capacidade de criar o mundo” (WINNICOTT, 1989c, p. 32). Dentro desse entendimento, criar é fazer com que o mundo externo passe a existir na consciência do indivíduo. E o mundo interno também só passa a existir na medida em que o bebêse cria, ou seja, ele mesmo cria o seu próprio eu ou self, a consciência de ser separado, de existir enquanto indivíduo, a partir da relação com a mãe.
Nesse processo, entra outro conceito fundamental ligado aos fenômenos transicionais ou objeto transicional, já apresentado no capítulo anterior, que se refere à área intermediária entre a realidade interna e a realidade externa. Diz Winnicott:
Essa área intermediária de experiência, incontestada quanto a pertencer à realidade interna ou externa (compartilhada), constitui a parte maior da experiência do bebê e, através da vida, é conservada na experimentação intensa que diz respeito às artes, à religião, ao viver imaginativo e ao trabalho científico criador (WINNICOTT, 1975, p. 30).
Segundo Winnicott, “os fenômenos transicionais representam os primeiros estádios do uso da ilusão” (WINNICOTT, 1975, p. 26), aparecem na área em que antes existia a ilusão, dentro da relação mãe-bebê, portanto pertencem ao domínio da ilusão e estão na base da experiência, “iniciam todos os seres humanos com o que sempre será importante para eles, isto é, uma área neutra de experiência que não será contestada” (WINNICOTT, 1975, p. 26-27). Essa área neutra é a área intermediária. Outra forma de entender a área intermediária é dizer que ela está entre o que é percebido como subjetivo e o que é percebido como objetivo, entre o que se entende como sonho e aquilo que se percebe como sendo a realidade, entre o mundo interno e aquilo que é reconhecido como o mundo externo.
A mãe é fundamental tanto para criar a oportunidade para a ilusão, assim como para a subsequente desilusão, que vem a partir do desmame, dando ao indivíduo a capacidade para lidar com as frustrações ao longo da vida. Dessa forma é que o ser humano se desenvolve, se sociabiliza e amadurece. Mas, segundo Winnicott (1975), nenhum indivíduo soluciona de modo final para si mesmo a questão da ilusão, pois a vida toda o ser humano tem que lidar com a aceitação da realidade, existindo formas saudáveis e plenamente aceitas socialmente, por meio das quais o indivíduo expressa sua subjetividade, assim como também podem existir formas doentias:
[...] Se um adulto consegue extrair prazer da área pessoal intermediária sem fazer reivindicações, podemos então reconhecer nossas próprias e correspondentes áreas intermediárias, sendo que nos apraz descobrir certo grau de sobreposição, isto é, de experiência comum entre membros de um grupo na arte, na religião, ou na filosofia (WINNICOTT, 1975, p. 29).
Segundo sua visão, é a ilusão o elemento que tem a função de aglutinar as pessoas para a formação de grupos; ela é que proporciona experiências comuns aos participantes dos grupos específicos.
No processo de amadurecimento, aos poucos o infante perde o interesse pelo objeto transicional, que lentamente se descatexiza, ou seja, vai perdendo a carga energética de que é investido, e isso normalmente acontece à medida que se desenvolvem os interesses culturais e se intensifica o processo de separação e individuação. A área da experiência cultural é a terceira área, dentro do que Winnicott coloca como as três vidas que as pessoas saudáveis experienciam, sendo a primeira a vida no mundo e a segunda a vida da realidade psíquica pessoal. É de interesse aqui particularmente a área da experiência cultural, pois é nela que se situa a religião. Para Winnicott (1989), ela não é um sonho, é parte da realidade compartilhada:
Mas não se pode dizer que seja parte dos relacionamentos externos, pois é dominada pelo sonho. Ela é a mais variável das três vidas; em certas pessoas [...] ela não tem praticamente representação, enquanto em outras ela é a parte importante da existência humana, a parte que os animais não desenvolveram. Essa área [...] aparece também na forma de toda a cultura acumulada nos últimos cinco ou dez mil anos (WINNICOTT, 1989 b, p. 28).
A área da experiência cultural inicia-se no espaço potencial entre a criança e a mãe, esse mesmo espaço que, em outros momentos, é chamado de espaço transicional ou espaço neutro. É nesse espaço que acontece a religião, é onde se situam as crenças. Embora a área da experiência cultural não seja um sonho, ela é dominada pelo sonho.
