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878 ASSEMBLÉE NATIONALE - 2 . SÉANCE DU 5 MAI 1992

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Depois de quase meia hora conversando, proponho ao casal que façamos um lanche. Enquanto comemos um sanduíche e tomamos suco e café, Ligia fala sobre a experiência com as tatuagens e os piercings que são imediatamente visualizados pelas pessoas que se aproximam das duas. Ela reclama sobre as dores que tem sentido após colocar o seu último piercing na orelha direita. Nesse momento eu digo: “Eu achava que não doía tanto assim, não, minha gente. Quando ele enfia aquele negocinho... caramba! A lágrima chega caía”. E mostro o meu piercing na orelha esquerda. Com o intuito de provocá-las, comento: “É uma estética do masoquismo, não é?”. Lígia logo rebate: “Mas é tão bom!” Digo que também tenho uma tatuagem afirmando que foi a única que tive coragem de fazer. Mostro a minha fênix na parte interna do braço esquerdo e Ligia se manifesta: “Nossa... que lindo!!!”.

À medida que avançávamos a nossa conversa, fui aos poucos me sentindo à vontade para me colocar entre as suas narrativas. Acredito que de alguma forma a minha identificação com o casal poderia contribuir para que as duas ficassem mais à vontade comigo. Apesar da surpresa com as muitas tatuagens que elas têm, no momento não me dei conta de que eu também tenho tatuagem e uso piercing. Questiono a mim mesmo, “no trabalho de campo, em que me diferencio do nativo?”

Ligia diz que tem uma tatuagem no mesmo local em que fiz a minha e comenta que se trata de uma área do corpo que dói muito. Ela usa dois alargadores enquanto Fernanda usa apenas um. Os dois aparentemente têm o mesmo tamanho. Pergunto se eles têm algum significado para elas, pois percebo que são idênticos. Eu questiono se eles têm algum sentido simbólico para o casal, quando Fernanda responde: “Não. Tem mais o sentido urbano. Assim, de tá ligada, entendeu? Da moda urbana. Eu acho interessante. Eu acho muito interessante, como as tatuagens também”. Elas compõem uma necessidade de acompanhar uma moda urbana ou uma urbanidade. Por acharem bonitas, mas também para realizar desejos identificados no passado que foram totalmente reprimidos pelas famílias e pelos momentos históricos de ‘repressão’. Ligia revela que sempre dizia que depois após os seus 50 anos faria tudo que sempre teve vontade. Hoje ela tem 12 tatuagens. E já está marcando para fazer outra nos próximos dias.

Ligia diz que elas fizeram a primeira tatuagem quando realizaram o contrato conjugal em 2006. A tatuagem é a aliança do casal79. É igual no corpo das duas. Trata- se de um gato desenhado nas costas, bem na altura do quadril. “Era nossa aliança de casamento”. O desenho é a expressão de uma poesia que Fernanda fez para Ligia. Elas viram o desenho e adaptaram ao poema. Descrevem a tatuagem como “um gato com o rabo enrolado numa planta que tá nascendo em um jarro. E ele está como se tivesse meditando”. Elas justificam a escolha pela tatuagem no mesmo momento em que fizeram adesão ao Budismo. Adotaram a doutrina budista e têm o hábito de fazer meditação e ioga. E assim estão até hoje. Virou uma filosofia de vida.

A partir de pesquisas etnográficas na cidade de São Paulo, Magnani (2012) identifica o neosoterismo como um bom exemplo de uma visão de tempo livre que se desvincula do universo do trabalho80. Ele contribui diretamente na construção de um estilo de vida denominado ‘alternativo’ que se fundamenta na busca pelo aperfeiçoamento pessoal e melhor qualidade de vida, numa perspectiva ‘holística’:

São atividades que não podem ser encaradas propriamente como lazer, mas sem dúvida entram na classificação de práticas realizadas no tempo livre, na medida em que, diferentemente do que ocorre nas religiões institucionalizadas, não estabelecem com os adeptos vínculos de tipo obrigatório, formalmente assumidos; ao contrário, supõem uma adesão voluntária, sem sectarismo ou proselitismo (MAGNANI, 2012, p. 113).

