Após a nossa saída em uma manhã fria, alguns pesquisadores foram em direção à comunidade Ribanceiras, distrito do município de São Romão, outra parte da equipe deslocou-se para a Ilha da Martinha, habitada e utilizada para plantio e criação de animais e com placas de energia solar. A ilha possui uma grande extensão, sendo uma das maiores registradas até o momento. Atualmente possui poucos moradores. Encontramos o senhor Adão de 64 anos e dona Maria de 51 anos. Eles estavam próximos a sua horta e nos convidaram para ir até a sua casa. O senhor Adão nos contou que: “eu já tenho dois anos, dois anos. E não saio também não. Mais é só aqui, sem sair, nem atravessar o rio. É aqui e aqui mesmo”.
Conversamos sobre sua história e a produção na ilha ao longo dos anos. Ele falou que comprou o terreno em sociedade com o irmão e que construiu a casa para morar na ilha.
Eu já tem muito tempo que eu tem vontade de possuir um pedaçim de terra né, pra mim trabalhar. É igual a gente fraco, já trabalhou demais, e hoje nós conseguiu, eu e meu irmão, conseguiu comprar esse pedacim aqui. Eu vim pra cá. De jeito que, aqui eu mexo aqui, é eu mesmo que cuido aqui, trabalho, fiz uns investimento aqui. Tem um tratozinho, tem um engenho aí. (...). Eu não ganho nada aqui. O que eu ganho aqui é mesmo dessas coisas. Se eu não por quente pra poder aumentar, pra sobrar alguma coisa pra mim vender, pra sobrar algum dinheirinho pra mim, eu fico só no serviço. A gente batalha muito. (...). Onde o senhor
morava antes? Eu morava em Pirapora. Morava em Pirapora não por
que eu nunca morei em Pirapora. Eu ando é pra aqui e pra acolá né. É numa fazenda, em outra, em outra. Mas eu nunca possui. Eu falei: eu tinha vontade de arrumar um pedaço de terra pra mim trabalhar. Vivia só trabalhando pros outros. Aí agora eu consegui aqui. Aí aqui pra mim tá beleza aqui. Eu e a mulher nós tamos feliz aqui.
O senhor Adão reclamou da pouca produção deste ano por falta de chuva. “Este ano não foi bão não”. Quando perguntamos se existe diferença entre plantar na ilha e fora da ilha ele nos explicou:
Viche! Nossa Senhora! Senti muita diferença. Muita diferença por que aqui é o seguinte: aqui tudo quantuá que você planta, agora você molha poucas vezes, não morre no fácil, não morre no fácil. Nos outros canto cê planta uma muda cê tem que ta molhando direto, direto e ainda morre.
Aqui não, porque aqui é fresco de natureza, você planta, molhou uma três vezes o mantimento tá em pé.
Dona Maria acrescentou “a diferença aqui é grande por que a gente trabalha em fazenda dos outros, a gente trabalha pros outros e aqui não, a gente faz pra gente mesmo. O pouco ou muito é da gente, não tem negócio de tá dividindo e coisa e tal não”.
Eles nos contaram que na ilha existe uma Associação de moradores e estão “lutando” para implantar energia elétrica. Eles ficam sem comunicação com os filhos que moram fora por que não conseguem carregar o celular.
Depois de conversarmos com o senhor Adão ele nos levou até o senhor Pedro de 55 anos, que possui um terreno na ilha e mora “de favor” em uma fazenda na beira do rio.
O senhor mora na ilha? Não, eu só tenho um barquinho aqui. Moro
aqui na beira do rio aqui. Mas a freqüência minha é aqui. De manhã cedinho eu tô de cá. Vai e volta? Vai e volta todo dia! O senhor já
viveu enchentes aqui? Muitas. Inundou a ilha toda? Toda, toda, toda.
Em 79 mesmo, esse pé de manga que vocês tá vendo aqui ficou só a copinha dele pelo lado de fora. As casas não ficou nada de fora, cobriu tudo! Teve aquela de 80, a de 92. Agora esse ano quase lavou de novo. Só que a gente é meio insistente, quando a água volta a gente volta pra ilha de novo. Já acostumou pisar na lama mesmo.
Ele disse que planta feijão, mandioca, verduras para a despesa e cria gado. Segundo o senhor Pedro a ilha mede cerca de 50 hectares. Ele afirmou ainda que a ilha tem muito mais de 100 anos. “Aqui é muita terra”. “Antigamente era duas ilhas. A ilha da Martinha e a ilha do Coqueiro. Agora é uma coisa só, tudo é ilha da Martinha, imendou uma na outra”. Ele disse que vai sempre à cidade de São Romão fazer compras de charrete ou de carona. “Antigamente era canoa, agora quase não usa mais. É na charrete, as vezes pega uma carona”.
