Amostra
A seleção da amostra foi do tipo intencional. Participaram 24 jogadores de futebol profissional brasileiros com idade (26,16 ± 3,95 anos), massa
corporal (76,57 ± 10,71 kg) e IMC (24,42 ± 2,33 kg/m2). Os avaliados foram
informados dos objetivos do estudo, seus riscos e fatores associados ao experimento. Também assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido, informando sua participação voluntária. Todos os procedimentos éticos da pesquisa com seres humanos foram observados, sendo este projeto realizado após aprovação do Comitê de Ética da UESB (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia).
Coleta de dados
Os dados foram coletados no Centro de Treinamento do clube, em duas etapas, separadas por uma semana de intervalo.
Avaliação nutricional e refeição pré exercício
A avaliação dos hábitos alimentares e a prescrição dietética foram realizadas por um nutricionista. Os hábitos alimentares dos atletas foram avaliados por meio de questionário e de um recordatório habitual da dieta. Foi calculada dieta individualizada para os atletas consumirem nos três dias anteriores ao início do experimento, objetivando restabelecer os níveis musculares de glicogênio e minimizar a diferença desses níveis entre os atletas.
Os atletas foram orientados a não treinarem no dia anterior ao teste e manterem jejum nas oito horas que antecederam as coletas de dados. Os procedimentos experimentais foram iniciados às sete horas da manhã, com a primeira coleta de sangue e saliva. Logo após foi oferecido o desjejum individual atendendo ao resultado da avaliação nutricional de cada atleta. Uma hora após o desjejum os atletas iniciaram o treinamento. Estes procedimentos foram seguidos em ambos os dias de experimento. Imediatamente, após o término da sessão de treinamento foram coletadas novas amostras de sangue e saliva e após uma hora do término do treino em repouso foram novamente coletados amostras de sangue e saliva dos atletas.
Desenho experimental
No primeiro dia do experimento doze atletas foram escolhidos
aleatoriamente para consumirem solução carboidratada comercial (Gatorade®),
contendo 6% de carboidrato. Os demais atletas consumiram solução placebo (0% de carboidrato). Os tratamentos foram invertidos na segunda etapa do experimento, caracterizando um delineamento cruzado. Cada treinamento totalizou 120 minutos, sendo estruturados da seguinte forma: 40 minutos de ginástica, 40 minutos de técnica e 40 minutos de coletivo. O treinamento de ginástica foi composto por: exercícios de aquecimento, exercícios localizados e de condicionamento físico. O treinamento técnico foi composto por: movimentações específicas com bola, treinamento de finalização, treinamento
de ataque contra defesa.A metodologia empregada na divisão do treinamento objetivou estabelecer uma escala progressiva de esforço, sendo que o período subseqüente foi mais intenso do que o anterior .
Amostras de sangue e análise
Amostras de sangue venoso periférico foram coletadas de uma veia antecubital dentro de tubos contendo EDTA. Todas as amostras foram coletadas na posição de decúbito dorsal, exceto para as amostras coletadas no último minuto da sessão de treino, a qual foi realizada com o indivíduo sentado numa cadeira. Todas as amostras de sangue (5mL) foram coletadas em tubos
a vácuo BD Vacutainer® e centrifugadas a 3400rpm por 10 minutos para
separar o plasma. Os leucócitos totais e suas subclasses foram analisados em triplicata usando-se um analisador hematológico automatizado (HoribaABX, São Paulo, SP, Brasil). O cortisol foi mensurado utilizando um kit comercial de radioimuno ensaio INCSTAR (Stillwater, MN).
Amostras de saliva e análise
Os atletas permaneceram sentados com olhos abertos, cabeça ligeiramente inclinada à frente e mínimos movimentos orofaciais durante todas as coletas de saliva. Com uma deglutição inicial para esvaziar a boca, a saliva total não estimulada foi expelida dentro de um frasco de plástico com tampa Bijou pré-pesado (7mL de capacidade) por dois minutos (Li; Gleeson, 2005). Todas as amostras de saliva foram armazenadas a – 20 °C para futuras analises.
A massa de saliva em gramas foi assumida igual a mililitros de saliva secretada, pois a densidade especifica da saliva e muito próxima a 1.00 g.mL-1
concentração de IgA-S(mg.dL-1) foi determinada pelo método imunoensaio de absorção por acoplamento enzimático (ELISA) (Li; Gleeson, 2004). A taxa de secreção da IgA-S (µg.min-1) foi obtida pelo produto entre a concentração da IgA-S e taxa de fluxo salivar.
