Ainda dentro do primeiro eixo temático, este tema envolve as características do processo de inovação, o qual possui três categorias exploradas, as quais são: produção de conhecimento científico e tecnológico; transformação de conhecimento em artefatos concretos; e combinação dos artefatos com as demandas do mercado.
Para a primeira categoria, que trata da produção de conhecimento científico e tecnológico, foram identificadas, conforme quadro 09 a seguir, três unidades de registro: ambiente de pós-graduação; aplicabilidade; e pesquisa básica.
Sobre o ambiente de pós-graduação, onde há interação entre os pesquisadores da instituição com os alunos de iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado, o gestor E1 defende que esse é o meio onde deve ser fomentada a semente para o desenvolvimento da inovação nas Universidades.
Como resultado da nova força da ciência após a 2ª Guerra Mundial, Velho (2011, p.129-30) afirma que se passou a conceber que, ao envolver uma massa crítica de pesquisadores realizando pesquisas avançadas em disciplinas básicas e a
concessão de recursos suficientes para a concretizá-las, seria possível solucionar problemas, antes sem resposta. Entretanto, essa perspectiva está de acordo com as premissas do modelo linear, no qual o foco principal das políticas de CT&I é a busca por promover a formação de recursos humanos de alto nível.
Fonte: Elaboração Própria
Já a concepção de sistema propõe, segundo Viotti (1998, p.22), que este não seja visto como um conjunto de elementos manipuláveis e cuidadosamente projetados, trabalhando em busca de um mesmo objetivo de forma coerente. Isso significa que o processo de inovação é um fenômeno complexo e não deve ser interpretado por meio de uma percepção simplista, é preciso considerar a influência de todos os elementos que compõem o sistema, bem como a relação entre eles. Adicionalmente, Marques e Abrunhosa (2005, p.22) afirmam que o processo de
Quadro 09 - Depoimento dos Gestores sobre a Produção de Conhecimento Científico e Tecnológico
1º Eixo Temático - Tema: Características do Processo de Inovação
Categoria Unidade de Registro Unidade de Contexto
Produção de conhecimento científico e tecnológico
Ambiente de pós-graduação
E1: […] dizer à pós-graduação: "Rapaz, a
semente tá ai dentro". Tá dentro dos
pesquisadores. É o cara do mestrado, do doutorado junto com iniciação científica e o pós-doc ajudando… o pós-doc e iniciação… mas é dentro de um mestrado e de um doutorado que sai as coisas. […] Eu tô há mais de vinte anos achando que isso é verdade e não vou, por enquanto, é... mudar de ideia.
Aplicabilidade
E2: Eu digo por exemplo na... área de saúde. A gente só pode, só deve e só... acredito eu, na minha concepção, usar recursos se você tiver uma aplicabilidade […] A gente passou daquela fase de pesquisa, avaliar por avaliar. A gente tem que ter um foco do que aquilo vai refletir no paciente.
Pesquisa básica
E3: […] porque as... às vezes há algumas críticas né? à pesquisa básica né? Que a gente acha que a pesquisa tem que ter lá a pesquisa aplicada e tal, mas tem que ter a
básica. […] tem muita gente que às vezes
critica o fato seguinte né? esse pessoal tá trabalhando aí há muito tempo e a gente não vê nada né? […] É o seguinte, o que a gente tá trabalhando hoje aqui, daqui há dez anos, várias das coisas mostram que não era por ali. E algumas outras mostram que exatamente a gente tava no caminho certo.
inovação sofre influência da estrutura produtiva, do contexto institucional, da cultura e da história do local de produção.
Dito isso, a colocação do entrevistado E1 parece trazer uma visão simplificada do processo de inovação, se distanciando das premissas do modelo sistêmico, além de ser mais próxima ao modelo linear, ao apresentar o ambiente acadêmico como ponto de partida não somente da produção de conhecimento científico e tecnológico, mas também da inovação em si.
A questão da aplicabilidade surge novamente, sendo desta vez relacionada ao propósito da pesquisa e da produção de conhecimento. Mais uma vez abordada pelo entrevistado E2, esta unidade de registro destaca a importância de fomentar e conduzir pesquisas que tenham a intenção de trazer utilidade para o conhecimento gerado, podendo este se transformar em artefatos concretos e se integrar às demandas do mercado, ou até mesmo sociais. Como esse aspecto já foi explorado anteriormente no quadro 08, cabe apenas reforçar o alinhamento deste com o caráter sistêmico da inovação.
O entrevistado E3 abordou a relevância da pesquisa básica para o processo de inovação. Em sua declaração, ele destaca a necessidade do desenvolvimento desse tipo de pesquisa para o alcance de importantes contribuições na produção do conhecimento científico e tecnológico.
No modelo sistêmico, a empresa é o principal componente do processo, o qual ocorre por meio de um conjunto de elementos e suas interações dentro do sistema, sendo o desenvolvimento da pesquisa básica parte disto. Se for considerado o exposto sobre o modelo linear, de acordo com os argumentos de Marques e Abrunhosa (2005, p.14), percebe-se haver uma posição de destaque para a pesquisa básica, uma vez que estas atividades iniciam o processo de inovação linear e acontecem tipicamente em organizações como as universidades, que se tornam atores chaves para a produção do conhecimento.
É possível perceber que o gestor E3, em seu discurso, apresenta a pesquisa básica como parte do processo de produção do conhecimento, sem apontá-la como a mais importante. Para tanto, classifica-se que sua colocação está de acordo com a lógica do modelo sistêmico.
