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Approximation de la multiapplication implicite

Julgamos necessário mencionar, ainda que de modo extremamente breve, uma parte da trajetória da História Oral, pois entender melhor tal trajetória contribuiu significativamente para nossa compreensão do uso da metodologia. Acreditamos que deixar registrado aqui esse percurso pode auxiliar quem esteja iniciando seus passos na pesquisa histórica e, inclusive, auxiliar a procurar maiores esclarecimentos nas referências que utilizamos. Segundo Garnica (2003), a História Oral surge em meados da década de 1960/70 e visa tratar o “acontecimento social” sem nenhuma tentativa de “coisificá-lo” ou de “factualizá-lo”, sem nenhuma classificação precedente. Ao invés disso, procura abrir “planos discursivos de várias

memórias”, levando em conta as tensões entre as histórias particulares e a cultura que as contextualiza14.

Para o autor (2003, p. 154)

Pensar a história oral como metodologia [...] não significa reduzi-la a uma prática de coleta e arquivamento de informações. Significa, sim, pensar em regras de ação – associadas, como pretendia também Descartes, a uma ideia de eficácia – e fundamentá-las teórico-filosoficamente, analisando situações, propondo táticas e estratégias (no sentido que lhes dá Certeau), testando seus limites, esclarecendo tanto quanto possível o campo epistemológico e axiológico no qual estão assentadas.

Em 1990, a História Oral ganha notoriedade no Brasil e, após a criação da Associação Brasileira de História Oral, em 1994, se expande consideravelmente, de acordo com o que nos relatam Amado e Ferreira (2006). Para as autoras, a metodologia da História Oral nos apresenta uma história sempre em construção (pois o objeto histórico é fruto de uma elaboração), e proporciona a oportunidade de interligar a pesquisa empírica à reflexão teórico-metodológica. Utilizando-a, queremos reavivar a memória individual e coletiva, buscando acontecimentos não registrados em outros documentos, associando esses acontecimentos a eventos da vida pública e privada e, desta forma, perceber olhares de mundo, dos lugares e da profissão. Nessa direção, segundo Garnica e Souza (2012, p. 98-99), buscaremos estabelecer “‘versões’ que compõem cenários possíveis e preservam vozes muitas vezes alternativas e dissonantes aos ‘fatos’ históricos”.

Para Meihy (2002, p. 20-21)

a necessidade da história oral se fundamenta no direito de participação social, e nesse sentido, está ligada ao direito de cidadania. Com uma vocação para tudo e para todos, a história oral respeita as diferenças e facilita a compreensão das identidades e dos processos de suas construções narrativas. Todos são personagens históricos, e o cotidiano e os grandes fatos ganham equiparação na medida em que se trançam para garantir a lógica da vida coletiva.

14 Vale ressaltar que, após algum tempo desde o marco do surgimento da História Oral e após os processos inerentes

ao movimento de maturação pelos quais metodologias próprias das Ciências Humanas passaram, chegou-se à conclusão de que o termo “História Oral” não dá conta completamente de suas potencialidades, posto que o termo “oral” remete às fontes que são usadas para a produção historiográfica, mas vem junto ao termo “história” motivado pelos embates acadêmicos travados quando do surgimento desse ramo da História. Ademais, o pesquisador que faz uso da História Oral não é obrigado a usá-la exclusivamente em pesquisas que remetam ao passado, posto que as fontes utilizadas – os depoimentos orais – podem reportar aos acontecimentos do presente. Janaína Amado e Marieta de Moraes Ferreira, em uma nota de rodapé da apresentação do livro “Usos &abusos da História Oral” (2006), esclarecem tal ponto na página xii, ao dizer que, em vez de usar a expressão “história oral”, seria melhor falar de “[...] constituição intencional de fontes históricas a partir da oralidade, numa clara complementação (alguns prefeririam, aqui, “oposição”) àquela concepção de “História” pautada somente em fontes escritas ou, mais radicalmente, em fontes “primárias (AMADO; FERREIRA, 2006, p. 10)

Além disso, Janotti (2010) propõe que é necessário considerar, ao menos, três instâncias teórico-metodológicas que interagem e evidenciam a pertinência da História Oral enquanto metodologia: a instância dos depoentes, a do entrevistador e a do público. Entendemos que optar pela História Oral é considerar, no mínimo, as três instâncias teórico-metodológicas supracitadas, e que há tensões constantes que circundam os testemunhos e são explicitadas em qualquer trabalho semelhante a este (JANOTTI, 2010). As tensões remetem aos depoimentos coletados, às informações neles contidas, à natureza dos depoimentos, ao discurso historiográfico a ser produzido e ao papel de cada parte. Cabe aos depoentes tecer considerações acerca do tema em questão, segundo suas próprias vivências, sua linguagem, tendo em vista finalidades ocultas ou não; o entrevistador vai em busca do testemunho e “domina técnicas e métodos, que precisam ser assegurados para a aceitação do público a que seu trabalho se destina” (Ibidem, p. 13).

