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Considerando os aspectos apontados por Ferreiro no decorrer do texto, outro fator relevante é a atribuição da responsabilidade pelo analfabetismo a fatores sociais. Segundo a autora acredita, é a falta de condições econômicas que obriga a criança optar pela atividade que lhe trará algum “lucro”, ao invés da escola. A escola, por sua vez, não oferece atrativos que possam seduzir a criança fazendo com que ela permaneça e conclua seus estudos. Além disso, a mesma sociedade omissa, que não favorece as massas, no sentido de prover recursos para que as crianças mais carentes completem o ciclo de alfabetização, é a mesma sociedade que as empurra para a margem, ou seja, nega a chance do indivíduo conquistar sua cidadania e, por conseqüência disso, marginaliza-o.

É necessário observar, porém, que a formação intelectual ou acadêmica não é garantia de que o indivíduo terá boa conduta ou que será alguém produtivo para a sociedade, cultivador do sentimento de solidariedade, coletividade, honestidade e justo, enfim, portador de qualidades que, certamente promovam a boa conduta dele no convívio social. Contudo, a educação não deixa de exercer papel fundamental na formação do sujeito. Nessa perspectiva, a educação é também um meio de transmitir valores éticos que levem o indivíduo a tornar possível o convívio social através do respeito mútuo aos seus semelhantes.

Emília Ferreiro (1999) reconhece ainda a vinculação do analfabetismo com a pobreza. Dessa forma, acredita-se que existe sim essa vinculação. Essa modalidade de ensino intitulada “Educação de Jovens e Adultos” comprova essa

relação, na medida em que um número significativo de jovens e adultos, atualmente, estão percorrendo o sistema público de ensino a procura de vagas no turno da noite a fim de prosseguir em busca de uma formação básica, evidenciando que, em algum momento da vida, essa educação, ainda que vista como deficiente e ineficaz, fez falta a esses indivíduos, seja por que perderam a oportunidade de ocupar uma vaga no mercado de trabalho ou pelo desejo frustrado de ingressar no setor público através de concurso. Assim, por entender que o sistema capitalista vigente é perverso e excludente, a exigência feita para que o indivíduo seja incluído nele, é que esse indivíduo freqüente uma instituição de ensino sistematizado a fim de desenvolver as competências e habilidades necessárias ao exercício da atividade lucrativa, o que nem sempre é possível, considerando as deficiências apresentadas pelo sistema educacional vigente.

Mediante os fatores observados neste estudo, faz-se necessário esclarecer a proposta de educação que Ferreiro concebe. Nessa perspectiva, Moura (1999) coloca:

Ferreiro propõe uma escola de qualidade, cuja educação propicie o acesso e a permanência de todas as crianças da “classe baixa”, impedindo-se a deserção e exclusão social e evitando-se a produção do analfabetismo adulto. Mostra-nos, ainda, como acompanhar a evolução que os alunos vão demonstrando na interpretação da escrita e como eles vão se exercitando em relação às tentativas de produção da sua própria escrita. Oferece-nos contribuições excelentes no que se refere à atitude do alfabetizador, durante o processo de acompanhamento e avaliação da evolução na aquisição da escrita pelos adultos: seu comportamento compreensivo diante das “garatujas” que os alfabetizandos produzem “às formas “confusas” e ininteligíveis de suas escritas iniciais); sua compreensão quanto aos “erros” e as diferentes formas de expressão oral (representações dos diferentes dialetos que possuem); a paciência pedagógica quanto às formas gráficas e sintáticas das palavras na produção da escrita (mesmo que os alfabetizandos já tenham conseguido adquirir o conhecimento sobre a natureza e estrutura dos sistemas de linguagem escrita). Enfim, ela nos oferece os elementos fundamentais para a realização da avaliação “retrospectiva” que nos auxiliam no planejamento e replanejamento do processo alfabetizador (MOURA, 1999, p.204).

Através da idéia supra-citada, é possível retomar os aspectos vinculados a aprendizagem do jovem e do adulto mediante o processo alfabetização. Nesse

intuito, percebe-se quando se analisa algumas concepções de Ferreiro referidas neste estudo, que se trata de uma autora comprometida com o desenvolvimento de uma prática pedagógica que visa favorecer a construção por parte do indivíduo. É necessário colocar também que a produção desse discurso se deu através de algumas idéias colocadas pela própria autora Emília Ferreiro, por Teberosky, como já foi mencionado no início do capítulo, além de Moura, por que esta propõe uma síntese das idéias de Ferreiro quando se trata da educação de jovens e adultos, pois, de forma geral Ferreiro é uma autora que estuda mais especificamente o processo de aprendizagem da lecto-escrita na criança. No entanto, é como se Moura retirasse a essência da concepção apresentada por Ferreiro sobre o processo de aprendizagem do jovem e do adulto. Assim, justifica-se o uso das colocações de Moura na construção deste texto.

Com a finalidade de sintetizar as idéias de Ferreiro a respeito do processo de alfabetização de jovens e adultos, dando enfoque à aprendizagem da leitura e da escrita, é que se buscou compreender, mediante a leitura de algumas obras da autora, qual a sua concepção de alfabetização junto a propostas que viabilizem as transformações necessárias para se chegar a um método de educação que seja mais adequado e eficaz em relação aos objetivos que se pretende alcançar. Objetivos perseguidos por todos que, atribuem o papel de formar sujeitos críticos e responsáveis à escola, para que estes participem do processo de transformação da estrutura social vigente.

No capítulo a seguir, serão abordadas as idéias de Paulo Freire, pois, trata-se de uma referência indispensável quando se busca compreender a aprendizagem mediante o processo de alfabetização de jovens e adultos, como propõe o presente estudo.

4 Princípios norteadores da ação educativa: algumas contribuições de

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