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Qu’est – ce que « apprendre » ?

B)- Le concept de difficulté d’apprentissage

4. Les présupposés théoriques des approches dans l’enseignement/apprentissage de la lecture et de l’écriture

4.3 Approche globale/Approche par les compétences

A Ciência Médica no Brasil procurou se estabelecer por meio de instituições específicas, tendo como base a “missão higienista” e as teorias raciais. Diante do processo de cientificização que a sociedade brasileira vinha passando, tomando como espelho os modelos europeus de conhecimento e civilidade, a ciência penetra como “moda”, estando relacionada a uma espécie de ética científica, assumindo a forma de uma “cientificidade difusa e indiscriminada”, de acordo com as palavras de Schwarcz (1993), indicado que não houve um avanço científico no sentido de possibilitar o incentivo a pesquisas originais.

Em finais do século XIX, o país busca se autorepresentar como uma sociedade científica e moderna nos institutos, nos jornais e romances, predominando um Cientificismo Retórico diante da ausência de uma produção propriamente científica no

país. Fato que somado a um grave contexto epidêmico fortalecia a figura do “médico

missionário” que tinha como função curar e intervir com um conhecimento verdadeiro, redefinindo a atuação médica no país (SCHWARCZ, 1993).

Conforme Schwarcz (1993) é desse contexto que emerge as revistas médicas que passam a se sobrepor em importância aos livros sobre Medicina, que passaram a ser tidos como inúteis diante da prática médica, assim verifica-se:

[...] a partir de meados do século XIX o jornalismo científico surge como nova opção para os profissionais de medicina. Estes abandonam a imprensa cotidiana e, contando com um material específico – entre relatórios, monografias, artigos, conferências e comunicações –, passam a redigir suas próprias publicações. Por um lado, com o aumento dos produtos farmacêuticos, a publicidade se anima e aos poucos se garante a periodicidade dessas novas revistas médicas. (SCHWARCZ, 1993, p. 260). As revistas médicas surgem como resultado do avanço da influência do conhecimento científico e da Medicina na sociedade brasileira, mas tiveram poucas tiragens e duração nos principais centros médicos do Império, em que as únicas que tiveram destino diferente foram a Gazeta Medica da Bahia, como o título indica, da Bahia, e a Brazil Medico, do Rio de Janeiro (SCHWARCZ, 1993). Todavia, destaca-se que estas duas revistas eram pertencentes às regiões que possuíam uma classe médica mais consolidada se comparadas às outras regiões do país, haja vista que nestes locais surgiram as primeiras Faculdades e logo após, as primeiras Sociedades Médico- Cirúrgicas.

Diferente do que ocorreu no estado do Pará, em que o processo foi inverso, primeiro se pensou em criar uma sociedade que congregasse e normatizasse a prática médica para então, depois de fortalecida, se criasse a Faculdade de Medicina. Houve duas tentativas fracassadas, uma de 1897 e outra de 1900, vingando somente em 1914, porém mesmo assim conservando a percepção estratégica da criação de uma revista médica que servisse como memória e testemunho dos esculápios que atuavam na região amazônica.

A elite médica do Pará ansiava por um meio de divulgação e de valorização dos seus estudos e pesquisas, tendo comoum dos principais objetivos da sociedade a criação de um periódico que divulgasse o trabalho que vinham sendo realizado no âmbito da Ciência Médica mundial e nacional, no qual poderia facilitar o acesso de tais estudos para intelectuais do estado, ao mesmo tempo, em que poderiam escrever artigos que visassem

orientar a população sobre como tomar medidas profiláticas contra doenças, como tuberculose, febre amarela e cólera.

Imagem 14 – Contracapa do primeiro fascículo da revista Pará-Médico (1915)

Fonte: Acervo do Museu de Medicina da Sociedade Médico-Cirúrgica do Pará

Assim, surge o periódico com o mesmo nome atribuído ao periódico da Sociedade Médico-Farmacêutica do Pará, que se apresentava em forma de jornal, enquanto o novo periódico com o mesmo nomesurge em formato de revista e privilegia os interesses e decisões da classe médica, apesar de também oferecer espaço aos assuntos de outras categorias profissionais, como a Farmácia e Odontologia (RODRIGUES, 2008). Em maio de 1915 é lançado o primeiro fascículo da revista Pará-Médico, com a apresentação intitulada No Sólio da Revista...que inicia com o seguinte reclame: “De há muito que em nosso meio se impunha, como necessidade urgente e inadiavel, a publicação de uma revista medica”.