A aderência de Ligia e Fernanda pela prática budista também está associada à busca por um estilo de vida do casal mais individualizada e reservada. O avesso ao universo de bares que o casal adotou durante muitos anos. No meu ‘retorno ao campo’ levei para o casal, além das bonequinhas de barro apresentadas na abertura do capítulo, um livro chamado: “Yogini: Revelando a Deusa Interior”.

79 A tatuagem foi um objeto frequentemente percebido durante o meu trabalho de campo. Quase todas

as mulheres têm tatuagem que necessariamente não estavam diretamente ligadas à relação conjugal. A decisão de se fazer uma tatuagem como ‘aliança’ do casal também foi apresentado por Nubia e Tercile, que fizerem nas suas nucas as iniciais dos seus nomes em letras japonesas. Gabriela também fez na parte superior da mão, o nome de Mariana.

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Magnani (2012) argumenta que alguns estilos alternativos vividos no campo das religiões estão ligados a algumas mudanças históricas vividas no Brasil: “O eixo da agitação cultural assumia uma linha mais politizada manifestada nos Centros Populares de Cultura, na experimentação do Cinema Novo, do teatro de vanguarda e da música popular. É a partir dos anos 1970, entretanto, com o fechamento dos canais de participação e repressão aos movimentos populares que se criam condições para o surgimento dos aspectos mais místicos e individualizados do movimento Nova Era” (MAGNANI, 2012, p. 124-125).

Enquanto vamos pegar o lanche dentro da padaria – eu e Fernanda, pergunto se elas pretendem viajar, uma vez que ela acabou de entrar de férias e Ligia está de licença do trabalho por questões de saúde. Fernanda comenta que elas pretendem ir a Canoa Quebrada/CE, na casa de um amigo ou a uma cidade do interior. Eu falo que recentemente estive em Natal/RN e gostei muito. Encontrei pousadas bem baratas. Ela diz que vai fazer nos próximos dias, outra tatuagem e que ficará impedida de tomar sol ou banho de mar. Essa próxima tatuagem será um desenho de arame farpado e dele sai uma flor. Será feita em um espaço localizado num cruzamento entre a Av. Conde da Boa Vista e a Rua do Hospício. Fernanda elogia o tatuador dizendo que é muito talentoso e que na medida em que você vai falando ele vai fazendo o desenho. Quando ela fala sobre o local que fará a nova tatuagem me vem à mente a influência dos espaços da cidade na vida do casal e teço o seguinte comentário:

É engraçado, Fernanda, porque você colocou essa coisa do urbano. Em um dos recortes da minha pesquisa eu quis também entender um pouco sobre os sentidos, pensando o campo etnográfico usando a cidade nesse campo. Você vê onde a gente está: num lugar que é totalmente urbano, com muito movimento. E eu preferi vir de ônibus mesmo pra captar alguns sentidos durante o percurso da minha casa até aqui e o que eles vão trazendo prá mim e prá pesquisa (...) Então talvez seja interessante vocês falarem sobre essa coisa de viver essa conjugalidade numa cidade metropolitana (João Ricard, Entrevista com Fernanda e Ligia realizada em 03 de junho de 2013).

Ligia diz que a vida do casal na cidade permite certa autonomia e ‘invisibilidade’ numa perspectiva voltada à política da reserva conjugal, o que ajuda muito na manutenção da relação:

Isso ajuda muito porque não fica pessoas marcadas como fica na cidade do interior. E tem o movimento de uma metrópole, que vem gente de fora, com um pensamento totalmente diferente. (Fernanda): “Você se mistura, na verdade. E o fato de se misturar, você fica meio anônimo. Mas eu gosto. Ao mesmo tempo em que você é igual, mas você é diferente. É igual porque você é uma pessoa que vive em um ambiente urbano, eu gosto de sair daqui do trabalho e vou andando prá casa. Às vezes eu vou mesmo pelo ‘vuco-vuco81’, tá entendendo? E vendo as coisas. Aí a gente vê umas marmotas, por aí, vê umas coisas bem... É muito interessante. “Isso lhe cria liberdade e essa liberdade lhe traz

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Este termo é utilizado em referência aos lugares mais movimentados da cidade. É no ‘vuco-vuco’ que as pessoas se misturam aos barulhos, vendedores ambulantes, pessoas diversas que geralmente se concentram a partir daquilo que os espaços oferecem e que geralmente estão ligados aos ‘pedaços da cidade’ que se dedicam a um comércio mais simples e ambulante.

coragem. A gente fica mais destemido (Ligia e Fernanda, entrevista realizada em 03 de junho de 2013).