Composição da bebida e protocolo de hidratação
Utilizou-se um repositor hidroeletrolítico comercial (Gatorade®) com a
seguinte composição: carboidrato (sacarose e frutose), 6 g/100 ml; sódio, 45 mg/100 ml; potássio, 12 mg/100 ml; cloreto, 42 mg/100 ml. Para a solução
placebo foi utilizado preparado sólido para refresco de baixa caloria (Clight®),
sabor tangerina, com cor, sabor e textura idênticos aos da solução carboidratada, com a seguinte composição: sódio, 87 mg/100 ml; cloreto, 80 mg/100 ml). Cada atleta consumiu 3 ml por quilo de massa corporal de solução a cada 15 minutos. O protocolo de hidratação foi dividido em oito períodos ao longo do experimento, nos minutos 0, 15, 30, 45, 60, 75, 90 e 120 da sessão de treino e nos momentos 135, 150, 165 e 180 da recuperação de forma duplo- cega.
Tabela 1: Cronograma das ações experimentais durante o treino.
Parâmetros
Pre-E Aquecimento e Cond. Fisico
Técnica Tática Pos-E 1 h Pos- E Coletas da Saliva X X Coletas de Sangue X X Suplementação X X X X X X
Legenda: E, exercício; 1, Coleta de saliva 30 minutos antes, imediatamente após e 1 hora após; 2, Coleta de 5 ml de sangue 30 minutos antes, imediatamente após e 1 hora após; 3, Ingestão de carboidrato programada (3ml/kg de peso corporal a cada 15 minutos).
Análise estatística
A normalidade das variáveis foram checadas pelo teste de Shapiro-Wilk. Os pressupostos de homogeneidade da variância e esfericidade dos dados foram checados antes das análises. Para verificar as alterações induzidas pelo exercício em relação às concentrações da glicemia sanguínea, cortisol e IgA-S, foi realizada ANOVA (carboidrato e placebo x 3 pontos de coleta) considerando-se as medidas repetidas para determinar os efeitos do tempo e a interação entre tempo e o tratamento. Quando as diferenças foram significativas, foi utilizado o Post Hoc de Bonferroni. Quando o objetivo foi comparar médias obtidas por diferentes soluções, foi utilizado o teste t para amostras independentes. No caso de diferenças entre grupos (CHO vs. PLA) na linha de base, foi conduzida ANCOVA, considerando os valores Pré-E como covariável. Para estudar a associação das variáveis, cortisol vs. IgA-S foi realizada análise de regressão linear simples. Os dados foram analisados pelo SPSS (Statistical Package for Social Sciences), versão 17. Foi adotado 5% como nível de significância em todos os procedimentos.
RESUL
TA
DOS
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Influência da suplementação de carboidrato na função imune de futebolistas durante o treinamento
RESULTADOS
Quando analisados os dados na linha de base, foram evidenciadas diferenças entre os grupos CHO e PLA para as variáveis IgA-S (p = 0,004) e cortisol (p = 0,031), Tabela 1. Embora não tenha sido observados efeito do tempo e interação para IgA-S após o treino, houve diferença entre grupos (p = 0,017), com maiores valores para solução PLA. Quando controlado para os valores Pré-E, a ANCOVA não revelou efeito do tratamento e interação, embora os valores descritivos apontem para tendência de aumento das concentrações de IgA-S para o grupos CHO e redução para PLA, Figura 1. Estes resultados sugerem efeito positivo da ingestão de bebida carboidratada sobre os níveis de IgA-S após treino de futebol.
