Resumo
O presente trabalho objetiva apresentar os marcadores discur- sivos formados pelos verbos perceptivo-visuais olhar e ver em seus contextos de uso, licenciando seu padrão construcional, virtualmente representado por Vpv(x)md. Nossa hipótese é de que os 23 exemplares levantados de marcadores discursivos situam-se em uma rede linguística funcional interligada e, por especifici- dades muito próprias, se agregam ou se afastam um dos outros, mas mantêm-se integrados ao padrão construcional. Alegamos que essas especificidades são associações entre configurações morfossintáticas e papéis discursivo-pragmáticos específicos, podendo ser captados em contextos de uso. Para este fim, utili- zamos o aporte teórico da Linguística Funcional Centrada no Uso (MARTELOTTA, 2011; BISPO, FURTADO DA CUNHA e SILVA, 2013; OLIVEIRA e ROSÁRIO, 2015) norteada pelo modelo da Gramática de Construções (GOLDBERG, 1995, 2006; CROFT, 2001; TRAUGOTT, 2008; TRAUGOTT e TROUSDALE, 2013; BYBEE, 2010, 2015). Nosso
construcional Vpv(x)md consiste em uma macroconstrução que sanciona níveis menos virtuais e níveis mais virtuais deste padrão. Palavras-chave: Marcador discursivo. Padrão construcional. Contextos de uso. Funcionalidade.
Abstract
This paper aims to introduce the discourse markers formed by visual perceptive verbs to look and to see at their usage contexts, and what licenciate their constructional pattern, represented by Vpv(x)md virtualityly. Our hypothesis is that the twenty-three exemplars appointed as discourse markers are in a linked func- tional linguistic network, and, for restrictive specifications, can themselve aggregate or move away, but ever have integrated to the constructional pattern. We assert that these specifications are fulfilment among morphosyntactic and specific discursive-prag- matic roles, what can be caught in usage contexts. For this aim, we use as theoretical base the Usage-Based Functional Linguistics (MARTELOTTA, 2011; BISPO, FURTADO DA CUNHA e SILVA, 2013; OLIVEIRA e ROSÁRIO, 2015) and the model of Construction Grammar (GOLDBERG, 1995, 2006; CROFT, 2001; TRAUGOTT, 2008; TRAUGOTT e TROUSDALE, 2013; BYBEE, 2010, 2015). We selected as syncronic corpus the brasilian portuguese from 20th century. As some of our results, we found out that the constructional pattern Vpv(x)md consists in a macro-construction that sanctions less virtual levels, and more virtual levels.
Keywords: Discourse markers. Constructional pattern. Usage contexts. Functionality.
1 Introdução
Este trabalho faz parte de uma pesquisa desenvolvida no curso de mestrado, cujo foco recai sobre o padrão construcional dos marcadores discursivos de base verbal perceptivo-visual. A semântica da percepção-visual leva-nos aos verbos ver e olhar em função gramatical de marcar o discurso. Diante de um universo de terminologias e conceituações, decidimos sele- cionar um conceito de marcador discursivo (MD) próximo de nossa perspectiva teórico-metodológica, a Linguística Funcional Centrada no Uso com ênfase na Gramática de Construção. Sendo assim, selecionamos o conceito de Risso, Silva e Urbano (2002):
Trata-se de amplo grupo de elementos de constituição bastante diversificada, envolvendo, no plano verbal, sons não lexicalizados, palavras, locuções, e sintagmas mais desenvolvidos, aos quais se pode atribuir homo- geneamente a condição de uma categoria pragmática bem consolidada no funcionamento da linguagem. Por seu intermédio, a instância da enunciação marca presença forte no enunciado, ao mesmo tempo em que se manifestam importantes aspectos que definem sua relação com a construção textual-interativa. (RISSO; SILVA; URBANO; 2002, p. 21)
Risso et al, acima citados, consideram os MDs uma cate- goria pragmática, com exemplares heterogêneos constitutivos de uma classe ampla e difusa, entretanto, é na ‘instância da enunciação’ que se molda seu funcionamento. Sob essa alegação, reafirmamos a importância de que os MDs formados por verbos perceptivo-visuais estão à disposição dos falantes e sua variabi- lidade só pode ser captada e justificada pelos seus contextos de uso e não pela formalização única de uma categoria gramatical.
