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CHARGÉS D’AFFECT

IV.  UNE PERSPECTIVE LACANIENNE DE L’AUTISME BLEULERIEN

2.   L’ARCHITECTURE DU SUJET ET DE L’AUTRE

O mundo do trabalho vem sofrendo constantes metamorfoses (ANTUNES, 1995), em função das grandes inovações tecnológicas e de organização do trabalho que, em particular, nas últimas décadas, vem se processando no mundo e no Brasil.

O homem transforma a natureza para suprir suas necessidades. Essa ação de transformação é chamada de trabalho. De forma geral, o trabalho é a ação do homem sobre a natureza com o objetivo de suprir suas necessidades.

Mas esse conceito de trabalho vai se tornando complexo na medida em que, ao longo do tempo, as famílias e as sociedades vão crescendo e intensificando as necessidades e as formas de cooperação, as quais são caracterizadas pelos diferentes modos de produção que a sociedade humana experimentou.

A história da humanidade deve ser compreendida, levando-se em consideração as condições históricas do modo de cooperação e da evolução das forças produtivas (ALVES, 2009).

Com o advento do capitalismo, o processo de aumento da produção e divisão do trabalho provoca uma dicotomia entre o trabalho material e espiritual. Ao longo do tempo, com o aprofundamento dessa divisão, vão sendo produzidas contradições no interior das relações sociais, determinando os que “[...] se apropriam e controlam os elementos que integram uma dada sociedade” (ALVES, 2009, p. 27).

É na divisão do trabalho capitalista que se origina a fragmentação da sociedade em classes, produzindo os proprietários dos meios de produção e os que não possuem os meios de produção – classe explorada - denominados de proletários.

A divisão manufatureira do trabalho possibilitou o desenvolvimento e a multiplicação “[...] da divisão social do trabalho” (MARX, 1984, p. 405), na medida em que as ferramentas vão se diferenciando e os ofícios vão se diversificando. Desse modo, toda a sociedade é afetada diretamente por essa divisão que “[...] se apossa das outras esferas da sociedade, além da econômica, lançando por toda parte a base para o desenvolvimento das especialidades [contribuindo] para o parcelamento do homem [...]” (MARX, 1984, p. 405).

A junção da “máquina-ferramenta” à energia que a movimenta materializou a primeira Revolução Industrial. A máquina, sob a eficiência do projetista, eliminou os movimentos indesejados e passou a controlar os movimentos desejados (BRAVERMAN, 1974).

A fragmentação do trabalho, nesse período, contribuiu para a aceleração do ritmo de trabalho e com a especialização dos operários (semioperários) e o aniquilamento do operário completo, o que se observou foi a corrosão da formação do trabalhador (PERROT, 1985).

A divisão do trabalho foi significativamente afetada com o modelo proposto por Taylor. Suas proposições não se assentavam na tecnologia material, mas sim na tecnologia da gestão da produção – gestão da fábrica. Braverman (1974, p. 82) afirma que o modelo taylorista “[...] pertence à cadeia de desenvolvimento dos métodos e organização do trabalho, e não do desenvolvimento da tecnologia, no qual seu papel foi mínimo”.

Por isso, a divisão taylorista do trabalho o fragmentou ainda mais, criando a figura do especialista e aprofundando ainda mais a divisão entre trabalho mental e braçal. De acordo com Braverman (1974, p. 112) a

[...] separação do trabalho mental do trabalho manual reduz, a certa altura da produção, a necessidade de trabalhadores diretamente na produção, desde que ela os despoja de funções mentais que consomem tempo e atribui a outrem essas funções.

As transformações ocorridas, no interior do trabalho, provaram a dependência do trabalhador dos processos de racionalização e do controle da gestão administrativa e, sob o ponto de vista do conhecimento científico e tecnológico, a dependência da figura do especialista (CONTRERAS, 1997).

Portanto, o trabalho, sob essa lógica, pode ser explicado da seguinte forma, segundo o mesmo autor

a) separação entre concepção e execução no processo produtivo, onde o trabalhador passa a ser um mero executor de tarefas sobre as quais não decide, b) a desqualificação, como perda do conhecimento e habilidades para planejar, compreender e atuar sobre a produção e c) a perda do controle sobre seu próprio trabalho, que passou a ser submetido pelo controle e decisão do capital, perdendo sua capacidade de resistência (Ibidem, p.20) ..

Desse modo, em tese, a proletarização do trabalhador pode ser definida como um “processo que resulta da perda do trabalhador da capacidade de planejar e executar ao mesmo tempo o seu próprio trabalho” (ALVES, 2009, p. 37), isto é, significa dizer que existe uma separação entre a concepção e a execução e a intensificação do controle por meio de estratégias administrativas.

Todo trabalhador produtivo45 é considerado um proletário e por isso submetido ao processo de proletarização, daí a designação de proletário. O que caracteriza um trabalhador proletário é sua condição de produtor de mais-valia (TUMOLO e FONTANA, 2008; MARX, 1984).

Segundo Marx (1996, p.138) a

[...] produção capitalista não é apenas produção de mercadoria, é essencialmente produção de mais-valia. O trabalhador produz não para si, mas para o capital. Não basta, portanto, que produza em geral. Ele tem de produzir mais-valia. Apenas é produtivo o trabalhador que produz mais-valia para o capitalista ou serve à autovalorização do capital. Se for permitido escolher um exemplo fora da esfera da produção material, então um mestre-escola é um trabalhador produtivo se ele não apenas trabalha as cabeças das crianças, mas extenua a si mesmo para enriquecer o empresário. O fato de que este último tenha investido seu capital numa fábrica de ensinar, em vez de numa fábrica de salsichas, não altera nada na relação. O conceito de trabalho produtivo, portanto, não encerra de modo algum apenas uma relação entre a atividade e efeito útil, entre trabalhador e produto do trabalho, mas também uma relação de produção especificamente social, formada historicamente, a qual marca o trabalhador como meio direto de valorização do capital. Ser trabalhador produtivo não é, portanto, sorte, mas azar.

Desse modo, nem todo trabalhador é proletário, e por assim dizer, submetido ao processo de proletarização.

As contradições, nas relações sociais capitalistas, vêm sendo produzidas, ao longo do tempo, na medida em que o trabalho foi sofrendo divisões. Na manufatura, na primeira Revolução Industrial, elas foram se alargando sensivelmente, com a divisão do trabalho, proposta por Taylor; na segunda Revolução Industrial e, por último, com a produção flexível, a partir do último quarto do século passado.

Também é na complexa sociedade capitalista que se encontra o professor, o trabalhador do ensino o docente. Esse trabalhador do ensino estaria submetido ao processo de proletarização a que o trabalhador fabril foi submetido? E ainda: o

45 Trabalhador produtivo é todo trabalhador cujo, trabalho é produtivo, não por ser um trabalho concreto, mas por que é “[...] necessariamente, trabalho referente ao processo de produção de capital. Isto significa dizer que o trabalho produtivo está presente em toda e qualquer relação de produção capitalista, não importando se se trata de uma empresa agrícola, fabril ou uma empresa escolar, se a mercadoria produzida é soja, robô ou ensino” (TUMOLO & FONTANA, 2008, p. 9)

professor é um trabalhador proletário? Essas e outras questões serão tratadas a seguir