Constituindo-se como agente de socialização primária, a família imprime profundas vivências influem nas relações, escolhas e destino do jovem. Sabe-se que as experiências vividas na infância e na juventude são duradouras na
estruturação psíquica dos indivíduos. Interessa abordar, nos limites a que se propõe este trabalho, a discussão sobre alguns processos importantes de identificação do jovem que ocorrem na família e as heranças culturais deles decorrentes.
O processo de identificação do indivíduo com o pai, elaborado pela Psicanálise, que ocorre com base na relação triangular constituída na família durante a infância, explica o problema da autoridade na dinâmica social, com o objetivo de esclarecer a submissão ao poder da autoridade instituída, em atitude de docilidade e aceitação desse poder, mesmo vivendo o indivíduo em condições adversas(Fromm, 1985). A interiorização da moral familiar, em forma de preceitos e proibições sociais, base de constituição do superego, constrói o papel do filho ideal, que corresponde aos anseios da família; em um movimento inverso, as autoridades interiorizadas como representações do poder externo, transfiguram o poder externo em interno, fazendo com que o indivíduo reverta para si esse poder interiorizado, passando a ser o seu portador. Desse modo, acontecendo nos primeiros anos de vida da criança no interior da família, entre os sentimentos de medo e, ao mesmo tempo, de admiração pelo pai e o desejo de ser amado, esse processo contribui para a posterior crença e subordinação às autoridades, configurando uma importante função social da família.
Salientando o aspecto de crise como um período crucial de crescente vulnerabilidade, Erikson (1976) concebe o desenvolvimento humano com base em estágios sucessivos e crescentes de autonomia, culminando com a identidade como resultado da socialização. Suas análises psicanalíticas, fundamentadas no significado histórico dos sintomas com base na experiência social, buscam resgatar a importância das identificações iniciadas na infância e cristalizadas sucessivamente para a constituição da identidade, na perspectiva de que o jovem seja reconhecido na sua comunidade. Esse reconhecimento ocorre ao mesmo tempo que a sociedade orienta a constituição de uma ordem hierárquica dos papéis, representados por indivíduos de diferentes idades. Assim, a identidade do jovem abrange as identificações significativas acumuladas, que se reorganizam no processo de superação da crise da juventude, momento em que o jovem se
descobre vinculado à sua própria infância, em um processo histórico que lhe é próprio.
Erikson (1976) oferece uma significativa contribuição, uma vez que expandiu as elaborações teóricas freudianas, da família nuclear para a organização social mais próxima, superando a idéia de fenômeno intrapsíquico. Compreendendo que a individualidade não pode ser desenvolvida de forma isolada das relações entre os homens, propõe o seu entendimento com base em uma complexa interação, dotando a realidade psíquica com uma natureza social (Poster, 1979).
No entanto, essa concepção expressa um modo abstrato de compreensão da identidade, pois sedimenta-se na sua universalidade. A compreensão de identidade que se quer empreender, no presente trabalho, é a de um processo dinâmico de construção, marcado pela temporalidade (passado, presente e futuro), que se concretiza com a atividade do indivíduo nas relações sociais, e que configura sua presentificação no mundo, resultando uma representação de si mesmo. Trata-se, portanto, de um processo singular, construído na coletividade.
Bourdieu estudou a forma como as famílias transmitem aos filhos o projeto de reprodução que lhe é próprio. A transmissão do capital cultural ou herança cultural é explicada como uma forma de perpetuação da posição social, pela herança das disposições permanentes, implicando uma identificação do filho com o desejo do pai. Na forma de desejos compensatórios, os projetos não realizados do pai são transferidos ao filho, que passa a ser o depositário de suas expectativas de realização. Muitas vezes, esse processo torna-se fonte de profundas contradições e sofrimentos na vida dos filhos, os quais sentem revolta pelo fracasso e passam a orientar-se no sentido oposto ao estilo de vida familiar. Assim explica Bourdieu (1998a: 232):
o desejo do pai, por mais realista que seja, amplia-se por vezes, desmesuradamente, além dos limites do realismo: o filho ou filha, transformados em substitutos do pai, são encarregados de realizar, em seu lugar e, de alguma forma, por procuração, um eu ideal mais ou menos irrealizável: assim, é possível encontrar muitos exemplos de pais ou mães que, projetando no filho certos desejos e projetos compensatórios, exigem-lhe o impossível.
A dinâmica familiar, profundamente contraditória, assim se processa: “cada família transmite a seus filhos, mais por vias indiretas que diretas, um certo capital cultural e um certo ethos, sistema de valores implícitos e profundamente interiorizados” (Bourdieu, 1998b: 41), diferindo conforme a situação de classe social da família e se refletindo tanto nas escolhas das crianças e dos jovens, quanto em seu desempenho escolar. O fato de que os alunos das camadas mais favorecidas disponham de vantagens para herdarem saberes, atitudes e hábitos cultivados no ambiente escolar, e, pelo contrário, os alunos procedentes dos meios menos favorecidos tenham um ponto de partida diverso é observado por Bourdieu e discutido em relação aos resultados alcançados na escola. As formas de reprodução configuram-se socialmente, estando a família “na origem da parte mais universal do sofrimento social, inclusive da forma paradoxal de sofrimento que se encontra enraizada no privilégio” (Bourdieu, 1998a: 235).