Autores como: Marcuschi (1986; 1989); Traugott (1995); Jucker e Ziv (1998); Risso (1999; 2015); Schiffrin (2001); Risso, Silva e Urbano (2002; 2015); e Urgelles-Coll (2010) tratam da classe dos MDs como polifuncional. A polifuncionalidade é a atuação de um “mesmo item em mais de uma função” (CASTILHO; 2014, p. 229) dentro de um mesmo domínio ou de vários domínios distintos.
A macrofunção que se estende a todos os membros dessa categoria é a função geral da marcação discursiva. Do ponto de vista funcional, constitui-se no chamamento de atenção do ouvinte, e ainda, no apontamento das posições do falante e do ouvinte, em referência ao discurso. O MD é proferido pelo falante enquanto condutor da negociação de sentido, mas suas funções são compartilhadas com o ouvinte. Uma vez que consi- deramos limites difusos entre os membros da categoria, essa função gramatical de marcar o discurso se dilui na medida em que as formas, dentro do contexto de uso interativo, ganham sentidos ora mais subjetivos (centrados no falante) ora mais intersubjetivos (centrados no interlocutor/ouvinte).
O tratamento dado à classe dos MDs pelo modelo de análise da Linguística Funcional Centrada no Uso (LFCU) possibilita o entendimento, de forma dinâmica, dessa classe gramatical considerada, até então, heterogênea e de difícil categorização. A dinamicidade advém de um modelo holístico de análise em que não se privilegia um único nível da língua. A sintaxe, ora privilegiada pelos gerativistas e formalistas como base de modelo para a descrição da língua, dá lugar a visão de léxico e de gramática sem uma “distinção rígida” (BISPO, FURTADO DA CUNHA e SILVA, 2016) entre eles, implicando em uma aglutinação de fatores de análises fonológicos, morfossintá- ticos, semânticos, textuais, discursivo-pragmáticos e cognitivos.
Nossa hipótese é de que os MDs olha, olhe, olhem, olha aqui,
olhe aqui, olha lá, olhe lá, olha aí, olha bem, olha só, vê, veja, vejam, vejamos, viu, vê lá, veja lá, vê só, veja só, vejam só, vê bem, veja bem, e vejam bem situam-se em uma rede linguística funcional e compar-
tilham especificidades próprias, demonstrando a regularidade de seu padrão construcional em face do esquema maior, com generalizações mais abrangentes, da marcação discursiva.
Diante dessas colocações, destacamos que nosso objeto de estudo é a construção marcadora discursiva perceptivo-vi- sual. Essa construção é, virtualmente, nomeada de Vpv(x)md. Nosso objetivo geral é identificar, levantar e descrever o padrão construcional de Vpv(x)md.
Ao padrão construcional dos marcadores discursivos de base verbal perceptivo-visual, rotulamos de macroconstrução, em termos virtuais de Vpv(x)md, nos moldes de Traugott (2008). Sendo assim, esse grupo de MDs pode constituir uma subclasse dentro de uma classe maior de marcadores de base verbal, uma vez que pertence ao esquema [(V)(x)]md, nos moldes de Traugott e Trousdale (2013).
O presente trabalho parte da comparação dos contextos de uso como meio de confirmar que a construção marcadora discursiva perceptivo-visual, Vpv(x)md, agrega membros que se
enlaçam na rede linguística funcional por links de configu- ração morfossintática, base semântica e extensão metafórica. Há, assim, uma regularidade prevista em termos de extensibili- dade não só de membros, mas de funcionalidade de um padrão.
