O ato de trabalhar pode funcionar para as pessoas como uma psicoterapia, contribuindo para o desenvolvimento fisiológico e psicológico do indivíduo, ou seja, pode levar as pessoas a uma condição de desenvolvimento e auto realização. Nesse sentido, a relação do trabalho e o indivíduo pode funcionar ciclicamente, até um certo ponto, pois se uma pessoa que já apresenta satisfação com aspectos da vida (profissionais, sociais, conjugais, etc) passa a trabalhar em uma boa empresa, o trabalho tende a melhorar o indivíduo e isso tende a melhorar a organização, e essa relação por sua vez, tende a melhorar as outras pessoas envolvidas (MASLOW, 1970).
Os conceitos de bem-estar foram modificados ao longo da história e adquiriram sentidos e significados variados, tanto que, a partir de 1980 considera-se que surgiram duas correntes distintas. Uma que se refere ao Bem-Estar Subjetivo (BES), e o Bem-Estar Psicológico (BEP), onde a principal diferença entre eles é a concepção de felicidade considerada (PASCHOAL; TAMAYO, 2008).
Segundo Ryan e Deci, (2001), o Bem-estar Subjetivo está relacionado ao hedonismo filosófico, que o considera como sinônimo de prazer e felicidade. Ou seja, a determinação do prazer e felicidades são bens supremos, porém não especificadas as características da fruição destes, e quais os meios para obtê-los. Albuquerque e Trócolli (2004) explicam que o Bem-estar Subjetivo pode ser resumido em três dimensões, que são o afeto positivo, o afeto negativo e a satisfação com a vida. Paschoal e Tamayo (2008) reforçam que o Bem-estar caracterizado pela felicidade hedônica pode ser considerado basicamente como um estado afetivo, de modo que os afetos positivos prevalecem sobre os negativos.
Considera-se, portanto, que o bem- estar subjetivo está relacionado às sensações e emoções percebidas pelo indivíduo na sua rotina de vida. Para compreende-lo é necessário o entendimento de como as pessoas avaliam os aspectos positivos de suas vidas (DIENER; SUH; OISHI, 1997).
A segunda corrente, do bem-estar psicológico (BEP), segundo Ryan e Deci (2001 ampara-se no hedonismo, que baseia a percepção de bem-estar no desenvolvimento de potencialidades pessoais. A conceituação e concepção desta segunda corrente critica especialmente as fragilidades que sustentam a concepção do bem-estar subjetivo, pois segundo Siqueira e Padovam, (2008), o Bem-estar subjetivo trata a satisfação com a vida sob um prisma de afetos positivos e negativos que geram felicidade. Já o bem-estar psicológico embasa-se em formulações psicológicas referentes ao desenvolvimento humano e a capacidade de cada indivíduo de enfrentar os desafios do cotidiano que se apresentam na vida. Os autores, Paschoal
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e Tamayo (2008) e Argolo e Araújo (2004) reforçam que o bem-estar amparado na realização pessoal pode ser representado pela percepção de avanço das pretensões de vida.
A partir das conceituações e concepções que as vertentes do Bem-estar Subjetivo e Psicológico, é possível assimilar a complexidade que cerca o Bem-estar no trabalho (BET), que engloba percepções desde sentimentos de afeto até desenvolvimento de potencialidades. Além dos fatores profissionais, os pessoais também podem influenciar o Bem-estar no Trabalho, uma vez que estes interferem diretamente no humor e na felicidade dos indivíduos.
A Figura 8 apresenta de forma esquemática os fatores que influenciam no Bem-Estar no Trabalho.
Fonte: Corrêa, (2010).
Outro conceito importante refere-se à satisfação no trabalho, que segundo Paschoal e Tamayo (2008) relaciona a satisfação do indivíduo em todas as esferas, colegas, organização e com a sua própria atividade de trabalho. O desenvolvimento das potencialidades no contexto
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do trabalho está vinculado com as oportunidades que a organização proporciona aos profissionais, associado ao crescimento e desenvolvimento pessoal e profissional. Além disso, o conceito de autonomia está relacionado à liberdade que o trabalhador possui para decidir sobre sua função e atividades que desempenha, e por fim a autorrealização, está relacionada à satisfação dos propósitos de vida que o indivíduo traçou para si, sob a ótica pessoal e profissional, em que afetos positivos se sobreponham aos negativos (PASCHOAL; TAMAYO, 2008).