Ligia comenta que esse movimento na rua enriquece, dizendo que isso influenciou nas decisões de não quererem carro. “Eu gosto muito de tudo isso na rua, sabe? Uma vez você encontra uma pessoa completamente desconhecida, sabe? E começa uma conversa”. Ela aponta que é na cidade onde também se manifesta a violência velada contra a homossexualidade, a menos que se vá aos lugares exclusivamente lésbicos ou gays. Mas elas nunca gostaram de freqüentar estes espaços, preferindo os ‘lugares de maluco’:

Eu acho que assim, o urbano tem essa capacidade, entendeu? Se você tem essa capacidade de freqüentar um lugar que cabe todo mundo, é complicado também. Esse pólo aqui é um lugar de maluco (Bairro do Recife Antigo, onde estávamos). As pessoas só são tatuados, só gostam de skate. Isso aqui, isso outro, eu acho que as tribos acabam tendo uma convergência. Agora quando há a coisa nazista, do contrário, não tem santo que dê jeito (Fernanda, Entrevista realizada em 03 de junho de 2013).

Fernanda diz que não tem boas impressões de lugares lésbicos ou gays e em sua opinião o gueto é segregador. Por si só, ele já se configura como segregador. Questiona sobre o fato de já viver fugindo de uma segregação e por isso o casal decide não freqüentar estes espaços: “Isso é uma coisa nossa”. Coloca que brigaram tanto prá estar ‘fora’ e vão ‘entrar’? Preferem relacionar-se com outros casais de amigas que também já têm um tempo juntas, entre dez ou quinze anos. Aponta que a partir do estilo de vida do casal, do dia-a-dia e do trabalho, acabam preferindo passeios mais culturais. Gostam de ver filmes, ir à Livraria Cultura, assistir a mostras de arte, feirinha do Recife Antigo, Marco Zero quando tem algum evento. “A gente não pega o caderno C ou o Viver prá cumprir uma agenda do final de semana82. A gente pega aquela coisa que seja legal, que bata mais com a gente”.

As duas estão mais preguiçosas e têm preferido ficar em casa vendo TV, lendo um livro, ficar com as ‘as meninas’, duas gatinhas. Gostam de internet, às vezes estudando, às vezes pesquisando. Tudo é questão do interesse, afirma Ligia, que diz

82 O Caderno C é uma parte do Jornal do Commercio (Pernambuco) voltado a temáticas culturais e

gostar muito mais de freqüentar lugares onde a diversidade está presente. Lugares onde dá de tudo. Onde tem quem fuma, quem não fuma, que tem intelectual, onde elas possam se enriquecer. Diz também que onde tem maluco é o melhor lugar do mundo porque são pessoas que pensam e questionam a sociedade.

Por algum motivo Fernanda traz o tema do estigma que ronda em torno das mulheres mais masculinas, apontando que não sabe lidar com uma mulher masculinizada. Nessa situação ela tem uma relação especular. Diz que também fica mais masculina espontaneamente, assumindo uma caricatura. Mas não quer perpetuar um comportamento ‘machista’. Aponta que o gueto tem a possibilidade de perpetuação do preconceito. Elas gostam de estar em todos os lugares e não precisam se separar de ninguém por causa da sua opção. Fernanda rebate a palavra ‘opção’ dizendo: “Opção, não. Eu não fiz opção prá me fuder!” E sorri. Ligia diz que é preciso estar em todo canto: delegada, presidente, taxi, ônibus, se referindo às profissões que são socialmente reconhecidas como masculinas e que vêm sendo executadas cada vez mais por mulheres.

5.3 Sobre o desejo de formalizar a conjugalidade ou sobre a transgressão de casar

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