A partir desta afirmação, acredita-se que estes médicos, que se reuniram novamente em meados do século XX para fazer a apresentação da referida revista, desconheciam a existência do primeiro periódico (de 1899) que possuía o mesmo nomeou

apenas ignoravam tal fato por conta do insucesso que esta teve. Conforme Dias (2002), no segundo fascículo da nova revista, do mês de agosto de 1915, na seção Chronicas, que tratava sobre assuntos gerais, houve a publicação do artigo Pará-Médico Sênior e Junior, assinado por um autor que utilizou o pseudônimo Sênior e que realizou uma “reivindicação histórica” a fim de evitar equívocos de catalogação. Porém, apesar da existência da antiga revista ter sido mencionada pelo Dr. Penna de Carvalho, no 10º fascículo, não houve o estabelecimentode qualquer vínculo desta nova versão com a anterior.

Identifica-se que apesar da existência desta versão anterior, o desejo latente por parte da classe médica do estado em ter uma revista médica se fazia mais vivo do que nunca, como se não houvesse até então outra, pois diferente da primeira esta agora se encontrava composta majoritariamente por médicos e por uma Ciência Médica, que na percepção deles, se encontrava numa fase amadurecida e avançada. Assim, continuam com os seguintes dizeres:

Aspiração justissima, a acariciar o cerebro de quantos amam o Pará. assistem e tomam parte no seu progressivo evoluir, a despeito da formidavel crise economica e financeira, em que tão duramente se debate, o que admira é que, há mais tempo, não se tivesse ella corporificado numa brilhante e promissora realidade, justificativa do valor profissional dos medicos que aqui trabalham, nesse recanto longiquo e quasi ignorado do resto do Paiz e do mundo scientifico (PARÁ-MÉDICO, 1915, p. 1).

Como indica uma de suas primeiras palavras, havia entre estes médicos um descontentamento, pois estes se viam numa posição “marginal” diante dos avanços e descobertas científicas que ocorriam nos principais centros brasileiros, no qual percebiam que a sua “ciência” que estaria num “recanto longiquo e quase ignorado do resto do Paiz e do

mundo scientifico” não tinha o devido reconhecimento. Pensando nos possíveis

“julgamentos” de que poderiam ser alvo, diziam:

[...] não faltará quem supponha que aqui passamos o tempo absortos em plena contemplação visionaria, deslumbrados, talvez, ante os esplendores da natureza ou, então, curvados e attentos, a amontoar as pepitas de ouro negro, producto da condensação do latex precioso de nossa tão decantada hevea.

E no entanto, a verdade é bem outra, podemol-o affirmar sem vaidade nem receio de contestação. O Pará orgulha-se de poder contar em seu seio medicos distinctissimos, que fariam honra ao meio mais culto, quer pela riqueza de seus conhecimentos, adquiridos em annos consecutivos de labôr proficuo, quer pelo acendrado amor com que se dedicam á profissão e procuram acompanhar a sciencia nos surtos magicos de seu maravilhoso progredir.

Os nosso hospitaes providos de todos os recursos da Medicina e Cirurgia modernas, os nossos consultorios, postos ao nivel dos melhores no genero, têm tornado desncessarias as viagens frequentes á Europa por motivo de molestia, e registram

diariamente casos diversos, que bem mereciam especial menção numa gazeta medica, mas que, entretanto, ficam relegados ao mais lamentavel olvido, pela dispersão dos elementos que lhe formavam a tecitura clinica, deixando apenas, na memoria dos que nelle tomaram parte, uma vaga lembranças fugidia (PARÁ- MÉDICO, 1915, p. 1).

É possível observar que estes médicos acreditavam que as suas atuações no campo da Medicina eram desqualificadas em detrimento da função econômica exercida pela região

amazônica, que se destacavapelos “esplendores da natureza”, sobretudo da borracha. Para

estes médicos, a ciência que vinha se realizando na região se encontrava desenvolvida, entretanto, não havia meios que pudessem registrar os seus avanços e conquistas que ficavam limitadas às lembranças individuais. Para tanto, era fundamental a existência de um espaço que servisse não só para a divulgação dos seus intentos e descobertas, mas que servisse como memória concreta de seus feitos.

