Interrompendo a enumeração e interpretação dos filhos de Lia, Ricardo apresenta agora os filhos de Bila e Zilpa com Jacob, problematizando a sua
JMj RICHARD DE SAINT-VICTOR, Idem., cap. X, p. 114
357 Para esta questão Ricardo recorre a uma falsa etimologia ao dizer: Hinc namque est quod
Spiritus sanctus Paraclitus, hoc est consolator, dicitur, quia animam paenitentiae lacrimis afflictam, tarn frequenter, quam libenter consolatur.Esta falsa etimologia não está no Novo Testamento, diz Châtillon, apesar dos Padres a utilizarem (como Santo Agostinho) Cf: nota 2,
pp. 116-17.
função e importância. A partir dos filhos de Bila designados por
speculationes360, Dan e Neftali, Ricardo pretende determinar com mais pormenor o papel da imaginação racional e de que forma esta regula a razão.
Enquanto racional, a imaginação é dotada de duas funções, a
consideratio e a speculatio361. Na speculatio constatamos a intervenção da inteligência quando formamos imagens da felicidade celeste a partir das imagens do mundo sensível. A consideratio implica a intervenção da razão, quando das imagens dos tormentos corpóreos, formamos por composição de imagens, os tormentos invisíveis do inferno longe a sensu remota. Assim a
speculatio e a consideratio pertencem à imaginação per nativitatem e à
inteligência e razão per adoptionem362.
Servimo-nos da primeira (consideratio) sempre, que orientando a mente para as coisas exteriores, imaginamos, baseados nisto, realidades invisíveis.
Illa uttilur quando secundum uisiblium rerum cognitam speciem uisibile aliquid aliud mente disponimus, nec tamen ex eo inuisibile aliquid cogitamus.
Servimo-nos da segunda (speculatio) sempre que, a partir das imagens das coisas visíveis tentamos elevar-nos ao conhecimento das realidades invisíveis:
*a A partir do capítulo XVIII
360 De gemina speculatione quae surgit ex imaginatione, Idem, cap. XVIII, p.136
361 Spéculation, en effet, vient du mot specullum. Le spéculatif est donc celui qui voit le divin in
speculo et aenigmate: speculativi sunt ui coelestibus intendunt, qui invisibilia dei per speculum in aenigmate vident, tandis que les contemplatifs voient la vérité face à face, sine involucre (...)Aussi à plusieurs reprises, Richard confesse-t-il ne pas pouvoir se servir actuellement des aides du contemplatif: c'est pourquoi il lui faut dresser une échelle et escalader le ciel par un chemin plus ardu: Quando ad sublimium et invisibilium investigationem et demonstrationem nitimur, similitudinum scala libenter utimur, ut habeant qua ascendere possint, qui contemplationis pennas nondum acceperint. Quel est précisément ce speculum, cette enveloppe qui contient vraiment le divin, sans en permettre cependant la vision directe - in specie? Ce n'est pas, croyons-nous les formes des choses visibles, qui ne servent ici que de point de départ. Chez Richard, en effet, les choses crées ne sont pas, vis-à-vis du divin, un moyen terme, un miroir, mais seulement un lieu de comparaison, une référence qui permet d'admettre autre choses d'un autre objecte. Entre les créatures, même l'âme humaine, et Dieu il y a infiniment plus de dissimilitude que de similitude. Nous tenons à la vraie raison pour laquelle Richard ne suit pas la même voie que S. Augustin: l'image la plus parfaite ne dit rien et se tient dans le domaine de l'équivoque. Une échelle est un moyen merveilleux; mais une fois rendu sur le toit, il ne reste plus qu'à la pousser du pied: elle ne sert plus à rien. Cf. ETHIER, op.cit., p.58- 60.
Ista uero tunc utimur, quando per uisibilium rerum speciem ad inuisibilium cognitionem ascendere nitimur.
A Dan compete a consideração dos males futuros (Ad Dan itaque
specialiter pertinet consideratio futurorum malorum). A Neftali é revelada a
visão dos bens futuros (Ad Neptalim autem speculatio futurorum
bonurorum363). A imaginação racional ganha assim uma importância determminante no contexto da evolução espiritual do homem, possuindo para além do seu significado imediato, um valor indicativo e causal. De facto depois do homem atingir o patamar intermédio de amor ao próximo, estas duas potências indicam o motivo pelo qual nos devemos encaminhar a uma catarse ulterior, "assim como os próximos filhos (Gad e Aser) indicarão o meio, e Issacar e Zabulão, o resultado que se poderá obter".364
Com o auxílio da potência simbolizada por Dan, e através daquilo que ele designa ser o "olho do coração", podemos considerar a existência, por exemplo dos tormentos do inferno, admitindo assim a sua existência real. Esta é a imaginação em que a razão intervém e serve para "saciar as tentações pela consideração das penas futuras, estando aqui patente a sua utilidade365".
A outra, diz Ricardo, será a "especulação" em que intervém a inteligência.
Sed ratione imaginatio alia est per rationem disposita alia inteligentia permixta366
Representar pela imaginação uma terra onde corre leite e mel é recorrer à inteligência espiritual, que se exerce na procura de uma interpretação simbólica. Dan nasce primeiro porque a inteligência mais subtil, diz Ricardo, é mais difícil de atingir que a inteligência baseada na imaginação.
Há uma explicação moral baseada na etimologia dos nomes próprios. Uma vez que é pelo ministério de Dan que diagnosticamos, acusamos e julgamos pensamentos destrutivos, é por esta razão que Dan se chama julgamento, (e não são apenas os pensamentos vergonhosos ou destrutivos
RICHARD DE SAINT-VICTOR Idem p.136. CfNARDINI, op.cit., p.40
OTTAVIANo, op.c/f., p.461.
que são levados a julgamento, mas também aqueles que consideramos inúteis, facto capital para Ricardo.)367
Cabe efectivamente aos filhos de Zilpa a conduta da acção, aos filhos de Lia a direcção da vontade, aos filhos de Raquel a enunciação de juízos, aos filhos de Bila a moderação dos pensamentos.
