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A Teoria das Representações Sociais (TRS), como atualmente difundida no campo de estudos da psicologia social e sociologia do conhecimento, foi estruturada no início da década de 1960, a partir dos estudos do psicólogo francês Serge Moscovici, imortalizada na obra seminal intitulada Psychanalyse: Son image et son public. O conceito elaborado por Moscovici teve origem nos estudos de Émile Durkheim, que primeiramente explicitou-o com a denominação representações coletivas. O termo Representação Social (RS) constitui um conjunto de fenômenos e seus conceitos, bem como a teoria elaborada para explicá-los (163,164).

Por meio da releitura dos estudos de Durkheim, tanto na perspectiva crítica quanto na construtiva, Moscovici propõe que os conhecimentos compartilhados interindividuais e intergrupais devem ser estudados não apenas a partir da vertente sociológica, mas também e, principalmente, do sujeito e suas relações com os objetos e ideias do grupo de pertença. Essa abordagem fornece ao conceito de RS caráter psicossocial, no qual não há dissociação entre fatores psicológicos e sociais. Além disso, na perspectiva moscoviciana, o caráter estanque que Durkheim buscou compreender a sociedade, não habilitava sua teoria a captar a dinâmica e mutabilidade da contemporaneidade, que possui vasta diversidade e pluralidade de cognições sociais (165–167).

A abordagem da TRS tem como cerne a compreensão de como grupos de indivíduos, inseridos em um contexto onde compartilham condições históricas, sociais e culturais, elaboram e compartilham, ativamente, pensamentos e práticas sociais. É, portanto, uma forma de apreender o dinamismo envolvido nas relações entre os atores sociais, que observam e interpretam os fatos sociais e, assim, assumem comportamentos, atitudes e saberes que dão sentido a realidade vivenciada pelo grupo de pertença (168). Por isso, a RS “produz e determina os

comportamentos, pois define simultaneamente a natureza dos estímulos que nos cercam e nos provocam, e o significado das respostas a dar-lhes” (167).

Nesse sentido, representar refere-se a tornar a coisa ausente presente, de maneira que ela satisfaça os requisitos de racionalidade, argumentação coerente e de integridade normativa do grupo. É um ato de pensamento que permite ao indivíduo relacionar-se a um objeto real, imaginário ou mítico (pessoa; coisa; acontecimento material, psíquico ou social; fenômeno natural; ideia; teoria; entre outros). O qualificativo social associado ao termo representação denota que o conhecimento particular age de forma a estabelecer e orientar a comunicação dinâmica no tempo e espaço entre os indivíduos. Estes, em conjunto, passam a elaborar, organizar, influenciar e transformar os comportamentos que se vincularão a um sistema de valores, noções e práticas, com o propósito de assistir a vida cotidiana e atribuir-lhe significado específico (167,169,170).

É uma teoria de produção do saber social, que é construído cotidianamente, dando origem a um sistema de pensamentos e compreensão, que permitem, por meio de visões consensuais, manter o vínculo social e a continuidade da comunicação da ideia. As RS são construídas no dia a dia dos encontros e diálogos entre os sujeitos sociais, dando significado ao mundo vivido. Dessa forma, como fenômeno coletivo, a essência da TRS é a fala, tornando inerente a ela as características de mobilidade, versatilidade e transformação (169,171).

Representações sociais, portanto, referem-se aos diferentes tipos de cognições coletivas, do senso comum, do saber popular cotidiano ou sistemas de pensamento de sociedades ou grupos de pessoas, que estabelecem uma rede de comunicação, troca e interação, com vistas a edificar um universo consensual, progressivamente compartilhado. Estão relacionadas aos objetos sociais, culturais e/ou simbólicos (165,170). Dedica-se ao pensamento social em toda sua variabilidade, contemplando diferentes formas de se comunicar e conhecer, seja pertencente ao universo consensual ou ao científico. Entretanto, é na esfera consensual que as RS debruçam mais intensamente suas análises e reflexões (172). As RS determinam as práticas dos atores sociais originadas de consensos e conflitos ricos e heterogêneos, constantemente reavaliados e reconstruídos nas frequentes interações sociais nos grupos de pertenças (173). Situam-se no campo do conhecimento prático que visa apreender os saberes de

senso comum, ou seja, tem como pilar os conhecimentos inerentes de uma sociedade que, a todo momento, intervém e relaciona-se com a realidade ao qual está inserida (170,174).

Diante das considerações já arroladas, o escopo de toda e qualquer representação é transformar algo não-familiar em familiar. É a incorporação do não- familiar (novo) ao universo consensual ao dar-lhe sentido e simbolizá-lo. Esse movimento de inserir percepções desconhecidas nas RS pré-existentes transforma- a, dando-lhe nova configuração. Esta característica refere-se à função simbólica das representações, já que por meio de múltiplas imagens da realidade, os indivíduos determinam um sentido de ordem aos novos conhecimentos assimilados (169,175,176). Dessa forma, as RS “são abordadas concomitantemente como produto e processo de uma atividade de apropriação da realidade exterior ao pensamento e de elaboração psicológica e social dessa realidade” (170).

