Da casa dos pais de Lígia as duas foram morar em um apartamento de um casal heterossexual, amigo das duas. Elas se mudaram de moto, segundo Lígia. Isso nos leva a perceber que levaram poucas coisas da casa onde moravam. Reconhecem que morar com esse casal foi meio que ‘uma roubada’ porque eles estavam em crise e Rodrigo, o
marido de Amália vivia uma crise de identidade sexual. Ele dizia que queria conhecer homens e se relacionar com eles. Como conversava muito com Lígia, a esposa ficou com ciúmes e passou a dar em cima de Fernanda, sempre aparecendo sem roupas nos espaços da casa. Se instalou um clima meio esquisito, um negócio chato, lembram as duas. Eu comento: “Eles estavam querendo dividir a crise com vocês, então?” Ligia diz: “É. Exatamente. Estavam querendo dividir a crise deles com a gente”. Mas aí elas passaram por essa crise. Depois deste evento vivenciaram outras situações difíceis que envolviam ‘invasões pesadas78’ de familiares e amigas.
A impressão que eu tenho é que é difícil ou não é permitido haver uma longevidade, entendeu? Nos casamentos gays. E de certo modo, aparentemente nós somos muito fechadas. As pessoas dizem que nós ficamos enclausuradas, dentro de casa. E a gente fica dentro de casa porque assim, quando paramos de beber perdemos muitos amigos porque..., quando deixamos de fumar, perdemos muitos amigos porque... Deixamos de fumar, deixamos de beber, perdemos muitos amigos. As pessoas cortam. Não sabem conviver com, mas hoje já mudou. Os jovens hoje lidam melhor com isso, não é? Era muito radical. Ligia diz: “Mas foi difícil, as pessoas passavam direto, puxavam cadeira, isso há anos”. Mas voltamos a freqüentar alguns lugares com alguns amigos e eu fazia a mesma zona de quando bebia. Agora eu faço percebendo o que estou fazendo. É até melhor, não é? Porque bêbado você esquece (Fernanda, Entrevista realizada em 03 de junho de 2013).
De acordo com Alencar (2008) as relações sociais se desenrolam pelo fato de as pessoas se sentirem gratificadas em fazer favores e ajudar os outros porque geralmente este comportamento gera reconhecimento e gratidão. Quando a reciprocidade não acontece, a pessoa é acusada de ser ingrata, o que pode comprometer diretamente a qualidade das relações e a própria forma de conduzi-las ou interrompê-las. Assim a sociabilidade compreende as redes que nascem espontaneamente das relações que cada indivíduo mantém com os outros. A partir de uma perspectiva mais conceitual de sociabilidade, Frúgoli Júnior (2007) a reconhece como as interações recíprocas corporificadas pelas relações de sociabilidade. São as formas de sociabilidade que, de alguma maneira, determinam as ações de reciprocidade consciente entre os indivíduos. Ainda que os aspectos ‘positivos’ de tais relações sociais sejam apontados como determinantes destas relações, não se pode deixar de considerar a influência dos conflitos, dos embates e do confronto vividos nas relações de amizade ou nas redes de
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apoio. A forma como estes são enfrentados será determinante para a qualidade destas relações, que em muitos momentos podem se tornar mais fortalecidas ou no outro extremo, interrompidas. No caso especifico das nossas informantes, houve uma ruptura com o casal ‘anfitrião’ porque para além dos conflitos envolvidos foi identificada uma possibilidade de ‘ameaça’ ao equilíbrio do casal homoafetivo.
Ligia é mais introvertida do que Fernanda. Elas falam que a vida social do casal é compartilhada com alguns casais amigos. Alguns hétero e outros homossexuais. Às vezes saem, freqüentam cinemas, um barzinho, almoçar, mas preferem barzinhos. Dão prioridade às pessoas da mesma faixa etária, que também já não fazem uso do álcool como antes. Elas se encontram com estes casais e conversam muito sobre elas, a faixa etária, a visão de vida que elas têm hoje, que é bem diferente daquela do passado. Um amigo ‘das antigas’, Cassiano, voltou a estudar e a ‘galera’ da universidade curte muito ele, conta Ligia. Outra amiga de 65 anos acabou de fazer uma pós-graduação em Direitos Humanos. Elas mesmas se inscreveram no Enem. Ligia quer fazer Artes e Fernanda tem o desejo de investir em outra atividade diferente daquela que está exercendo agora.
O casal se reconhece como muito acolhedor: “É uma característica nossa de acolher, agasalhar”, embora reconheçam que nem sempre dá certo agir assim com todas as pessoas. Atualmente têm uma amiga que mora no bairro da Várzea e que está fazendo uma pós-graduação numa universidade próxima a casa delas. Todo final de semana esta amiga fica na residência do casal, a qual já tem inclusive, uma chave. As duas atribuem a característica acolhedora às experiências do movimento estudantil, do qual as duas participaram, dando valor à solidariedade. Fernanda diz:
Principalmente em relação a isso, a gente pegou um período muito pesado que foi a abertura democrática. Então na abertura democrática a gente ainda levava porrada no meio da rua. A gente exercia essa liberdade muito bem. Claro que era uma liberdade muito maluca porque a gente bebia, fumava, fumava tudo. Tanto do careta, maconha, cheirava e ao mesmo tempo em que a gente fazia isso a gente sentava numa mesa de bar e discutia. Discutia um livro, a gente estudava muito no bar. Conseqüentemente a gente bebia, né? (Risos...). Mas assim, quando tinha um amigo fodido, juntava os fodido tudinho e ajudava. Então essa característica é uma característica nossa (Fernanda, Entrevista em 03 de junho de 2013).
