A Guiana Francesa tem suas especificidades locais diferentes de outros territórios. Iniciaremos nossa reflexão com esta afirmação de Gérald Désert (2014, p.115)82: “a Guiana é um lugar precursor sobre as questões de identidade nas regiões crioulófonas da América e do Caribe”. Percorremos o seu passado no primeiro capítulo, agora analisaremos o seu presente.
Mediante a escassez de bibliografia sobre os diferentes grupos étnicos, nós nos limitaremos a apresentar as principais populações guianenses. Vale salientar que existem os testemunhos históricos dos viajantes, além de pesquisas mais recentes e estudos sobre a história desses povos, realizados por eles próprios, em capítulos de monografias e dissertações. De acordo com Marie Fleury (2018 p.4)83, que desenvolve pesquisas etnográficas e cartográficas in loco, com a participação dos autóctones (ameríndios e quilombolas), com o auxílio de testemunhos dos mais velhos, os mais jovens têm demostrado interesse em se reapropriar de sua história e de seu território. O fortalecimento da relação intergeracional está sendo uma consequência gratificante para todos.
O resultado desta pesquisa fundamenta-se no artigo Guyane, de Emmanuel Lézy (2018) 84 , professor-pesquisador em geografia da Universidade de Paris-X-Nanterre, e cruzaremos as informações com o artigo Guyane française: composition ethnolinguistique 85 (Guiana Francesa: composição etnolinguística, 2017), publicado no site da administração da
82 DÉSERT, Gérald. Léon-Gontran Damas : Poète jazz du trio de la négritude. In: Léon-
Gontran Damas : poète, écrivain patrimonial et postcolonial. Guyane : Ibis Rouge Éditions, 2014, (p.1115-128).
83 FLEURY, Marie. « Gaan Mawina, le Marouini (haut Maroni) au coeur de l’histoire des Noirs
marrons Boni/Aluku et des Amérindiens Wayana », Revue d’ethnoécologie [En ligne], 13 | 2018, mis en ligne le 21 juin 2018, consulté le 28 juin 2018. URL : http://journals.openedition.org/ethnoecologie/3534 ; DOI :10.4000/ethnoecologie.3534
84 LÉZY, Emmanuel. « GUYANE », Encyclopædia Universalis. Disponível em:
<http://www.universalis.fr/encyclopedie/guyane/>. Acesso em: 03 fev. 2018.
85 Guyane française - Composition ethnolinguistique. Disponível em:
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Collectivité Territorial de Guyane. Por se tratar de um site oficial, além de atualizado, traça um perfil fidedigno da realidade social guianense. Atualizaremos os dados estatísticos com o auxílio do Institut national de la statistique et des études économiques86 – INSEE (Instituto Nacional de Estatística e de Estudos Econômicos).
A composição étnico-cultural da Guiana Francesa é muito complexa e variada, se compararmos com os demais países da América do Sul. Ela tem características bem particulares: são 25 grupos étnicos diferentes, cada um com sua língua e cultura diferente87. A Guiana Francesa é parte integrante da França e da União Europeia. De acordo com o Instituto Nacional de Estatística e Estudos Econômicos (INSEE), a população guianense, com dados de janeiro de 201988, está estimada em 296.711 habitantes, consistindo na menos importante e na menos densa do território francês.
A Guiana localiza-se no nordeste da América do Sul, entre os rios Maroni (520 km) para o ocidente e Oiapoque (303 km) a leste, e mantém laços com os seus vizinhos fronteiriços, o Suriname e o Brasil. Conforme o artigo do professor Emmanuel Lézy (2019), a Guiana foi uma das mais antigas e estáveis colônias francesas, estabelecida desde 1643, tendo se transformado em um departamento ultramarino francês (D.O.M.) em 1946, depois em um departamento-região ultramarino (D.O.M.-R.O.M.) em 2003.
O clima da Guiana é equatorial, quente e úmido, dividido em duas temporadas: a estação seca – de julho a novembro – e a estação chuvosa – de dezembro a junho, com temperaturas que variam entre 23° na época de chuvas e 33° na estação seca, porém a sensação térmica é bem maior por causa da umidade de 90%. Toda a área é completamente coberta pela floresta tropical, contínua e densa, que se estende sobre os 95% do território, sendo necessário abrir caminho a foice para penetrá-la. As pistas ameríndias são sutis, discretas, marcadas, de vez em quando, por uma cicatriz deixada em algum tronco, assinala Hurault (1998, p.18). Seus 84.000 km2 fazem dele o
86 Recensement de la population. Populations légales en vigueur à compter du 1er janvier
2017. Disponível em: <https://www.insee.fr/fr/statistiques/3677781?sommaire=3677855>. Acesso em: 14 mar. 2018.
87 Guyane française - Composition ethnolinguistique. Disponível em:
<http://www.axl.cefan.ulaval.ca/amsudant/guyanefr2.htm >. Acesso em: 14 mar. 2018.
88 Disponível em: <https://www.insee.fr/fr/statistiques/2012713#titre-bloc-1>. Acesso em: 08 de
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maior departamento francês, sendo também aquele que possui a mais longa fronteira terrestre (1.250 quilômetros) e possui o maior município (Maripasoula, 18.736 km2)89.
Situada entre a floresta Amazônica – o “pulmão do mundo” – e o Oceano Atlântico, a Guiana ocupa uma posição comercial e estratégica que não se pode negligenciar, comenta Emmanuel Lézy (2019). A cidade de Kourou, distante 60km da capital, abriga a "porta espacial" da Europa, o Centro Nacional de Estudos Espaciais (C.N.E.S.), que proporciona lançamentos de foguetes desde sua fundação em 1964. Esta atividade representa 20% do PIB do departamento; gera 20% de empregos direto e indireto; arrecada impostos indiretos sobre produtos importados e, desde 1992 (sobre a produção local em D.O.M.), sobre os tributos locais e importações. Segundo o autor, os lançamentos do foguete Ariane 5 têm assegurado o sucesso do Centro Espacial da Guiana desde 2005. O Estado francês investe mais de 900 milhões de euros todos os anos, e a União Europeia, mais de 50 milhões de euros.
