Grande parte da influência de Durkheim sobre a teoria de Alexander se dá pela importância das representações coletivas nos estudos sociológicos. Para Durkheim (1989), estas representações apontam regularidades e constâncias no discurso dos indivíduos. A separação entre sagrado e profano decorre desta compreensão durkheimiana e está em relação com o sistema simbólico das sociedades. As representações são construções de sentido dispostas em discursos por indivíduos. A imanência da cultura a faz ser reproduzida e ressignificada nas narrativas, permitindo aos indivíduos a constituição de representações coletivas acerca de ações e fatos sociais, num processo próprio de aproximação e compreensão dos códigos simbólicos.
É fundamental compreender que a ação humana decorre da consciência, logo, vem do interior do ser, decorrente de razões emocionais. A consciência de que trata Alexander (2005), porém, não é individual, mas coletiva. Para ele, existe uma consciência coletiva que opera tanto no interior do indivíduo como de instituições sociais e é responsável pela produção de representações sociais em suas narrativas dos eventos do cotidiano. Quanto mais poder dispõe um determinado grupo social, mais condições ele possui para fazer prevalecer os sentidos que deseja sobre esses episódios, como é o caso da imprensa em relação aos sentidos que organiza sobre o crime violento. Jeffrey Alexander e Rui Gao dizem que:
Cada grupo tem uma consciência coletiva, fragmentada ou integrada, que exerce tanto poder quanto a estrutura social num sentido mais tradicional ou externo. Mas a consciência coletiva exerce sua força diferentemente. Composta mais por símbolos do que por recursos instrumentais, desenha as margens entre o interior e o exterior e protege o espaço entre eles. Os símbolos que compõem a consciência coletiva são organizados por códigos binários que compõem variações sobre o ‘nós’
versus ‘eles’, e por narrativas que convertem a divisão religiosa entre o sagrado e o profano em histórias sobre conflitos entre bons protagonistas e antagonistas ameaçadores ou desviados, na qual a vida da coletividade, sua real identidade coletiva, está em jogo (ALEXANDER & GAO, 2005, p. 01).
A compreensão desta consciência coletiva é fundamental para a sociologia cultural porque é a partir dela que se pode acessar a ideia de memória coletiva, o passado compartilhado entre indivíduos que se reconhecem através de experiências comuns, ainda que tenham sido vivenciadas por seus antepassados. Neste sentido, a memória coletiva é um mito (EYERMAN, 2001) e é essencial para a noção de comunidade imaginada e para que esta comunidade possa se encaixar numa circunstância histórica: a memória é a constituição do discurso que interconecta os indivíduos por alguma semelhança, que pode ser espacial e/ou temporal.
O objetivo da sociologia cultural não são os objetos em si, os fatos passados em si, mas as representações que são feitas sobre eles. Isso porque a coisa-em-si e a sua representação – o referente e o seu signo, o objeto e o seu símbolo – estão intrinsecamente juntos (ALEXANDER & GAO, 2005). Interpretar esta relação é fundamental e, para isso, é relevante acompanhar a atuação dos carrier groups, os grupos condutores de discurso que, como define Alexander, são responsáveis pela elaboração de narrativas nas quais os eventos históricos são representados. As coisas acontecem, mas a sua representação – a sua significação – depende da construção a ser feita pelos carrier groups na condução de narrativas. Alexander define carrier group:
O objetivo do porta-voz é projetar persuasivamente os clamores do trauma para a audiência, fazendo uso de particularidades da situação histórica, dos recursos simbólicos à mão e dos constrangimentos e oportunidades oferecidos pelas estruturas institucionais (ALEXANDER, 2002a, p. 19).
A história é um ponto de vista e resulta de um compartilhamento de ideias sobre os fatos passados. A realidade é, assim, um texto narrado pelos carrier groups, que se constituem em grupos de pressão que assumem o papel de perpetuar a memória coletiva de um segmento social ou sobre fatos relacionados a ele, a partir de eventos considerados traumáticos ou relevantes para o grupo. Os carrier groups são agentes coletivos que conduzem o discurso no processo de constituição de traumas culturais, conceito que será detalhado adiante. Entre os carrier groups, é fundamental a presença de intelectuais, não estritamente os da academia, mas os que conseguem viabilizar o espaço para as vozes dos
indivíduos envolvidos no episódio. Os intelectuais funcionam como mediadores e tradutores entre as esferas de atividade da sociedade civil: são desde músicos engajados em movimentos sociais e diretores de cinema a jornalistas (EYERMAN, 2001).