O primeiro fascículo, publicado em maio de 1915, além do artigo No Sólio da Revista... apresentava os seguintes textos: a ata de inauguração da Sociedade Medico- Cirurgica do Pará e o artigo Medicina Experimental, que foi o discurso pronunciado pelo orador oficial na instalação da Sociedade Medico-Cirúrgica do Pará, o Dr. Acylino de Leão, que aborda os planos traçados pela classe médica assim como a História da Medicina no mundo ocidental europeu até os seus meandros no Pará, adotando uma compreensão evolutiva de ciência e da história da área.

Observa-se a presença de discursos que tinham por finalidade legitimar sua prática e

afirmar a “sua” ciência, assim evidenciando que, como os demais centros científicos, eles

vinham acompanhando os devires da Medicina, não tendo porque a Medicina do Pará ser vista

como atrasada ou aquém dos principais centros da Medicina moderna. A “aspiração

justissima” se concretizou em um momento de crise econômica mundial, em que os redatores e idealizadores não contavam com a ajuda financeira do governo enquanto algo certo e obrigatório, quando na verdade trabalhavam com pequenas doações, contribuições dos membros da Sociedade Médico-Cirúrgica e com as intenções dos farmacêuticos em anunciar os seus remédios na revista, salientando que as suas publicações não teriam “datas prefixadas ao seu apparecimento” (PARÁ-MÉDICO, 1915).

Imagem 15 – Os valores das assinaturas e os sócios correspondentes da revista Pará-Médico

Fonte: Pará-Médico (1915)

Conforme demonstra a imagem 15, a assinatura da revista custava dez contos de réis, caso fosse realizado pagamento adiantado. Os colaboradores efetivos da revista eram todos os membros da Sociedade Médico-Cirúrgica. Como era de interesse, por meio da revista, os médicos do estado concretizaram o objetivo de estabelecer trocas de correspondências e de revistas científicas do território nacional, tendo como sócios correspondentes, médicos como Jorge de Moraes, de Manaus; Dr. Annibal de Padua Andrade, do Maranhão; Manuelito Moreira e Rocha Lima, do Ceará; Januário Cicco, do Rio Grande do Norte; Octavio de Freitas, Ageleu Domingues e Chaves de Freitas, de Recife; Alexandre Heraldo Pompilio Passos, em Maceió; João Américo Garcez Fróes e Clementino Fraga, da Bahia; Nascimento Gurgel e Afonso Mac-Dowell, do Rio de Janeiro; Eduardo de Carvalho e Amelio Magalhães, de São Paulo; Hugo Werneck, de Belo Horizonte; Leal Ferreira, do Paraná e Aurelio Py, do Rio Grande do Sul (PARÁ-MÉDICO, 1917).

Contudo, estas contribuições não garantiam a circulação da revista de um modo regular e contínuo. Exemplo desta situação é que no mesmo ano em que foi lançado o

primeiro fascículo, foi publicado o segundo em agosto, porém no ano seguinte, em 1916, a revista ficou sem circular, devido à ausência de recursos da SMCP e pela falta de incentivo financeiro por parte do governo estadual. No Relatorio apresentado à Sociedade Medico-Cirurgica do Pará, em sessão de 15 de Agosto de 1916, pelo presidente, em exercicio, Dr. Cruz Moreira, relativo ao período social de 1915 a 1916, publicado na Pará-Médico, de 1917, consta o seguinte relato:

Revista da Sociedade. – Pezar dos esforços empregados, não tem circulado com regularidade o orgão da nossa agremiação na imprensa. Embaraços dependentes principalmente do estado critico actual que tudo avassala e deprime, forçaram uma certa attitude de expectativa, mormente quando á directoria se impunha a necessidade de mudança da séde social e subsequentes despezas inadiaveis a fazerem-se. Graças, entretanto, ao dedicado esforço dessa legião de trabalhadores que forma o corpo redaccional do PARÁ-MÉDICO, ahi o temos hoje á luz da publicidade, no seu 4º numero do 2º anno, repleto de trabalhos que honram a corporação medica da Amazonia.

Acolhido com justa sympathia por parte da imprensa scientifica, quer do paiz quer do extrangeiro, o “Pará-Médico” continua a manter relações de permutas que muitos nos distinguem. Oxalá possamos vel-o sempre figurar de permeio ás victorias da Imprensa de Belém.

