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Applications in arithmetics

4.1 Geometry of numbers

4.1.2 Applications in arithmetics

Estamos no tempo certo para pensar a Europa. Muito se tem discutido sobre o seu futuro, um futuro mais ou menos (in) certo, mas cujos sessenta anos de vida, são a prova do seu sucesso, cujo objectivo primordial foi o de salvaguardar a paz. O seu percurso não tem sido linear, com avanços e recuos, mas é uma história de maturidade. Esta maturidade permite com- preender que há necessidade de preservar uma consciência europeia, muito anterior à construção europeia propriamente dita. É nesta consciência de um tempo histórico que se encontra a chave para antever um futuro para a Europa. Esta consciência perpassa toda a história da Europa, desde os seus fundamentos greco-romanos comuns até à experiência vivida de duas guerras mundiais. Sobrevivente de guerras, a Europa soube aprender as lições da História e preservar uma unidade para além da diversidade. É sobre essa unidade ontológica europeia que faz sentido continuar a reflectir sobre o projecto europeu e as perspectivas do seu futuro.

O presente europeu mostra uma certa aproximação a uma Europa cons- truída pela Cultura. A Europa como uma grande zona económica, um mer- cado único, dá sinais de crise, bem como a Europa social que também mos- tra o distanciamento dos Europeus em relação ao projecto europeu, e, em casos paradigmáticos como o Brexit, a leitura dos resultados do referendo, para além do não, evidencia uma forte abstenção e falta de um envolvi-

mento dos Europeus naUnião Europeia. Por isso, ficou provado que esta

Europa não aproxima muitos europeus e que é necessário combater o eu- rocepticismo com outras razões para acreditarem.

É necessário dar voz aos intelectuais, historiadores e filósofos, como

refere o texto “Uma Nova Narrativa para a Europa”1, iniciativa lançada

pelo Presidente da Comissão Europeia em 2013, em resposta ao apelo do

Parlamento Europeu e do Conselho. Diz Durão Barroso: «Porquê Uma Nova

Narrativa para a Europa? “Não porque tenhamos deixado de ser fiéis àquilo que constitui a razão de ser da Comunidade Europeia e da União Europeia (...) mas porque penso que necessitamos, no início do século XXI, de continuar a contar a história da Europa, sobretudo às novas gerações, que já não se identificam muito com a actual

1 http://ec.europa.eu/debate-future-europe/new-narrative/, acedido a 21 de ju-

narrativa”2. O grande objectivo desta narrativa era a divulgação da história

e da cultura europeia como grande impulsionadora para difundir os valores europeus e gerar a participação dos cidadãos no projecto europeu. É de referir que muito antes, Jacques Le Goff, tinha defendido esta Europa Cul- tural como o caminho a seguir, fundamentada na sua história comum. Diz o historiador:

“Predomina a ideia de fazer da Europa, como quer a maioria dos ingleses, uma grande zona económica, quando a Europa unida deve ser acima de tudo cultural. A História mostra-nos que, em toda a Europa, da Escandinávia à Grécia e a Portugal, existem elementos fundamentais de uma mesma cultura e, também, de uma Europa política”3. Outros, como

Edgar Morin, pensam a Europa, conscientes da dificuldade da sua essência: “Na origem da Europa não há um princípio fundador original. O princípio grego e o princípio latino vêm da sua periferia e são-lhe anteriores; o princípio cristão vem da Ásia e só desabrochará na Europa nos fins do seu primeiro milenário. Todos estes princípios terão de ser agitados, sacudidos, misturados, na barafunda dos povos invadidos, invasores, latinizados, germanizados,eslavizados, antes mesmo de se associarem e se oporem.

Se procurarmos a essência da Europa, mais não encontraremos do que um espírito europeu evanescente e asseptizado. Acreditar desven- dar o seu autêntico atributo é ocultar um atributo contrário, não menos europeu. Deste modo, se a Europa é o direito é também a força; se é a democracia, é também a opressão; se é a espiritualidade, é também a materialidade; se é a moderação, é também a ubris, a desmesura; se é a razão é também o mito, incluído no seio da ideia de razão.

A Europa é uma noção incerta, nascida da barafunda, com fron- teiras indefinidas, de geometria variável, sofrendo deslizes, rupturas, metamorfoses.

2 President BARROSO. Launch of New Narrative for Europe. Bozar - Brussels, 23 April

2013.