Ad fillius quippe Zilpae pertinet disciplina operum, ad filios Lia dispositio voluntatum. Ad filios Raquel sententia assertionum, ad filios uela Bila moderatio cogitationum3m
O trabalho de Dan é efectivamente o de vigiar o seu povo, apresentando aos olhos de todos os tormentos dos males futuros. Esta consideração dos males futuros, exprime-se como um juízo que intervém onde pode haver a ameaça de pecado. Mas quando esta ameaça de pecado se traduz no verdadeiro e próprio pecado? Uma tentação não é pecado; se essa vier reprimida antes de consentirmos na acção propriamente dita, mantém-se fora da esfera do pecado. Se o papel da primeira especulação consiste em reprimir os vícios através da representação do castigo, pertence a Neftali acender desejos bons através da consideração das suas recompensas. Exerce-se de duas maneiras: por transposição e por analogia. Verifiquemos de que modo se opera:
Vtitur namque aliquando translatione, aliquam autem comparatione. Comparatione quando ex praesentium bonorum multitudine uel magnitudine colligit illa futurae gaudia, quot uel quanta esse possit (...) Utitur nichilominus, ut dictum est, translatione, quando rerum uisibilium quamlibet descriptionem transfert ad rerum invisibilium significationem.369
Se por comparação deduzimos as grandezas futuras por analogia à grandeza das coisas terrenas, obras da bondade de Deus (a experiência da claridade do sol, já por si maravilhosa, remete-nos para a consideração de uma claridade superior) por transposição interpretamos já, por obra da
Diz Ricardo que é natural a recriminação interior por pensamentos criminosos ou perversos, mas ninguém se sente tentado a reprovar um pensamento inútil. No entanto se os homens perfeitos o fazem, também o devem fazer aqueles que ambicionam a perfeição. Por isso Jacob proclama: Dan iudicabit populum suum, sicut alia tribus in Israel. Cf: cap. XX.
368 Cf: RICHARD DE SAINT-VICTOR Cap. XX, pp.142-44. 369 RICHARD DE SAINT-VICTOR XXII, p.148.
inteligência espiritual {spiritualem intelligentiam ), essa luz inacessível, a que a Escritura alude (JN, 1,9) como a própria Sabedoria divina. Por isso Neftali significa "comparação" ou "conversão", (Neptalim namque comparatio uel
conversio interpretatur371) pois converte em inteligência espiritual todo o conhecimento que ele pode ter das coisas visíveis e da Escritura. Basicamente, analogia e transposição são as duas fontes previligiadas de interpretação alegórica que Ricardo aplica abundantemente.
Estas duas "especulações" são designadas por contemplações, sendo esta última (sublinha Ricardo no início do capítulo XXIII) diversa da contemplação que se gera a partir da inteligência pura. A inteligência operada por Neftali está, especifica Ricardo, adequado aos espíritos mais simples e pouco exercitados, pois é acessível e agradável no seu discurso. Nesta medida, Jacob diz de Neftali ser como um cervo evadido, que pronuncia discursos de grande beleza. (Neptalim ceruus emissus, dans eloquia
pulchritudinis372).
A imagem do cervo, diz Ricardo, liga-se àquele que, em liberdade, percorre grandes distâncias. Afirmação justa, na medida em que a contemplação também permite percorrer grandes distâncias. É frequente encontrar como característica da contemplação (estado de um conhecimento intuitivo e imediato) a velocidade. Mas um cervo, sublinha Ricardo, não uma ave.
Esta está suspensa no ar, longe do ínfimo, enquanto o cervo está preso à terra. Por essa razão Neftali é uma forma de contemplação menos perfeita, pois eleva-se às realidades mais altas levando consigo a sombra das coisas corpóreas.
Notandum sane, quam recte non aui uolanti sed ceruo currenti compareutur, nam auis quldem uolando longe a terra suspenditur, ceruus autem ad dandos saltus terrae innititur, sed nec in ipsis suis saltibus longius a terra separatur. Sic nimirum, sic Neptalim, dum per rerum uisibilium formam rerum inuisibilium naturam quaerit, quosdam saltus dare, non autem ad plenus uolatum conuaslescere consuerit, quia in eo quod, se ad summa rigit rerum corporearum secum umbram trahens, ima omnino non deserit373
RICHARD DE SAINT-VICTOR XXII, p.150. RICHARD DE SAINT-VICTOR Idem.
RICHARD DE SAINT-VICTOR XXXIII, p.152. RICHARD DE SAINT-VICTOR Idem, p. 152.
Esta imagem da ave, que suspende o voo, e paira no ar ilustra significativamente a alma contemplativa, que suspendendo toda a actividade terrena e elevada pelo amor a Deus, fica pendente no estado de doçura que é a contemplação. Esta imagem será posteriormente retomada por Santo António nos seus sermões.374
Os filhos de Bila têm assim uma grande importância, sugerindo mais um patamar de abertura do homem à sua realização plena, nesta peregrinação do inferior para o superior. Devidamente salvaguardada a valorização intrínseca de cada nível, assistimos a uma progressiva deposição do homem exterior, rompendo-se os limites da horizontalidade da criatura por esta espiritualização gradual (porque feita de altos e baixos). Este progressivo afastamento da ordem do terreno, da agitação desordenada dos sentidos e da realidade efémera beneficiará muito com a introdução das virtudes da abstinência e da paciência representadas alegoricamente por Gad e Aser.