Tabela 2: Níveis de IgA-S, cortisol, glicemia e células brancas de jogadores de futebol de um time de futebol na cidade de Vitória da Conquista- Bahia. Tratamento Pré-E Pós-E 1h Pós-E Tempo Tratamento ANOVA (p) Interação
IgA-S, mg/dL* CHO 8,51 ± 2,97 9,61 ± 4,36 10,28 ± 4,57 0,208 0,017 0,711 PLA 11,86 ± 4,20 13,09 ± 6,00 12,66 ± 7,58 Cortisol, mg/dL* CHO 15,26 ±3,11 10,86 ±3,71 10,48 ±3,37 † 0,001 0,068 0,262 PLA 13,17 ± 3,05 8,94 ± 2,84 9,75 ± 3,37 Glicemia, mg/dL CHO 81,46 ± 6,19 101,63 ± 21,53 77,58 ± 12,33 0,001 0,108 0,001 PLA 84,95 ± 7,59 84,75 ± 16,30 77,10 ± 5,01 Leucócitos, mm3 CHO 5993 ± 1402 9212 ± 11401† 6828 ± 1498 0,215 0,414 0,328 PLA 6364 ± 1149 6782 ± 1452 6603 ± 1312 3 CHO 47,66 ± 9,44 60,83 ± 9,20† 63,39 ± 9,54† 0,001 0,220 0,129 Neutrófilos, mm PLA 47,12 ± 8,15 56,47 ± 9,33 58,89 ± 9,81 Eosinófilos, mm 3 CHO 4,59 ± 3,22 2,48 ± 2,51† 2,03 ± 2,34† 0,001 0,329 0,188 PLA 5,07 ± 3,96 3,70 ± 3,49† 3,04 ± 3,20† Basófilos, mm3 CHO 1,27 ± 0,43 1,20 ± 0,43 1,09 ± 0,43 0,005 0,503 0,791 PLA 1,21 ± 0,49 1,09 ± 0,35 1,04 ± 0,37 3 CHO 38,65 ± 9,09 28,52 ± 7,91† 26,10 ± 8,68† Linfócitos, mm PLA 38,66 ± 8,11 31,45 ± 8,62† 29,17 ± 9,27† 0,001 0,402 0,206 Monócitos, mm3 CHO 7,83 ± 1,94 6,97 ± 1,78 7,00 ± 1,65 0,001 0,642 0,756 PLA 7,97 ± 1,92 7,32 ± 1,66 6,97 ± 1,65
Em relação aos níveis de cortisol, não foi observada efeito do tratamento e interação após treino de futebol. Porém, foi observada redução de cortisol em função do tempo, significativa apenas para o grupo que recebeu bebida carboidratada. Quando controlado para os valores Pré-E, a ANCOVA não revelou efeito do tratamento e interação tempo*tratamento, embora os valores descritivos apontem para tendência de redução das concentrações de cortisol para o grupo CHO e aumento para PLA, Figura 1.
Figura 1: Concentrações de IgA-S e cortisol após sessão de treino de futebol sob consumo de bebida carboidratada e placebo.
Nota: ANCOVA assumindo medida Pré-E como covariável. IgA-S- efeito do tempo [F(1, 1) = 0,056, p < 0,814], tratamento [F(1, 1) = 0,001, p < 0,989]e interação tempo*tratamento [F(1, 1) = 0,194, p < 0,662]; Cortisol – efeito do tempo [F(1, 1) = 0,001, p < 0,998], tratamento [F(1, 1) = 0,024, p < 0,879] e interação tempo*tratamento [F(1, 1) = 2,193, p < 0,146].
A glicemia aumentou em função do tempo para o grupo que recebeu bebida carboidratada, retornando a valores basais 1h-Pós-E. Foi observada interação entre tempo*tratamento ao longo da intervenção.
Ao analisar a série de células brancas do sangue foi observado aumento dos níveis de leucócitos Pós-E no grupo que recebeu bebida carboidratada, embora não significativo (p>0,05).
Ao analisar as frações celulares, os níveis de neutrófilos aumentaram em ambos os grupos avaliados em função do tempo (p= 0, 0001). Por outro lado, eosinófilos, basófilos, linfócitos e monócitos diminuíram suas concentrações em função do tempo independente da bebida consumida (p<0,05).
DI
SCUSSÃ
O
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Influência da suplementação de carboidrato na função imune de futebolistas durante o treinamento
DISCUSSÃO
A influência do exercício físico sobre o contexto do sistema imunológico tem merecido atenção relevante no cenário científico, principalmente quando se relaciona o exercício com a incidência de infecções do trato respiratório superior (Silva, et al.; 2009). O presente estudo avaliou os efeitos da suplementação de CHO sobre as alterações do sistema imunológico em futebolistas profissionais submetidos a uma sessão de treino. Consumo de CHO não influenciou concentração de IgA-S e cortisol, mas aumentou glicemia após o treino de futebol.