Nesse sentido percebe-se que as atitudes familiares dos jovens, constituídas com base nos processos culturais e simbólicos, e que expressam as relações de poder que permeiam as várias dimensões da vida social, ainda que contraditórias, representam um sistema de valores em virtude de sua posição social. Porquanto, a escolha que o jovem faz de seu destino deve ser compreendida segundo as condições objetivas que definem os valores, atitudes e opiniões, também com base em suas relações familiares. Para Bourdieu (1998b:49),
De maneira geral, as crianças e suas famílias se orientam sempre em referência às forças que as determinam. Até mesmo quando suas escolhas lhes parecem obedecer à inspiração irredutível do gosto ou da vocação, elas traem a ação transfigurada das condições objetivas. (...) Essa dimensão fundamental do ethos de classe, que é a atitude com relação ao futuro, seria com efeito, outra coisa além da interiorização do futuro objetivo que se faz presente e se impõe progressivamente a todos os membros de uma mesma classe através da experiência dos sucessos e das derrotas? Os psicólogos observam que o nível de aspiração dos indivíduos se determina, em grande parte, em referência às probabilidades (intuitivamente estimadas através dos sucessos ou das derrotas anteriores) de atingir o alvo visado
Esse pensamento pode explicar, em grande parte, a influência da família na vida do jovem, ainda que se considere a intensa transformação pela qual passa a instituição familiar, o que conduz a uma visão de crise dessa instituição em torno
de opiniões divergentes sobre a sua natureza. Considerando seus aspectos históricos, o modelo de família moderna, fundado no princípio da relação biológica, do parentesco natural, desenvolvido com base na sociedade burguesa, configurou- se como um grupo destinado a reproduzir a força de trabalho, na condição de assalariados separados da propriedade dos meios de produção e espoliados, paulatinamente, no consumo dos bens que a remuneração do seu trabalho pode possibilitar.
Nesse sentido, conserva um caráter antagônico, pois, ao mesmo tempo que guiada por orientações racionalistas da sociedade industrial, cultiva o espaço do irracional, das relações parentais afetivas. Na esfera da intimidade, hierarquicamente instituída, permitiu mais adequadamente promover a identificação com a autoridade, centrada na ética do trabalho (Adorno e Horkheimer, 1985). A autoridade familiar justificava-se, uma vez que era garantida a proteção de seus membros. Gradativamente, na situação de se colocar à sorte das condições de trabalho para a sua sobrevivência, essa autoridade foi perdendo a sua eficiência, por não mais conseguir exercer a proteção necessária contra a exploração externa. Contudo, esse lento processo, que denuncia transformações no interior da família, permite constatar que essas mudanças não ocorrem de modo linear, uniforme, e a autoridade familiar, de algum modo, permanece. Segundo Adorno e Horkheimer (1985: 222), por outro lado, o enfraquecimento da família tem provocado o isolamento de seus membros e, como o pai não atende à idéia abstrata de poder e força sem limites, o indivíduo busca um pai mais poderoso que o pai verdadeiro, que lhe atenda a imagem idealizada,
uma espécie de super-pai, tal como foi produzido pelas ideologias totalitárias. (...) Os jovens manifestam a tendência a se submeterem a qualquer autoridade, não importa o seu conteúdo, contanto que ela ofereça proteção, satisfação narcisista, vantagens materiais e a possibilidade de desafogar em outros o sadismo no qual encontram respaldo a desorientação inconsciente e o desespero.
Este estudo não pode desconsiderar os aspectos ético-familiares constitutivos nas relações com o trabalho. Elementos da religiosidade são agregados a esse conjunto, compondo o imaginário familiar, em que o trabalho se apresenta como uma virtude a ser cultivada, impregnado de um caráter de dignificação do ser humano que, quase que magicamente, forma o indivíduo
tornando-o honesto, digno, porque trabalhador. Nesse aspecto, o uso do trabalho pela família, como forma de socialização, enfatiza o caráter ético-moralizante na formação do jovem.
Alguns estudos buscam enfocar os elementos presentes na inserção precoce de crianças e jovens no mercado de trabalho, que concorrem com a questão econômica (Dauster, 1992; Gouveia, 1983; Gomes, 1997, 1998). Em estudos sobre os jovens escola noturna, Marques (1995, 1997) destaca a escola e o trabalho como espaço privilegiado de sociabilidade do jovem, em confronto com uma abordagem puramente econômica, salientando a dimensão pessoal nas relações dos jovens na sociedade contemporânea. Busca apreender a construção da identidade do jovem aluno da escola noturna, enfatizando a sociabilidade produzida em suas relações sociais, com destaque para a função da escola nesse processo e considerando o trabalho como modo de afirmação dessa identidade, na perspectiva de uma autonomia relativa, que se vincula à conquista da liberdade de tomar decisões sobre sua própria vida.