A reputação de terra rica da Guiana vem desde a colonização, como nos relata o professor Emmanuel Lézy (2019). O explorador britânico Walter Raleigh já descrevia a Guiana, em 1596, como um Eldorado, e inúmeras expedições foram realizadas ao longo do século XVI, sem sucesso. O tesouro prometido só foi encontrado por volta de 1898, com a corrida do ouro, bem como o achado de diamantes, ferro, bauxita, água, madeira, além da fauna e da flora abundantes e ricas. A Guiana abarca uma grande diversidade cultural e biológica, aliás, outros tesouros que atestam a honestidade da descrição feita pelo britânico, mas o ouro continua a ser o primeiro produto de exportação do departamento: mais da metade de tal produção escapa às autoridades e alimenta o tráfico e o contrabando. Como o progresso não anda sozinho, neste caso, veio acompanhado destas mazelas.
Desde os anos 1980 (LÉZY, 2019), a Guiana tornou-se um centro rotativo de tráfico de drogas e prostituição (inclusive, infantil), especialmente nas cidades de Saint Georges, às margens do rio Oiapoque, que separa a
89 LÉZY, Emmanuel. GUYANE. In: Encyclopædia Universalis [online]. Disponível em:
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Guiana/França e o Estado do Amapá/Brasil, no bairro chamado de Crique, em Caiena, no bairro do Vieux bourg em Kourou e Saint Laurent du Maroni, cidade fronteiriça com o Suriname, separada pelo rio Maroni. Estas características fazem da Guiana uma entidade paradoxal e contraditória: em meio a tanta riqueza natural, há também muita desigualdade entre os humanos.
A densidade demográfica na Guiana Francesa é de 3 habitantes/km². A maior parte da população está concentrada na costa, e somente 5% do território está habitado. Na capital, Caiena, vivem quase 56.000 pessoas, segundo o INSEE – censo oficial de 201490. A segregação racial, resultante da escravidão e da imigração indiana contratada durante a colonização, e a fragmentação da sociedade guianense em minorias visíveis constituem a mais forte originalidade das Guianas, segundo o professor Lézy (2019), pois reflete bem os acontecimentos históricos que ocorreram desde o século XVI.
Buscamos, nas estatísticas oficiais, os números exatos para cada grupo étnico, mas só encontramos dados aproximativos, e isto se deve ao fato de a França não praticar o recenseamento étnico. De acordo com a enciclopédia Larousse91, censos oficiais com perguntas sobre origens étnicas e raciais foram banidos pelo governo francês em 1978, uma vez que o termo "raça", na França, invocava associações com a Alemanha nazista e, atualmente, intensificaria os debates referentes às correntes migratórias, ocasionando discriminação racial. Também há dificuldade em quantificar com precisão a população guianense, por causa do fluxo considerável de imigrantes ilegais, ou seja, sem o visto necessário para entrar e para trabalhar na Guiana (inclusive, o cidadão brasileiro). De acordo com o artigo sobre a Composição Etnolinguística da Guiana (2018), a cada ano, as autoridades de lá expulsam cerca de 15.000 pessoas em situação de irregularidade.
Metade dos imigrantes ilegais vem do Brasil, em terço, do Suriname, enquanto outros vêm da Guiana e do Haiti. A economia e a sociedade da Guiana se beneficiam deste trabalho ilegal, desenvolvendo uma economia paralela tolerada pela criação de "empregos" e vantajosa para os "negócios".
90 População da Guiana. Disponível em: <https://www.insee.fr/fr/statistiques/2012713#titre-
bloc-1>. Acesso em: 08 de mai. 2019.
91 Recenseamento étnico na França. Disponível em:
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Os imigrantes ilegais desempenham um papel econômico importante, por serem excluídos dos programas de proteção social, reduzindo-se a um estatuto e condições de vida próximas das que foram sucessivamente abolidas em 1551 (controvérsia de Valladolid, proibindo a escravização de Índios), em 1848 (abolição da escravidão) e em 1946 (final do sistema penal). A vida quotidiana é, portanto, marcada por fortes tensões entre diferentes grupos sociais, étnicos e jurídicos (LEZY, 2019).
Gostaríamos de expor os resultados aproximados do estudo realizado em 2015, pelo grupo Joshua Project92, na tabela 1, para termos uma ideia, parafraseando o professor Lézy (2019), das minorias visíveis que constituem a população guianense. A Composição Etnolinguística da Guiana Francesa é muito diversificada, composta por mais de 25 grupos étnicos93 diferentes, cada um falando sua própria língua e lutando pela subsistência de sua cultura. Além dos autóctones, há uma população de ascendência africana (descendentes de antigos escravos), os europeus, na sua maioria, funcionários públicos metropolitanos ou antigos colonos (ou descendentes), os imigrantes asiáticos (do início do século XX e dos anos 1970) e algumas outras etnias de imigrantes mais recentes, como: brasileiros, haitianos, libaneses, surinamenses, guianenses, enfim, imigrantes de todas as Américas. Vejamos a tabela:
TABELA 1: população da Guiana Francesa em 2015.
Groupe ethnique Population Pourcentage Langue maternelle Affiliation linguistique Guyanais mulâtres 101 000 39,4 % créole guyanais (base
française) créole Français
métropolitains 21 000 8,1 % français langue romane