De modo geral, a abordagem da Geografia trata a maritimização da mentalidade social a partir do momento em que o convívio das atividades humanas é associado ao meio marítimo, no contexto da produção, transporte e lazer. É despertado também na atualidade o interesse da Ciência sobre a diversidade dos usos, bem como as mutações recentes na forma de se perceber o mar, da vivência e da incorporação do ambiente costeiro no contexto da expansão urbana.
Para tanto é vital a compreensão da tomada da relação do homem com o ambiente marítimo, como embasamento para a reflexão sobre o aspecto que este duo vem tomar na costa fortalezense. Percorrendo essa
dualidade é possível perceber também como o percurso da cartografia vem se configurar como modo de representação e de proposição para a ocupação litorânea.
A história escrita da relação do homem com o mar tem início na Grécia Antiga. É possível asseverar que tal civilização era litorânea por excelência. Vejamos sua localização geográfica: centrada ao redor do mar Egeu, seu território é formado por uma grande massa no continente e por variadas ilhas. Além disso, o domínio grego expandiu-se por todo o Mediterrâneo – norte da África, Itália, Península Ibérica e costa francesa. O principal fator diferencial dessa civilização é justamente sua relação com o ambiente litorâneo, notadamente em função do desenvolvimento das suas embarcações.
No entanto o litoral grego em si não dispunha de nenhum diferencial mais provocador às curiosidades marítimas. Tal fato deveu-se ao seu território ser bastante acidentado, com poucas planícies ou locais férteis, que compelia o surgimento de cidades onde quer que o terreno fosse minimamente arável, ou junto ao mar, onde era possível construir bons portos que permitiam a comunicação e o comércio, já que os rios, durante os meses quentes e secos do verão, costumavam ficar reduzidos a meros riachos, sendo assim inviáveis. A própria distribuição das primeiras cidades gregas afirmavam tal fato, pois como elas se desenvolviam de modo isolado, efetivavam-se na forma de governo em cidades-estado (CORBIN, 1989).
Esse pode ser considerado o motivo propulsor do direcionamento dos gregos ao mar, que se mostrou não só como um eficaz ambiente para os meios de transporte e comunicação, embora a maioria dos gregos raramente se afastasse de sua terra de origem, como viabilizou a obtenção de lucro, por meio de trocas comerciais, notadamente com o Egito. Diegues (1998), versando sobre o universo insular, expõe que:
As sociedades insulares são fundamentadas nos conceitos de maritimidade, insularidade e ilheidade. Não é a presença material do mar que se revela como elemento básico das sociedades insulares, mas sim as práticas sociais e simbólicas desenvolvidas em relação ao mar. Na maioria das vezes, o mar é visto ora
como fator de contato, ora de isolamento, dependendo do tipo de relação que as sociedades insulares mantêm com o exterior (P. 34).
Além do uso para a navegação, a natação também era uma prática comum no litoral grego, representando outra relação do homem com o mar desenvolvida nesse contexto histórico. Na civilização clássica grega, a prática de nadar no mar se iniciou como uma prática higiênica, mito de limpeza e proteção dos poros da pele proporcionados por Poseidon, deus dos mares na cultura grega (CORBIN, 1989, p. 32), expandindo-se depois como um esporte, destacado pela presença de associação de provas de natação nos Jogos Ístmicos, disputados em homenagem aos deuses.
Apesar da ampla popularidade que a natação trouxe às diversas camadas sociais da antiga civilização grega, percebemos que, longe de associar a prática do nado nas águas do mar a uma atividade de lazer, de culto ao ócio, essa atividade se apresentava como modo de representação da coragem e virilidade do homem grego perante o temido Poseidon, que controlava as ondas e as marés do universo azul.