São esses, illustres consocios, os acontecimento de maior monta, havidos durante o anno social que hoje expira. No caminho percorrido muito ha que vencer ainda. É certo, porém, que, na consecução da ardua tarefa iniciada, procuramos acertar sempre e acertamos porque tivemos a guiar-nos os passos, muitas vezes indecisos, a colaboração fidedigna, criteriosa e nobilitante dos membros da directoria, aos quaes é de justiça penhorar os protestos de cordeaes agredecimentos (PARÁ-MÉDICO, 1917, p. 216).

Eles comemoram a publicação do quarto número do segundo ano do periódico, num momento marcado pelo declínio econômico, aliado aos investimentos financeiros

que deveriam ser empreendidos, constando inclusive a “necessidade de mudança da séde

social”. A Sociedade manteve as parcerias com outras corporações médicas do país e o apoio por parte da imprensa científica do Brasil e do estrangeiro, destacando que tais

ações, apesar das limitações financeiras, estariam honrando a “corporação médica da

Amazonia”.

Em 1918 somente um exemplar circulou, sendo o de número 6, referente ao mês de janeiro. E no ano seguinte, em 1919, no mês de maio, é lançado um fascículo, no qual consta a “justificação” sobre a falta de circulação da revista devido às dificuldades causadas pelo conflito bélico mundial (1914-1918), somado à pandemia de gripe do ano anterior (DIAS, 2002).

Logo, não houve uma regularidade na publicação dos fascículos, tão menos houve um molde específico para o tamanho e a quantidade de páginas, no qual se encontra revistas com menos de quinze páginas a revistas com mais de cinquenta páginas. Por exemplo, o

fascículo de comemoração pelo décimo exemplar e de festejo pelo centenário da Independência do Brasil foi o exemplar mais volumoso em publicação de artigos, constando de 194 páginas, representando uma homenagem do estado e da Medicina paraense ao centenário.

Havia seções específicas para a realização de anúncios de remédios, em que os responsáveis expunham espaços reservados para a “venda”, a fim de atrair clientes dispostos a divulgar os seus produtos e assim ajudar no financiamento da revista. Os recursos decorrentes da venda dos exemplares eram utilizados para manter a revista, pois estes recebiam escassos recursos por parte dos médicos associados à SMCP e

pouquíssimos recursos do Governo do Estado – quando isto ocorria. Por falta de

financiamentos consideráveis e contínuos, a revista Pará-Médico não teve uma regularidade no lançamento de seus exemplares.

Na revista há anúncios, propagandas de medicamentos, artigos científicos, crônicas/ou manifestos dos médicos sobre as questões políticas, econômicas e sobre a saúde

pública do estado, homenagens a “homens da ciência” que se destacaram na época, seja no

estado, no Brasil e no mundo, como Oswaldo Cruz e Louis Pasteur. O periódico tratava de diferentes assuntos que não se limitaram somente a artigos científicos próprios das áreas de clínica e cirurgia, mas também se deteve em assuntos, como o saneamento básico da região.

A circulação do Pará-Médico esteve particularmente associada às condições econômicas da época, no qual a sua criação foi a segunda estratégia tomada pela elite médica local com a nítida intenção de demarcar a sua posição enquanto entes políticos que necessitavam de fortalecimento no âmbito nacional e regional, em que dentre os seus

objetivos de difundir a Medicina nacional, já em 1939 surge a intenção de “Congregar todas

as actvidades dos medicos brasileiros, em especial da Amazônia”, fazendo chamada e mobilização dos seus “Collegas da Amazonia” para que manifestassem o seu apoio à revista, emprestando assim o seu prestígio ao órgão.

A intenção não era somente ou simplesmente de terem uma visibilidade no âmbito nacional ou internacional, mas naquele momento era central o fortalecimento de sua imagem no interior da sociedade paraense. Associado a estes ideais, a elite médica paraense também visa congregar a Medicina que se dava na Amazônia. Portanto, não há como não considerar que a idealização da revista foi uma estratégia de extrema importância (logo após a criação da SMCP) tomada para a institucionalização e aparelhamento da Medicina no estado Pará, preparando o terreno para a criação da Faculdade de Medicina e Cirurgia do Pará, quatro anos depois.