A categoria subsequente envolve a transformação de conhecimento em artefatos concretos e, conforme quadro 10 a seguir, duas unidades de registro foram
identificadas: tempo de desenvolvimento; e processo de construção. Observa-se que ambas as passagens são provenientes do entrevistado E3.
Fonte: Elaboração Própria
Sobre os aspectos do tempo de desenvolvimento e do processo de
construção, não parece haver uma interpretação direta sobre o modelo normativo
retratado no discurso do gestor. Contudo, pode-se inferir algumas conclusões. Sob a perspectiva do modelo sistêmico, Mowery e Sampat (2005, p.209) destacam que as universidades são incentivadas a participar de forma cada vez mais intensa do processo de inovação, bem como de seus três subprocessos, que coincidem com as categorias deste tema, conforme apontado por Pavitt (2005, p.94).
Nesse aspecto, compreende-se que a descrição do entrevistado E3, em ambas as unidades de registro, está retratando uma movimentação dentro da universidade que se aproxima do modelo sistêmico. Embora não pareça ser viável identificar precisamente a posição do entrevistado nesse trecho do diálogo, não se pode atestar que as declarações vão de encontro às proposições da teoria dos SNI.
Finalizando o primeiro eixo e o tema das características do processo de inovação, a categoria “Combinação dos artefatos com as demandas do mercado” apresenta, no quadro 11 a seguir, três unidades de registro: empresa intermediária da relação pesquisador-sociedade; diferentes utilidades; e momento.
Quadro 10 - Depoimento dos Gestores sobre a Transformação de Conhecimento em Artefatos Concretos
1º Eixo Temático - Tema: Características do Processo de Inovação
Categoria Unidade de Registro Unidade de Contexto
Transformação de conhecimento em artefatos
concretos
Tempo de desenvolvimento
E3: […] tão colocando aí ao alcance do pessoal a... a questão de um colírio né? Da catarata, tá certo? aí saiu, bom, o pessoal tá... quando sai uma notícia dessa é que já tá bem avançado a coisa. Mas partir pra
uma escala de utilização, isso é daqui há cinco anos né? […] Então essas coisas
caminham dessa maneira.
Processo de construção
E3: […] é uma resposta da universidade à sociedade né? Ou seja o que a gente tem que fazer é algo que... agora, a gente não pode é se prender ao imediatismo né? também é problema. Isso aqui, cadê? Não... isso aqui tem todo um processo de... é
A primeira categoria, empresa intermediária da relação pesquisador-
sociedade, foi abordada pelo entrevistado E1 quando este afirmou que a inovação
efetivamente chega ao mercado quando há transferência da criação, ou invenção, para alguma firma. Este trecho é facilmente associado ao conceito de Schumpeter, uma vez que o autor, lembram Freeman e Soete (2008, p.26), defende ser inovação apenas quando acontece uma transação comercial. Então, considerando que os sistemas de inovação foram concebidos com base nas colocações de Schumpeter, compreende-se que o argumento apresentado pelo gestor E1 está alinhado com as premissas do modelo sistêmico.
Fonte: Elaboração Própria
Sobre diferentes utilidades, o entrevistado E3 trata de novas aplicações para as descobertas e inovações produzidas durante o período da ida dos americanos à lua. Invenções e inovações, argumenta Fagerberg (2005, p.5), dependem de outras pré-existentes para serem bem sucedidas e a maioria das inovações relevantes passam por alterações antes de ter influência expressiva na economia. Para o autor, é natural incorporar o feedback no processo, tornando as
Quadro 11 - Depoimento dos Gestores sobre a Combinação dos Artefatos com as Demandas do Mercado
1º Eixo Temático - Tema: Características do Processo de Inovação
Categoria Unidade de Registro Unidade de Contexto
Combinação dos artefatos com as demandas do
mercado
Empresa intermediária da relação
pesquisador-sociedade
E1: E aí a inovação dele [pesquisador] vai
chegar na sociedade através até nessa transferência com empresa, com a
Hemobrás, com a Chesf, com enfim, com Baterias Moura. […] mas você tem que ter um discernimento de que inovação vai ser a ideia, vai ser a criação, e que vai ser transferido de que forma você pode proteger isso? Pra você fazer uma transferência legal, uma transferência de benefícios.
Diferentes utilidades
E3: […] a ida dos americanos à Lua, por exemplo né? você sabe dessa história, tiveram que desenvolver toda tecnologia que depois, muitas dessas coisas tão sendo
usadas até na cozinha da gente.
Momento (Timing)
E1: […] Tu imagina naqueles sensores do shopping center que aquilo foi patenteado,
hoje tá servindo pra gente. Mas daqui a
vinte anos, tu acha que aquilo não vai ter uma coisa que não é mais daquele jeito, é o peso do carro, é alguma coisa, enfim. Talvez não tenha mais nem estacionamento, vai ser outra coisa, então a gente tá voando aí.
inovações produto da combinação de inovações relacionadas. Dito isso, percebe-se a inclinação no discurso do gestor E3 para o modelo sistêmico.
Por fim, a questão do momento se relaciona com uma das características da inovação, conforme apresentado por Schumpeter (1984, p.86): a necessidade de agir antes de algum concorrente. Afinal, a inovação só garante o alto retorno de investimento para o mercado quando há possibilidade de usufruir de seus benefícios. O trecho da entrevista do gestor E1 retrata, então, uma premissa schumpeteriana amplamente aceita e de acordo com a lógica do modelo sistêmico.