Sobre a visibilidade do casal, Ligia diz que elas ‘nunca estiveram dentro do guarda-roupa’, nunca. Elas começaram tudo muito explicitamente, mas sem se expor na rua. Sem dar beijo em público ou se agarrarem. Pensam nas outras pessoas, embora os carinhos sejam manifestados com muita discrição. Falam que também nunca sofreram algum tipo de agressão ou atitude preconceituosa, embora já tenham escutado alguém chamá-las de sapatão. Também viveram em Olinda num período em que as pessoas que frequentavam a cidade, tinham outra mentalidade, cabeças muito abertas. Elas apontam que as pessoas de Olinda se diferenciam em relação a outros lugares da Grande Recife.
Ligia teve relacionamentos anteriores com homens e atribui a isso (a possibilidade de manifestações afetivas em locais públicos) a sua tranquilidade em assumir a sua conjugalidade homoafetiva. Embora não tenha encontrado facilidade para compreender o que estava acontecendo, quando se sentiu atraída por mulheres, diz que procurava muito ler sobre o assunto, ainda que na época não havia literatura específica envolvendo as homossexualidades. “A literatura era prá internar. Era doença”, afirma Ligia. A descoberta ou o despertar da homossexualidade se deu num momento em que algumas amigas e amigos também estavam se descobrindo. Na época ela achava o máximo porque admirava a determinação das amigas. Depois descobriu que elas estavam passando pelo mesmo processo de descoberta da homossexualidade. “Quando eu vi, eu disse: ‘É isso? Então pronto. Vamo embora! Eu quero ser feliz. Se é assim que eu vou ser feliz!”.
Foi nesse momento que Ligia teve a sua primeira namorada, uma carioca que tocava flauta. O namoro aconteceu através de cartas. Depois surgiu Fernanda, que teve uma aceitação dos pais de Lígia. Ela foi ‘adotada’, conta Lígia. Inicialmente queriam morar em um local para elas, e por isso decidiram conversar com os pais de ambas. O pai de Fernanda não concordou com a ideia e não ajudou o casal. Contrariamente, o pai de Ligia assumiu o valor do repasse de uma casa em Olinda. Elas assumiram o pagamento do restante do apartamento, que acabou desabando em um acidente. Nesse momento elas voltaram para a casa dos pais de Ligia.
A primeira vez que Ligia viu os pais de Fernanda aconteceu no momento em que ela foi à casa deles pegar um guarda-roupas que Fernanda tinha e decidiu vendê-lo para tomar cerveja. Ligia diz que quando entrou na casa pensando que o pai de Fernanda não estava lá, se depara com o sogro pela primeira vez, ela ‘roubando’ um guarda-roupa.
Segundo Fernanda tratava-se de um móvel que ela detestava. Levaram o móvel e ‘beberam o guarda-roupa’, lembra Fernanda. Um tio de Ligia, irmão do seu pai, era um homem apaixonado por livros. Quando ele faleceu o filho passou a abandonar o grande número de livros espalhados pela casa. Elas recolheram estes livros e colocaram na varanda da casa da mãe de Ligia e saíram oferecendo-os à venda. Embora tenham sido vendidos bem baratos, era uma forma de ganhar dinheiro.
Nos seus estilos de vida e nas relações sociais, elas acionam sentimentos e ações que estão diretamente ligados à solidariedade. Dizem que sempre aparecem ‘anjos’ nas suas vidas:
Eu digo também que a gente encontra anjos na vida da gente. Encontra anjos. Eu tenho encontrado alguns anjos, assim e às vezes a gente também é anjo pros outros. Quando a gente dá uma ajuda pra um desconhecido que tá numa situação, acho que, eu considero essa pessoa que me ajuda, um anjo. Pessoa do bem, como diz um amigo meu. E eu encontro muita gente assim. Às vezes eu vou pra um lugar que eu não sei pra onde é e assim, minha família tem um gen meio ‘troncho’ de espacialidade e memória. Então a gente vai num lugar, esquece. Meus irmãos que dirigem e tem carro, eles vão num lugar uma vez, aí vão outra, vão outra, e não conseguem registrar. E eu também. Eu me perco aqui, eu me perco em Olinda, eu me perco em todo lugar. Se vocês não estivessem aqui, eu não saberia se estou mais prá lá, mais prá cá. Se eu tô andando numa rua e entro numa loja, eu não sei se eu estava andando prá lá ou prá cá. Eu não presto atenção. Na verdade não é falta de memória, é falta de atenção. Então minha família é meio desatenciosa pras coisas do mundo. Minha mãe já deixou o carro na rua perto do trabalho. Estacionou e foi trabalhar. Quando saiu, pegou um ônibus e foi pra casa. Chegou em casa, papai fez: ‘Lana, cadê o carro?’ Ah, meu Deus, o carro! Aí saiu todo mundo pra procurar e ela não tinha idéia de onde ela tinha estacionado. Então é de mãe, é de família essa coisa de não prestar muita atenção (Ligia, Entrevista em 03 de junho de 2013)
Eu comento que acho o máximo se perder assim, na cidade, porque é quando você conhece coisas novas e pessoas. Elas concordam comigo e dizem se encantar com a cidade durante todo o tempo. Não têm carro por opção e preferem transitar pelos espaços da cidade, de ônibus. Essa relação com o ônibus permite que elas se sintam mais tranqüilas, sem se preocupar com o dirigir e que é neste momento que muitas vezes conhecem pessoas estranhas solidárias.