O futuro das cidades reside na diversidade da urbanização, que inclui variabilidade de densidades para diferentes vizinhanças em distintas regiões da cidade (LEHMANN, 2016). Esta diversificação de densidades e escalas de construção de cidade proporciona uma maior liberdade para que distintos grupos demográficos escolham de que maneira gostariam de viver em seus variados estágios de vida23 (Ibidem).
Densidade urbana é um termo associado ao planejamento urbano, e refere-se a um dado número de pessoas habitando uma determinada área urbanizada, e um determinado quantitativo de ocupação construída em uma gleba definida (LEHMANN, 2016). No entanto, uma relação direta entre densidade e sustentabilidade urbanas permanece contestada e frequentemente incompreendida no âmbito da teoria no planejamento urbano (Ibidem).
Existem diferentes tipos de mensuração das densidades urbanas na visão de Lehmann (2016), em que: “Densidade Populacional” é o número de pessoas residentes dividido pela respectiva área ocupada; e “Densidade Residencial” é o número de residências dividido pela área por estas circunscrita.
Assim, o autor identificou três claras tipologias de cidade que possuem características próprias de densidade populacional e evolução histórica:
a) As Cidades Compacta e Policêntrica Europeias, com tradicionais perímetros de quadras, como Barcelona com 4,85 mil habitantes por km²; Atenas e Londres com 5,4 mil e 5,1 mil hab./km² respectivamente (CITY MAYORS, 2007);
23 Segundo Jenks (2004), são comuns os cenários em que os jovens profissionais prefiram residir junto às áreas
b) As cidades com elevada verticalização da Ásia, como Shangai com 13,4 mil hab./km²; Beijing (11,5 mil hab./km²), Bangkok (6,45 mil hab./km²), e Tokyo (4,75 mil hab./km²), por exemplo (CITY MAYORS, 2007); e
c) Cidades de baixa densidade Americanas e Australianas, com centros do tipo downtown core rodeados por extensivos espraiamentos urbanos como Melbourne (1,5 mil hab./km²), Phoenix (1,4 mil hab./km²) e Perth (1,2 mil hab./km²) (CITY MAYORS, 2007).
Lehmann (2016) também destaca que o excessivo adensamento é mal visto em decorrência da elevada verticalização que, por vezes, é considerada inadequada para determinadas situações familiares (dependendo do número de filhos, animais de estimação, etc.).
No que tange à compacidade urbana, as especificidades locais influenciam na percepção das densidades. A região metropolitana de Hong Kong, por exemplo, com 6.160 hab./ha e considerada de alta densidade, não necessariamente retrata um cenário de superocupação, à medida em que alguns bairros nas cidades de Caracas e Pretoria, em áreas consideradas de baixas densidades demográficas, apresentam, respectivamente, entre 9-13 e 7-21 residentes por unidade habitacional – valores representativos de superocupação (JENKS, 2004).
A cidade de Curitiba, por exemplo, seguiu uma estratégia de intensificação urbana planejada junto aos eixos de mobilidade urbana, e auxiliada pelo instrumento denominado Transferência do Direito de Construir; a Cidade do Cabo e Durban também implementaram planos de desenvolvimento junto a eixos de mobilidade com integração modal (JENKS, 2004). Já em Bangkok, foram planejadas zonas de desenvolvimento orientado ao transporte (conceito TOD – Transit Oriented Design), viabilizadas por incentivos privados para o desenvolvimento (Ibidem).
Demandas sociais e densidades residenciais podem ser equacionados por meio de boas soluções de desenho urbano (LEHMANN, 2016). Nesse sentido, Jenks (2004) defende que os processos de intensificação urbana podem contribuir para o alcance de maiores densidades.
Algo possível tanto a partir de estratégias definidas por intermédio de políticas públicas no âmbito do planejamento urbano formal, quanto da organicidade de esforços proveniente de iniciativas na esfera da informalidade – frequentemente associadas à poluição e infraestrutura deficiente, mas que apresentam benefícios atrelados à vitalidade urbana e às interações sociais, com surpreendentes exemplos de auto-organização e senso de comunidade (Jenks, 2004).
Jenks (2004) explicita que a incongruente expansão urbana periférica gera impactos que extrapolam os problemas de mobilidade urbana, provisão de infraestruturas e ocupação ineficiente do solo. Para muitas pessoas, viver no limite periurbano significa viver à beira da sociedade, marginalizadas da maioria das oportunidades que a cidade oferece (Ibidem). Concomitantemente, nas cidades em que os habitantes não demandam longos deslocamentos para viagens utilitárias, e que disponham de transporte público eficiente, são enormes os benefícios resultantes da concentração demográfica com multiplicidade de usos (CALTHORPE, 1993; JENKS, 2004).
Para Calthorpe (1993), o uso otimizado do espaço urbano está relacionado às médias densidades. Segundo Lehmann (2016), este uso otimizado está representado por edificações que possuam entre quatro e oito pavimentos, apesar de reconhecer que não existe um único modelo que possa ser replicado em distintas cidades.