Esta pesquisa é sincrônica, representativa do português brasileiro do século XX. Para tal fim, utilizamos os corpora: Corpus Discurso e Gramática, Projeto Norma Linguística Urbana Culta,
Na próxima seção, trataremos das questões teórico-me- todológicas e do corpus.
2 Pressupostos teórico-metodológicos
Assumimos uma postura cognitivo-funcional ao selecionarmos a Linguística Funcional Centrada no Uso (LFCU) (MARTELOTTA, 2011; BISPO, FURTADO DA CUNHA e SILVA, 2013; OLIVEIRA e ROSÁRIO, 2015) com ênfase na Gramática de Construção (GOLDBERG, 1995, 2006; CROFT, 2001; TRAUGOTT, 2008; TRAUGOTT e TROUSDALE, 2013; BYBEE, 2010, 2015) para nortear nossa pesquisa.
A LFCU descreve os usos linguísticos como realizações concretas da língua no momento da interação, os constructos, e sustenta que a gramática é moldada no discurso, e a língua, por pressões cognitivas e motivações discursivo-pragmáticas, sofre mudanças. Dessa forma, a tríade uso, língua e discurso coloca o contexto como figura central das análises. Nessa perspectiva, nosso objeto de estudo se materializa através do levantamento e da descrição dos contextos de uso.
Duas contribuições importantes sustentam a base teórico-metodológica da LFCU, uma de vertente funcionalista e outra de cunho cognitivista. As contribuições funcionalistas caracterizam o tratamento dos dados no contexto de seu uso efetivo. Em acréscimo, as contribuições cognitivistas projetam os usos linguísticos como extensões de processos conceptuais de caracterizações do mundo físico e social.
Bispo, Furtado da Cunha e Silva (2013), apoiados em Bybee (2010), definem língua como “um sistema adaptativo complexo, uma estrutura fluida constituída, ao mesmo tempo, de padrões mais ou menos regulares e de outros que estão em
permanente emergência, mercê de necessidades cognitivas e/ou intercomunicativas. (BISPO, FURTADO DA CUNHA e SILVA, 2013, p. 20). Como conceitos caros, língua é entendida como passível de constantes adequações, e gramática trata-se de um “sistema de conhecimento linguístico hipotético incluindo não apenas morfossintaxe, semântica, e fonologia, mas também pragma- tismo e funções discursivas” [tradução nossa] (TRAUGOTT e TROUSDALE, 2013, p.95)1. Apoiados nessa abordagem holística,
Bispo et al (2013) propõem um conceito de gramática:
(...) um conjunto de esquemas/processos simbólicos utilizado na produção e organização de discurso coerente. Desse modo, configura-se em categorias morfossintáticas rotinizadas, exibindo padrões funcionais mais regulares e formas alternativas em processo de mudança motivada por fatores cogniti- vo-interacionais. Nesse sentido, gramática e discurso estão intrinsecamente entrelaçados e coatuam em mútua dependência, sendo um (re)modelado pelo outro. (BISPO, FURTDADO DA CUNHA e SILVA, 2013, p.20)
Pela leitura do conceito acima, percebemos que a gramá- tica é tratada como processo representacional, ‘simbólico’, cuja padronização não é estável e a regularidade desses processos permite, por inúmeras motivações, uma instabilidade contro- lada por normas instauradas no próprio uso linguístico.
A Gramática de construção traz, à LFCU, o conceito de signo como construção. Construção é considerada um pareamento indissociável de forma-sentido (cf. GOLDBERG, 1995, p. 4). O léxico,
1 Grammar refers to the hypothesized linguistic knowledge system and includes not only morphosyntax, semantics, and phonology but also pragmatics, and discourse functions. (TRAUGOTT e TROUSDALE, 2013, p.95). [Tradução nossa].