Quando perguntamos se ele notou alguma mudança no rio ele respondeu:
O número de pescador aumentou demais, o nível das águas baixou, o rio razeou demais. (...). Onde era rio virou terra, uma parte aqui pra lá virou tudo terra. Um lugar que antigamente era rio, lugar fundo... Então pra gente que convive aqui vê como a natureza tá mudando. E outra coisa: este rio é bom demais, é uma coisa maravilhosa, apesar de que tá tendo muita poluição. Tem lagoas aqui? Tem, mas as lagoas hoje tem mato demais dentro. Antigamente não secava, agora seca.
Perguntamos sobre as denominações usadas ao longo do Rio São Francisco, ele nos respondeu da seguinte forma:
Eu sou barranqueiro porque eu moro na beira do rio né. Barranqueiro. E
na ilha? Barranqueiro também né. Porque morou na beira do rio é
barranqueiro. O Senhor já ouviu falar de vazanteiro? Não. As vezes pode até ter mas eu não sei não. Porque muitas vezes os nomes que vem assim pelas leis as vezes a gente não sabe né. O senhor é agricultor? Pequeno. Nos meus documentos não é propriamente agricultor é lavrador. E pescador? Não sou pescador. E ribeirinho o senhor já
ouviu falar? Já. Já ouvi falar. Quem é ribeirinho? Eu acho que as
pessoas ribeirinhas são igual nós que mora na ilha né, mora na beira do rio. São estas pessoas. Eu acho que sim né.
Ele nos contou que é posseiro e que comprou o direito de outro morador, tendo como documento apenas uma procuração de compra e venda. E nos explicou como é o processo para adquirir uma propriedade na ilha.
Assim, quando é lá do outro lado, você comprou um lote você vai lá no cartório e registra que comprou o lote. O direito é o seguinte: se eu for embora ou eu resolvo vender, eu vendo meu direito. Passo a procuração pra quem comprou tudo direitinho. Qual é a diferença? Não tem o documento. Agora pra você adquirir o documento aqui você tem que ir lá no Sindicato dos Trabalhadores Rurais e adquirir um documento lá como uma integração de posse. Como eu sou um posseiro aqui da ilha, tem que trazer o nome por aquela posse. Mas nem todos tem este documento. Antigamente você chegava aqui, comprava o direito de fulano. Dizia assim comprei tantas hectares de fulano. Então fulano comprou o direito de fulano. (..) Então sempre é assim, passa de um pro outro. Agora passa uma procuração de compra e venda mas não tem aquele documento registrado em cartório. Aqui você passa uma procuração, as vezes a gente vai no próprio cartório mesmo e passa uma procuração como a gente vendeu e fulano comprou tanto né. Hoje em dia tem hectares, antigamente ninguém tinha negocio de medir nada aqui não. Pouca gente sabia quantos metros que tinha de terra. Hoje já exige né. Antigamente era o direito. Como é o posseiro? Olha o posseiro eu vejo o seguinte: porque se a gente mora naquela terra ali, assim ele mora, convive naquela terra, a gente comprou, então a gente fica sendo o posseiro daquilo ali. O
senhor não tem medo de perder a terra? Uai medo a gente tem né.
Porque tudo neste mundo que a gente adquire você tem medo uma hora, toda hora entra um governo entra outro, muda de lei uma coisa . Pode correr o risco né. Esta terra é só a posse então? E só a posse. Ninguém
nunca mexeu com vocês não? Não. Não apareceu outro dono não?
Não. Por enquanto não. Até aqui nunca apareceu outras pessoas, e se chega outras pessoas de fora, se ele quer ele tem que comprar o direito de outro. Não pode chegar e entrar não. Agora antigamente era o seguinte:
tinha uma lei assim: se chegasse e a terra tivesse devoluta ai podia chegar e entrar se passasse dois anos e tivesse trabalhando ai era dele. Hoje em dia não, hoje em dia. Por aqui o povo não mexe com esse negócio de invasão não.
O senhor Pedro conta ainda que antigamente os moradores da ilha não gostavam de criar gado. Com o passar do tempo algumas pessoas passaram a criar, aí ele também iniciou com esta atividade.
Antigamente ninguém criava, não tinha cerca aqui. Aí foi chegando, foi cercando, foi criando. Falei: mas poxa eu que moro aqui a quantos anos eu também tenho o meu direito uai. Ai eu fui e também comecei a criar. Hoje já tem muito gado aqui dentro da ilha. Foi de uns dez anos pra cá que começou a ter. Nós mesmo aqui foi de uns três a quatro anos pra cá. Mas depois que os outros veio de lá pra cá né. Eu falei: eu vou fazer também por que se os outros tão fazendo eu também tenho direito.
Ele disse que a ilha ainda não tem a presença de “turista”, todos que possuem terra na ilha plantam ou criam gado “as pessoas que ocupa aqui trabalham mesmo”.
A figura 09 a seguir mostra a comunidade Ribanceira, localizada na margem esquerda do São Francisco, um pouco mais afastada do rio e a Ilha da Martinha, onde paramos para conversar com o senhor Adão, dona Maria e o senhor Pedro.