Diferentemente de Freud, que se dizia ateu, Winnicott tinha uma relação de bastante proximidade com o divino, como atesta a frase deixada em sua autobiografia: “Meu Deus, faz com que eu viva o momento de minha morte!” (OUTEIRAL, 1983, p.12). Entretanto, Winnicott (1989)é enfático na defesa da ciência. Afirma ele que, quando surge um vazio no conhecimento, o cientista não busca uma explicação no sobrenatural, pois esse vazio oferece um desafio excitante ao pesquisador. E é com fé que ele se lança no vazio para uma experimentação, na busca por entender aquilo que ainda não sabe. Explica que essa fé da qual fala “[...]
não [é] uma fé nisto ou naquilo, mas uma fé, ou uma capacidade para a fé” (WINNICOTT, 1989d, p. 10).
Esclarece Winnicott (1989) que, enquanto a ciência vive na incerteza, sempre buscando e tentando responder a novas questões, a religião, pelo contrário, é um lugar de certezas, de respostas acabadas. E que, pelo fato de a ciência comportar a dúvida, implica um ato de fé. “Fé em que? Talvez em nada; apenas uma capacidade de ter fé; ou se tiver mesmo que existir fé em algo, que seja então a fé nas inexoráveis leis que governam os fenômenos” (WINNICOTT, 1989d, p. 10).
Para ele, a Psicanálise é um método, baseado em uma teoria desenvolvida por Freud ao longo de sua vida, a metapsicologia, mas, quando alguém se submete ao método, tem-se uma ciência aplicada que, embora difira da ciência positivista, tem mérito enquanto pesquisa científica. Entendia que, “através do sonho e do sonhar, as pessoas conhecem seu próprio inconsciente, pois os sonhos representam uma ponte entre a vida consciente e os fenômenos inconscientes” (WINNICOTT 1989d, p. 11). Ou seja, na prática, a Psicanálise lida com a ilusão e trabalha exatamente no contexto da ilusão, na área que Winnicott chamou de transicional, que se situa entre, faz a transição entre duas outras áreas, o interno e o externo, o consciente e o inconsciente.
Embora defendendo a ciência e contra a religião, Winnicott confronta a visão racionalista em seu artigo O pensar e o inconsciente, quando afirma que “o pensamento não passa de um delírio, a menos que se leve em conta o inconsciente” (WINNICOTT, 1989e, p.133). Mas, como existe o inconsciente, o pensamento não é um delírio. O que Winnicott chama de delírio remete a um desencontro entre o percebido subjetivamente e a realidade objetiva. Diz ele, “se um adulto nos reivindicar a aceitação da objetividade de seus fenômenos subjetivos, discerniremos ou diagnosticaremos nele loucura” (WINNICOTT, 1975, p. 29). Em sua a formulação, a alucinação se diferencia do sonho apenas por não ser capaz de encontrar o interlocutor, diferentemente da ilusão, em que há um encontro, conforme bem o coloca o psicanalista Gurfinkel:
A ilusão é uma experiência de encontro, que se dá em um campo intersubjetivo. A alucinação, por outro lado, é o revés de um encontro, é um ensaio de gesto espontâneo que não encontrou o seu correlato na realidade compartilhada. É a persistência no tempo do fenômeno subjetivo sem a transitividade para o objeto objetivamente percebido: um gesto abortado, parado no ar, que não encontrou apoio no outro da comunicação (GURFINKEL, 2001, p. 168).
Note-se que, no desenvolvimento que aqui se faz, sonho e ilusão são tomados como correlatos. Fantasiar é entrar na fantasia, no mundo da ilusão, sabendo que se trata de um sonho, enquanto delirar é entrar nesse mesmo mundo, acreditando e ou querendo fazer acreditar que ele é real.
Ainda sobre o desenvolvimento winnicottiano a respeito da ilusão, é importante lembrar que, para Winnicott, as crenças e práticas religiosas desempenham um importante papel na experiência humana, e não devem ser simplesmente descartadas ‘como mera ilusão’, está a ilusão presente não só na religião, mas também na arte e na própria ciência.