11. L ES STRUCTURES DONT LA MISE À DISPOSITION EST L ' ACTIVITÉ PRINCIPALE
11.5. L'association intermédiaire
No entendimento dos sujeitos desta pesquisa, a presença do Sebrae foi positiva porque permitiu aos residentes e empresários do setor conhecerem novas perspectivas sobre o mercado turístico nacional e regional. Também foram discutidas temáticas, voltadas ao trabalho e profissionalização em turismo, mostrando como ser possível potencializar os atrativos do município, realizadas capacitações com empreendedores, profissionais de hotelaria e restaurantes, além dos cursos de condutor local de turismo. Um ponto destacado foi a capacidade do Sebrae em reunir algumas lideranças, como destacou um dos agentes culturais:
No princípio, como o Sebrae está ligado à microempresa. Muitos pensavam que ele seria um fonte de dinheiro. Mas ele conseguiu fazer bem essa cadeia do turismo [...] faço uma avaliação muito positiva. Hoje você chega ao Cariri e se sente no Cariri, em especial em Cabaceiras. Ela era “ilhada” e hoje é conhecida. (AC2)
Para os empresários, a parceria entre Sebrae, empresários do turismo e Prefeitura de Cabaceiras foi positiva, porém enquanto mantida. Eles destacaram que, durante a presença do Sebrae em Cabaceiras, sempre existiu uma procura permanente por melhorias, um intercâmbio de informações e a realização de cursos de capacitação. Contudo, muitas ações sofreram pela descontinuidade,
A parceria foi maravilhosa, mas até enquanto durou. Era uma parceria saudável, onde existia uma permanente procura, tanto de nossa parte com relação aos cursos e capacitação, tanto com relação ao Sebrae e parceiros em fazer esse intercâmbio. Infelizmente depois, no decorrer desse período, o Cariri ficou praticamente esquecido. Então essa parceria quase não existia e só não acabou por teimosia e competência de alguns técnicos do Sebrae, que não deixaram que aquela semente plantada morresse [...] então muitas ações, iniciadas no início da década, elas sofreram pela descontinuidade. E essas interrupções são ruins. Antes, você podia ver, no início de 2000, existiam vários empreendimentos sendo realizados no Cariri e muitas pessoas se mobilizando para fazer seus empreendimentos. E, depois de certo tempo, essa atenção do Sebrae parou. Essa interrupção é bastante ruim. (E2)
E ainda,
Essa atenção do Sebrae é muito importante porque, visava levar qualificação, capacitação e também motivação. O principal “tesouro” do Sebrae é seu quadro técnico. E de repente as pessoas não estavam mais indo lá. Apenas um ou outro técnico que continuava indo....mas quando não se tem uma ação toda voltada para o lugar, começa a diminuir as ações. Sofremos, mas não tenhamos dúvida que a parceria com o Sebrae foi magnífica, enquanto a atenção era mais frequente. (E2)
Os empresários disseram que não havia como negar a influência positiva do Sebrae Paraíba em projetos de desenvolvimento, até porque a instituição conhece bem o trabalho dos pequenos e médios empreendedores da região do Cariri. Mas, destacaram, como fator negativo, a brevidade com que as ações do projeto THCCP foram implantadas e executadas. Essa brevidade também foi percebida por R5PC,
O projeto teve seus pontos positivos, mas assim, por diversos fatores o projeto não teve uma continuidade que era para ter sido dada. Então assim, o projeto teve sim uma participação interessante, mas poderia ter sido mais. Acho que todos falharam (órgão público, próprio projeto e até as pessoas que estavam dentro desse projeto). Não sei bem o que citar ou apontar e dizer “foi isto” [...]acredito que aquele era um projeto de continuidade, mas faltou essa continuidade. Sempre tinham alguns eventos, quando necessitava do Sebrae dentro do projeto, em algumas situações tínhamos
apoio. Mas não sei dizer o porquê, mas o projeto poderia ter sido desenvolvido mais [...] mas tinha horas que o projeto poderia ter dado um crescimento a mais, mas não crescia. Deixou a desejar em alguns aspectos. (R5PC)
Outra crítica ao projeto diz respeito ao foco de trabalho estar mais voltado aos negócios e divulgação, na mídia local e regional, dos eventos populares (Bode Rei), do que para debates mais aprofundados sobre cultura e patrimônio. De fato, o apontamento está respaldado nas colocações de um dos representantes do Sebrae, posto no capítulo 4, quando o mesmo diz que a proposta estava em trabalhar com o que existia na região e investir, ter foco no lado econômico.
