• Aucun résultat trouvé

The Application Program Interface

Dans le document DECISION TECHNOLOGIES (Page 73-78)

FOR MIXED INTEGER PROGRAMMING

2. The Application Program Interface

Apesar de prestígio e poder serem características que vários jornalistas de oitocentos reuniam, a verdade é que o mesmo não se pode dizer sobre o nível de cultura que possuíam, assim como acerca da pertinência de muitos dos juízos que formulavam. De facto, a rápida ascensão da imprensa, em direcção a um patamar de influência social elevado, colocou muitos homens, que nesta área faziam a vida, numa situação que lhes permitia modelar à sua medida o pensamento dos leitores. À primeira vista, este poder poderá parecer interessante, na medida em que seria de esperar que os jornalistas aproveitassem a sua posição privilegiada para, entre outros objectivos, contribuir para o desenvolvimento da cultura junto do público leitor e para a disseminação de novas ideias instrutivas neste campo. No entanto, e ao contrário do que poderia esperar-se, uma classe profissional com tanto poder era, no entanto, detentora de um baixo nível cultural e de opiniões muitas vezes levianas relativamente aos mais variados assuntos, o que se torna perfeitamente visível na obra de Eça de Queirós que, sendo também jornalista, muita razão teria em envergonhar-se de grande parte daqueles que com ele partilhavam este meio.

N’Os Maias, Ega critica duramente os jornalistas da Gazeta do Chiado, baseando-se na péssima interpretação que haviam feito de um dos episódios da sua obra,

As Memórias de um Átomo:

“ - Estas bestas! Estas bestas destes jornalistas! Leste? «Lágrimas em todos os olhos da numerosa e estimável colónia hebraica»! Faz cair a coisa em ridículo…E depois a «fluência de estilo». Que burros! Que idiotas!” (134).

Como vemos, neste pequeno excerto, Ega sente-se ultrajado pelo facto de os jornalistas deste jornal deturparem o sentido das palavras que escrevera, de não possuírem a capacidade de perceber a mensagem que o escritor pretendia passar com as suas palavras. Ega destaca, portanto, a idiotice e estupidez destes jornalistas que, perante o público leitor, desconhecedor ainda do conteúdo de As Memórias de um

Átomo, faziam transparecer uma ideia da obra contrária à realidade.

Savedra, em O Primo Basílio, revela a sua falta de cultura e leviandade de

juízos. Em primeiro lugar, mostra falta de sensibilidade perante a arte e um desconhecimento desta área, quando, de forma ridícula, afirma:

“Eu, num quarto de dormir, as únicas pinturas que admito são uma bela ninfa nua, ou uma bacante desenfreada!” (332).

Mas o baixo nível dos seus comentários e a sua estupidez não ficam por aqui. Mais adiante, durante o jantar na casa do conselheiro Acácio, apresenta a seguinte opinião leviana acerca do casamento e da relação entre um homem e uma mulher:

“Quiseram então saber as opiniões de Sebastião - que se fez escarlate.

Por fim, muito solicitado, disse com timidez:

- Eu acho que se deve casar com uma rapariga de bem, e estimá-la toda a vida…

Mas o Savedra, reclinando-se, classificou uma tal opinião, de «burguesa»; o casamento era um fardo; não havia nada como a variedade…” (337).

Savedra, contrariando a espontânea e inocente opinião de Sebastião, mostra-se totalmente descrente da relação duradoura entre um homem e uma mulher, considerando o casamento um peso e desvalorizando o sentimento do amor e a busca de qualidades de facto importantes numa companheira. O mais curioso é que acaba mesmo por apresentar, sem rodeios, as características que mais admira numa mulher, mostrando que esta, para si, apenas serve como objecto de prazer, ao mesmo tempo que revela uma sensualidade grosseira e desenfreada:

“Dissertou então sobre as mulheres. O que sobretudo lhes exigia era um bonito pé; não havia nada como um pezinho catita! E a todas preferia a mulher espanhola!”(337).

“ E reclamava espanholas! Queria fogo! Queria salero! Tinha o olho brilhante do vinho: a comida acendia-lhe o sentimento!”(338).

Vejamos, de seguida, n’Os Maias, uma passagem em que o jornalista Palma Cavalão, no encontro ocasional num hotel, em Sintra, revela a sua falta de inteligência ao achar que Carlos conheceria Saldanha, apenas por alguns bens que este possuía:

- Olha - disse o Palma lentamente, de cigarro na boca e tirando a isca da algibeira - duas boas bofetadas na cara lhe dei eu ainda há três semanas… Pergunta ao Gaspar, o Gaspar assistiu… Foi até no Montana… Duas bofetadas que lhe foi logo o chapéu parar ao meio da rua… o sr. Maia há-de conhecer o Saldanha… Há-de conhecer, que ele também tem um carrito e um cavalo…” (228).

Através da leitura desta passagem, apercebemo-nos da fanfarronice de Palma, sempre exibicionista, com necessidade de corroborar a sua versão dos factos com a palavra de outra pessoa. O jornalista da Corneta do Diabo julga, levianamente, à sua imagem e semelhança, que Carlos deveria conhecer Saldanha porque este tinha “um carrito e um cavalo”. Ou seja, Palma acha, estupidamente, que são estes factores suficientes para que Carlos conheça Saldanha, porque, cego pelo prestígio social que julga ter, não consegue aperceber-se da distância de valores, morais e culturais, que se interpõe entre o jornalista e o neto de Afonso da Maia.

Também Palma Cavalão diminui a condição feminina, defendendo, ainda em Sintra, um modo absurdo e violento no tratamento das mulheres:

“Enfim, ele não dizia que em certos casos, duas bolachas, mesmo um bom par de bengaladas, não fossem úteis… Sabiam, por exemplo, os amigos, quando se devia bater? Quando elas não gostavam da gente, e se faziam ariscas. Então sim. Então, zás, tapona, que elas ficavam logo pelo beiço… Mas depois, bons modos, delicadeza, tal qual como com francesas…” (230).

Como podemos constatar, Palma Cavalão considera que bater numa mulher é admissível e completamente justificado quando esta se mostra indiferente ou difícil perante o homem que as corteja. Repare-se que a opinião por este formulada é de tal modo ofensiva, que a linguagem utilizada pelo jornalista acompanha o nível do seu

- 150 -

discurso: daí que surjam as expressões “bolachas”, “bengaladas” e “zás, tapona”. Estas palavras, aliadas ao uso do discurso indirecto livre, ajudam-nos porque quase nos ajuda a visualizar a veemência com que o jornalista se agarra à sua opinião e a defende com a certeza de que está certo. É de notar o nível de violência presente no seu discurso, admitindo a agressão para se forçar uma mulher a algo que, na verdade, não quer.

Pela leitura destas passagens de alguns romances de Eça, podemos verificar que os jornalistas à frente da imprensa em Portugal, no século XIX, eram detentores de uma mentalidade retrógrada, formuladores de juízos levianos e reveladores de uma enorme estupidez e falta de cultura, o que, naturalmente, influenciava também o nível de textos que ofereciam aos leitores. Na verdade, a imprensa proliferava, o que não significava que o seu valor construtivo fosse directamente proporcional ao seu crescimento.

4

Dans le document DECISION TECHNOLOGIES (Page 73-78)