Em termos quantitativos, a densidade ótima bruta estaria entre 150 e 450 habitantes por hectare, de acordo com a ONU (2012). Para Mascaro (1986), em seu estudo de densidades econômicas, o valor ideal tange uma faixa compreendida entre 100 e 120 famílias por hectare, aproximadamente 350 a 420 hab./ha (MASCARO, 1986 apud NOBRE, 2004).
Apesar da controvérsia acerca do conceito de cidade compacta, a alternativa do espraiamento efetivamente gera pegadas ambientais cada vez mais extensas, apoderando-se de habitats críticos, áreas de produção agrícola e áreas verdes, o que é manifestamente inaceitável pela hermenêutica do planejamento ambiental urbano na fundamentação teórica contemporânea (LEHMANN, 2016).
Ainda na visão de Lehmann (2016), existem diversas evidências que indicam uma relação diretamente proporcional entre maiores densidades e maiores estímulos ao uso dos transportes públicos, aproximação dos equipamentos urbanos, elevação da eficiência da infraestrutura e dos usos do solo, da conservação dos recursos naturais e redução de emissões de carbono nas cidades. Deste modo, o conceito de cidade compacta é intrinsecamente relacionado ao “urbanismo sustentável24” e “urbanismo ecológico25” (Ibidem).
24 Relacionado à prevenção de desastres ambientais, mobilidade sustentável (ativa), tipologias, métodos e materiais
construtivos mais sustentáveis (BRASIL, 2018b).
25 Segundo Herzog (2009), a compacidade urbana, aliada à manutenção do cinturão verde por meio de usos de
baixa densidade (como produção agrícola sustentável), provisão de infraestruturas verdes urbanas e de espaços urbanos de convivência (para congregar as pessoas) são premissas do urbanismo ecológico.
Adicionalmente, a cidade compacta eleva a eficiência das infraestruturas urbanas e provisões de serviços públicos, por meio do encurtamento das distâncias de deslocamento – que reduz, também, as extensões e durações das viagens urbanas. Isto se deve à políticas urbanas de intensificação do uso do solo por meio de arranjos com elevadas densidades residenciais junto à centralidades, multiplicidade de usos e delimitação explícita das áreas de ocupação e adensamento prioritários – limites para o crescimento urbano (LEHMANN, 2016).
As estratégias de intensificação, por meio do adensamento, apresentam diversos benefícios, mas não em todas as situações. Elevar a densidade pode resultar em impactos negativos nos microclimas urbanos e na poluição, com riscos de incidências do efeito ‘Ilha de Calor Urbana’ (ICU) – que, por sua vez, eleva a demanda energética atrelada à refrigeração mecânica (LEHMANN, 2016).
Estes efeitos negativos podem ser atenuados, e até evitados, por meio da provisão de infraestruturas verdes e da escolha de materiais e superfícies que minimizem a absorção do calor e a incidência do “Efeito Albedo”26 (LEHMANN, 2016). Assim, uma intensificação
urbana acompanhada da implementação de corredores verdes ou parques lineares, por exemplo, pode agregar os benefícios do conceito de cidade compacta e, simultaneamente, proporcionar uma amenização de caráter ambiental e melhoria nas condições dos microclimas e poluição atmosférica, interferindo positivamente na qualidade de vida dos cidadãos.
De modo geral, nas áreas urbanizadas, as temperaturas máximas e as formações de ilhas de calor são agravadas em decorrência do adensamento de edificações e do aumento da impermeabilização do solo, e mitigadas em função dos efeitos da arborização (RORIZ e BARBUGLI, 2003).
O avanço da urbanização e, consequentemente, da poluição atmosférica, aumento das emissões de calor por fatores antropogênicos, a supressões de vegetação e a impermeabilização do solo podem acarretar no acúmulo de calor na superfície, com elevação de temperaturas nos aglomerados urbanos, formando as ICUs (QIU et al, 2017). Na prática, o agravamento dos efeitos das ICUs apresentam-se como um dos grandes impasses nas cidades contemporâneas, não apenas pelo cunho de saúde pública, mas também devido aos seus impactos econômicos (Ibidem).
26 Em termos gerais, refere-se à refletividade difusa de uma superfície. Ou seja, quando a radiação (luz) incide em
Na visão de Roriz e Barbugli (2003), os espaços livres dotados de árvores e outros tipos de vegetação contribuem para o equilíbrio do ecossistema urbano, e favorecem a composição atmosférica (temperatura e umidade do ar). Esses maciços vegetados contribuem para a redução das temperaturas no seu entorno, por meio da evapotranspiração (Ibidem).
Por conseguinte, a intensificação de núcleos previamente densos deve ser limitada à capacidade de suporte da infraestrutura existente. Se realizada corretamente, e acompanhada pela provisão de infraestruturas verdes, a intensificação não resultará na redução da qualidade de vida (LEHMANN, 2016).
Mais do que isso, explorar as infraestruturas verdes e os espaços livres, de forma estratégica e multifuncional, favorece diversos serviços ecossistêmicos de forma sinergética, auxiliando na regulação hídrica, no conforto térmico e na melhoria da qualidade do meio urbano (FRANCO, PELLEGRINO e MARQUES, 2017).