Outra fala recorrente dos entrevistados recai sobre a curta permanência, dos gestores do projeto, em Cabaceiras, não permitindo que parte da população local compreendesse, plenamente, a importância em desenvolver um turismo de melhor qualidade, voltado à valorização e preservação de aspectos peculiares da cultura do lugar:
Sabemos que não é fácil mudar[...]também depende do próprio povo, dele aproveitar. Não é fácil mudar. Às vezes vem bem empolgado com interesse de dar curso, de fazer alguma coisa, mas o próprio povo para mudar sua percepção é mais difícil. É preciso tempo pra isso acontecer. (E1)
E ainda, na visão de outro empresário, essa descontinuidade nas ações talvez tenha sido o motivo pelo qual muitas das expectativas não foram atendidas,
Essa ação do Sebrae é importante, que é de qualificação e capacitação. Mas funciona também como ação de marketing, e uma ação de marketing deve ser contínua. Eu não vejo por que parar com essa ação. (E2)
Noutras falas, asseverou-se não ser possível consolidar um projeto e manter seu sucesso quando a permanência de seus principais apoiadores é tão breve. Para dois sujeitos, o enfoque vai além da curta permanência do quadro técnico do Sebrae no município. Para estes faltou, também, apoio pessoal e posterior à execução do projeto,
Eu já vi que é uma coisa deles de momento. Não é uma coisa frequente [...] É muito mídia. A gente, depois vendo, a história é outra [...] Falta um pouco mais de apoio. Não de dinheiro...mas até mesmo de apoio pessoal mesmo. (E3)
Tem que ver que a cidade é muito pequena e se não existe essa continuidade, pode acontecer da pessoa desacreditar e, quando a pessoa desacredita e não tem um “gancho” que possa se apoiar, até
psicologicamente, para dizer não ... você não vai desistir! Acho que esse é um dos pontos principais. Abraçar um processo como um todo, de maneira a dar continuidade, mais força. Não falo financeiramente, mas de apoio pessoal mesmo, desde o começo e na sua continuidade. Isso fortaleceria esse vínculo e o Sebrae tinha força para fazer isso. (R5PC)
Outra questão, defendida por R5PC, foi a criação de uma espécie de consultoria, possibilitando que, ao término de cursos, capacitações ou na própria ausência dos gestores do Sebrae, outros técnicos avaliassem o andamento das atividades. Essa consultoria seria mais útil às áreas da gastronomia, artesanato, hotelaria e, até mesmo, para os condutores de turismo e empreendedores individuais,
Era preciso ver o que estava faltando, oferecer apoio pessoal, de manter, por exemplo, uma consultoria que voltasse dentro de dois ou três meses. Essa consultoria deveria valer para as Prefeituras, iniciativa privada e até mesmo para a pessoa que se tornara empreendedor individual. Isso ajudaria para que eles se sentissem mais seguros de suas ações. (R5PC)
As colocações são defendidas pela OMT (2003), que diz ser importante, em qualquer planejamento, o monitoramento e a assistência contínua aos que decidem investir em empreendimentos turísticos. Essa “ausência posterior ao projeto” foi também percebida na fala de um dos representantes da Prefeitura, o mesmo que, anteriormente, procurava minimizar suas críticas ao projeto do Sebrae,
O projeto do Sebrae não foi suficiente justamente porque ele chega até um determinado ponto X e deixa que as pessoas continuem [...] o Sebrae vem, incentiva, dá o passo inicial. Mas ele não pode segurar até o final. Os órgãos governamentais, a própria prefeitura, associações e outros mais, é que têm que dar continuidade. Então a gente precisa de mais alguma coisa, de mais projetos para dar continuidade ao que a gente vem fazendo. (R1PC)
A análise das falas constatou um distanciamento entre a realidade que está colocada e o discurso predominante, que aponta o turismo como atividade indispensável àquelas localidades que buscam o desenvolvimento, ou, até mesmo, o crescimento (na visão mais economicista). A realidade turística cabaceirense, nos discursos de seus moradores, que ao mesmo tempo são trabalhadores e empreendedores do turismo, nos revela esse outro lado do turismo, nem sempre associado aos benefícios e lucros, mas à persistência pelos que lutam para se manter num mercado onde a concorrência é crescente.
