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5. Assembler Directives
A literatura sobre imigração latino-americana para o Brasil está mais relacionada a temas jurídicos, demográficos e econômicos tratando, por exemplo, de imigrantes ilegais da Colômbia e da Bolívia no Brasil, de um ponto de vista da segurança internacional (OLIVEIRA; MOREIRA, 2013). Outros estudos sobre migração latino-americana podem ser citados como o caso dos bolivianos no Brasil e na Argentina (HIRSCH, 2008), a mobilidade humana entre Peru, Brasil e Colômbia (OLIVEIRA, 2006), bolivianos em São Paulo (SILVA, 2006), e hispano- americanos no Amazonas (SILVA, 2011).
A literatura sobre amizades de imigrantes no Brasil, de forma geral, é bastante restrita, sendo praticamente inexistente quando se refere a imigrantes latino-americanos. Assim, serão apresentados alguns estudos realizados no Brasil sobre amizades de estrangeiros vivendo no país.
Uma pesquisa exploratória e descritiva, de natureza quantitativa, conduzida por Garcia (2012a), objetivou descrever alguns aspectos das amizades de estudantes universitários estrangeiros que residiam e estudavam no Brasil, bem
como identificar o papel dessas amizades na integração social e cultural dos intercambistas, de acordo com eles próprios. Participaram da pesquisa 100 universitários estrangeiros, sendo 50 do sexo masculino e 50 do sexo feminino. Foi aplicado um questionário, cujos principais resultados foram: 1) a maioria dos amigos residia na mesma cidade ou região metropolitana; 2) a importância do contato pessoal/ proximidade para o estabelecimento da relação de amizade; 3) os principais interesses comuns e atividades compartilhadas estavam associados a lazer, estudos, atividades científicas ou culturais, esportes, trabalho e religião; 4) a comunicação tornou-se menos intensa com os amigos do exterior, ao passo que se intensificou com os amigos brasileiros, aumentando a importância destes devido a sua disponibilidade e proximidade física; 5) as principais dificuldades nas amizades foram a distância dos amigos, as diferenças pessoais ou de personalidade, as dificuldades de comunicação e as diferenças culturais; e finalmente que 6) os amigos foram reconhecidos como exercendo um papel relevante tanto na adaptação quando na visão que tinham do Brasil.
Souza e Sediyama (2012) realizaram uma pesquisa qualitativa que tivera como um de seus objetivos apresentar um estudo descritivo sobre a percepção da amizade em adultos de nacionalidade estrangeira residentes no Brasil e compará- la com brasileiros. Participaram da coleta de dados 14 estudantes brasileiros e 14 estudantes de diferentes nacionalidades. Para a coleta de dados, foram aplicados seis questionários, sendo os principais: Questionário Sócio Demográfico (QSD), Questionário Introdutório de Amizade (QIA) e o Questionário Complementar de Amizade (QCA). Os principais resultados do estudo apontaram que 1) as amizades do mesmo sexo prevaleceram; 2) observou-se uma média maior de amizades
residentes na mesma cidade para os participantes brasileiros; 3) os estrangeiros provavelmente possuíam amizades próximas nos países de origem; e 4) nenhum participante estrangeiro indicou relacionamento prévio advindo da escola, do trabalho ou da vizinhança.
Garcia e Goes (2010) desenvolveram uma pesquisa qualitativa com o objetivo de descrever alguns aspectos das amizades de universitários estrangeiros de Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe que residiam no Brasil. Participaram da pesquisa dez estudantes de Guiné-Bissau e dois de São Tomé e Príncipe, com idades entre 20 e 33 anos. Foram utilizadas entrevistas semiestruturadas, contendo perguntas fechadas e abertas. Os resultados referiram-se a interesses comuns (como estudo, lazer, cultura e relacionamentos) e atividades compartilhadas (como conversar, lazer, esportes, estudar, dentre outros), dificuldades da amizade (como características pessoais, comunicação, diferenças culturais, brigas, dentre outros) e episódios marcantes (relacionados ao lazer, à ajuda recebida, ao acolhimento, à ajuda dada e a eventos cotidianos). A maioria das amizades foi relevante para adaptação ao Brasil, mas apenas parte influenciou a forma de ver o país. Concluiu- se que os amigos são fundamentais para a adaptação social e cultural desses estudantes e servem de base para a cooperação cultural e científica.