Por meio da análise das narrativas dos depoentes que nos concederam entrevista, acreditamos que a História Oral nos proporcionou o acesso a testemunhos capazes de iluminar aspectos não evidenciados nos documentos escritos. Entretanto, como afirma Janotti (2010), “testemunhar não é apenas dizer o que viu ou ouviu, mas é também a construção de um discurso sobre o factual” (p. 14). E quando a factualidade do indivíduo é a mesma compartilhada pelos grupos sociais aos quais ele pertence, o depoimento que outrora era exclusivamente dele (do indivíduo), ganha contornos sociais, ultrapassando o limite da individualidade (HALBWACHS, 1990).

A essas narrativas daremos o mesmo tratamento que às fontes escritas acima citadas ao tentar interpretá-las, compreendê-las e articulá-las para, assim, construir nossa versão histórica sobre a formação dos professores de Matemática da região escolhida. Baseando-nos em Gomes (2012a), podemos afirmar que “nenhum tipo de documento retrata o que verdadeiramente se passou” (p. 128, grifos do original) e, tampouco, os depoimentos orais são donos de tal veracidade sobre os fatos. Por isso, procuraremos não valorar um tipo de fonte mais que outro.

Entende-se que a História Oral gera fontes historiográficas e que o pesquisador, ao analisar essas fontes, pode estabelecer uma versão acerca do contexto abordado pelas fontes (criando, portanto, outra fonte). Num trabalho analítico dessa natureza, uma grande variedade de recursos/fontes (e, consequentemente, de pontos de vista) é mobilizada além dos depoimentos orais. Os pontos de vista (as verdades do sujeito e das outras fontes disponíveis) são postos em diálogo, sem que uma fonte seja valorada de modo diferenciado, posto que cada um desses recursos abre a possibilidade de conhecer perspectivas alternativas, ainda que, não poucas vezes, conflitantes. (GARNICA; FERNANDES; SILVA, 2011, p. 237).

Segundo Thompson (1992), toda fonte histórica que deriva da percepção humana é subjetiva. Portelli (1991) diz que o que as fontes orais têm a oferecer ao historiador é a subjetividade do expositor, pois elas relatam o que foi feito, mas deixam escapar o que os sujeitos queriam que fosse feito, o que pensavam estar fazendo e o que acreditavam fazer. Logo, “(...) apenas a fonte oral permite-nos desafiar tal subjetividade” (THOMPSON, 1992, 197) penetrando as memórias no seu âmago, “na expectativa de atingir a verdade oculta” (Idem).

Por outro lado, uma das potencialidades da História Oral, se não a maior delas, é a criação, em maior extensão que no caso de outras fontes, de vários pontos de vista originalmente postos em meio a uma realidade complexa e multifacetada (THOMPSON, 1992). Porém, segundo Galvão e Lopes (2010, p. 77), há que atentar também para algumas questões importantes no uso dessa metodologia.

Primeiro, há a imprevisibilidade e o não controle da situação, o que requer do pesquisador disposição e habilidade de escuta. [...] Outra questão que merece ser pensada é o retalhamento da voz do sujeito, necessário à operação historiográfica. [...] Ao lado do retalhamento necessário, é preciso manter, na medida do possível, a inteireza de cada depoimento. [...] Também merece destaque o cruzamento de fontes. Ao utilizar outros documentos, o historiador corre menos o risco de considerar as entrevistas como a “voz” daqueles que não podem falar. Além disso, a consulta a outras fontes ajuda a formular as questões das entrevistas e compreender suas respostas.

No âmbito da Educação Matemática, no entendimento de Garnica (2007), além de a História Oral ser um método de pesquisa qualitativo, a escolha dessa metodologia traz consigo algumas implicações importantes.

(...) optar pela História Oral, portanto, é optar por uma concepção de História e reconhecer os pressupostos que a tornaram possível. É inscrever-se num paradigma específico, é perceber suas limitações e suas vantagens e, a partir disso, (re)configurar os modos de agir de maneira a vencer as resistências e ampliar as vantagens. Portanto, não se trata simplesmente de optar pela coleta de depoimentos e, muito menos, de colocar como rivais a escrita e a oralidade. Trata-se de entender a História Oral na perspectiva de, face à impossibilidade de constituir “A” história, (re) construir algumas de suas várias versões, aos olhos dos atores sociais que vivenciaram certos contextos e situações, considerando como elementos essenciais, nesse processo, as memórias desses atores – via de regra negligenciados –, sem desprestigiar, no entanto, os dados “oficiais”, sem negar a importância de fontes primárias, de arquivos, de monumentos, dos tantos registros possíveis (GARNICA, 2007, p.89).

Tendo em vista essa perspectiva, tentamos (re)constituir o processo de formação de professores de Matemática na região de São João del-Rei entre 1987 e 2001, na instituição que

veio a ser a UFSJ. Como já dissemos, investigar a formação de professores de Matemática na FUNREI é focalizar o curso de Ciências – única modalidade de formação de professores de Matemática na cidade até então. Mais especificamente, queremos investigar as estruturas do curso, as movimentações internas e externas (institucionais) que lhe deram forma, bem como o papel ou a importância atribuída à Matemática antes e após a criação das habilitações em Física e em Química.

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