Chapitre 3 : Perspective philosophique de l’étude
3.2 Arrimage entre les concepts centraux de la théorie du caring de Watson et ceux de
O branco procura ocultar-se, ao vestir-se com as roupas de universalidade. Na verdade, é uma atitude paradoxal, porque ele se expõe muito. Quase sempre, ele se encontra em todos os espaços importantes (Said, 2004, Russell, 2001), ofuscando os não-brancos. Logo, o branco, na condição de um ser em evidência, habilmente diluiu-se. Assim o que é patente se disfarça, enquanto o branco se torna um ser indecifrável. Aliás, nem se coloca tal possibilidade: interpelá-lo, ou pensar sobre sua branquitude.
Lourenço: Por que pensar o Outro e não pensar em si?
Silvia: Porque o tempo inteiro o que nós fazemos é uma questão racial voltada para o branco, ou você vai falar para mim que não? É o tempo inteiro, é a mesma coisa que você perguntar para mim, por que o dia do homem e não o da mulher? Aliás, ao contrário, por que o dia da mulher e não o do homem? Porque todo dia é dia do homem. É a mesma coisa, todo dia é dia do branco. A gente discute discriminação com relação ao branco? Você não vê isso, vai ver isso? Não vai. Um branco não vai ser rejeitado pelo fato de ele ser branco. Ele pode ser rejeitado por outras questões, mas nunca pelo fato dele ser branco, entendeu? Então a questão racial é colocada pela ótica do branco, o tempo inteiro, é isso, mas a própria sociologia forjada pelo olhar branco, a questão racial do negro, como eu falei para você a referente leitura da sociologia da USP é o olhar a partir de quem? Do branco elitizado. Por que eu vou voltar para mim sendo que o tempo inteiro as questões são voltadas para mim? Lourenço: O que você quer dizer assim, voltada para si?
Silvia: Aquilo que já falei para você, na sociologia quando a gente vai tratar da sociologia é o branco o tempo inteiro?
Lourenço: É o branco falando sobre tudo? Silvia: É.
Lourenço: Mas ele não está falando sobre si, ele está falando sobre o outro, não? Silvia: Mas com o olhar dele.
A questão da sociologia da Universidade de São Paulo, cabe destacar que, não somente ela difunde o pensamento científico branco, como também expressa o pensamento branco e paulistano, porém, as academias brasileiras, de modo geral, possuem ainda uma
mentalidade hegemonicamente branca. Quanto a “onisciência branca”, isto é, o “saber” de “tudo”, o “falar de tudo” ocorre em virtude de procurar reservar o espaço de “poder” e “saber” científico para si. O não-branco que conseguir entrar neste espaço compete se adaptar a essa tradição cultural. As suas críticas contra hegemônicas necessitarão da legitimação do cânone acadêmico para serem consideradas relevantes.
A Silvia também trata a respeito da onipresença branca, o espaço é todo branco, “todo dia é dia de branco”, o lugar destinado ao não-branco seria uma exceção. A excepcionalidade acaba por ser visibilizada pela sua característica de “arranhar” um costume, “uma regra”, os “364” dias que pertencem ao homem, ao “homem branco”. O negro e a mulher visibilizam, num único dia, essa desigualdade que é silenciada durante o resto do ano. Na fala da Silvia, chamo a atenção para mais um ponto, “o branco não seria rejeitado por ser branco”. Quando isto, aparentemente, acontece é necessário entender as “verdadeiras” razões, ou os motivos mais profundos para o incidente, o branco não é rejeitado pela sua branquitude, e sim, por causa de sua História de opressão e exploração.
Em outro momento da entrevista, a Silvia fala a respeito do branco que se silencia sobre si ao expor o não-branco.