Garcia e Rangel (2011) investigaram amizades de universitários cabo- verdianos residindo e estudando no Brasil, por meio de entrevista com 12 alunos de graduação. Os participantes citaram 109 amigos, sendo 81 de Cabo Verde, 18 brasileiros e seis angolanos, além de outros quatro amigos, cada um de nacionalidade diferente, sendo os idiomas mais utilizados o crioulo e o português. A maioria dos amigos (72) residia na Grande Vitória, e entre os 35 amigos mais
próximos, 24 eram conhecidos de Cabo Verde. Dentre os resultados, destacou-se que os principais interesses em comum e atividades compartilhadas estavam relacionados a estudo e lazer. Os participantes destacaram o valor da amizade e a ajuda recebida. As dificuldades percebidas na amizade estavam relacionadas à distância dos amigos, características pessoais e dificuldade de comunicação. Os episódios marcantes estavam ligados a lazer e ajuda do amigo. A maioria das amizades foi considerada como relevante para a adaptação ao Brasil, mas apenas parte delas influenciou a forma como os estudantes percebiam o Brasil.
Os estudos relatados até o momento incluíram estudantes universitários como participantes, a qual não seria a única e exclusiva população estudada neste trabalho. Todavia, estudos sobre amizade de profissionais estrangeiros residindo no Brasil são mais escassos na literatura. Merizio, Garcia e Pontes (2008) investigaram as lembranças de imigrantes libaneses residindo no Brasil sobre suas amizades e brincadeiras na infância, vivida no Líbano, e as amizades e brincadeiras da infância de seus filhos, no Brasil. Quatro imigrantes libaneses, casados e com filhos, vivendo na Grande Vitória, Espírito Santo, foram entrevistados sobre cinco tópicos principais: 1) amigos de infância no Líbano; 2) amigos da infância dos filhos no Brasil; 3) brincadeiras da infância no Líbano; 4) brincadeiras da infância dos filhos no Brasil; e 5) percepções de diferenças culturais entre o brincar e a amizade nos dois países em momentos históricos distintos. Os autores concluíram que, a despeito das semelhanças em alguns aspectos das amizades e brincadeiras, diferenças culturais estão presentes na estrutura da rede de amigos e no conteúdo dos relacionamentos. Além disso, concluíram que o brincar e a amizade foram afetados diretamente pelo contexto ambiental e sociocultural, incluindo fatores
religiosos e práticas culturais ligadas ao comportamento de brincar e às relações de amizade.
Costa (2012) desenvolveu um estudo qualitativo, cujo objetivo foi descrever as amizades na história de vida de imigrantes gregos vivendo no Espírito Santo, com outros gregos, brasileiros ou estrangeiros, com vistas a compreender as relações entre amizade e cultura, incluindo também amizades interculturais e o papel das amizades no processo de adaptação ou ajustamento à vida no Brasil. Participaram da pesquisa dez imigrantes gregos que vieram para o Brasil com dez anos de idade ou mais, e fora utilizado um roteiro para a entrevista. Os resultados indicaram que as amizades fazem parte da história desses imigrantes em um novo país. O significado da amizade incluiu amplitude, liberdade, espontaneidade, desinteresse, honestidade, sinceridade, fidelidade, confiança e longevidade. As principais dimensões da amizade foram similaridades e diferenças, proximidade e distância, apoio, reciprocidade e conflito. As relações entre amizade e contexto sociocultural incluíram receptividade e rejeição, adoção e adaptação, conexão e desconexão, amizade e comunidade no exterior, democracia, família, trabalho e escola. Concluiu-se, portanto, que a amizade atua como mediadora da adaptação do estrangeiro ao novo país, apesar de suas variações culturais, representando não somente uma condição atuante nas diversas tradições, mas permitindo a comunicação entre esses costumes, contribuindo para que imigrantes se sintam acolhidos no seio cultural da nação que escolheram para viver. Entretanto, não foram encontrados estudos tratando de amizades de imigrantes especificamente latino-americanos no Brasil, um dos enfoques da presente pesquisa.
Há algumas conclusões convergentes nos estudos que envolvem amizade. O contato pessoal parece ser um elemento central da amizade, a despeito da crescente utilização da rede mundial de computadores ou internet. Além disso, outros elementos que favorecem o estabelecimento e a manutenção da amizade são semelhanças, principalmente de gênero e idade, e atividades compartilhadas, como lazer, estudos, atividades científicas ou culturais, esportes, trabalho e religião. Como em qualquer tipo de relação, as amizades também possuem elementos considerados desfavoráveis, como conflito, competição, arrogância, agressividade e aborrecimento.
Com relação às amizades internacionais, apesar das diferenças culturais, estas são vistas como positivas na relação, pois são fornecedoras de troca cultural. Por fim, os amigos são muito importantes na adaptação social e cultural ao novo país do imigrante, em termos individuais, e servem de base para a cooperação cultural e científica, em termos comunitários/sociais.