Em relação aos níveis de IgA-S, o efeito do tratamento observado na Tabela 1 pode ter sido influenciado pela diferença entre as concentrações na linha de base, pois quando controlado os valores Pré-E como covariável (Figura 1), a ANCOVA não confirmou o efeito. Estes resultados foram semelhantes aos observados nos estudos de Sari-Sarraf et al.; (2006) que analisaram oito homens durante a realização de dois testes em dias diferenciados. Num deles a concentração de IgA-S era monitorada durante a execução de um grupo de atividades padronizadas, com variação de intensidade, para simular uma partida de futebol. No outro teste, a IgA-S foi avaliada em uma atividade contínua, sem variação da intensidade. Os resultados demonstraram que os períodos irregulares de alta e baixa intensidade da simulação do futebol não foram suficientes para promover supressão significativa das concentrações de IgA-S, comparados com o exercício contínuo. É importante destacar que há escassez e trabalhos
dedicados a investigar a resposta da IgA-S durante o exercício intermitente, em esportes coletivos ou em situação real de competição (Silva, et al.; 2009).
Os principais hormônios que atuam no sistema imune durante o exercício são as catecolaminas (epinefrina), o cortisol, hormônio do crescimento (GH) e peptídeos opióides (endorfina) (Rosa & Vaisberg,2002). O presente estudo reportou que os níveis de cortisol nos jogadores avaliados reduziram significativamente independente da solução consumida. Alguns fatores podem ter contribuído para redução da concentração de cortisol após o exercício, como o estado alimentado dos atletas, controlado pela dieta três dias antes do experimento, bem como o desjejum ofertado. O cortisol é conhecido como hormônio catabólico e sua ativação é resultante da queda da glicemia sanguínea durante o exercício) (Rosa & Vaisberg, 2002)., fato que não ocorreu no presente estudo, independente da solução consumida. É importante destacar que os níveis de cortisol influenciam na concentração de linfócitos, haja vista que o mesmo atua no controle da concentração das diferentes subclasses celulares (Silva et al., 2009).
Em relação à população de células brancas avaliadas foi observado aumento do número de leucócitos entre Pós-E vs. Pré-E apenas para o grupo CHO, embora não tenha havido efeitos do tempo, tratamento e interação. Por outro lado, as frações celulares sofreram efeito do tempo, independente da solução consumida, com destaque ao aumento de 28 % na concentração de neutrófilos Pós-E (CHO) e reduções de 46 % (CHO) e 27 % (PLA) nas concentrações de eosinófilos e 26 % (CHO) e 19 % (PLA) nas concentrações de linfócitos. As mudanças observadas nas concentrações celulares estão em consonância com a literatura, segundo Rosa & Vaisberg (2002), exercício de
alta intensidade (acima de 60% do VO2max) está associado a alteração bifásica dos leucócitos circulantes. Imediatamente após o exercício há incremento de 50 a 100% do número total de leucócitos, que ocorre, principalmente, às custas de linfócitos, neutrófilos e em menor proporção de monócitos. Após período de recuperação, de cerca de 30 minutos, é detectada queda acentuada do número de linfócitos, que pode variar entre 30 a 50 % do nível pré-exercício, que perdura por três a seis horas, queda do número de eosinófilos e persistência da neutrofilia.
Em relação ao nível de glicose foi observado que a ingestão de CHO durante o treino resultou em maior disponibilidade de glicose na corrente sanguínea. Entretanto, não foi capaz de inibir a expressão de cortisol, se comparado com o PLA. Todavia, durante o período de recuperação, o grupo CHO apresentou melhor resposta em conter a expressão de cortisol, em relação ao grupo PLA. Esses resultados são semelhantes aos encontrados por Mendes et al.; (2009) em estudo que avaliou a suplementação de carboidrato na função imune de judocas durante o treinamento.
CONCL
USÃ
O
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Influência da suplementação de carboidrato na função imune de futebolistas durante o treinamento
CONCLUSÃO
A partir dos resultados deste estudo conclui-se que a ingestão de bebida carboidratada durante uma sessão de treino de futebol durante o período competitivo não alterou as concentrações de IgA-S, cortisol e contagem de linfócitos, basófilos, monócitos e eosinófilos em comparação ao placebo. Por outro lado, foi observado aumento da glicemia sanguínea no grupo suplementado com CHO em comparação ao placebo.
Especula-se que o consumo de dieta rica em carboidratos nos três dias precedentes as coletas, a oferta do desjejum previamente ao experimento e a escolha pela sessão de treino e não o jogo contribuíram para a não existência de diferenças entre os tratamentos. Sugere-se que as futuras investigações nesta temática utilizem outros períodos da temporada, por exemplo, preparatório geral, específico e pré-competitivo; situação real de jogo; e reduzida oferta de CHO nos dias anteriores ao experimento.
REF
ERÊNCI
A
S
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Influência da suplementação de carboidrato na função imune de futebolistas durante o treinamento
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