Após décadas de turismo em Cabaceiras, esperava-se que esses trabalhadores, ou parte deles, estivessem formalmente empregados ou fossem empreendedores de seu próprio negócio. Haveria, então, contradições entre o previsto e o que está posto? Põe-se em dúvida o turismo como gerador de empregos? Parece-nos que sim. Pelo menos, dos empregos formais, conforme visto nas falas até então apresentadas.
Com relação à demanda por hospedagens, a pesquisa constatou que, no período analisado, dois estabelecimentos não registraram crescimento no número de hospedagens41. Nem mesmo o fechamento de um estabelecimento42 conseguiu mudar essa realidade. A instabilidade no fluxo turístico, mesmo não desejada, justifica, na fala dos proprietários, a não contratação formal de trabalhadores, contribuindo para a manutenção dos contratos temporários.
A informalidade e os baixos salários marcam, também, o cotidiano dos guias de turismo e condutores locais de turismo de Cabaceiras. Essa precariedade os faz buscar outras fontes de renda, encontradas também no setor informal. Essa demanda contribui para o crescimento da informalidade, criticado por teóricos e estudiosos da temática do trabalho, porém, irrelevante para os que lutam para sair do desemprego e da pobreza.
Fatores como a informalidade no trabalho podem ser contribuintes às flexibilizações, uma vez que estes profissionais estariam disponíveis ao trabalho tão logo fossem chamados. O que preocupa com a flexibilização é sua ponte para desregulamentar leis trabalhistas (carteira de trabalho assinada, férias e folgas remuneradas, décimo terceiro salário, aposentadoria por tempo de serviço, entre outros), além de permitir a intensificação da exploração do trabalho.
Um segundo entendimento é visto por Pollert (1988 apud TRIGO, 2003, p. 90), para quem a flexibilidade nada mais faz do que legitimar um conjunto de práticas políticas reacionárias e contrárias aos trabalhadores. São soluções paliativas que permitem a redução dos salários, flexibilização de contratos e, com isso, dos benefícios sociais que são de direito do trabalhador.
Com relação ao projeto THCCP, percebeu-se, nas falas, a importância do mesmo à promoção de ações de capacitação, a exemplo dos cursos de formação para Condutor Local de Turismo e dos oferecidos às áreas da gastronomia, negócios e atendimento. Benefícios voltados a empreendedores e trabalhadores. Por outro lado, as falas consideraram falho o
41 A exceção foi de apenas um, que, mesmo assim, não atribuiu sua evolução à atuação do Sebrae, mas aos
investimentos próprios.
trabalho com a comunidade, em função da brevidade, no tocante à valorização do patrimônio histórico e cultural.
Para muitos, essa sensibilização cultural foi mais informativa que educativa. Importante ressaltar ainda que, nos discursos, as críticas não desmereceram os gestores do projeto THCCP, sendo, pois, direcionadas ao teor do projeto e à metodologia de trabalho do Sebrae.
Após conhecermos as falas da comunidade, buscaram-se então, no levantamento realizado nas instituições e nas observações, novos dados que permitissem conhecer essa realidade e suas consequências sócio-econômicas para o desenvolvimento do turismo.