A concepção de conexão entre o coletivo e o indivíduo, entre o presente e o passado, e entre o conhecido e o desconhecido permeia a TRS (165). Nesta, encontra-se o suporte para a compreensão de como se forma o elo que une um sujeito a um objeto, assimilando o não-familiar, ou seja, o processo de apresentar o novo, tornando possível sua interpretação, comparação, reprodução e controle (169). Nessa linha de formação das representações sociais, há dois processos sociocognitivos que atuam dialeticamente: ancoragem e objetivação.

Ancorar em RS significa trazer para a dimensão das representações pré- existentes, ou seja, para a esfera de categorias e imagens mais familiares, o novo, o desconhecido, o “ameaçador”, para que este possa ser comparado e interpretado. O objeto ou ideia estranha, quando comparado ao paradigma de um pensamento previamente elaborado, passa a possuir suas características e molda-se de forma a adequar-se. Assim, após ser classificado, nomeado e alocado em uma categoria que historicamente contém uma dimensão valorativa, o objeto ganha significado (163,169,172).

Conforme afirma Jodelet (170) “a ancoragem enraíza a representação e seu objeto numa rede de significações que permite situá-los em relação aos valores sociais e dar-lhes coerência”. É um processo para instrumentalizar o saber, para que este ao adquirir valor funcional, passe a estar apto a interpretar características,

compreender intenções e motivos associados às ações e comportamentos e gerir o contexto e, portanto, formando opiniões (169,170).

Por sua vez, o processo de objetivação permite que o desconhecido passe para a dimensão familiar ao transformá-lo em algo concreto, palpável, visível, que pode ser percebido e experimentado. É a materialização de ideias abstratas, transformando conceitos em objetos ao estabelecer sua aliança com uma imagem, tornando-os intercambiáveis. Caracteriza-se por ser muito mais ativo e requerer mais esforços que a ancoragem, ocorrendo quase que automaticamente cada vez que somos expostos a novos fenômenos. O fenômeno é transformado em saber de senso comum, após ser materializado em referenciais familiares. Objetivar, portanto, é revelar a qualidade icônica de uma ideia e explicar um conceito em uma imagem (163,165,169).

Esse processo contempla três etapas: construção seletiva, esquematização estruturante e naturalização. Na etapa de construção seletiva, ocorre a seleção do conjunto de informações transmitidas, com base em experiências e valores pré-estabelecidos. Na etapa seguinte, os fragmentos selecionados na primeira etapa são reagrupados de forma a gerar um esquema que representará o núcleo figurativo da representação. Esse núcleo tem a tendência de apresentar um aspecto imaginético, e, como tal, constitui a essência, o cerne da representação. Essas duas etapas expressam o resultado das comunicações estabelecidas entre os atores sociais no que concerne à seleção e estruturação dos elementos que compõem a representação. Já a última etapa, faz referência ao processo de naturalização do objeto, que antes desconhecido, foi devidamente analisado, interpretado e refeito e, assim, adquiriu status de familiaridade, tornando- se real, concreto, natural (170,172).

Os objetos elaborados socialmente tornam-se realidade devido a representação do objeto que a comunidade possui. Ou seja, as ações e pensamentos relacionados ao objeto social representado existem e adquirem relevância por serem considerados pelo sujeito ou pelo grupo como uma extensão do seu comportamento. Por meio de conversas, os objetos ganham características e significados, que apresentam variações conforme as diversas visões que possam existir entre diferentes grupos sociais (168).

Segundo Moscovici (169), as RS possuem duas funções. A primeira faz referência a convencionalizar os objetos, pessoas ou acontecimentos, fornecendo- lhes uma forma definitiva, localizando-os em determinada categoria e posicionando- os gradativamente em um modelo de tipo específico, peculiar e compartilhado pelo grupo social. Enquanto que a segunda função das representações, é que estas são prescritivas, ou seja, se consolidam sobre o indivíduo com uma força irresistível.

Em uma perspectiva complementar, Abric (177) aponta que as RS apresentam quatro funções essenciais:

1) função de saber: compreensão e explicação da realidade por meio da aquisição de conhecimento que seja assimilável e coerente com os valores e funcionamento cognitivo do grupo de pertença;

2) função identitária: constituir uma identidade social e pessoal, que estabeleça uma imagem positiva dentro do grupo, garantindo a socialização e a proteção das especificidades dos grupos;

3) função de orientação: funciona como guia para ações, comportamentos e práticas lícitas, toleráveis ou inaceitáveis em determinado contexto social, por meio do sistema de pré-codificação e de antecipação e expectativa da realidade, adequando esta à representação;

4) função justificadora: estabelecida as representações, elas também permitem aos atores sociais explicar e justificar condutas e comportamentos.

O estudioso destaca ainda um novo papel das representações, que é o de conservar ou fortalecer a posição social do grupo de pertença e, assim, preserva e justifica a diferenciação social, que pode gerar relações estereotipadas intergrupais (177).