Figura 09: Croqui da comunidade Ribanceira e da Ilha da Martinha. Fonte: Acervo do grupo de pesquisa Opará, Jun. 2011.
Seguimos viagem e já no início da tarde paramos na cidade de São Romão. Bem em frente à cidade está localizada a Ilha dos Caiapós, também chamada de
Ilha de São Romão40. Uma ilha grande, habitada com muitas casas e utilizada para plantio e criação de animais. As pessoas que trabalham na ilha geralmente moram na cidade de São Romão. Na ilha foram instaladas placas de energia solar que segundo informações dos moradores não funcionam.
Chegamos à ilha pela margem esquerda do rio acompanhados por dona Santinha, que estava em São Romão e foi de barco nos mostrar a sua casa e as suas plantações. Perguntamos a origem do nome da ilha e ela nos respondeu que é “Ilha dos Caiapós porque tinha muitos índios antigamente”.
Notamos a sua felicidade ao chegar na ilha e vê seus animais de estimação, sua casa e suas hortaliças. Assim que chegamos ela logo começou a molhar a horta (foto 9).
40
Mapa do trajeto disponível no anexo E.
Foto 9: Dona Santinha proprietária de um lote na Ilha dos Caiapós/MG.Ela possui uma pequena casa na ilha e mora na cidade de São Romão. Quase todos os dias ela se desloca de barco da cidade para a ilha para cuidar do plantio de hortaliças e frutas. Presenciamos a dedicação com que ela cuida de sua horta, retirando com o regador a água do rio para molhar todas as “covas e canteiros”.
Muito sorridente ela nos agradeceu por levá-la até a ilha, explicou que estava precisando muito cuidar de sua horta e já estava preocupada por que no dia seguinte o seu marido não poderia levá-la. Ela disse tem coragem de ir sozinha para a ilha, pois não sabe remar.
Dona Santinha nos contou como conseguiu um direito na ilha. Disse que a terra estava parada, por isso ela e o marido passaram a trabalhar. Depois a “dona da terra” quis vender, mas o seu marido falou: “a ilha não é de ninguém!”. Ela contou que com a enchente de 1979 ficou tudo no barro, o marido não quis ficar mais na ilha e venderam a propriedade. Só recentemente eles compraram outro direito no lugar onde fomos conhecer.
Além da pequena casa, eles possuem uma horta, plantações de cana, mandioca e pés de frutas como manga, acerola e laranja. Ela disse que “de primeiro todo mundo plantava. Todo mundo tinha a sua roça. Agora tem mais é gado”. Eles já criaram galinha, porco, pato, mas atualmente pararam de criar em função dos roubos. Além disso, o que cultiva em seu pequeno lote precisa ser cercado para que o gado dos outros moradores não entre e danifique as plantações.
Ela nos explicou a diferença no tempo de plantio na ilha. “Já tem uns 20 anos que planto aqui. Tem que saber plantar. Planta na seca porque não está chovendo. Lá fora planta em setembro, outubro porque é na época da chuva né”.
No fim da tarde retomamos para a barca Tainá que estava atracada no porto da cidade de São Romão – Vila Risonha, onde passamos a noite. Tempo para abastecer o barco, repor itens da alimentação, mas também para conversar, investigar e anotar. Pensar que foi nesta cidade que há muitos anos os viajantes Spix e Martius, (1981) relataram em condição de vila.
É pequena, não tendo mais de mil habitantes, e forma um quadrado com diversas ruas longas, estreitas e irregulares. (...) quase toda de gente é de cor e não creio que haja na Vila intera uma dúzia de famílias brancas. (SPIX & MARTIUS, 1981, p. 188). No passado seu nome era arraial de Santo Antônio da Manga, tendo como seus primeiros habitantes os índios Caiapós, passando depois para Vila Risonha
de Santo Antônio da Manga de São Romão e, mais tarde, o então município de São Romão.
Situada na margem esquerda do Rio São Francisco a cidade já foi ponto de parada das barcas e dos vapores e conta atualmente com a expressão da cultura local bastante variada. Incluindo a existência de ternos de Folias de reis, grupo de São Gonçalo, Congado e Caboclo além do Batuque e do Boi comandados por dona Maria, uma senhora de referência na cidade, disseminadora da cultura popular da região, conhecida por todos os moradores.
A figura 10 a seguir expõe alguns aspectos importantes da cidade como a igreja, as árvores centenárias localizadas as margens do rio, o formato das casas, as ruas quase todas ainda de terra, a balsa que faz a travessia de uma margem a outra e a frente da cidade a Ilha dos Caiapós, um lugar bastante dinâmico utilizado tanto para o lazer, como para a moradia, para o plantio e para a criação de animais, especialmente gado.
Figura 10: Croqui da cidade de São Romão e da Ilha dos Caiapós. Fonte: Acervo do grupo de pesquisa Opará, Jun. 2011.