Agora, essa invisibilidade com relação ao branco é porque envolve a questão de poder mesmo, você está sempre expondo a suposta parte fraca do sistema e faz com que você reforce o poder. Seu poder de legitimação de dominação dentro do sistema. Se reparamos os problemas que a sociedade vive, existe muita coisa para trazer à tona. Acho que esta invisibilidade, talvez, seja uma coisa proposital mesmo para você não demonstrar o tempo inteiro que manda, é uma estratégia que traz um resultado sem demonstrar poder. O poder é proveniente justamente desse procedimento de você sempre expor o elo mais fraco, o “suposto” elo mais fraco da cadeia (Silvia).
Silvia diz que o ocultamento do branco serve justamente para não expor seu poder, dessa forma, ele não é questionado ao expor aquele que seria “o elo mais fraco da corrente”. Ao mostrar o Outro ele se esconde, trata-se de um dos seus métodos para se esconder. Quanto ao Roberto fala que invisibilidade do branco ocorre porque ele se considera “auto-explicável”, “não é um problema” por isso que visibiliza o negro. Portanto, o silêncio sobre o branco seria em virtude de que ele já se encontra compreendido, além disso, possui prestígio social.
(A invisibilidade do branco)
Roberto: Olha, o que eu observo, principalmente, pelos estudos, que o negro teve certa visibilidade negativa. Foi construída uma visibilidade negativa muito grande em relação ao negro e você vai ter o movimento inverso. A tentativa de dar uma visibilidade positiva em relação ao negro e uma compreensão do problema do negro, na sociedade em geral. No nosso caso, na sociedade brasileira. Isto acabou dando certo destaque a este grupo no sentido de compreensão do por quê? Porque o branco sempre foi visto como, um ser compreendido. Nós já temos o nosso espaço. Estamos
num determinado status quo e não tem necessidade de nos estudar. Afinal, estamos num patamar elevado. Agora o negro é colocado em evidência porque é um problema. Então temos que compreender este problema, nós temos que analisar este problema e vê se é realmente um problema. Eu creio que este foi um dos processos que ocorreu no estudo do negro e a razão que o branco nunca sentiu a necessidade de se estudar. Haja vista que ele já era autoexplicável. Acredito que foi mais ou menos por este viés. E trocando em miúdos, para falar “bem grosso, modo”. Nós temos que analisar o problema e nós não somos o problema. O olhar do branco segue mais ou menos por este viés.
Roberto destaca que o branco não necessita de explicação científica porque quem necessita é o negro, ele é o problema, desse modo, segue a mesma perspectiva apontada por Sílvia. Clayton colabora com o assunto ao revelar que o branco não aprecia ser colocado na condição de objeto.
(A falta de autocrítica por parte do branco)
Clayton: Quando você pensa na invisibilização do branco, nesse ponto, que reside a provocação por causa do desconforto do próprio branco em virtude de não querer ser esquadrinhado, embora faça isso com os outros. Como agora, estou me sentindo bem desconfortável quando você me coloca estas questões. Eu nunca fiz entrevista com alguém perguntado sobre ela, buscando estes elementos de condições raciais, de condições étnicas e tal. Porém, eu fiz perguntas sobre a cultura, como é ser um senegalês? De certa forma, falo sobre ela, falo de coisas mais gerais, no entanto, de fato, você se sente desconfortável. Assim, você observa que o outro poderia se sentir desconfortável com essas perguntas.
Na fala do Clayton é possível notar que a invisibilização do branco não se reduz a visibilização do outro como “problema”, ou melhor, da construção do outro como inferior, e, de forma semelhante, por causa da recusa do cientista branco de se colocar neste lugar de objeto porque é desconfortável. O deslocamento do branco causa inquietação, Clayton pontua isso, essa foi a sensação que sentiu no momento da entrevista. Porém, na prática cientifica tradicional, o pesquisador branco não pensa a respeito da sensação parecida que possa causar ao não-branco ao entrevistá-lo, digo, comumente. Enfim, o branco cientista coloca-se como aquele que quer saber do outro, não revelando sobre si para ele.