3, Jacques le Goff, “Por uma Europa Cultural”, in Jornal de Letras, 25 de Abril

Trata-se, por conseguinte, de interrogar a ideia de Europa justa- mente naquilo que ela tem de incerto, de turvo, de contraditório, para tentar extrair daí a identidade complexa”4.

Todos reconhecem a dificuldade de definir a Europa, de reconhecer a sua verdadeira identidade. O próprio conceito de Europa tem conhecido inúmeras definições, e tantas outras explicações, desde a sua origem mito- lógica à sua indefinição geográfica. Apesar das dificuldades, Lucien Febvre definiu-a como um “estado de sonho”:

“Não chamo Europa a uma formação política definida, reconhe- cida, organizada, dotada de instituições fixas e permanentes, que as- sume, se se quiser, a forma de Estado ou de super-Estado, formação com que os Europeus, ou pelo menos certos europeus, podem muito bem ter sonhado por vezes, mas que nunca

passou de um Estado de sonho, a qual, por conseguinte, devemos perguntar se está votada a tornar-se realidade ou condenada a per- manecer como sonho;”5

Para este historiador, a Europa é uma unidade histórica, uma “in- contestável inegável unidade histórica”6, construída em data fixa, precisa-

mente na Idade Média. Esta unidade, “como todas as outras unidades his- tóricas, se faz de diversidades, de pedaços, de restos arrancados a unidades históricas anteriores”7. Esta Europa, sede do mundo europeu, forma um

corpo organizado, composto por um conjunto de países, de sociedades, de civilizações, não se definindo por limites geográficos rígidos. Os seus limi- tes vêm de dentro “ define-se de dentro pelas suas próprias manifestações, pelas grandes correntes que não cessam de a atravessar e desde há muito tempo – correntes políticas, correntes económicas, correntes intelectuais, científicas, artísticas, correntes espirituais e religiosas”8. Outros pensadores,

4 Edgar Morin, Pensar a Europa, Lisboa, Publicações Europa-América, 1988,

p.33.

5 Lucien Febre, A Europa. Génese de uma Civilização, Lisboa, Editorial Teorema,

1999, p.25-26.

6 Idem, ibidem. 7 Idem, Ibidem. 8 Idem Ibidem.

como Eduardo Lourenço, atrevem-se a duvidar da existência da Europa.

À pergunta – “O que é a Europa?” –, o ensaísta responde – “Nada”9. No

entanto, o próprio se confessa como europeu:

“Eu sou muito europeu, como todos nós. Todos o somos, mais do que sabemos, mas só quando nos encontramos diante, ou no meio, de uma cultura que não seja europeia. Essa não-identidade, essa identidade virtual, feita apenas de negações, é um privilégio extraor- dinário, uma promessa de futuro. Significa que outros povos po- derão partilhar a nossa não-identidade: todos aqueles que não acreditam na afirmação egoísta de si próprios, que é o vírus da His- tória”10.

A virtude da própria Europa é a sua não-identidade; ser um lugar de abertura. É esse modo singular de ser que lhe permite ser nada e ser tudo, como lembrava também em português, Fernando Pessoa, sendo a partir de Portugal que a Europa olhava o seu futuro11.

O que é a Europa? Voltando a Eduardo Lourenço, a Europa é uma

“utopia interessante”12 e, ao mesmo tempo, uma “casa da impotência”13.

No entanto, “a Europa nunca foi mais Europa do que hoje”14. Falta-lhe

ultrapassar uma “bem-sucedida colecção de egoísmos nacionais”15, conser-

vando a sua utopia, a paixão e o mito: “uma utopia europeia assumida só é digna de ser vivida como vitória da Europa sobre a Europa, da ficção de si mesma que, consciente e inconscientemente, tem condicionado o seu des-

tino contra a sua realidade”16.Afinal, a grandeza da Europa é a sua não-

identidade. Resta-lhe o “triunfo da suasublime não-identidade sobre os fan- tasmas da sua alucinada identidade”17.

9 Eduardo Lourenço, “O que é a Europa? Nada”, in Courrier Internacional, nº75,

p.14.

10 Idem Ibidem.

11 Fernando Pessoa, “O dos Castelos”, Mensagem, Lisboa, Edições Ática, 1986,

p.21.

12 Eduardo Lourenço, A Europa Desencantada, Lisboa, Gradiva, 2001, p.239. 13 Idem, Ibidem.

14 Idem, Ibidem. 15 Idem, Ibidem, p.240. 16 Idem, Ibidem. 17 Idem, Ibidem.

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