A partir deste contexto, os estudos da psicologia positiva convidam as pessoas a voltarem suas atenções para o entendimento e exploração dos aspectos positivos da vida. Isso não significa ignorar os aspectos negativos do ser humano e da sociedade, mas sim, identificar as qualidades das pessoas e promover o seu funcionamento positivo, possibilitando assim, o florescimento e desenvolvimento saudável do ser humano, grupos e organizações, através do fortalecimento das características e competências, ao invés apenas de corrigir problemas e curar doenças (PALUDO; COLLER, 2005; SNYDER; LOPEZ, 2009).
Segundo Martin Seligman (2011), o objetivo da psicologia positiva é o Bem-Estar, e que o principal critério para mensuração do Bem-Estar é a análise do Florescimento, isso significa que o objetivo da psicologia positiva é aumentar o Florescimento. A partir disso, o conceito de Florescimento se desenvolve no âmbito a psicologia positiva, que procura compreender as experiências que produzem bons sentimentos em diferentes áreas de atividade das pessoas, incluindo como peça importante o contexto no trabalho (MENDONÇA; et al., 2014).
O termo florescimento, como o próprio nome sugere, tem origem na botânica. O significado está associado à concepção de desabrochar, brotar, aflorar, desenvolver e florescer. Portanto este conceito está associado à ideia de prosperidade, de desenvolvimento e a um estado progressivo de bem-estar (MENDONÇA; et al., 2014). Segundo os autores, Diener e Chan (2011), o florescimento pode ser alcançado quando uma pessoa consegue vivenciar um alto grau de propósito, significado, otimismo, competência e satisfação com a vida. Esses componentes fazem parte de diferentes áreas da vida, incluindo os contextos de trabalho. Enfatiza-se que esses componentes podem sofrer influências de inúmeros determinantes, como por exemplo, hereditariedade, características de personalidade, além dos recursos ambientais.
A perspectiva do florescimento baseia-se em teorias humanísticas que abordam as exigências psicológicas que as pessoas têm, como por exemplo, as necessidades por competência, afinidade e auto aceitação. Segundo os autores Diener e Chan (2011), as
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principais características para se ter uma vida que possibilite o florescimento, incluem além da felicidade, a saúde e a longevidade. A partir dessa perspectiva, o florescimento pode ser entendido como uma síndrome dos sentimentos positivos e do funcionamento positivo (MENDONÇA, 2014). A Figura 9 mostra os elementos d florescimento.
Fonte: Baseado em Seligman, (2011).
A partir disso, o florescimento surge como resultado da proeminência dos afetos positivos sobre os sentimentos negativos, o que é especialmente relevante para o ajuste emocional, e também para a saúde geral das pessoas. Dessa forma, conforme dito, para que se estabeleça um estado psicológico que favoreça o florescimento é necessário que o indivíduo vivencie três vezes mais sentimentos positivos do que negativos, demonstrando que os estados emocionais positivos possibilitam distinguir os indivíduos que florescem (DIENER; CHAN, 2011; DIHELA; et al., 2011; SILVA; CAETANO, 2011).
O florescimento engloba todas as áreas da vida do ser humano, não é diretamente ligado ao trabalho, porém, o trabalho desempenha fator essencial na vida dos indivíduos, uma vez que a satisfação nesse campo constitui um importante fator para que se tenha uma vida saudável, física e psicologicamente (MENDONÇA; et al., 2014).
Emoção Positiva Engajamento Sentido Relacionamentos Positivos Realização
Bem-Estar
Florescimento
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Nesse sentido, as condições da prática das atividades profissionais afetam a satisfação dos indivíduos, e com isso afetam o seu desenvolvimento e consequentemente o florescimento. Isso por que os efeitos do trabalho não deixam de existir depois do expediente, uma vez que tanto o excesso de trabalho quanto a insatisfação com ele, podem gerar conflitos em outras áreas da vida do indivíduo, como família, relacionamentos afetivos, estudo e outros. Isso costuma estar associado à vivência de emoções negativas, o que por sua vez, gera níveis mais baixos de bem estar, mesmo que as condições econômicas sejam satisfatórias (AGYLE, 2001; KASHDAN, 2004).
Além de o trabalho ser fonte de prazer, satisfação e de atribuir mais sentido e significado à vida dos indivíduos, desempenha outro papel importante por ser um espaço que possibilita o envolvimento, as interações sociais, vivência das relações sociais, troca de ideias, e possibilitar o desenvolvimento de competências pessoais e profissionais. Todos esses fatores caracterizam o florescimento (MENDONÇA; et al., 2014).