Na Grécia a representação do cotidiano por meio da imagem desempenha importante papel desde sua gênese. Era o despertar do mito mágico da imagem que tomava destaque na sociedade ocidental. Desenhando figuras humanas, se supunha que o homem adquirira poderes sobre seus semelhantes, o que talvez fosse considerado perigoso ou inconveniente, por isso que por vários períodos da história grega, precisamente do período Arcaico ao Clássico (séculos XII ao IV a.C.) a “representação com que faziam do homem não adquiria caráter realista, mas deformado, esquematizado, verdadeiramente simbólico” (CAVALCANTI, 1968, p. 13). Só mereciam uma representação fidedigna com o modelo aqueles atletas vencedores nos Jogos Olímpicos: “quando vencedor pela terceira vez é que o atleta tinha direto à estátua e a pintura representativa, com os seus traços fisionômicos” (CAVALCANTI, 1968, p. 13).
Fig. 9: “A natação”, gravura em vaso do período Helenístico Fonte: Caminha, 1979, p. 108.
É no período Helenístico, compreendido entre a morte de Alexandre (323 a.C) e a instituição do Império Romano (30 a. C.) que os pintores gregos voltam-se para a natureza e a realidade do ambiente (CAVALCANTI, 1968, p. 88). A arte grega é internacionalizada levando a representação da paisagem grega por todo o mundo, por meio, sobretudo, dos vasos de cerâmica que, produzido por atenienses e coríntios, representavam principalmente o litoral do Mediterrâneo espalhando esses vasos pelo mundo antigo, em parte por sua utilidade, como recipientes de vinho, azeite, mel e perfumes, em parte por sua beleza decorativa, além da sua finalidade funerária.
Os romanos constituíam-se numa outra civilização que possuía o costume da representação por meio da imagem, adotando desde os primeiros tempos adotavam lei especial que regulava o uso dos retratos. Direito ao retrato em tinta só os que houvessem prestado serviços ao Estado, era o jus imaginum (CAVALVANTI, 1968, p. 13-14). Havia a crença que fazer o retrato de uma pessoa sem o mérito de serviço ao Estado traria conseqüências funestas, por isso, quando alguém caía do poder, sobrepunham uma outra pintura ou decapitavam as estátuas.
A sociedade romana também mantinha laços com o ambiente marinho. Porém, diferentemente da civilização grega, a natação para Roma tinha uma ligação mais associada à atividade física e militar. Exemplo disso é a figura do siciliano Tisander, boxeador olímpico, que utilizou no século VI a prática da natação no mar como forma de treinamento (CAMINHA, 1979, p. 8).
Roma, não obstante, recebeu influência da cultura grega no modo de representação do espaço litorâneo. De modo geral, as pinturas paisagísticas romanas surgiram com intencional realismo nas batalhas marítimas e nas terras conquistadas, servindo para serem exibidas ao povo nos festejos triunfais. Juntamente com essas imagens eram elaborados mapas que retratavam a localização das novas terras, baseando-se sob uma suposição “verídica e minuciosa” (CAVALCANTI, 1968, p. 111).
Fig.10: Mapa-múndi de Ebstorf, de 1235. Composto originalmente por trinta folhas de pergaminho este mapa foi produzido pelo monge inglês Gervásio de Tilbury que utilizando a narrativa bíblica como fonte. Percebemos a partir desta figura a orientação das cartas medievais para o oriente, lugar onde pensava-se ficar o Paraíso, bem como a desconsideração da massa oceânica. Fonte: Ribeiro, 2005.
Porém, com a queda do Império Romano, em 476 d.C., provocado pela invasão, via mar, por diversos povos bárbaros, entre eles, visigodos, vândalos, burgúndios, suevos, saxões, ostrogodos e hunos (CAMINHA, 1979, p. 71), a moda de representação da paisagem marítima, bem como práticas associadas a praia é substituído pelo medo, pavor e proibição, assemelhando-se ao descrito por Jorge Luis Borges, na poesia que iniciou este capítulo, onde conseguiu representar de modo fidedigno a imagem do mar por um longo período de nossa história: violento, abissal e assombroso.