A realidade é um texto, que é construído pelas diversas formas de expressão cultural, a partir das narrativas dos carrier groups. De acordo com Alexander, Smith e Sherwood (1993), a imprensa é um desses artefatos culturais que serve de recurso para investigação das representações coletivas em processos traumáticos de uma sociedade. Alexander ressalta, porém, que a mediação feita pelos meios de comunicação está sujeita às relações de produção e de propriedade desses meios, mais do que a concisão e a neutralidade apregoadas pela ética jornalística. Ele questiona: “em que nível os jornalistas são independentes do controle político e financeiro?” (ALEXANDER, 2002a, p. 24).
Os carrier groups são instituições sociais que muitas vezes utilizam sua condição de poder na estrutura social para constituir discursos e através deles competir para fazer prevalecer sentidos sobre determinados fatos sociais. A questão do poder, aliás, é relevante quando se pensa em grupos em que inexistam lideranças com poder para falar, para dar visibilidade ao seu discurso. Quanto a isso, Eyerman cita Barton, ao tratar da questão dos afroamericanos e de sua memória acerca da escravidão: “a habilidade para tornar o mundo visível e invisível é uma forma concreta de poder e é parte da construção social da raça” (BARTON, 2001, p. 01 apud EYERMAN, 2001, p. 09). Em situações como esta, os movimentos sociais são fundamentais para fazer emergir um grupo discursivamente forte.
Os efeitos de pertencimento dos indivíduos vitimizados ou vitimizadores à elite ou às outras classes sociais são assimétricos, não podendo sofrer intervenções reducionistas da compreensão de estratificação social. A formulação da identidade, seja por raça, etnia ou gênero, conduz ao sentimento de grupo, a constituição de uma comunidade cuja identidade é marcada pelo episódio. É a representação, via discurso – seja na literatura, na música, no teatro, na imprensa – que conduz à elaboração da identidade, ao sentimento coletivo de injúria e à organização de grupos que, pela retrospectiva, refletem e elaboram estratégias e ações coletivas para legitimar a significação do evento traumático.
Os carrier groups estão na condição de porta-vozes de determinados episódios e assumem a posição dianteira na elaboração de discursos sobre eles, de modo a torná-los visíveis a ponto de institucionalizá-los como parte da memória de uma sociedade. A imprensa, como instituição social, tem este papel: diluir, direcionar, oferecer sentidos e criar conceitos sobre os crimes violentos. Neste processo, compete por leitores, ouvintes ou espectadores, que
tenta atrair a partir da forma como constrói as representações. Ao colocar-se no uso do poder, um determinado carrier group tem a chance de institucionalizar sua interpretação de fatos passados, de modo a atingir a coletividade.
Ao posicionarmos os meios de comunicação como carrier groups jornalísticos, constatamos que a mídia é mais que a lente ou o filtro através do qual as coisas ocorrem, ela é, ao mesmo tempo, protagonista e palco no qual atores atuam e competem por apresentar suas histórias. A imprensa representa os fatos como drama, criando um espetáculo para públicos predispostos a assisti-lo. A audiência pode ver as notícias como entretenimento ou como informação: seja como for, elas precisam ser atraentes (EYERMAN, 2005).
De drama social, um evento pode se tornar um trauma cultural. De acordo com Eyerman (2005), o drama social é uma ocorrência cuja significação deriva em parte do poder em movimentar as pessoas, podendo se desenvolver em um trauma cultural quando a identidade coletiva de um determinado grupo é atingida. O trauma requer interpretação e reparo, representa uma ameaça fundamental para o estabelecimento da identidade individual e coletiva e requer purificação.
Para transpor a barreira entre drama e trauma, os atores envolvidos na trama trabalham para controlar sentidos. Este grupo precisa dispor de autoridade e legitimidade para invocar símbolos com grande alcance metafórico e tenta construir discursivamente um corpo de ícones e arquétipos favoráveis. Todo este controle tem como objetivo formar audiência em seu favor (MAST, 2004). A questão, neste caso, é saber, diante de fatos sociais que ganham espaço relevante no palco jornalístico, em que medida uma coleção de episódios densamente representada dentro de uma rede de significação transpassa o limite e se transforma em trauma cultural?