Porém, é importante considerar especificidades, como por exemplo, o fato de que nem todas as atividades laborais são iguais, algumas profissões sofrem maior desgaste psicológico, o que afeta a saúde e dificulta o florescimento. Considerando isso a compreensão do florescimento organizacional apresenta-se como imprescindível para as organizações, pois pode colaborar muito com a efetividade organizacional. Dessa forma podem ser feitas ações com o objetivo de minimizar tais desgastes (CARVER; CONNOR-SMITH, 2010).
Segundo o autor Martin Seligman (2004), a psicologia positiva se baseia em três pilares: o primeiro é o estudo das emoções positivas, o segundo o estudo dos traços positivos, em especial as forças e virtudes dos indivíduos, mas também, habilidades e capacidades, e o terceiro é o estudo das instituições positivas, como democracia, família e liberdade, que dão suporte às virtudes, que por sua vez, apoiam as emoções positivas (PASSARELI; SILVA, 2007).
A teoria do bem-estar proposta por Seligman (2011) se baseia em cinco elementos: emoções positivas, engajamento, sentido, realização e relacionamentos positivos. A emoção positiva é a pedra angular da teoria do bem-estar, considera a felicidade e a satisfação com a vida, como medidas subjetivas, deixando de ser o objetivo de toda uma teoria (no caso da felicidade autêntica), para ser apenas um dos fatores incluídos sob o elemento da emoção positiva, segundo Seligman (2011). São as emoções positivas que condicionam muito significativamente a satisfação e o bem-estar. A partir disso, sugere-se que elas possam predizer os comportamentos e as atitudes do ser humano, da mesma forma como podem auxiliá-lo a
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lidar com as adversidades e dificuldades, influenciando na forma como cada um encara o compromisso, o estresse e outros fatores (MEIRELES; LOBO, 2012).
O engajamento é avaliado apenas subjetivamente, dessa forma, o pensamento e o sentimento estão geralmente ausentes durante o estado de envolvimento, sendo assim, as avaliações são uma retrospectiva do fato ocorrido. Sentido: tem um componente subjetivo, pertencer e servir a algo que se acredita ser maior que o “eu” propriamente dito. Realização: é um elemento fundamental e distinguível do bem estar. Relacionamentos positivos: segundo, Christopher Peterson, um dos fundadores da psicologia positiva, são poucas as coisas positivas da vida que são solitárias, dessa forma, é imprescindível para o bem-estar, ter relações positivas (SELIGMAN, 2011).
A teoria do bem-estar é plural no método, bem como na substância. A emoção positiva é uma variável subjetiva, definida por aquilo que o indivíduo pensa e sente, já o engajamento, sentido, relacionamentos positivos e a realização têm componentes subjetivos e objetivos, já que no contexto subjetivo o indivíduo pode estar iludido. A conclusão é de que o bem-estar não pode existir apenas na cabeça do indivíduo, ele é uma combinação de sentir-se bem e efetivamente ter sentido, bons relacionamentos e realização, a forma como cada um conduz sua trajetória é o que maximiza ou não esses elementos. Essa combinação de fatores objetivos e subjetivos nos construtos, inclusive protege a teoria no momento da mensuração do florescimento, pois dessa forma a pessoa não consegue manipular os dados (SELIGMAN, 2011).
Com o objetivo de analisar o florescimento no contexto do trabalho, foi desenvolvida a Escala de Florescimento no Trabalho (EFLOT). Ela é direcionada para aspectos como: a autoimagem que o trabalhador tem em relação às suas competências, envolvimento e contribuição para o desenvolvimento das atividades laborais. Contempla também o sentimento de se sentir respeitado pela atividade que desenvolve e de que esta lhe dá a possibilidade de ser uma pessoa melhor e de ter uma vida satisfatória. Além disso, o florescimento organizacional envolve ainda relacionamento interpessoal com as pessoas no ambiente do trabalho, percepção em relação às competências profissionais e o otimismo acerca do futuro profissional (MENDONÇA; et al., 2014).
Quando se fala em florescimento e desenvolvimento humano a partir das dimensões da teoria do bem-estar de Seligman (2011), pode parecer utopia quando considerados o moldes de trabalho atuais e da sociedade brasileira, e é justamente esse o viés que esta pesquisa busca
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aprofundar, com a intensão de verificar se o desenvolvimento econômico está aliado ao bem- estar pessoal e social e se é possível tê-los simultaneamente.
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