Destarte, as RS estabelecem e fortalecem os laços sociais interindividuais e intergrupais. O agir e pensar consensual acerca de determinado objeto cria o ambiente ideal para que o sentimento de pertença e identidade com o grupo se concretize. O objeto comum, ancorado e objetivado, passa a ser mentalmente integrado ao sujeito social. Dessa forma, a TRS, do ponto de vista teórico e metodológico, concentra elementos necessários para compreender como indivíduos e grupos apreendem e conectam seu universo pessoal com o mundo das relações sociais.

O campo das RS estrutura-se a partir de três abordagens teóricas que se desenvolveram alicerçadas na grande teoria moscoviciana. Elas são distintas, porém complementares. Os estudiosos que se debruçaram sobre essas abordagens reconhecem que a TRS proposta Moscovici possui os elementos conceituais e a estrutura analítica necessária para detalhar o processo de gênese de uma RS. As três abordagens são: a abordagem processual, sociogenética ou dinâmica, disseminada por Denise Jodelet; a abordagem estrutural difundida, por Jean-Claude Abric e a abordagem societal ou de grupo, proposta por Willem Doise (172,178).

A abordagem processual propõe-se a elucidar o fenômeno social no que se refere aos processos e condições envolvidos na construção, gênese e processo de elaboração das representações. É a busca pela compreensão de suas forças geradoras e seus elementos constituintes (imagens, crenças, valores, informações entre outros). Os dois processos de formação das RS, ancoragem e objetivação, são fortemente valorizados nessa abordagem. Trabalha com três dimensões: a informação, atitude e o campo de pesquisa. Conforme destaca Jodelet (170) “esta análise dimensional é completada pela pesquisa do princípio de coerência que estrutura os campos de representação: organizadores socioculturais, atitudes, modelos normativos ou ainda esquemas cognitivos”. Tem em Denise Jodelet e Serge Moscovici seus principais pesquisadores (170,172,179,180).

Com enfoque do ponto de vista semântico, a abordagem estrutural preocupa-se, principalmente, em demonstrar quais são e como se organizam os elementos cognitivos básicos (cognemas) do objeto representado, bem como seu conteúdo, que dão sentido às representações. É a abordagem que mais se desenvolveu na perspectiva de contribuir, de forma complementar, com o aporte teórico da RS, sendo denominada de Teoria do Núcleo Central. Foca sua análise no processo de objetivação. Jean Claude Abric e Claude Flament são os estudiosos que mais se dedicam a essa abordagem (170,172,179,181).

O sistema de representação é composto por um núcleo central (rígido, abstrato, estável) e por elementos periféricos (concretos, operacionais, variáveis, flexível), que dinamicamente relacionam-se, organizando e estruturando as crenças e significações do grupo social, estabilizando ou eliminando o objeto representacional. O núcleo central tem como função dar significado para a representação e organizar todos os elementos, e possui as seguintes características:

relaciona-se com a memória coletiva, condições sócio-históricas e valores do grupo; constitui o pilar consensual do grupo, determinando sua homogeneidade; é coerente e resistente à mudança e pouco sensível ao contexto social e material imediato. Os elementos periféricos relacionam-se com as vivências do cotidiano, as experiências mais recentes, moldando e atualizando as representações conforme o consenso e normas do grupo (164,181).

A terceira abordagem denominada de sociodinâmica, societal ou de grupo, fundamenta suas análises a partir de uma perspectiva mais sociológica, com enfoque nos determinantes e relações sociais com vistas a elucidar o princípio organizador que influencia diretamente as representações e suas variações. Tem como foco a posição e a inserção social a partir de quatro níveis de análise, individual, interpessoal, grupal e societal, interpretando-os a partir das informações geradas no processo de ancoragem. Portanto, seu principal escopo é estabelecer uma ponte entre o individual ao coletivo para revelar que os processos utilizados pelos indivíduos para viver em sociedade são determinados por dinâmicas sociais (interacionais, posicionais ou de valores e crenças). Willem Doise é o principal representante dessa linha de pensamento (164,172,182).

Considerando as abordagens anteriormente apresentadas, optamos por concentrar a análise dessa pesquisa na abordagem processual, pela sua consonância com os objetivos propostos e, também, por essa constituir-se a etapa inicial do processo de análise de um fenômeno social. A complexidade e densidade das relações sociais requerem etapas para sua completa elucidação. Acreditamos, portanto, ser esse o primeiro e essencial passo para compreender as representações que os trabalhadores constroem diante da realidade do câncer e sua relação com a atividade laboral.

Como ferramenta que contribui para apreensão acerca do posicionamento, informações e defesa das ações dos sujeitos sociais, o presente estudo apresenta coerência com a perspectiva teórico-conceitual. Dessa forma, contribuirá para a elucidação do conhecimento e objetos sociais compartilhados entre os sujeitos sociais do contexto selecionado acerca do câncer e sua associação com fatores de risco laborais, que permitam refletir sobre o tema, e assim, pensar novas estratégias que viabilizem e potencializem o aspecto da prevenção.